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Estudos Bíblicos

A natureza dos anjos – A beleza do mundo espiritual

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 2 do trimestre sobre “Batalha espiritual”

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A matéria angelologia não tem recebido muita atenção dos teólogos e escritores contemporâneos. Porém, nos cultos de muitas igrejas pentecostais e neopentecostais vemos alguns excessos e abusos sendo ensinados e praticados quanto à natureza e função dos anjos. Conquanto não possamos ser incrédulos quanto à presença e à manifestação de anjos em nossos dias para auxílio do povo do Senhor, não devemos ser ignorantes quanto ao que a Bíblia diz sobre o assunto nem demasiadamente curiosos para não sermos feitos presas fáceis dos hereges e enganadores que se têm espalhado nos arraiais evangélicos. Visto que nosso tema deste trimestre é batalha espiritual, voltemos às páginas da Bíblia sagrada para ver de que forma esses maravilhosos seres celestiais participam de nossas batalhas, sem subestimar nem superestimar sua atividade.

Antes de prosseguirmos, gostaria de te apresentar um conteúdo que pode lhe ajudar a melhorar suas aulas na Escola Bíblica Dominical. O curso produzido pelo Instituto Mundo Bíblico chama-se Bacharel Livre em Teologia. Clique aqui e saiba mais!

I. Os anjos

  • Distorções quanto ao ensino da angelologia

Não é de hoje, nem somente pentecostais ou neopentecostais não instruídos têm demonstrado certa distorção ou fanatismo quanto à natureza e atuação dos anjos. Desde os dias do apóstolo Paulo já se falava em “culto dos anjos”, praticado por alguns hereges que buscavam influenciar os cristãos (Cl 2.18), e que, segundo Soderlund, tratava-se de “um culto de adoração angelical, não atestado dentro do judaísmo como tal, porém não inconcebível na mistura de movimentos religiosos representados naquela parte da Ásia Menor” [1]. Talvez se tratasse, como propôs Barclay, de uma mistura de crenças judaicas e gnósticas sobre a mediação dos anjos entre Deus e os homens, tornando-os dignos de adoração.

Na Idade Média, entre os escolásticos, também se notou certa obsessão desmedida pela natureza dos anjos. Walter Brunelli lembra que nessa época “houve muitas discussões acerca desses seres celestiais. Os teólogos, interessados em entender a sua natureza – relação de anjos no espaço físico – chegavam a discutir sobre quantos anjos caberiam na cabeça de um alfinete! Inquiriam se os anjos podiam estar em dois lugares ao mesmo tempo, se os anjos da guarda respondem pelas crianças, quando elas morrem etc.” [2]. Não raro ouvimos discussões igualmente banais em nossos dias sobre os seres celestiais. Quando a mente humana quer compreender mais do que lhe está revelado, naturalmente descamba para especulações e achismos que nada contribuem para o aprendizado sadio das verdades espirituais.

Ainda em nossos dias, mesmo entre eminentes expositores das sagradas Escrituras, é possível encontrar posições doutrinárias por vezes estranhas sobre os anjos. O saudoso pastor Russel Shedd, de envergadura teológica indiscutível, tinha um entendimento não comum sobre o papel dos anjos na igreja. Cria ele, por exemplo, que naqueles polêmicos casos dos “dentes de ouro” que apareciam na boca de algumas pessoas em cultos pentecostais ou neopentecostais, ali estavam ocorrendo não manifestações diretas de Deus, mas operações angélicas [3]. Cria ele ainda que os dons espirituais são operações angelicais no crente. Respeitamos a memória do estimado pastor Shedd, embora divergimos dele nestes específicos.

Pontuamos essas questões acima apenas para afugentar a exclusividade da culpa que se querem atribuir aos pentecostais e neopentecostais no que concerne aos erros quanto à doutrina dos anjos, embora eu esteja disposto a admitir que devido a grande abertura para o sobrenatural e para experiências e manifestações espirituais, as igrejas que abraçaram a continuidade dos dons espirituais estão mais suscetíveis ao engano, caso não acrescentem, como dizia o teólogo pentecostal inglês Donald Gee, mais profunda reflexão à experiência pentecostal. “Crescei na graça e no conhecimento” – essa é a recomendação petrina pela qual podemos alcançar a doutrina correta e a experiência de poder, no devido equilíbrio! (2Pe 3.18)

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  • Etimologia e conceito

Vejamos a palavra anjo nas principais línguas que são foco de nosso estudo bíblico:

  1. Hebraico (Antigo Testamento): mal’ak
  2. Grego (Novo Testamento): aggelos ou angelos
  3. Latim (língua da qual o nosso Português se derivou): angelus. Por curiosidade, daí vêm nomes como Ângelo, que significa “anjo”, ou Angélica, que significa “aquilo que é próprio dos anjos”.

