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Estudos Bíblicos

A natureza dos demônios – agentes da maldade no mundo espiritual

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 3 do trimestre sobre “Batalha espiritual”

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Ilustração do Inferno. (Foto: Reprodução / Instagram)


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Por que uma aula específica sobre a natureza e a atuação dos demônios? É mesmo necessário que dediquemos tempo a este assunto? Sim! A Bíblia, especialmente o Novo Testamento fala de modo abundante sobre a atuação dos espíritos malignos neste mundo e sua ambição por afastar os homens do caminho da retidão e arrastá-los ao inferno. Mesmo nós, os salvos, não estamos isentos dos assédios do inimigo. “O diabo anda em vosso derredor”, alerta-nos Pedro (2Pe 5.8). Os apóstolos do Senhor não ignoravam as intenções do diabo (2Co 2.11; Tg 4.7), por que deveríamos nós ignorar? Sem obsessões, fanatismos e crendices populares, estudemos hoje este assunto, sem ir além do que está escrito (1Co 4.6).

I. A origem dos demônios

A Bíblia é clara como a luz do sol quanto à atuação dos demônios desde os primórdios da humanidade, mas especialmente com o início do ministério de Jesus e subsequente trabalho da Igreja por ele fundada para suplantar o reino das trevas. É igualmente clara quando nos fala do fim destes demônios, sua derrota e eterna prisão no lago de fogo. Todavia, no que diz respeito à origem dos demônios, a Bíblia já não é tão clara como gostaríamos. Na verdade, quanto à origem dos anjos de modo geral a Bíblia não nos traz muitas informações. Trabalharemos, então, nesta lição contentes com a dádiva das Escrituras, submetendo a elas nossas convicções e evitando, como nos ensinam os bons hermeneutas, estabelecermos dogmas em cima de textos de difícil ou controversa interpretação.

  • Anjos caídos e os demônios

É certo que toda vida procede de Deus, e que nenhuma criatura inteligente há no reino dos anjos ou no reino dos homens que não tenha sido criado pelo Soberano de todo o universo. Não cremos em “geração espontânea” no mundo espiritual. Com exceção do pecado e da maldade, podemos dizer que tudo foi trazido à existência pelo poder, sabedoria e amor do grande Dominador, o Pai das luzes (Tg 1.17).

Entretanto, tudo o que Deus criou, Ele criou em estado de pureza e bondade (Gn 1.31). Visto que o Senhor é onibenevolente (totalmente cheio de bondade), é certo que Ele não criou satanás como satanás ou para ser satanás; nem criou os demônios como seres malignos, objetivando colocar propositalmente desordem na criação e embaraços diante dos homens. Ele os criou como anjos bons, criaturas belas, poderosas e dotadas de grande inteligência. Todavia, estes anjos “quando pecaram” (2Pe 2.4) e “não guardaram o seu estado original, mas abandonaram seu próprio lugar” (Jd v. 6), foram removidos de sua posição gloriosa, caíram em condenação e tiveram sua natureza pervertida pelo mal que abraçaram.

Acompanho a posição mais frequente entre os antigos Pais da igreja no que concerne à origem dos demônios, que é, segundo Esequias Soares, a de que “o diabo e os demônios são criaturas de Deus, [mas] a maldade deles não é inata, mas consequência do [mau uso] do livre-arbítrio” [1]. Embora seja difícil precisar em que momento exato se deu a queda destes anjos que se transformaram em demônios (há quem pense que ela se deu no céu, antes da criação do mundo; outros pensam que ela se deu após a criação), o fato é que nalgum momento se apartaram de livre vontade da justiça para que foram criados. Sua natureza foi pervertida irremediavelmente! A despeito do fatídico filme Noé (2014, direção: Darren Aronofsky) mostrar anjos caídos ajudando o patriarca Noé na construção da grande arca e finalmente sendo readmitidos na corte celestial – grotesca distorção da narrativa bíblica! -, a verdade é que para os anjos caídos não há qualquer propiciação ou redenção. Uma vez demônios, demônios para sempre!

