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Igreja Universal do Reino de Deus: nem cristã, nem protestante, nem evangélica, nem pentecostal

A correta caracterização da IURD como seita paraprotestante que absorve e reelabora crenças e práticas do gradiente espírita-umbandista, e suas semelhanças genéticas com a Umbanda e a Cultura Racional

Alex Esteves

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Bispo Edir Macedo ministrando na réplica do Templo de Salomão. (Demétrio Koch / Fotos Públicas)

Credo e liturgia da Igreja Universal: um caso de antropofagia da fé pentecostal, da religiosidade católico-popular e da religiosidade espírita-umbandista

A “teologia” e práxis da Igreja Universal tem sido modificada com o tempo, no compasso de um incessante esforço de propaganda, de acordo com os princípios que regem a vida do bispo Macedo, os quais podem ser enfeixados sob a insígnia daquilo que “dá certo”, o que o inscreve no rol do pragmatismo que caracteriza as igrejas ditas “neopentecostais”.

Entretanto, mais do que simples associação de marketing e pragmatismo, pode-se reconhecer na IURD um fenômeno sociologicamente complexo, espiritualmente deletério, eclesiologicamente inusitado, teologicamente canhestro, moralmente reprovável e culturalmente tupiniquim, a saber, uma antropofagia da fé, nesse caso dirigida a elementos evangélico-pentecostais, da religiosidade católico-popular e de crenças e ritos das religiões de matriz africana.

 A expressão “antropofagia da fé” é de RONALDO DE ALMEIDA, citado por ARI PEDRO ORO[43], e será de grande valia nesta análise.

Certamente o mencionado estudioso buscou tal expressão no Manifesto Antropófago (ou Antropofágico) de Oswald Andrade, escritor modernista que concebeu um movimento artístico, intelectual e cultural nacionalista de identificação, defesa e reconstrução dos elementos fundantes e culturais brasileiros, assim como de absorção e ressemantização de elementos culturais estrangeiros, a fim de se fomentar uma identidade nacional.

É de se supor que Edir Macedo não tivesse intenções tão elevadas, mas se espera que o conceito de antropofagia da fé se torne mais claro nas linhas a seguir.

Antropofagia do catolicismo popular e do baixo espiritismo

Não é nova a associação entre a Igreja Universal e a religiosidade popular (católica ou afro-brasileira). Comumente se fala até em “macumba evangélica”.

No mundo acadêmico, estudiosos têm se debruçado sobre diversos aspectos da Universal, entre eles a relação com as crenças e práticas de religiões populares. Podem ser citados nomes como RICARDO MARIANO, ARI PEDRO ORO, RONALDO DE ALMEIDA, MARIZA DE CARVALHO SOARES, LEONILDO SILVEIRA CAMPOS, dentre tantos outros.

O Pr. PAULO ROMEIRO, em sua série Encontros Apologéticos, no Youtube, faz uma brilhante exposição com o título Neopentecostalismo e Religiões Afro[44].

No artigo “O neopentecostalismo macumbeiro”, ARI PEDRO ORO[45], professor de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), comenta duas características da IURD que contribuem para torná-la uma “igreja neopentecostal ‘macumbeira’”, as quais seriam sua “religiofagia” (apropriação e reelaboração de elementos de crenças de outras igrejas e religiões, notadamente afro-brasileiras); e a “exacerbação”[46] desses elementos de crenças e das práticas ritualísticas, o que a conduziria paradoxalmente a uma aproximação daquilo que tanto rechaça em seu discurso.

Com “religiofagia” ou “fagocitose religiosa” – esta uma outra expressão de RONALDO DE ALMEIDA – quer-se referir à apropriação e ressignificação de crenças, práticas e rituais de outras religiões[47].

É nessa esteira que RONALDO DE ALMEIDA afirma ter a IURD elaborado “uma antropofagia da fé inimiga”[48], para asseverar, com acuidade, que “o culto de libertação pode ser lido como uma inversão simbólica dos rituais encontrados nos terreiros”[49] e também um “contrafeitiço diante do feitiço das religiões afro-brasileiras”[50].

Em artigo intitulado Os exus na Umbanda e na Igreja Universal do Reino de Deus, o cientista social THIAGO ANGELIN BIANCHETTI[51] traça um paralelo entre as concepções afro-brasileira e iurdiana dos exus, e recorre ao conceito de “inversão simbólica”.