Originalmente, a palavra anjo no texto bíblico significa “mensageiro”, e aponta para uma de suas funções precípuas quanto aos homens, especialmente nos tempos em que Jesus ainda não fora revelado e a Bíblia ainda não se tinha completado. Hoje, naturalmente, tende-se a ver os anjos muito mais como “protetores” dos crentes do que mensageiros, visto que a revelação escriturística se tem completado e a pessoa bendita de Jesus a nós foi dado (Hb 1.1). Mas isso de modo algum descarta a possibilidade – e a autenticidade de alguns testemunhos – de anjos serem enviados por Deus para nos comunicar algo.

Apenas cuidemos com os muitos “anjos” aparecendo por aí, trazendo “novas revelações” e evangelhos diferentes daquele que aprendemos na Bíblia, muitas vezes até sugerindo que a obra de Cristo ficou incompleta na cruz. Algumas seitas foram e são fundadas diariamente sob o pretexto de uma nova direção espiritual trazida por um anjo. Mas Paulo já nos alertou: “ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (Gl 1.8). Satanás se transfigura em anjo de luz (2Co 11.14), então tenhamos cuidado com essas revelações angelicais!

  • Anjos: Deus, seres espirituais e homens

Algumas vezes, tanto no AT como no NT, homens são chamados pelos mesmos termos originais que se aplicam aos anjos. Na verdade, como destaca o pastor Esequias Soares, o termo anjo, de início, poderia se referir tanto a seres humanos quanto a seres espirituais, bons ou maus (demônios) [4]. Até mesmo o próprio Deus quando se manifestou visivelmente aos homens, foi chamado de “Anjo do Senhor” – alguns estudiosos creem que nesses casos trata-se de manifestações do Filho de Deus pré-encarnado (conf. Gn 16.7-13; 18.1-4; Jz 6).

Quanto a homens chamados de “anjos”, temos o caso do profeta Ageu, chamado de mal’ak, isto é, mensageiro, enviado ou embaixador do Senhor (Ag 1.13 – não conheço nenhuma tradução que diga “anjo” no caso de Ageu, porém, é o que a palavra hebraica original pode também significar). Temos ainda o caso de João Batista, prenunciado como o precursor do Senhor (Ml 3.1; Mc 1.2-4), e chamado de “mensageiro” (versão ARA) ou mesmo de “anjo” (na versão ARC). Esta é ainda a forma como os líderes das sete igrejas da Ásia Menor aos quais o apóstolo João escreveu suas cartas são chamados (conf. Ap 2 e 3). É consenso entre os comentadores que a expressão “ao anjo da igreja…” refira-se aos próprios pastores locais, e não a entidades angélicas – é até mesmo absurdo pensar que Jesus mandaria João escrever cartas para serem remetidas aos seres angelicais!

 II. Os seres celestiais para servir

  • Natureza dos anjos

Quanto à natureza dos anjos, Raimundo de Oliveira [5] traça cinco características desses seres celestiais. São elas:

1. Os anjos foram criados

Os anjos não são eternos, pois foram criados por Deus. Ainda que não se saiba ao certo quando foram criados (muito certamente antes da criação do mundo, quando os anjos ou “filhos de Deus”, como são chamados, já cantavam alegremente – Jó 38.4-7). Paulo deixa claro que todas as dominações, principados e potestades foram criados (Cl 1.16). Somente o Anjo do Senhor é eterno e não-criado! Ressalte-se ainda que Deus criou a humanidade a partir de um único casal, a quem foram ordenadas a reprodução e a multiplicação da espécie; os anjos, porém, foram criados um a um, individualmente – ou todos de uma única vez, não sabemos ao certo – mas sem reprodução da espécie.