  • A expulsão do querubim ungido

Orígenes, um dos pais gregos da Igreja no século III, costuma ser citado como destaque entre os cristãos na interpretação de que os textos de Isaías 14 (especialmente versículos 12 a 15) e Ezequiel 28 (especialmente, vv. 12 a 19) fazem alusões à queda do “querubim ungido”, que veio a ser satanás. Entretanto, como todos sabemos, Orígenes foi um grande teólogo alegórico, cujo método de interpretação das Escrituras muitas vezes abusava e extrapolava os limites do sentido original do texto.

A interpretação de Orígenes quanto aos textos de Isaías e Ezequiel foi acompanhada por outros antigos doutores, como Jerônimo, Ambrósio de Milão e Agostinho, considerado por muitos como o maior teólogo cristão do ocidente. Esta interpretação que vê referência à queda de satanás nas profecias de Isaías e Ezequiel é a que mais se popularizou entre os evangélicos, como se vê hoje, inclusive em notas explicativas de Bíblias de estudo, em comentários bíblicos e em manuais de teologia sistemática (com autores quase sempre reproduzindo o que ouviram e leram, e não fazendo uma exegese séria e profunda do texto). Não obstante, como pontuado por Esequias Soares, “grandes expositores da Reforma Protestante foram unânimes em não endossar essa ideia. Lutero e Calvino disseram que seria um erro aplicar o nome de Satanás aqui” [2]. Parece que o método histórico-gramatical de interpretação das Escrituras, tão preferido pelos reformadores, não tem sido levado em conta por muitos expoentes protestantes modernos.

Não disponho de tempo, espaço, nem condições suficientes para expor aqui uma exegese destes capítulos bíblicos dos profetas; todavia, adianto que estou muito mais próximo dos reformadores do que daqueles antigos Pais quanto à interpretação de Isaías 14 e Ezequiel 28 (ao final deste estudo disponibilizarei aos leitores um link do Youtube onde os interessados poderão assistir aquela que eu jugo ser a melhor exposição sobre demonologia, feita pelo Dr. Carlos Augusto Vailatti, onde ele inclusive explica estes capítulos dos profetas [3]). Não creio que estes capítulos possam estar nos oferecendo intencionalmente uma descrição dos motivos que levaram satanás ao precipício, ainda que para alguns “essas características [destacadas nos textos bíblicos] ultrapassam a de qualquer ser humano” [4]. Dou algumas razões da minha posição divergente:

