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Igreja Universal do Reino de Deus: nem cristã, nem protestante, nem evangélica, nem pentecostal

A correta caracterização da IURD como seita paraprotestante que absorve e reelabora crenças e práticas do gradiente espírita-umbandista, e suas semelhanças genéticas com a Umbanda e a Cultura Racional

Alex Esteves

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Bispo Edir Macedo ministrando na réplica do Templo de Salomão. (Demétrio Koch / Fotos Públicas)

De todas as igrejas classificadas como “neopentecostais”[1], a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD, Igreja Universal ou Universal) é provavelmente a que mais contém os males do chamado “neopentecostalismo”.

É também a maior igreja desse ramo no Brasil e uma das organizações religiosas mais disseminadas pelo mundo[2], o que justifica o empenho em sua análise demonstrado nas searas jornalística, eclesiástica e acadêmica (tanto na teologia como em ciências da religião e outras áreas[3]).

Não se pode negar a influência que essa instituição exerce sobre igrejas pentecostais e “neopentecostais”, com repercussão possível até mesmo em igrejas históricas.

Para cumprir o objetivo fundamental deste trabalho, que é o de comparar a Igreja Universal especialmente com a Umbanda e a Cultura Racional, dentro do gradiente espírita-umbandista, será de bom alvitre repisar alguns aspectos da seita fundada por Edir Macedo Bezerra, começando por traços de sua história, porque útil à argumentação.

O presente estudo tem um propósito pastoral e uma orientação teológico-confessional, sem prejuízo de (importantes) contribuições provenientes das ciências da religião: o propósito pastoral decorre da necessidade de alertar os crentes evangélicos sobre a natureza da ameaça que a Igreja Universal representa; já a orientação teológico-confessional se atém à concepção do autor, que é cristão, protestante, evangélico e pentecostal histórico.

Algumas informações históricas sobre a Igreja Universal do Reino de Deus

O começo

Edir Macedo Bezerra nasceu em Rio das Flores/RJ no ano de 1945, filho de um migrante alagoano e uma mineira, ambos de família católica [4].

Ainda jovem, Edir Macedo ouviu a mensagem do Evangelho na cidade do Rio de Janeiro, na Igreja Cristã Nova Vida, uma denominação evangélica da Segunda Onda do Pentecostalismo [5]  dirigida pelo bispo canadense Walter Robert McAlister. Seu cunhado, Romildo Ribeiro Soares (R. R. Soares), também congregou ali[6].

Embora quisesse se tornar pregador, Macedo não foi reconhecido naquela igreja, onde permanecera entre 1963 e 1975 [7] (um dos pastores chegou a dizer que ele “não tinha futuro”).[8]

A ordenação pastoral de Macedo e R. R. Soares deu-se na Igreja Casa da Bênção, pelas mãos do missionário Cecílio Carvalho Fernandes[9].

Juntos, Macedo, R. R. Soares e outros[10] criaram a Cruzada do Caminho Eterno, cujas pregações se faziam primeiramente num coreto no Jardim do Méier, Zona Norte do Rio. O trabalho cresceu e eles foram buscando novos espaços para abrigar os ouvintes [11].

Fundada, no Rio de Janeiro, em 9 de julho de 1977, por Edir Macedo e seu cunhado R. R. Soares, além de Roberto Augusto Lopes, a Universal[12] passou, em 1980, ao comando de Macedo, enquanto Soares estabeleceu a sua Igreja Internacional da Graça de Deus depois de os pastores da Universal decidirem que Macedo devia ser seu líder[13].

Poder midiático

Desde cedo houve interesse de Edir Macedo em conquistar horários em rádio e TV, o que se deu inicialmente na Rádio Metropolitana, como o programa O Despertar da Fé, e prosseguiu em outras rádios, passando pela compra da rádio Copacabana e pela aquisição de horários na TV Tupi no Rio e em São Paulo. [14]

A compra da TV Record (1989) abriu espaço para a força exponencial da Igreja Universal, que hoje é um “império de comunicação”, expressão inserta em sua biografia autorizada [15].

Seguiu-se um período de rápido crescimento e controvérsia, com grandes concentrações e confronto com as Organizações Globo, de que são exemplos reportagens no Jornal Nacional e no Fantástico, a minissérie Decadência (1995) e as discussões no programa 25ª Hora, da Record, com o objetivo de desacreditar a Globo perante a opinião pública – esse fenômeno foi chamado pela imprensa de “guerra santa”.

Como se provaria mais tarde, o uso da TV não era, em Edir Macedo, algo pertinente ao televangelismo clássico, mas inserido num contexto de ocupação de espaços políticos, sociais, comerciais, financeiros, ideológicos e culturais, além do espaço religioso.

Ostentação religiosa

Além de templos arranjados em salões que antes haviam abrigado cinemas e outros estabelecimentos, foram-se construindo templos suntuosos (catedrais) em cidades importantes, para, segundo o próprio Macedo, o pobre sentir “que é capaz de conquistar coisas grandes, uma vida melhor”[16].

Poder político

Na seara política, a Universal avançou progressivamente, desde a eleição, em 1986, do deputado federal Roberto Augusto Lopes (um dos fundadores da instituição), com um número cada vez maior de vereadores, deputados estaduais e deputados federais.

Em 2002, o bispo Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo, à época no Partido Liberal (PL), foi eleito senador da República para o período de 2003-2010. Reeleito, ocupou o cargo de ministro da Pesca no governo de Dilma Rousseff entre 2 de março de 2012 e 17 de março de 2014[17].

Depois de um longo período de inserção em diversos partidos, a Universal colaborou decisivamente para a fundação do Partido Republicano Brasileiro (PRB). A denominação já estava ligada ao poder federal e espalhada em diversas instâncias de poder pelo Brasil, mas agora tinha um partido próprio, onde poderia concentrar seus representantes. Mais recentemente, seu presidente, Marcos Pereira, que é bispo da IURD, licenciou-se do cargo para assumir o ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços no governo de Michel Temer.

O maior êxito eleitoral da Universal foi certamente a eleição do senador Marcelo Crivella como prefeito da cidade do Rio de Janeiro, no ano de 2016.

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Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Co-pastor da sede da Assembleia de Deus em Salvador. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.

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