2. Os anjos são espíritos

A Palavra refere-se aos anjos como “espíritos ministradores” (Hb 1.14), logo, eles não possuem carne e osso ou qualquer outra matéria, são assexuados e não estão limitados às prisões deste mundo. Não envelhecem, não adoecem, nem morrem. De modo geral anjos não podem ser vistos, a menos que ocorram angelofânias, isto é, manifestações visíveis dos anjos, como as que ocorreram nos tempos bíblicos (como a Zacarias, para anunciar o nascimento de João Batista – Lc 1.11-20; à Maria, para anunciar a concepção de Jesus – Lc 1.26-38; ou aos pastores no campo, para anunciar o nascimento do Salvador – Lc 2.8-15). Muitos deram guarida aos anjos pensando tratarem-se de homens comuns, e em razão disso o autor da carta aos Hebreus nos chama a praticar a hospitalidade (de hospedagem, e não de hospital!), isto é, recepcionar bem as pessoas (Hb 13.2). O tom é o seguinte: receba bem todo mundo, pois você nunca sabe quando poderá estar recebendo a visita de um anjo!

3. Os anjos são seres inteligentes

Visto que os anjos estão diante da face de Deus, conhecem-no pessoalmente; devido a função que desempenham, são dotados de grande sabedoria. Visto que há muito foram criados e não envelhecem ou morrem, têm muito saber acumulado sobre o mundo espiritual e sobre o nosso mundo. Isso, porém, não implica dizer que os anjos sejam oniscientes (sabem tudo) ou onividentes (veem tudo), pois tais atributos são exclusivos de Deus! O próprio Jesus afirmou que os anjos do céu são ignorantes quanto ao dia exato de sua vinda (Mc 13.32).

4. Os anjos são seres gloriosos

O pastor Raimundo de Oliveira pontua que os anjos são como raios e refletem a glória e o resplendor do próprio Deus. Isso é bíblico: está dito sobre os anjos que Deus “faz dos seus anjos espíritos, e de seus ministros labaredas de fogo” (Hb 1.7). É controversa a identificação do anjo que apareceu a Daniel, no décimo capítulo de seu livro; entretanto, ali vemos uma aparição tão gloriosa que o rosto do “homem vestido de linho” era resplandecente como relâmpago, e seus olhos “como tochas de fogo” (Dn 10.5,6).

Cada classe de anjos tem a sua beleza no céu!

5. Os anjos são seres poderosos

É assim que a Bíblia faz menção deles: “Bendizei ao Senhor, anjos seus, magníficos em poder…” (Sl 103.20). Por isso, um dos hinos mais populares da Harpa Cristã (n° 124) traz, entre outros, os seguintes versos:

Adorai-O, anjos poderosos,
Vós que Sua glória contemplais!

Prova desse poder é o anjo que deu cabo da vida de 185 mil soldados assírios (2Re 19.35; Is 37.36 – embora, ressalte-se, alguns pensam tratar-se do próprio Deus aqui, o “Anjo do Senhor”). A batalha angélica pela vitória de Daniel nos dá demonstração do poder dos anjos (Dn 10.13). O anjo Gabriel que impôs a punição da mudez temporária ao sacerdote Zacarias (Lc 1.19-22), e o anjo que feriu a Herodes (At 12.23) são outras provas de que anjos operam com poder.

Portanto, é lamentável e digno de toda nossa rejeição o falso ensino da “troca do anjo da guarda” que se vê sendo pregado em igrejas neopentecostais [6]. Não são anjos que precisam serem trocados, mas estes falsos pregadores e muambeiros da fé é que precisam serem substituídos por genuínos ministros do evangelho de Jesus Cristo!

  • Ofício dos anjos

1. Em relação a Deus, no céu

Não temos dúvida de que a primordial atividade dos anjos seja louvar a Deus e cumprir obedientemente suas ordens (Sl 103.20; 148.2; Ap 5.11,12; 7.11,12). Quando os homens e o mundo ainda não existiam, certamente os anjos não estavam ociosos em monotonia no céu. Eles jubilosamente louvavam ao Criador (Jó 38.4-7).