  1. Uma das regras básicas da Hermenêutica, que qualquer aluno curioso de Escola Dominical já aprendeu é: o contexto explica o texto. Qual o contexto de Isaías 14 e Ezequiel 28? Descrições sobre o mundo espiritual? Narrativas sobre a queda do diabo? Profecias dirigidas aos espíritos das trevas? Não! De Isaías 13.1 a 14.23 o que temos são profecias dirigidas ao império babilônico, cuja derrocada é prenunciada a despeito de sua força e glória pujantes. O contexto começa identificando o destinatário da profecia, que não é o diabo: “Advertência contra a Babilônia…” (Is 13.1, NVI). Igualmente Ezequiel 28.1-19 tem seu destinatário identificado: “…Filho do homem, diga ao governante de Tiro…”. Até onde sabemos, o diabo não é a Babilônia, nem nunca foi rei de Tiro, embora “o mundo jaz no maligno” e o diabo seja “o deus deste século”!
  2. Nenhuma vez sequer estas profecias são citadas por Jesus ou pelos autores do Novo Testamento como sendo referências à precipitação do diabo. Aos que buscam uma “dupla aplicação” destes textos, pondero que de modo geral quando esta dupla aplicação existe sobre o texto veterotestamentária, ela nos é apontada pelos autores neotestamentários. O que definitivamente não ocorre neste caso. Deveríamos ser cautelosos ao dar interpretações à Isaías 14 e Ezequiel 28 que, além de não condizerem com os respectivos contextos, ainda não se podem ser sustentadas nos apóstolos do Senhor. Traçar um paralelo e concluir que porque Jesus via satanás “como raio, cair do céu” (Lc 10.18), as profecias daqueles antigos autores bíblicos devam necessariamente referir-se à queda do diabo é demasiadamente forçoso! Nem mesmo 1Timóteo 3.6, onde Paulo desaconselha a consagração do novo convertido ao episcopado “para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo”, pode ser tomado para endossar a interpretação de que Isaías 14 e Ezequiel 28 necessariamente referem-se à queda de satanás. Isto porque além de não haver uma correspondência direta entre os textos, os exegetas sabem que é difícil precisar o que Paulo está dizendo: se o obreiro neófito, devido o orgulho, cairia na mesma condenação em que caiu o diabo (daí inferiríamos que o diabo caiu devido soberba), ou se o obreiro neófito, devido o orgulho, cairia na condenação que o diabo faria contra ele, visto que o diabo é o “acusador de nossos irmãos” (Ap 12.10).
  3. A não ser que minha memória esteja enganada, não me recordo de nenhuma profecia dirigida diretamente à satanás. Sim, há profecias sobre a queda de satanás, como a do apóstolo Paulo aos romanos: “E o Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés” (Rm 16.20). Todavia, esta profecia não foi destinada ao diabo, mas aos crentes romanos! Paulo não remeteu sua carta ao diabo. Certamente Paulo, ou os demais autores bíblicos, não cometeriam o erro grotesco que se vê hoje em muitas igrejas pentecostais e neopentecostais, onde pastores e pregadores sem instrução chamam o povo para dar gargalhada na cara do diabo, soltar “uma rajada de línguas na cara de satanás” ou “cantar bem alto pra satanás ouvir”. Seria estranho que Deus usasse seus profetas para levar uma mensagem ao diabo, falando diretamente a ele nos termos “ó estrela da manhã, filha da alva” (Is 14.12, ARC) ou “tu és o aferidor da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura” (Ez 28.12). Creio que a regra aqui é simples: tudo o que Deus tiver de falar ao diabo, falará a ele pessoal e diretamente, não usando mediadores humanos para isso (a não ser nos casos de expulsão de demônios, onde, obviamente, a igreja está investida de autoridade, não para profetizar aos demônios, mas para manda-los embora no nome de Jesus – Mc 16.17).
  4. As profecias de Isaías e Ezequiel, sobre as quedas respectivas de Babilônia e de Tiro, estão cheias de linguagem metafórica e de hipérboles – o que é comum na linguagem profética do Antigo Testamento. A beleza e a grandeza destes reinos são propositalmente exageradas nas descrições dos profetas tanto para mostrar a aparente imponência destes reinos vaidosos quanto para enfatizar a tragédia e vergonha de sua queda. É tão equivocado, a meu ver, pensar literalmente que o rei de Tiro fosse um “querubim ungido” (Ez 28.14), quanto é igualmente errado supor que tal descrição refira-se ao diabo, quando o contexto, como já dissemos, não trata de satanás, nem outro lugar algum da Bíblia fale de satanás como um querubim. É mais sensato pensar que estas expressões sejam linguagens figuradas para ressaltar a beleza, riqueza e poderio destes reinos.

Quanto aos que insistem que estas profecias podem se referir sim à queda do anjo de luz, que pesem as declarações dos próprios textos bíblicos sobre a natureza desse ser: “É esse o homem que fazia tremer a terra, abalava os reinos” (Is 14.16, NVI) e “Mas você é um homem, e não um deus” (Ez 28.2, NVI). É de homens que estas profecias falam, e não de um anjo caído! Mas não contenderei com os que têm opinião adversa.

II. A batalha no céu

  • O arcanjo Miguel e o dragão

O texto de Apocalipse 12, cheio de simbolismos como é típico deste último livro da Bíblia, fala de uma grande batalha entre Miguel e o diabo, com os respectivos anjos que acompanham cada um (vv. 7-9). Satanás, que está representado na figura de um “dragão” (gr. drakon, monstro, grande serpente), é derrotado, precipitado dos céus e lançado na terra para suas últimas investidas contra os planos do Senhor.

