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Estudos Bíblicos

O processo da salvação

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 10 do trimestre sobre “A obra da salvação”

Tiago Rosas

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Homem com joelhos dobrados dentro de igreja. (Foto: Pexels / Pixabay)

A palavra processo hoje em dia está carregada de uma carga negativa. Ouvimos esta palavra todo dia nos telejornais: “a polícia federal abriu um processo de investigação contra o empresário fulano de tal, envolvido na Lava Jato…”, ou “o ministério público abriu uma investigação contra o político fulano de tal para descobrir o destino do dinheiro público…”. É quase impossível hoje passar um dia em que não se ouça ou se leia nos portais de notícia a palavra processo. No arraial evangélico, esta palavra também já está impregnada no nosso “evangeliquês”. Quem nunca disse uma frase assim: “Estou passando um processo que só Jesus na causa!”, ou quem nunca ouviu uma frase assim: “Fulano está passando um processo terrível!”. Enquanto que no ambiente jurídico processo significa uma série de procedimentos de investigação sobre uma pessoa ou fato, em nosso linguajar evangélico processo significa uma série de situações adversas, difíceis e amargas. Definitivamente é uma palavra bem desgastada.

Todavia, para o estudo de nossa Lição, a palavra processo nem tem a ver com procedimentos de investigação, muito menos com uma série de situações adversas. E também é preciso deixar claro que a palavra processo, como a tomamos no estudo da salvação, “não consiste numa série complicada de ritos, ou numa série de passos místicos”(1). Não são passos que temos que cumprir um a um para podermos então nos considerar salvos, pois “pela graça sois salvos, por meio da fé, isto não vem de vós, é dom de Deus, não das obras para que ninguém se glorie” (Ef 2.8). Tomamos processo nesta Lição para falar de uma série de obras espirituais simultâneas realizadas por Deus na vida daquele que crê em Cristo Jesus. A “tão grande salvação” (Hb 2.3), engloba muitas mudanças e transformações positivas no espírito, na alma e no corpo, e na relação do homem com Deus, que são expressas nalguns termos bíblicos como JUSTIFICAÇÃO, REGENERAÇÃO e SANTIFICAÇÃO, objetos de estudo da presente Lição. Como Antônio Gilberto pontua muito bem, salvação “não se trata apenas de livramento da condenação do inferno; a salvação abarca todos os atos e processos redentores, bem como transformadores da parte de Deus para com o ser humano e o mundo (isto é, a criação), através de Jesus Cristo, nesta vida e na outra”(2). O processo de salvação se resume na seguinte frase: “fomos salvos, somos salvos e seremos salvos”.

Vejamos os três aspectos simultâneos da salvação.

I. JUSTIFICAÇÃO

  • O que é justificação?

Justificação não é o mesmo que perdão. É muito mais que isso! Como Pai bondoso, Deus nos perdoa, mas como justo Juiz, Deus nos justifica! Os teólogos wesleyanos Orton Wiley e Paul Culberston, definem assim a justificação: “A justificação é aquele ato judicial ou declarativo de Deus pelo qual considera os que, com fé, aceitam a oferta propiciatória de Jesus Cristo, como absolvidos dos pecados, libertados da pena e aceitos como justos diante de Deus” (3). A Declaração de Fé das Assembleias de Deus traz uma boa definição também: “Justificação é o ato da graça de Deus, o Supremo Juiz, pelo qual a justiça de Cristo é imputada a todo aquele que crê em Jesus declarando-o justo” (4). Portanto, vê-se assim dois aspectos importantes da Justificação: DECLARAR e IMPUTAR. Na verdade, na ordem inversa: Deus imputa a justiça de Cristo sobre nós, e, por causa da justiça de Cristo, Deus nos declara justos, cancelando a nossa dívida e aceitando-nos em Sua presença.

– DECLARADOS JUSTOS, EMBORA SENDO PECADORES

Walter Brunelli lembra-nos que “Justificar é ‘declarar justo’ e não ‘tornar justo’. O ‘tornar-se justo’ demanda um processo gradual que está a cargo da santificação” (5). Isso precisa ficar bem entendido, pois quando Deus nos declara em sua Suprema Corte como justificados ou justo, isso não significa que ele nos tornou “sem pecado”, procedendo uma mudança moral absoluta em nós; mas que nos declarou justificados por causa da justiça de Cristo, manifesta no Calvário, que foi imputada sobre nós, pecadores. Em seu sermão Justificação pela fé, John Wesley, no século 18, tratou esta questão nos seguintes termos: “Que é ser justificado? Que é a justificação? É evidente, das observações já feitas, que a justificação não consiste em tomar o indivíduo realmente justo ou reto. Isto é a santificação; que é, na verdade, o fruto imediato da justificação mas, não obstante, é um dom distinto de Deus e de natureza totalmente diferente. A primeira implica no que Deus faz por nós através do Filho; a outra indica o que Deus faz em nós pelo Espírito. Assim, embora o termo justificado ou justificação apareça algumas raras vezes com o sentido tão amplo que inclui também a santificação, no entanto, no uso geral, distingue-se um do outro, tanto em Paulo como nos demais escritores” (grifos meus).

