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Estudos Bíblicos

Perseverança e fé em tempos de apostasia

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 6 do trimestre sobre “A supremacia de Cristo”

Tiago Rosas

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Oração e Bíblia. (Foto: Patrick Fore / Unsplash)

Dando sequência ao nosso estudo sistemático da Carta aos Hebreus em nossas Escolas Dominicais, chegamos agora ao sexto capítulo onde está registrado ao mesmo tempo: uma das mais contundentes advertências contra a apostasia e uma das mais vibrantes declarações de confiança que devemos ter nas promessas de Deus e nelas nos firmarmos.

Vivemos uma época onde o ateísmo, as seitas, heresias e a teologia liberal têm buscado terreno no meio do arraial do povo de Deus, para arrefecer a fé genuína e debandar o rebanho do Senhor. Estes são os “tempos trabalhosos”, como disse Paulo (2Tm 3.1).

Todavia, na Palavra de Deus dispomos da ferramenta poderosa, “a palavra viva e eficaz” (Hb 4.12), pela qual podemos destruir conselhos e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levar todo conhecimento cativo à obediência de Cristo (2Co 10.4,5). Bom estudo!

I. A NECESSIDADE DO CRESCIMENTO ESPIRITUAL

Nos dois primeiros versículos do sexto capítulo da Carta aos Hebreus, o autor exorta seu público destinatário a progredir na fé, avançando para além dos “rudimentos da doutrina de Cristo”, ou seja, “os ensinos elementares a respeito de Cristo” (NVI). Óbvio, este texto não sugere um abandono dos ensinos elementares da fé cristã, mas um avanço a partir destes fundamentos já bem postos. Estes fundamentos são, como diz José Gonçalves, o “ABC doutrinário” da fé cristã. Donald Guthrie diz que nestes primeiros versículos temos um contraste entre o homem maduro e a criança espiritual (1). Os rudimentos do “maternal espiritual” são estes que podemos dividir em três pares:

1° PAR: questões soteriológicas

  • Arrependimento de obras mortas. Arrependimento é o ponto de partida para a conversão genuína. Estas “obras mortas” podem ser uma referência às obras da carne (Gl 5.19) ou, mais provavelmente, às obras da lei pelas quais os judeus convertidos pensavam, outrora, poder alcançar a salvação (Gl 2.16).
  • Fé em Deus. A fé é o ponto nevrálgico da fé cristã, de tal modo que “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11.6). Pois a salvação é “…para que todo aquele que nele crê” (Jo 3.16 – o “coração da Bíblia”). Que o arrependimento e a fé são essenciais, isso já devia ser consenso entre os judeus convertidos, não passível mais de discussão ou questionamento.

2° PAR: questões litúrgicas ou eclesiológicas

  • Doutrina dos batismos. Segundo David Peterson, “o ensino de batismos (plural) pode ser uma referência às purificações cerimoniais dos judeus (cf. 9.10) e seu cumprimento em Cristo” (2), ou como sugere Orton Wiley, o par batismo e imposição das mãos refere-se à confissão pública da fé (3). Seja como for era uma questão já fechada na igreja, e que não carecia de ser novamente e persistentemente discutida. Os cristãos deviam avançar e continuar construindo sobre estes fundamentos.
  • Imposição das mãos. Na opinião de Guthrie, que parece-nos plausível, “a imposição de mãos, que na prática judaica era vinculada com a transmissão de uma bênção, na igreja adquiriu um novo sentido. Há muitas ocorrências em que a imposição de mãos está ligada com a cura (cf. Mc 16.18; At 28.8, onde tem conexão com a cura cristã por este meio). O sentido aqui, no entanto, é mais específico. Provavelmente incluísse a transmissão de dons específicos (cf. At 8.17; 13.3; 19.6; 1 Tm 4.14)” (4).

3° PAR: questões escatológicas

  • Ressurreição dos mortos. A ressurreição dos mortos era uma doutrina já inconteste para aqueles primeiros cristãos, visto ser tanto admitida por judeus quanto por cristãos, especialmente em virtude da ressurreição de Cristo, que era um grande tema na pregação apostólica. Entretanto, possivelmente na mente de muitos pairava uma dúvida que precisava ser removida, ainda que com tratamento de choque: “será que Cristo ressuscitou mesmo?” ou “será mesmo que haverá uma grande ressurreição final?”. Paulo, por exemplo, travou grandes lutas pela defesa desta doutrina fundamental, especialmente no capítulo 15 da carta aos Coríntios, onde ele afirma categoricamente: “se está sendo pregado que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como alguns de vocês estão dizendo que não existe ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, então nem mesmo Cristo ressuscitou; e, se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm” (1Co 15.12-14).
  • Juízo eterno. Como o autor de Hebreus, esperamos que cada crente com tempo suficiente de conversão tenha uma noção básica e segura do juízo eterno reservado para os que não se arrependerem de seus pecados. Questionar se existe mesmo inferno, se Deus irá realmente condenar os descrentes ou se o amor de Deus é compatível com a condenação eterna é realmente uma questão de principiantes! Dos adultos na fé, espera-se uma segurança absoluta nestas questões, já que “pelo exercício constante, tornaram-se aptos para discernir” (Hb 5.14)