2. Em relação a Jesus, no seu ministério terreno

Os anjos estiveram presentes durante toda a vida de Jesus: anunciando sua concepção (Lc 1.26-33), louvando a Deus por seu nascimento (Lc 1.13-15), servindo-lhe alimento no deserto ao final da tentação (Lc 4.11), na agonia do Getsêmani quando o Filho de Deus necessitava ser fortalecido na carne (Lc 22.43), na sua ressurreição (Lc 24.1-8), na despedida de sua ascensão (At 1.9-11). Jesus sempre esteve acompanhado de anjos, tendo-os ao seu dispor sempre que desejasse, inclusive para livrar-se de seus inimigos que o buscavam matar (Mt 26.52,53). Ele, porém, preferiu não usar deste auxílio poderoso dos anjos, aceitando sofrer na pele tudo o que dantes estava predito.

3. Em relação a Igreja

Quanto à Igreja, os anjos são “enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação” (Hb 1.14). Ao apóstolo João, o próprio anjo declarou por duas vezes: “sou conservo teu e de teus irmãos” (Ap 19.10; 22.9). Ainda que não possamos vê-los ou senti-los, anjos de Deus nos cercam diariamente para nos servir! Segundo palavras de Jesus em Mateus 18.10, mesmo os pequeninos servos do Senhor (uma possível alusão às crianças) têm seus anjos que lhes assistem junto ao Pai celeste.

Basta irmos ao livro de Atos dos Apóstolos para vermos abundante referência à atividade angélica em prol dos servos do Senhor. Um anjo orientou a Felipe sobre o encontro com o eunuco (At 8.26); um anjo apareceu ao gentio Cornélio para mandar-lhe chamar o apóstolo Pedro que deveria ir à Cesaréia para evangeliza-lo (At 10.1-7); um anjo retirou Pedro milagrosamente da prisão (At 12.5-10); um anjo trouxe conforto sobre a perigosa viagem missionária de Paulo (At 27.22-24). O Deus que enviou um anjo para fechar a boca do leão para que não devorasse Daniel (Dn 6.22) é também o nosso Deus, que continua a dar ordens aos anjos ao nosso respeito para nos proteger de muitos males e ciladas dos adversários de nossas almas (Sl 91.11,12).

Não temos qualquer indício bíblico de que esta atuação dos anjos em prol da Igreja pós-apostólica, inclusive com manifestações visíveis, tenha cessado. Antes, temos abundantes e fiéis relatos de visitações maravilhosas dos seres celestiais. A título de ilustração apresentarei dois confiáveis relatos, registrados por eminentes escritores e idôneos servos do Senhor.

Manifestações de anjos na contemporaneidade

1° Exemplo

A primeira experiência de angelofania que quero compartilhar é contada tanto por Billy Graham em seu livro Anjos – os agentes secretos de Deus (editora Record), como por Joan Wester Anderson em A força dos anjos (editora Thomas Nelson Brasil). É uma experiência envolvendo o famoso missionário John Paton (uma biografia dele pode ser lida em Heróis da Fé, de Orlando Boyer, CPAD).

O Reverendo John G. Paton (1824-1907), missionário das Novas Hébridas, conta um emocionante caso sobre o desvelo protetor dos anjos. Nativos hostis cercaram, certa noite, a sede da sua missão, com a intenção de queimá-la e matar a família Paton. John Paton e sua esposa oraram durante toda aquela noite repleta de terror para que Deus os protegesse. Quando amanheceu, verificaram, estarrecidos, que os atacantes haviam inexplicavelmente abandonado o cerco. Agradeceram a Deus por livrá-los do perigo.

Um ano depois, o chefe da tribo converteu-se a Jesus Cristo, e o Reverendo Paton, lembrando-se do que acontecera, perguntou ao chefe o que impedira, a ele e aos seus homens, de queimar a casa e matá-los. O chefe redarguiu, surpreso:

— Quem eram todos aqueles homens que estavam com o senhor?
— Não havia homens comigo — respondeu o missionário. — Somente eu e minha esposa.

O chefe asseverou ter visto muitos homens de guarda, centenas de homens de grande porte, em trajes reluzentes, com espadas desembainhadas. Pareciam circundar o posto da missão, razão pela qual os nativos tiveram medo de atacar. Somente então foi que o Reverendo Paton percebeu que Deus havia enviado os Seus anjos para protegê-los. O chefe concordou em que não havia outra explicação.

2° Exemplo

A segunda experiência que trago é registrada pelo Dr. Russel Shedd em seu interessante livro Avivamento e renovação: em busca do poder transformador de Deus (Shedd Publicações). Segue o registro.