O teólogo J. Rodman Williams explica o que ocorre na justificação do pecador: “O traço marcante da palavra ‘justificação’ (…) é o seu aspecto declaratório: ela não significa tornar íntegro ou justo, mas (…), declarar ou pronunciar justo. Portanto, aquele que está justificado é declarado justo por Deus. não é a justificação do íntegro, mas do ímpio!” (6). De fato, escrevendo aos romanos, Paulo diz que Deus “justifica o ímpio” (Rm 4.5). Raimundo de Oliveira, recorrendo aos termos originais tanto no hebraico (hidsdik ou tsiddek) quanto no grego (dikaio), corrobora com as definições acima apresentadas: “esses termos, exceto em algumas passagens, não indicam uma mudança moral operada por Deus no homem, mas regularmente designam uma declaração divina a respeito do homem. (…) Entende-se, pois que o termo ‘justificar’ não significa fazer mas declarar justo” (7). Ou seja, não é alguém que se torna moralmente justo e depois é declarado justo, mas alguém que ainda trazendo pecados, por causa da fé em Cristo Jesus, é declarado por Deus como justo, visto que “sua fé lhe é imputada como justiça” (Rm 4.5). A partir daí ele será um justo crescendo em justiça, sendo aperfeiçoado a cada dia, enquanto se aproxima cada vez mais de Deus e se despoja das velhas práticas mundanas, até que alcance o ponto final e máximo da salvação, que é a santificação final, a glorificação! “Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Pv 4.18).

– UMA MARAVILHOSA OBRA DA GRAÇA

Tão importante é a doutrina da justificação, que Martinho Lutero classificou-a como “o teste de permanência ou queda da igreja”. Segundo J. Rodman Williams, “no seu comentário de Gálatas 3.13, Lutero escreveu: ‘Conforme eu, com frequência, advirto […] a doutrina da justificação deve ser aprendida diligentemente. Pois nela estão incluídas todas as outras doutrinas da nossa fé; e, se ela for sólida, todas as outras também serão” (8). Em seguida, Williams diz ainda que a justificação foi a doutrina que mais profundamente separou o protestantismo do catolicismo romano na época da Reforma. Ressaltando a maravilhosa graça de Deus na nossa justificação, este teólogo apropriadamente afirma: “não precisamos lutar para atingir algo que seja aceitável para Deus. Ao contrário, ele declara que somos íntegros. Nele somos íntegros – não nós, os sem-pecado, mas nós que somos pecadores; não nós que escalamos os cumes dos montes da vida justa, mas nós que estamos lutando nas planícies, às vezes na sujeira e na lama da vida injusta” (9).

Que grande dádiva esta a da justificação! Cristo se põe entre nós e o Pai, e então o Pai olha para nós pelo prisma de Cristo, vendo a justiça do Filho amado sobre nós. Por isto, é inútil, como o fariseu no templo, ficarmos contando vantagem diante de Deus, e apresentando obras para fazer-nos melhor que os demais homens. Os que assim procedem, pensam estar justificados, quando estão condenados no tribunal de Deus! Mas os que vão humildemente à Cristo, e batem no peito enquanto sobem o Calvário clamando: “tem misericórdia de mim, ó Deus” (Lc 18.13), estes receberão, por causa de Cristo e por meio da fé, justificação no tribunal do céu!

Quais as bênçãos da justificação?

Algumas das bênçãos que podemos destacar como consequentes da justificação são estas:

  1. redenção dos pecados / cancelamento da dívida
  2. restauração do favor divino
  3. imputação da retidão de Cristo
  4. libertação do pecado
  5. paz com Deus (Rm 5.1)
  6. esperança e herança nas promessas de Deus (Tt 3.7)

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Casado, bacharel em teologia (Livre), evangelista da igreja Assembleia de Deus em Campina Grande-PB, administrador da página EBD Inteligente no Facebook e autor de quatro livros: A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira (2016), Biblifique-se: formando uma geração da Palavra (2018), Reflexões contundentes sobre Escola Bíblica Dominical (versão e-book, 2019), e Poder, poder pentecostal: reafirmando nossa doutrina e experiência, à luz das Escrituras Sagradas (lançamento previsto para final de 2019).

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