É em tudo lamentável que tais coisas possam ser ditas a respeito de uma igreja supostamente evangélica e pentecostal, mas o que dizem os referidos estudiosos é o retrato da verdade. Senão vejamos:

A Universal surgiu com exorcismos, atividade que seria explicada por Edir Macedo no best-seller Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou demônios?, onde esse trabalho é, já no Prefácio, definido como “obra de libertação”[52].

No referido livro, chamado em sua biografia autorizada de “manual do exorcismo”[53], Edir Macedo, embora com o intuito declarado de combater as práticas e credos de religões afro-brasileiras, assume como verdadeiras crenças que não se coadunam com as Escrituras, pautando-se primacialmente em experiências, e não na revelação da Palavra de Deus.

A obra, bem redigida e vertida numa linguagem coloquial, próxima da linguagem falada, discorre sobre diversos temas que contribuem para se compreender a teologia de Edir Macedo e da Igreja Universal.

Assim, são tratados assuntos diversos, a seguir sintetizados: a existência de algo que se convencionou denominar “maldição hereditária”; possibilidade de crentes em Jesus Cristo serem vitimados por enfermidades de fundo espiritual; especulações acerca da relação entre influência demoníaca, como causa, e enfermidades, como efeito; possessões parciais (em partes do corpo); afirmação de que “todas as pessoas que vivem querendo morrer são endemoninhadas”[54]; uma interpretação de Ml 3.10,11 segundo a qual “espíritos devoradores” atuam na vida daquele que não contribui com dízimos e ofertas; necessidade de cobrar de Deus aquilo que Ele prometeu; necessidade de participação em reuniões da própria Igreja Universal para alcance da libertação.

Há na referida obra uma linguagem bíblica e evangélica, menções às Pessoas da Trindade, transcrições de passagens bíblicas, mas com uma perspectiva de orientação espiritualista, dada a ênfase em espíritos sem corpo que, por meio de possessões e “escostos”, seriam os responsáveis pela maldade no mundo.

Em determinado momento, Macedo se refere às pregações de Martinho Lutero e John Wesley, bem como à doutrina do batismo no Espírito Santo, mas para postular a necessidade de uma ênfase na luta contra os demônios.[55]

A distinção que Macedo faz em relação à mensagem do batismo no Espírito Santo é interessante porque, de fato, uma das marcas do “Neopentecostalismo” é o destaque para ações de “libertação” (exorcismo), enquanto as igrejas pentecostais mais antigas destacavam o batismo com fogo evidenciado por línguas, a evangelização, os dons de curar e a iminente volta de Cristo.

Em sua peroração sobre a diferença entre “igrejas fortes” e “igrejas fracas”, Macedo supõe existir, talvez por pilhéria, um demônio chamado “exu tradição”, responsável por apego exagerado a usos, costumes e normas eclesiásticas, o que conduziria a coisas fúteis, deixando de lado a obra de libertação.[56]

A cosmovisão de Edir Macedo retratada no mencionado livro é a de alguém que enxerga um mundo dominado e regido por seres espirituais que dão causa ao mal e ao sofrimento, como nas religiões animistas da África subsaariana ou em religiões orientais.

A própria nomenclatura empregada no livro (como, por exemplo, “encostos”), os conceitos e a ênfase que Edir Macedo empresta à influência de demônios, todo esse repertório sugere tratar-se de um homem que em algum momento da vida esteve próximo de experiências espiritualistas, até que ele mesmo o diz.

De fato, Edir Macedo conta que, em seu infância, seu pai, a fim de descobrir se ele e o irmão haviam feito algo errado, os ameaçava dizendo que iria perguntar “aos espíritos do centro”, o que lhes causava “muito medo”, pois, segundo ele, “sabíamos que os espíritos quase sempre acertavam”. E prossegue: “é bom lembrar que naquela época eu também estava no engano”[57].

Em sua biografia autorizada, Macedo afirma que “nesse tempo [por volta dos 17 anos de idade] já tinha visitado centros de espiritismo com meu pai, como o Santo Antônio de Pádua. Levava passe e tudo, mas não me acrescentou nada”[58].

LEONILDO SILVEIRA CAMPOS informa que, ao fundar a IURD, Edir Macedo era “um ex-católico e ex-umbandista”[59], o que também é apontado por ARI PEDRO ORO[60], que, por sua vez, deixa um questionamento: “É de se perguntar até que ponto todo esse caráter mimético da Iurd não tem a ver com a própria trajetória pessoal de seu fundador, que conheceu e transitou por diferentes igrejas e religiões antes de fundar a sua própria igreja”[61].