Embora alguns façam uma interpretação preterista deste texto, isto é, pensem que se trata da queda passada de Satanás do céu com os anjos que o acompanharam em sua rebelião, creio não ser esta a interpretação adequada, visto que as revelações do Apocalipse dizem respeito “as coisas que brevemente devem acontecer” (Ap 1.1) e “as coisas que depois destas devem acontecer” (Ap 4.1). Portanto, Apocalipse 12 fala de uma batalha que ainda está por acontecer, e não que já aconteceu no passado remoto.

Acompanho eminentes intérpretes das Escrituras como Stanley Horton, Paul Fink, Charles Ryre e Dave Hunt [5], para os quais este texto do Apocalipse trata de uma batalha futura na qual uma nova derrota de satanás já está prenunciada. Aquele mesmo Miguel que outrora não ousou pronunciar juízo de maldição contra o diabo quando contendia com ele pelo corpo de Moisés (Jd v. 9), agora estará investido, junto com seus anjos, de autoridade para impor derrota ao diabo, e proteger o povo de Israel durante o período tribulacional [6]! Se Miguel estará investido de tamanho poder para triunfar sobre o maioral dos demônios, quão grande não é o poder do Deus que investiu seu arcanjo de tal autoridade? Aleluia!

  • A vitória final sobre satanás

Parece razoável concluir que, a partir de uma interpretação futurista de Apocalipse 12, satanás ainda hoje continue apresentando-se diante de Deus para acusar os nossos irmãos de dia e de noite, isto é, incessantemente (Ap 12.10). Há um acesso restrito de satanás à presença santa do Deus todo-poderoso, porém, muito em breve tal entrada lhe será recusada e ele será banido para sempre!

Há muitas batalhas quem vêm sendo travadas contra satanás desde o princípio. A primeira delas ele já perdeu, quando foi removido de seu domicílio celestial. Muitas batalhas satanás perdeu quando Cristo e seus discípulos expulsavam demônios das pessoas possessas e colocavam-nas em liberdade. Tudo isso foram golpes na antiga serpente. Sua cabeça, porém, foi pisada com força na cruz do Calvário, quando Cristo bradou “Está consumado” (Jo 19.30; Gn 3.15).

Ali, na cruz, e não no inferno como alguns pregadores sensacionalistas dizem, satanás sofreu uma dura derrota! Porém, seu domínio no reino espiritual e entre os homens não foi totalmente removido, embora ele já esteja sob julgamento condenatório. A serpente de cabeça esmagada continua a sacudir-se e fará de tudo para arrastar tantos quantos puder ao inferno. Outras batalhas são e serão travadas diariamente, até que a guerra seja finalmente vencida após o Milênio. Todavia, se o resistirmos firmes na fé, ele fugirá de nós (Tg 4.7). Os últimos capítulos da Escrituras – que não podem falhar (Jo 10.35) – nos garantem: “E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde está a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre” (Ap 20.10).

III. O maioral dos demônios

  • Sua identidade

Derivado do hebraico satan, ele é chamado de Satanás (que quer dizer “adversário”); derivado do grego diabolos, ele é chamado de diabo (que significa “acusador” ou “caluniador”, “aquele que provoca desacordo”). Os significados às vezes são intercambiáveis nos dois nomes. Ele é certamente nosso maior inimigo externo, que não cessa de procurar ocasiões para nos fazer pecar, desviar da verdade, lançar-nos em condenação ou privar-nos de seguir avante na obra de Deus.

Seu nome latinizado, Lúcifer, não é bíblico (embora algumas traduções tenham equivocadamente traduzido assim e acabem induzindo o leitor ao erro), mas respalda-se numa interpretação histórica, de que a “estrela da manhã filho da alva” (hb. helel ben shachar) de que fala em Isaías 14.12 seja o diabo (ao invés do rei de Babilônia). Entretanto, exegeticamente não há nenhum nome próprio citado no versículo 12 de Isaías 14, logo a tradução em latim mais adequada seria de um substantivo comum e não de um substantivo próprio: lúcifer (um título), ao invés de Lúcifer (um nome próprio). Aliás, diga-se de passagem que até mesmo Jesus é chamado de lúcifer, quando traduz-se para o latim a expressão “estrela da manhã” em Apocalipse 22.16. Mas alguém está disposto a chamar Jesus de Lúcifer?! É melhor nos despirmos desse equívoco!

