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Estudos Bíblicos

O que é a mordomia cristã

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 1 do trimestre sobre “Tempo, Bens e Talentos”.

Tiago Rosas

em

Mãos abertas. (Photo by Jeremy Yap on Unsplash)

Com a graça de Deus chegamos ao início de um novo trimestre! Os temas das lições estão mais práticos que no trimestre passado (que eram mais teológicos), e recairão sobre necessidades do dia a dia de todos nós: a administração do tempo, dos bens e dos talentos.

Na Lição inaugural do 3° trimestre apresentaremos conceitos gerais de mordomia por uma perspectiva bíblica, e é importante que o professor ou aluno absorva estes conceitos que serão fundamentais para todas as Lições posteriores. Bom estudo!

I. Conceitos de mordomia

1. Mordomo

A palavra mordomo tal como conhecemos em língua portuguesa tem origem na expressão latina major domu, que significa literalmente “maior da casa” (major = maior / domu = da casa). Entretanto, o mordomo era o “maior da casa” não em termos absolutos, mas apenas em relação aos servos ou empregados. Era o servo da casa (escravo ou livre) que estava encarregado dos demais servos e também dos cuidados com os bens de seu senhor.

A) No Antigo Testamento

Existem pelo menos três expressões no hebraico bíblico que sugerem a função do mordomo. São elas: (1) Ha-ish asher al (que significa “o homem que está sobre algo ou alguém” – Gn 43.19); (2) Asher al bayith (que significa “quem está sobre a casa” – Gn 44.4); e Bem mesheq (que significa “filho da aquisição” – a razão desta expressão para referir-se ao mordomo da casa não é claro, mas talvez sugira que no caso em que um homem não tivesse filhos, o seu mordomo tornava-se herdeiro legítimo como um filho adquirido – Gn 15.2).

Além dessas expressões que apontam para a figura de um mordomo (nos dois primeiros casos, referindo-se ao mordomo da casa de José no Egito, e no último caso uma referência ao mordomo da casa de Abraão), há outras profissões registradas no Antigo Testamento que sugerem esta função de mordomia. Veja-se, por exemplo, a função de copeiro exercida por Neemias na Pérsia (Ne 1.11 – 2.1), ou do “copeiro-chefe” que aparece na história de José (Gn 40).

O copeiro era responsável, entre outras atribuições, pelos cuidados com a alimentação de seu senhor, certificando-se de que aquilo que ele comia ou bebia era saudável e livre de veneno. De grande confiança, e, no entanto, de grande responsabilidade era o copeiro da casa ou do palácio real, pois costumeiramente devia ingerir primeiro a comida ou bebida antes de servi-la ao seu senhor, assumindo assim o risco de morrer caso o alimento estivesse envenenado. No Novo Testamento, a palavra “despenseiro” remete a semelhante atribuição, no cuidado com a alimentação que sai da despensa e que é servida aos outros.

B) No Novo Testamento

Temos duas palavras no grego bíblico que podem apontar para a função do mordomo: (1) epítropos, que fala de alguém que cuida de algo ou alguém, um curador, guardião ou administrador (em Mt 20.8, na parábola de Jesus, refere-se ao “administrador”; em Lc 8.3, refere-se a Cuza, “procurador” de Herodes; e em Gl 4.2, refere-se aos “tutores” das crianças); (2) oikonomos, que, segundo o Dicionário Vine,

“denotava primariamente  ‘o administrador de uma casa ou propriedade (formado de oikos, ‘casa’, e nemõ, ‘arranjar, organizar’), ‘mordomo’, que normalmente era um escravo ou liberto (Lc 12.42; 16.1,3,8; 1Co 4.2; Gl 4.2 – ‘curadores’); em Rm 16.23, o ‘procurador’ de uma cidade; é usado metaforicamente no sentido mais amplo de ‘administrador’ em geral, acerca de: (a) pregadores do Evangelho e mestres da Palavra de Deus (1Co 4.1, ‘despenseiros’); (b) pastores ou bispos nas igrejas (Tt 1.7); (c) crentes, em geral (1Pe 4.10)” [1]

2. Mordomia

A palavra mordomia no texto grego é oikonomia, vocábulo que deu origem ao termo economia, em língua portuguesa. Economia se transformou numa verdadeira ciência, que consiste em análise da produção, distribuição e consumo de bens e serviços. De modo geral, mesmo pessoas não instruídas nesta ciência, entende e pratica economia em casa ou no trabalho no sentido de administração dos recursos naturais, materiais ou financeiros.