No livro O bispo: a história revelada de Edir Macedo, o fundador da Universal assim se expressa quanto ao Espiritismo: 

“Eu não acredito. Frequentei um centro espírita três vezes por semana quando era adolescente no Rio de Janeiro. Passei por inúmeras consultas com um médico espírita chamado Santos Neto, que mais tarde virou deputado federal. Ele fazia cirurgias espirituais para os mais variados tipos de doença. Na época, eu tinha verrugas espalhadas por todo o corpo. Eram uns caroços enormes, que me incomodavam bastante. Quando cheguei diante do tal médico, ele me perguntou qual era minha maior verruga. Depois que mostrei, disse que iria fazer desaparecer tudo em sete dias. Todo vestido de branco, fez o sinal da cruz sobre a verruga e repetiu algumas palavras de reza. Após uma semana, todas desapareceram de fato. Tempos depois, voltaram maiores e em maior quantidade”[62].

Importa recordar que, em suas declarações sobre a fé inteligente e a prosperidade financeira, Edir Macedo recorre ao princípio de que acredita naquilo que “dá certo”. Esse é o seu critério para o reconhecimento da verdade. As verrugas voltaram maiores e em maior quantidade? Então, o Espiritismo está errado. Por outro lado, os demônios são expelidos diante de sua “obra de libertação”? Então, o caminho é prosseguir com a obra.

Todavia, pari passu à repulsa de Edir Macedo às doutrinas espíritas, o sincretismo religioso com o próprio Espiritismo e religiões afro-brasileiras é um dos pontos característicos da seita que dirige.

Para se ter uma visão panorâmica do problema, segue uma tabela com algumas crenças e práticas da Universal que a aproximam das religiões de matriz africana e, de modo geral, do Espiritismo:

CRENÇAS E PRÁTICAS DA IURD QUE A APROXIMAM DO GRADIENTE ESPÍRITA-UMBANDISTA
Cosmovisão pagã, espiritualista, maniqueísta de que o mundo estaria infestado de entes espirituais sem corpo, principais causadores de males como o alcoolismo, o uso de drogas, a prostituição, o endividamento, as enfermidades físicas e psíquicas, a perda de emprego, o insucesso profissional ou empresarial, as dificuldades no relacionamento amoroso e toda espécie de sofrimento.
Emprego da nomenclatura espiritualista (“encosto”, “carrego”, “pai-de-encosto”, “mãe-de-encosto”, “trabalho”, “descarrego”, “amarrar”, “amarrado”, “despacho”, “despachar”)[63].
Uso de objetos com poderes mágicos, sejam os já empregados nas religiões do gradiente espírita-umbandista (bala, fita, água fluidificada, rosa, sal, óleo, ramo de arruda etc.), sejam outros (shampoo, sabonete, brinquedos, garrafas, sabão em pó, saco de lixo, travesseiro)[64].
Uso ritual da cor branca (roupa branca, toalha de mesa branca).
Função ritual de “ex-pais-de-encosto” e “ex-mães-de-encosto”, considerados com capacidade de liderança, aconselhamento e poder sobre as entidades, dada sua experiência pregressa[65].
Ritos de “fechamento de corpo” e “correntes de mesa branca”.[66]
Sessões Espirituais de Descarrego e Reuniões de Libertação que parecem sessões espiritualistas, com o “círculo da divindade” formado por pastores e por “ex-pais-de-encosto” e “ex-mães-de-encosto”[67].
Invocação coletiva das entidades, seguida de despacho coletivo de demônios, como nas chamadas coletivas de “entidades”, nas reuniões de religiões afro-brasileiras, para depois serem despachadas em conjunto[68].
Sincretismo com a religiosidade católica popular, também ritual, materializada e mediada por sacerdotes.

Segundo RICARDO MARIANO, citado por ARI PEDRO ORO, a IURD “também reconhece o dia de São Cosme e Damião, ocasião em que costuma oferecer ‘balas ungidas’ para crianças que vão aos cultos, lembrando, nesse caso, a prática de dar doces aos erês na umbanda”[69].

Um aspecto muito importante é que, para Edir Macedo, ex-pais-de-santo e ex-mães-de-santo, mesmo depois de “libertos”, mantêm os poderes anteriormente experimentados. Confira-se:

“Dedico esta obra a todos os pais-de-santo e mães-de-santo do Brasil porque eles, mais que qualquer pessoa, merecem e precisam de um esclarecimento. São sacerdotes de cultos como umbanda, quimbanda e candomblé, os quais estão, na maioria dos casos, bem-intencionados. Poderão usar seus dons de liderança ou de sacerdócio corretamente, se forem instruídos”[70].