  • Seu poder

É inegável que satanás seja um ser poderoso, mais até do que os homens e os demais demônios (2Ts 2.9), embora nenhuma criatura seja onipotente como Deus. É também inegável que existem “castas” ou “classes” de demônios mais poderosas que outras – as quais só se expulsa mediante oração e jejum (Mt 17.21). É pura infantilidade a atitude de alguns crentes ou igrejas que ficam “cutucando a onça com vara curta”, chamando o diabo pra briga, tentando expulsar demônios com línguas estranhas, ou pisando na cabeça do diabo durante os cultos, quando na verdade só estão dando aos descrentes motivos para riso e servindo de espetáculo para o reino das trevas. Reconhecer a força e as habilidades de nosso oponente é um dos primeiros passos para a luta e a vitória! Por isto é que Paulo diz: “não ignoramos os seus ardis” (2Co 2.11).

Veja que até mesmo Paulo reconhecia ter sido impedido pelo adversário de visitar os irmãos de Tessalônica (1Ts 2.18). Deus, porém, que é poderoso e sabe das trevas trazer a luz, encontrou nesse impedimento uma boa ocasião para a produção de tão importante carta apostólica que é esta primeira carta aos Tessalonicenses, onde inclusive temos preciosa informação sobre o arrebatamento da igreja (4.13-18)! Se Paulo tivesse logrado êxito em sua viagem à Tessalônica, esta carta não teria sido necessária e nós desconheceríamos o rico conteúdo dela. Quando satanás pensava estar embargando a obra de Deus, ele estava apenas dando pretexto para outra obra ainda maior! Bem dizia Lutero, o diabo está na coleira de Deus! O diabo pode colocar uma vírgula no nosso caminho, mas só Deus colocará o ponto final!

  • Seu domínio

Pelo menos de cinco formas a Bíblia evidencia ser satanás o grande líder do reino das trevas, sob cujo governo estão submissos os demônios. Satanás é chamado de:

1. Belzebu, o príncipe [isto é, o principal] dos demônios (Mt 12.24,26)
2. o diabo e seus anjos – o que demonstra que o inimigo tem os seus asseclas (Mt 25.41)
3. o príncipe deste mundo (Jo 12.31)
4. o príncipe da potestade do ar (Ef 2.2)
5. o deus deste século (2Co 4.4)

Na tentação de Jesus no deserto, o diabo mesmo declara ter proeminência espiritual sobre o mundo e suas glórias efêmeras: “… a mim me foi entregue [todos os reinos do mundo, v. 5], e dou-o a quem quero” (Lc 4.6). Jesus não refutou a satanás dizendo-lhe que ele estava enganado ou mentindo, pois, como o próprio Jesus afirmou, satanás é “o príncipe deste mundo”. A refutação foi contra a tentativa de comprar a adoração do Filho de Deus (v. 8).

  • Vigiar, sim; ter medo, não!

Pensando na monstruosidade de suas ações, o diabo é comparado a um dragão (Ap 12.7). Pensando na sagacidade e na ação de seu veneno, o diabo é comparado a uma serpente (Ap 12.9); de fato, ele foi a antiga serpente do Éden que seduziu Eva a comer do fruto proibido (2Co 11.3; Gn 3). Pensando ainda nas afrontas e ameaças, o diabo é comparado a um leão (1Pe 5.8). Todavia, sua monstruosidade, sagacidade e ameaças nada podem contra aquele a quem Deus guarda (1Jo 5.18), pois “maior é o que está conosco” (2Cr 32.7). O diabo é um valente, mas Jesus é mais valente que ele e já o venceu no deserto e na cruz! (Lc 11.21,22)

IV. O poder de Jesus sobre os demônios

Não me delongarei neste tópico, pois creio que ele será melhor e mais adequadamente trabalhado no tópico III da próxima lição. Todavia, é bom que ele esteja aqui como uma nota confortadora ao final de uma lição cujo assunto possa parecer indigesto para alguns irmãos ou até mesmo motivo de espanto para outros.