Em todo tempo, mais especialmente em períodos de estiagem prolongada, se diz que “é preciso economizar água” – o que isso significa, senão administrar devidamente este recurso, evitando desperdício e mau uso? Em tempos de crise financeira, o pai ou a mãe de família exorta os filhos: “temos que economizar energia elétrica!” – o que isso significa, senão usar energia apenas para o consumo que for realmente necessário, e evitar o gasto em coisas supérfluas que geram grande despesa no final do mês?

Em casa, na escola, no trabalho, na igreja, em todo lugar praticamos oikonomia (administração dos bens), e todos somos chamados a ser oikonomos (administradores). Certamente que uns têm mais responsabilidades que outros na administração da economia – o ministro da fazenda do país tem mais responsabilidade na administração da economia nacional do que um simples pai de família; o pastor tem mais responsabilidade na administração dos bens de sua igreja do que um simples membro; o pai de família tem mais responsabilidade do que o filho pequeno. Todavia, todos, sem exceção, temos obrigações quanto à administração dos recursos. A exortação petrina é clara: Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). Cada um!

II. A mordomia espiritual do cristão

Neste trimestre, falaremos da mordomia ou economia dos bens materiais e financeiros, mas por uma perspectiva bíblica e não pela perspectiva secular de administração de bens (ainda que esta possa nos prestar muitos auxílios). Dada a perspectiva espiritual e não meramente materialista do assunto, acrescentaremos a economia dos bens espirituais, isto é, dos talentos ou dons que o Senhor nos concedeu.

A correta administração de todos esses bens demanda amor e fé, como vemos nos pontos a seguir.

1. A mordomia do amor cristão

Na parábola do mordomo, contada por Jesus em Lucas 12.42-48, o Senhor aponta duas hipóteses razoáveis para as atitudes do mordomo e as devidas recompensas que seguem sua administração. A primeira hipótese é a do mordomo ser fiel e prudente, repartindo o alimento aos seus conservos no tempo devido (v. 42). Agindo com amor, ao invés de violência, este mordomo será muito feliz se for “flagrado” pelo seu senhor nesta postura honrosa de suprir os demais servos da casa com o sustento que eles precisam e merecem. É assim que o Senhor Jesus espera nos encontrar: em amor uns para com os outros (Jo 13.34; 1Pe 1.22), e servindo diligentemente uns aos outros (Rm 12.10; Hb 6.10,11).

A segunda hipótese é muito real e perigosa: a do mordomo negar o amor para com seus conservos, ignorar o imprevisível retorno de seu senhor, e passar a maltratar os servos da casa, além de assumir uma postura pródiga, gastando os bens de seu senhor (v. 45). Voltando o senhor numa hora em que aquele mordomo não o espera, lhe dará sua reprovação, “condenando-o com os hipócritas. Ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 24.51). O aviso está dado com pelo menos dois mil anos de antecedência, para que na vinda de Cristo ninguém julgue-se no direito de reclamar!

O apóstolo Paulo escreve o mais contundente capítulo sobre o valor imprescindível do amor para a adoração e o serviço cristão. É o poético capítulo 13 de sua primeira carta aos coríntios. No contexto em que se insere (1Co 12-14), este capítulo expressa “o caminho mais excelente” para a correta mordomia dos dons espirituais na igreja (1Co 12.31). Sem amor, nenhum dom e nenhuma obra têm valor! (1Co 13.1-3).

Mais à frente, nessa mesma carta, o apóstolo Paulo resume numa só sentença a mordomia do amor cristão: “Façam tudo com amor” (1Co 16.14). Escrevendo aos gálatas, o mesmo apóstolo recomenda: “sirvam uns aos outros mediante o amor” (Gl 5.13). Note aqui que além do amor ele ressalta que somos servos uns dos outros.

Todo o labor dos obreiros, todo o esforço dos professores da Escola Dominical, todo esmero do pregador, e todo empenho das irmãs do círculo de oração serão inúteis se não forem conduzidos sob os trilhos do amor! A igreja de Éfeso tinha disciplina, doutrina e serviço, mas falta-lhe o primeiro amor. Tinha tropeçado na mais essencial das virtudes, pelo que o Senhor ordena: “arrepende-te” (Ap 2.1-5). Isso só sugere uma coisa: a falta de amor é um grave pecado!