Essa declaração reforça a tese de que a cosmovisão de Edir Macedo seria pagã, dualista, espiritualista, enfim, não cristã, sendo necessário apenas, para ele, escolher o lado certo da batalha.

RICARDO MARIANO [71] colhe um trecho de matéria do jornal O Dia para ilustrar a semelhança entre a Sessão do Descarrego e os ritos da Umbanda. Confira-se: 

“Um homem todo de branco comanda o culto, cercado por pomba-giras, exus e pretos-velhos. Os auxiliares também se vestem do branco mais puro e acreditam nos poderes do sal grosso e do galho de arruda. Que religião é essa? Ihih, se vossuncê, respondeu umbanda, está errado, mizim fio. O culto – bata a cabeça – é da Igreja Universal do Reino de Deus. Saravá. A Sessão do Descarrego – esse é o nome propagado pela própria igreja – faz sucesso às terças-feiras, na Catedral da Fé […]. É o momento, pregam os pastores, de retirar os encostos dos fiéis”.

Por oportuno, examine-se este trecho do já citado relatório da Comissão Permanente de Doutrina da IPB sobre a IURD: 

“A IURD não somente emprega práticas pagãs supersticiosas; usa também a nomenclatura do baixo espiritismo para se referir às entidades espirituais malignas. Enquanto que as Escrituras silenciam quanto aos nomes dos demônios, mencionando apenas por nome o líder deles, Satanás, a IURD se utiliza da nomenclatura afro-brasileira dos deuses da Umbanda para dirigir-se aos demônios, identificá-los e eventualmente expulsá-los. ‘Tranca ruas’, ‘pomba gira’, ‘exús’, ‘caboclos’, ‘preto velho’, etc., são nomes normalmente empregados nos cultos de libertação. Contrariando o ensino bíblico do culto ao Deus vivo em espírito e verdade, e introduzindo elementos, nomenclatura e conceitos pagãos na sua liturgia, a praxis da IURD representa uma desfiguração e deformação do culto evangélico, terminando por praticar de outra forma a superstição e a ignorância religiosa que condena no catolicismo e espiritismo brasileiros”.[72]

Ao lado de uma linguagem bíblica, evangélica e pentecostal, tem-se na Igreja Universal um arsenal de superstições e doutrinas similares às religiões de matriz africana, o que pode ser explicado, ao menos parcialmente, pela influência da cultura brasileira na personalidade de Edir Macedo.

Vale, neste passo, recorrer às palavras do próprio Edir Macedo: “Se uma pessoa chegar à Igreja no momento em que as pessoas estão sendo libertas, poderá pensar que estão em um centro de macumba, e parece mesmo” [73].

Apesar de suas assombrosas peculiaridades, a demonologia da Universal não é um corpo isolado em termos teológicos, havendo um amplo e multifacetado movimento de “libertação” proposto por diferentes grupos pelo mundo. Trata-se do chamado “Movimento de Batalha Espiritual”.

Em seu excelente livro O que você precisa saber sobre batalha espiritual, AUGUSTUS NICODEMUS LOPES explicita os principais ensinos e práticas do Movimento de Batalha Espiritual, bem como suas origens, proponentes, tendências, as passagens bíblicas recorrentemente utilizadas para sustentar suas doutrinas e como a experiência pessoal é tomada como prova das ideias ali defendidas. O autor faz na obra uma refutação técnica, abrangente e cuidadosa aos postulados desse movimento, no qual se insere a Igreja Universal [74].

Citando DAVID POWLISON, o teólogo presbiteriano alude ao “ministério ekbalístico” ou “modo ekbalístico de ministério” como traço relevante dos grupos de batalha espiritual, dependentes que são de “ministérios de libertação” (expulsão de demônios [75]). A expressão decorre do termo grego ekballo (“expulsar, expelir”)[76].

A Igreja Universal, que está evidentemente inserida no Movimento de Batalha Espiritual, fornece sua contribuição peculiar ao assumir, sem constrangimento e com enorme criatividade, noções próprias do mundo espírita-umbandista, assim como nomes, conceitos, cores e rituais. Desse modo, pode-se afirmar que até nisso a Universal é um caso à parte.

“Respingos” de Teologia da Prosperidade

Um dos elementos destacados da IURD é a mensagem de que a fé consiste num investimento para retorno em todas as áreas da vida (finanças, casamento, saúde, profissão, bem-estar emocional), uma abordagem estritamente vinculada à ação de arrecadação financeira em prol da seita.