Em abril de 1993, na província de Shaanxi, um evangelista levava uma sacola cheia de literatura cristã, materiais perigosos se fossem descobertos pelos policiais da segurança pública. Precisava deslocar-se para uma outra cidade e já não havia mais transporte público. Contratou um taxista de motocicleta. Em local muito isolado foram parados pelos policiais perseguidores que logo ameaçaram de fuzilamento por falta de placa e documentos. Naquele instante, apareceu um anjo enorme que disse ao evangelista: ‘Fique firme e veja o forte poder de Deus para libertar por este meio!’ O irmão continua seu relato:

Naquele instante, um oficial da política chegou a minha frete e apontou uma lanterna de pilhas debaixo do meu nariz. Amedrontado, ele começou a gritar: ‘Não, não, vocês não podem fazer isso! Este homem é parente da minha esposa, um homem muito respeitável’. Daí virou para mim e disse mansamente: ‘Tio, me perdoe, por favor. Não o reconheci no início. Por favor, perdoe os meus camaradas malucos! Pegue sua sacola e vá depressa!’

O cristão tinha certeza de que não era parente desse oficial. A revelação antecedeu o livramento.

São muitos os relatos que aqui poderiam ser compartilhados, inclusive de pessoas comuns que tiveram experiências fantásticas com anjos enviados de Deus, quer para livrar, quer para consolar, quer para operar algo sobrenatural. Crês tu nisso, caro leitor?

III. As hostes angelicais

A Bíblia fala de “exércitos dos céus”, “soberanias”, “principados” e “potestades”. Não sabemos o número dos anjos, mas sabemos que são miríades e miríades (Ap 5.11). Há certamente uma hierarquia entre os anjos, visto que todo reino espiritual é organizado, ainda que não possamos esmiúça-la por falta de informações bíblicas. A simples referência, por exemplo, a Miguel como “arcanjo” (Jd 1.9) ou “um dos primeiros príncipes” (Dn 10.13) já demonstra por si haver uma hierarquia entre os seres angelicais.

Todavia, um equívoco que se comete no senso popular é confundir hierarquia com classes ou categorias de anjos. Pensa-se equivocadamente que serafins são maiores que os anjos comuns e que os querubins são maiores que os serafins. Serafins e querubins são, ao que nos parece mais apropriadamente, categorias diferentes de anjos.

  • Arcanjo

Embora a literatura judaica fale de outros arcanjos, a Bíblia fala-nos apenas de um: Miguel (Jd v.9). Mesmo quando Paulo menciona esta palavra, ela está no singular (1Ts 4.16). A palavra no texto grego é archaggelos, e é formada de outras duas palavras: arché (principal ou primeiro) e aggelos, que, como já vimos, significa anjo. O poderoso auxílio de Miguel que impôs derrota definitiva aos principados do mal que impediam outro anjo de prosseguir na sua missão de levar uma mensagem para Daniel (10.13), demonstra como este arcanjo é poderoso e proeminente sobre os demais anjos. O Apocalipse faz menção dele como líder: “Miguel e os seus anjos…” (Ap 12.7)

  • Serafins

A única ocorrência bíblica destes anjos é na visão e chamado de Isaías (6.1-7). É pouca informação para estabelecermos um perfil mais completo dessa categoria de anjos. O que sabemos é que eram seres alados (isto é, com asas), empenhados no louvor a Deus e na purificação do profeta para cumprimento de sua missão. É interessante notar que a palavra “serafim” significa “ardente”, “flamejante” (de flama, chama, fogo), daí serem chamados de “anjos de fogo”. Não à toa, foi um desses anjos de fogo que retirou uma brasa do altar para queimar a boca do profeta!

  • Querubins

Há muitas referências na Bíblia quanto aos querubins, desde o relato do Gênesis quando por ocasião da expulsão do primeiro casal Deus pôs “a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida” (Gn 3.24, NVI). Figuras de querubins foram esculpidas em ouro e colocadas sobre a arca da aliança (Ex 25.17-22), além de imagens decorativas que foram usadas no templo de Salomão (1Re 6.23-28) – mas nunca como objetos de adoração, vale lembrar. Pode-se dizer que ao mesmo tempo em que os querubins guardam a glória de Deus, eles também a evidenciam!