Há amor em nosso louvor? Há amor em nossas orações? Há amor em nossas pregações? Amamos quando exercemos os dons? Amamos quando repreendemos os que erraram? Amamos nossa família? Amamos os pecadores? De que modo esse amor se evidencia para estarmos tão seguros? Reflitamos essas questões e peçamos a Deus que nos dê um coração igual ao do seu Filho Jesus (Fp 2.5).

2. A mordomia da fé cristã

Enquanto administradores dos bens divinos, precisamos crer que o Senhor da casa não nos deixará sem as devidas provisões e recursos para o nosso trabalho. Voltemos nosso olhar para a parábola do administrador em Lucas 12.42-48. O mordomo foi colocado sobre os demais servos para lhes dar o alimento, mas cabe a pergunta: o alimento deveria ser providenciado ou apenas repartido pelo mordomo?

A providência já tinha sido tomada pelo senhor da casa antes de se ausentar, e tudo o que o mordomo precisava fazer era repartir esse sustento no tempo certo entre os demais servos. Da mesma forma Deus já providenciou tudo o que é necessário para nosso sustento e também para o nosso trabalho em sua obra. Aquilo que hoje falta, falta-nos devido nossa incredulidade ou tão-somente devido ainda não ser chegado o tempo de fazermos, pois quando o momento chegar, Deus tudo proverá! (Gn 15.8).

O despenseiro de Deus precisa de fidelidade e fé. Fidelidade para prosseguir e progredir no bom desempenho de sua administração, e fé para crer que seu Senhor nunca o deixará na mão! Se faltam-nos recursos, peçamos a Deus em oração (Mt 7.7-11; Fp 4.6); se falta-nos o batismo no Espírito Santo, peçamos a Deus em oração (Lc 11.13); se faltam-nos os dons espirituais, peçamos a Deus em oração (1Co 12.31; 14.13); se falta-nos sabedoria, peçamos a Deus em oração (Tg 1.5). E se nos falta oração, oremos!

O êxito de nossa mordomia cristã não pende do quanto conhecemos das ciências humanas, da administração ou da economia, mas do quanto cremos e confiamos em nosso Senhor e de até onde estamos dispostos a lhe obedecer. Crente leigos em matéria de administração poderão fazer para Deus uma melhor mordomia dos bens, do tempo e dos talentos do que alguns céticos graduados nos cursos superiores de administração e economia. Nas palavras do salmista: “Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres, porque os teus testemunhos são a minha meditação” (Sl 119.99).

III. A mordomia dos bens materiais

Considerando que a relação do crente com as finanças e as riquezas será melhor e mais especificamente tratada nas Lições 9 e 10, e que a relação do crente com a contribuição na igreja local será objeto de estudo da Lição 7, sobre A mordomia dos dízimos e das ofertas, julgamos mais didático não antecipar esses assuntos aqui, mas trata-los ao seu devido tempo, distribuindo melhor os temas e evitando redundâncias ao longo do trimestre. Dedicamo-nos neste tópico de nosso estudo complementar na abordagem dos elementos envolvidos na mordomia cristã.

É preciso deixar claro que ao falarmos de mordomia nos termos bíblicos estamos falando implicitamente que existem pelo menos três elementos na administração dos bens: (1) aquele que é o dono dos bens, (2) aquele que administra os bens e (3) os bens propriamente. Identifiquemos cada um por sua vez:

1. O dono

Enquanto nós somos o oikonomos (“administradores da casa”, Lc 12.42)), Deus é o oikodespotes (“senhor da casa”, Mt 13.27; Mc 13.35). O dono legítimo não somos nós, mas Deus, que tem a propriedade sobre todas as coisas criadas, e pode fazer o que bem entender daquilo que é seu. Aliás, o dono dos bens é também Senhor dos administradores! Ele é soberano acima de tudo e de todos, pois “dele, por ele e para ele são todas as coisas” (Rm 11.36).

O primeiro versículo da Bíblia começa apresentando o dono de tudo: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). E ao longo das Escrituras, seu domínio e soberania sobre toda a Criação são ratificados: “Do SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam” (Sl 24.1); “Porque meu é todo animal da selva, e o gado sobre milhares de montanhas. Conheço todas as aves dos montes; e minhas são todas as feras do campo” (Sl 50.10,11); “Minha é a prata, e meu é o ouro, disse o Senhor dos Exércitos” (Ag 2.8); “… ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas” (At 17.25). Até do nosso fôlego de vida Deus é dono!