Proposições da Teologia da Prosperidade constituem, de fato, marca relevante da Igreja Universal, o que Edir Macedo afirma explicitamente em entrevistas[77]e pregações.[78] Isso é verdade porque, em seu empreendimento arrecadatório, os bispos tecem comentários sobre como Deus é compelido a abençoar, em todas as áreas, aqueles que contribuem financeiramente com a seita.

Em O bispo: a história revelada de Edir Macedo, o fundador da IURD expressa sua convicção no que chama de “toma lá, dá cá”, ou seja, o uso da fé como “moeda de troca com Deus”, na qual o fiel entrega dízimos e ofertas para ser abençoado.[79]

A ênfase que Edir Macedo atribui ao conceito de “fé inteligente” ou “fé racional” em contraposição à “fé emotiva”[80] não é mero jogo de palavras, mas comprovação de que seu ensino se insere na Teologia da Prosperidade, pois uma das abordagens dessa corrente teológica é a conceituação de fé como um tipo de mecanismo ou princípio cósmico que, quando acionado, promove mudanças no mundo material, espiritual e psíquico. Macedo chega a afirmar que “Deus funciona apenas de acordo com a fé”.[81]

Entretanto, é importante distinguir as figuras de Edir Macedo e R. R. Soares, pois, enquanto o primeiro é mais superficial em sua defesa teológica, embora provido de acentuada persuasão, R. R. Soares parece mais professoral e doutrinal, com capacidade de esmiuçar mais eficazmente os cânones teológicos do movimento a que está filiado, e que aprendeu junto a personagens como o americano T. L. Osborn.

Na importante e conhecida obra Cristianismo em Crise, HANK HANEGRAAFF[82] expõe a origem, natureza, teologia e principais líderes da Teologia da Prosperidade nos Estados Unidos, provando tratar-se da importação de crenças orientais e adaptação ao pragmatismo americano, com ensinos extraordinariamente errados acerca de Deus, do Homem, da morte de Cristo, da prosperidade. Há naquele movimento um componente ocultista, místico, de pensamento positivo, verbalização positiva, reprogramação mental, visualização, leis cósmicas, poderes que vêm de dentro do próprio homem.

Em Supercrentes: o evangelho segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomens e os profetas da prosperidade, PAULO ROMEIRO estuda o fenômeno em terras brasileiras. Ele ensina que “a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada pelo bispo Edir Macedo, possui alguns respingos do Movimento da Fé. A ênfase sobre a prosperidade financeira é bastante acentuada” [grifos acrescidos].

Note-se que o ROMEIRO não emprega em vão o termo “respingos”, pois nos ensinos da Universal a Teologia da Prosperidade parece servir mais como um instrumento de retórica, para arrecadação de dinheiro, do que propriamente um sistema de credo.

Em ambos os casos – o americano e o brasileiro – à importação de doutrinas estrangeiras se associa a cultura nacional, com um resultado necessariamente contrário à Fé Cristã. Entre os americanos, o caldo de cultura da Teologia da Prosperidade foi o utilitarismo e pragmatismo impregnados na sociedade; entre os brasileiros, há o que AUGUSTUS NICODEMUS LOPES chama de “alma católica dos evangélicos no Brasil”[83], proveniente de uma herança supersticiosa arraigada no país.

Em termos de ação arrecadatória, Edir Macedo e seus sequazes promovem um imenso esforço de propaganda e ocupação de espaços, que começou nas entrevistas com demônios, avançou para a mídia e a política, ergueu catedrais, criou um sincretismo entre a fé evangélica e as religiões de matriz africana, e edificou o Templo de Salomão. Tudo isso foi acompanhado por invenções tão criativas como alienadas da Bíblia, tais como as “Sessões do Descarrego”, a “Nação dos 318”, a “Fogueira Santa de Israel” e tantas outras ações de marketing religioso.[84]

A construção do Templo de Salomão, na cidade de São Paulo, e todo o repertório de traços judaizantes que a acompanhou, se inscreve nesse cenário, não como atestado de adesão da Universal ao Movimento Judaizante, mas como peça de marketing, afinada com a livre manipulação do Antigo Testamento como mero pretexto de fé.

Portanto, não parece que a Teologia da Prosperidade possa ser tomada como o elemento mais relevante para definir a Universal, mas, sim, como uma ferramenta entre tantas outras.

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Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Co-pastor da sede da Assembleia de Deus em Salvador. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.

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