– crescer e não se contentar com a meninice da fé

O autor conclama-nos a prosseguir até a perfeição, isto é, avançar até a maturidade. Muito lembra-nos as exortações paulinas, quando falava dos dons ministeriais que Deus concedeu à igreja (apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres), com vistas ao “aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Ef 4.12-14). Como dissemos na Lição passada, a Palavra de Deus não prestigia a ignorância. O tempo inteiro somos chamados a ler, estudar, meditar, ponderar, conhecer, nutrir, alimentar, crescer, avançar, progredir, etc (conf. Js 1.8; Sl 1.1-3; 1Co 12.1; 1Ts 4.13; 1Tm 4.13). Aqueles cristãos hebreus estavam, conforme já foi constatado no quinto capítulo, cedendo lugar à preguiça e à negligência, deixando assim de nutrir-se de um conhecimento mais profundo da fé cristã, abrindo-se para a apatia espiritual, enfraquecendo sua fé e fazendo-se presas fáceis daqueles que desejavam arrastá-los de volta ao judaísmo. A meninice espiritual faz crentes suscetíveis ao engodo. Por esta razão, os apóstolos advertem: “seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4.15) e “crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (2Pe 3.18).

Quem dera toda a igreja entendesse que o desejo de Deus não é só a nossa salvação do pecado, mas também que “cheguemos ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.4), somente assim teríamos escolas dominicais e cultos de ensino superlotados, com crentes desejosos de progredir neste conhecimento da verdade e aprofundar sua relação com Deus! Que o convite de Oséias, que creio ser também o convite de cada apaixonado ensinador da Palavra de Deus hoje, possa ecoar em todos os lugares e ser de pronto atendido: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor” (Os 6.3).

– cavar fundo para construir com segurança

Quando o crente não se alicerça na Palavra de Deus, e não se aprofunda nela para firmar suas raízes contra as intempéries da vida, as seduções das heresias, as tentações do diabo, o engano dos falsos profetas e as inclinações de sua carne, ele expõe-se a tantos perigos que não se pode contar. Na parábola de Jesus sobre os dois construtores, o que diferencia um do outro não é que um subiu e o outro ficou lá embaixo; não é que um procurou uma rocha alta numa montanha para construir sua casa enquanto o outro construiu na beira da praia (ilustrações essas comuns, e, no entanto, não condizentes com o texto bíblico). O que fez a diferença é que enquanto um construiu sua casa sem cavar os alicerces, o outro, que bem podia ser vizinho do primeiro, “cavou fundo” até encontrar lá embaixo rocha firme sobre a qual construir sua casa (conf. Lc 6.48,49). Um cavou e outro não, esta é a diferença!

Mas quantos estão como aquele mordomo infiel a se lamentar: “Cavar, não posso” (Lc 16.3), e preferem então construir suas casas na superfície da fé, vivendo um cristianismo raso, fraco e superficial, facilmente rompível nos primeiros ataques dos inimigos. São os crentes que vivem de shows gospel, louvorzões, cultos online, caixinhas de promessa, e visitas esporádicas às suas igrejas; da Bíblia só conhecem os Salmos (e mal!), nunca pegam num bom livro teológico para ler, mas gastam horas a fio diante da TV e nas redes sociais da internet, alimentando o vício nos brinquedinhos tecnológicos; preferem uma partida de futebol no domingo pela manhã ao invés da Escola Dominical

Eles até sabem que só Jesus salva, que precisam ser batizados nas águas, que devem contribuir financeiramente em suas igrejas, etc. Conhecem os rudimentos, mas não estão avançando rumo à maturidade. Se perguntarmos a eles o que são os “profetas menores”, é capaz de recebermos respostas que nos façam rir! (ou chorar de vergonha); se perguntarmos a diferença entre doutrina da Justificação e Regeneração, eles logo dirão que “isso é coisa de teólogo”. É preciso crescer e amadurecer, até alcançarmos a “estatura de varão perfeito” (Ef 4.13).

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Casado, bacharel em teologia (Livre), evangelista da igreja Assembleia de Deus em Campina Grande-PB, administrador da página EBD Inteligente no Facebook e autor de dois livros: A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira (2016) e Biblifique-se: formando uma geração da Palavra (2018).

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