Tanto serafins como querubins são citados como seres com muitas asas. João Calvino cria que a referência a estes seres alados deve servir-nos como um alento sobre a providência rápida de Deus ao nosso favor. Dizia ele: “…a Escritura… não em vão nos pinta anjos alados, para que não tenhamos dúvida de que sempre haverão de estar presentes para, com incrível celeridade, trazer-nos auxílio, tão logo as circunstâncias o exijam, como se, com a costumeira velocidade, voasse para nós como um relâmpago despedido do céu” [7].

IV. Jesus e o arcanjo Miguel

Na tradução grega do Antigo Testamento, isto é, na Septuaginta (a Versão dos Setenta, como é também conhecida), o nome Miguel é Michaél, e significa “Quem é como Deus?”. Champlin destaca que embora diferente de Micael, em português, tem a mesma origem e poderia ser grafado daquela maneira [8].

A confusão que algumas igrejas fazem sobre a identidade de Miguel é fruto apenas e tão somente de uma tentativa de enxergar mais do que o texto coloca diante de nossos olhos, ou de sondar as profundezas do conhecimento de Deus para além do que Ele nos revelou. Em lugar nenhum a Bíblia afirma objetivamente que o arcanjo Miguel seja outra identidade para Jesus. As referências bíblicas a este “príncipe dos anjos” são as seguintes: Dn 10.13,21; 12.1; Jd 9 e Ap 12.7. Se fosse um entendimento comum entre os primeiros cristãos que Miguel e Jesus são a mesma pessoa, certamente essa informação nos estaria dada no Novo Testamento.

Nas referências ao arcanjo Miguel no livro do profeta Daniel, o encontramos sempre como o anjo guardião da nação de Israel, mas nunca o encontramos nas referências neotestamentárias como guardião da Igreja! Champlin diz que Miguel é apresentado no Apocalipse como “o maior subcomandante dos exércitos do bem” [9]. Jesus, porém, é o grande comandante do bem, não o que tem grande poder, mas o que tem “todo o poder” (Mt 28.18), seu nome está acima de todo nome (Fp 2.9), ele é o autor e consumador da nossa fé (Hb 12.3), o cabeça da Igreja (Ef 4.15), o cabeça de todo principado e potestade (Cl 2.10b) e nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade (Cl 2.9). Nada disso jamais foi dito do arcanjo Miguel!

Não cremos ser necessário alongar-nos neste tópico, mesmo que Testemunhas de Jeová e Adventistas do Sétimo Dia persistam em sua crença quanto à alternância da identidade do Filho de Deus entre Miguel e Jesus. Esse não é nosso ensino, pois não foi o ensino dos apóstolos!

Conclusão

De fato, é instigante estudarmos a natureza e o papel dos anjos! Saber que contamos com a providência divina através dos anjos como um auxílio a mais para as batalhas do dia a dia é confortador. Ao momento em que escrevo e ao momento que você lê, anjos nos rodeiam e nos protegem contra males espirituais que vêm nos assolar. Todavia, não demos asas à nossa imaginação, nem agucemos nossa curiosidade em demasia, para que não incorramos no erro da angelolatria (idolatria dos anjos) ou da credulidade ingênua quanto a relatos e doutrinas espúrias que se disseminam por aí. Que nossa fé seja bíblica e não hollywoodiana! Seja autêntica e não cinematográfica!

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Referências

[1] Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento, 4° ed., CPAD, p. 1316
[2] Walter Brunelli. Teologia para Pentecostais: uma Teologia Sistemática Expandida, vol. 2, Central Gospel, p. 375
[3] Confira algumas falas do pastor Russel Shedd: https://www.facebook.com/notes/tiago-rosas/russel-shedd/1089070704560657
[4] Esequias Soares. Batalha espiritual: o povo de Deus e a guerra contra as potestades do mal, CPAD, p. 38
[5] Raimundo de Oliveira. Doutrinas bíblicas, CPAD, pp. 288-293
[6] Confira um exemplo desse falso ensino da “troca de anjo da guarda” nesse vídeo: https://www.facebook.com/ebdinteligente/videos/2157622627822455
[7] João Calvino. Institutas da Religião Cristã, volume 1, capítulo XIV, seção 8
[8] R. N. Champlin. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, vol. 4, Hagnos, p. 264
[9] R.N. Champlin. Op. cit., p. 265

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