2. O mordomo

Ao homem no Éden foi entregue a mordomia da terra, quando o Criador lhe disse: “Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra” (Gn 1.28). A despeito do pecado, o homem continua sendo o mordomo da terra (Deus não transferiu essa responsabilidade para os anjos, nem a tomou exclusivamente para Si), devendo administrar todos os bens que o Senhor lhe entregou, não só bens materiais, mas também imateriais, como dons naturais e dons espirituais.

Em caráter especial, a Igreja constituída de todos os salvos em Cristo em todo mundo é a legítima mordoma de Deus na terra, que deve conforme as orientações da Palavra prover provisões para seus próprios membros, bem como para os pecadores em sua volta. Nas palavras do apóstolo Paulo, “Que os homens nos considerem como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus” (1Co 4.1). Como já dissemos, o despenseiro (que cuida da despensa, onde se guarda alimentos) do Novo Testamento é, por analogia, semelhante ao copeiro no Antigo Testamento, tendo o dever de prover e cuidar do alimento que é servido aos outros.

O primeiro versículo da leitura bíblica em classe deixa isso evidente: “E disse o Senhor: Qual é, pois, o mordomo fiel e prudente, a quem o senhor pôs sobre os seus servos, para lhes dar a tempo a ração?” (Lc 12.42, ARC). Observe que nesta parábola de Jesus, o mordomo exerce uma função sobre os outros servos da casa, e embora outras funções pudessem ser citadas, a que está em destaque é “lhes dar a tempo a ração”. Como não estamos habituados a falar de “ração” para seres humanos, senão para animais, prefiro a tradução da Nova Versão Internacional: “…para lhes dar sua porção de alimento no tempo devido”. Aqui cabe a pergunta: estamos servindo em tempo devido o alimento espiritual aos nossos irmãos?

Outro detalhe ainda a se notar nessa parábola é que o mordomo, conquanto seja um administrador sobre os bens de seu senhor (um oikonomos – Lc 12.42), é ainda assim um servo da casa (um doulos – Lc 12.43). Tendo isso em mente, não deve o mordomo se ensoberbecer sobre os demais, pois “o que ele tem que não lhe tenha sido dado?” (1Co 4.7). Deve em todo tempo ser manso e humilde de coração, como o Senhor (Mt 11.29). Independente do que você tenha e da posição que você ocupe, você continua sendo servo!

3. Os bens

Somos chamados a cuidar de bens materiais, como os próprios recursos da natureza que Deus nos dispôs (água, ar, terra, alimento, etc.), das riquezas financeiras que nos foram entregues (trabalho, salário, empreendimentos, etc.) e, mais especialmente, dos bens imateriais, como o tempo (sim, cada oportunidade que Deus nos dá deve ser bem aproveitada – “remindo o tempo porque os dias são maus” – Ef 5.16), as pessoas em nossa volta (família, igreja, amigos, nação, estrangeiros) e os talentos que nos foram divinamente outorgados (dons naturais e dons espirituais).

Como mordomos de Deus na Igreja, temos algumas obrigações: promover a expansão do reino de Deus e a salvação das almas, através da pregação do evangelho (Cl 1.24-28), sustentar financeiramente a igreja (At 4.32-37), e socorrer os doentes e necessitados (Mt 25.31-46; Tg 1.26). A negligência de nossa mordomia redundará em reprovação no grande Dia da prestação de contas (Mt 25.24-30), mas, ao contrário disso, nossa diligência será recompensada com “avultado galardão” (Hb 10.35; 1Co 3.14; Ap 22.12).

Conclusão

Na Lição de hoje aprendemos que somos administradores dos bens divinos, e que sobre todos nós pesam responsabilidades quanto ao cuidado do tempo que nos é oportunizado, dos recursos materiais ou espirituais que nos são confiados e das pessoas que estão em nossa volta, especialmente a família e a Igreja. Virtudes como amor, fé, fidelidade e humildade são imprescindíveis aos mordomos cristãos. Nas palavras do Senhor Jesus, “Agora que vocês sabem estas coisas, felizes serão se as praticarem” (Jo 13.17).

__________
Referência
[1] Dicionário Vine, 7° ed., CPAD, p. 800

Casado, bacharel em teologia (Livre), evangelista da igreja Assembleia de Deus em Campina Grande-PB, administrador da página EBD Inteligente no Facebook e autor de dois livros: A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira (2016) e Biblifique-se: formando uma geração da Palavra (2018).

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