Uma parte considerável dos evangelhos, especialmente os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), abordam as obras de Jesus no que concerne aos milagres, curas e exorcismos. Para a terra espiritualmente “seca” de Israel (Is 53.2), onde o formalismo religioso tomava de conta e a religiosidade vã aliada à avareza no coração das grandes lideranças judaicas tornava-as indiferentes às necessidades espirituais do povo, Jesus apresentou-se com graça e poder do Espírito para evangelizar os pobres, curar os quebrantados de coração, pregar liberdade aos cativos, restauração da vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos, e anunciar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.18,19). E quantos cativos e oprimidos foram libertos por ele!

  • Sejam quais e quantos forem, Jesus é maior

Do moço lunático, Jesus expulsou um demônio que o oprimia com violência (Mt 17.14-18); de Maria Madalena, Jesus expulsou sete espíritos imundos (Mc 16.9; Lc 8.2). Do homem de Gadara, Jesus expulsou uma legião – talvez milhares de demônios estavam ali fazendo de domicílio o corpo daquele pobre infeliz! (Lc 8.26-33) Tantos demônios quantos Jesus encontrara a todos mandava embora! Os próprios demônios reconheciam Jesus, sua autoridade e poder para manda-los imediatamente para o inferno se assim ele quisesse (Lc 8.28,31).

Que Cristo mui poderoso o nosso! De tal modo é poderoso que ele reparte seu poder com a Igreja e não fica enfraquecido; ele dá e não sente falta; distribui e não diminui! Salvos por ele e em comunhão com ele, desfrutamos de seu imensurável poder, conforme declarou: “Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum” (Lc 10.19). Como dizia o Pr. Hernandes Dias Lopes, diante de Deus precisamos demonstrar humildade, diante do diabo devemos manifestar autoridade! Mas isso é assunto para a semana que vem, quando falaremos sobre a autoridade no nome de Jesus para expulsar demônios.

Conclusão

É certo que não podemos desenvolver obsessão por conhecer os espíritos das trevas além daquilo que nos está registrado nas Escrituras. Precisamos ter cuidado com a literatura mitológica (grega, romana ou africana), saturada de invencionices, superstições e engôdos; igualmente, devemos ser cautelosos quanto à literatura apócrifa, mesmo aquela produzida por antigos judeus e que eventualmente gozem de certo prestígio entre os teólogos, para que não incorramos no erro de dar demasiada confiança às “fábulas judaicas” (Tt 1.14; 1Tm 4.7). Também sejamos prudentes quanto aos supostos testemunhos de visões ou excursões ao inferno, que algumas pessoas, julgando-se muito espirituais, dizem ter vivido para depois sair por aí fazendo suas agendas, vendendo seus DVDs e apostilas sobre “as divinas revelações do inferno”. É melhor que nos contentemos com a dádiva das Escrituras, a inerrante Palavra de Deus, a revelação suprema e infalível!

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Referências

[1] Esequias Soares. Batalha espiritual: o povo de Deus e a guerra contra as potestades do mal, CPAD, p. 59
[2] Esequias Soares. Op. cit., p. 54
[3] Assista a aula do Dr. Vailatti sobre o tema demonologia neste link: https://www.youtube.com/watch?v=ebto2MUfwkk
[4] Esequias Soares. Op. cit., p. 55
[5] Stanley Horton. Apocalipse: as coisas que brevemente devem acontecer, CPAD, p. 159-170; Paul Fink em Enciclopédia popular de profecia bíblica (Tim Lahaye e Ed Hindson, eds.), CPAD, p. 102; Charles Ryre, Bíblia de Estudo Anotada Expandida, Mundo Cristão, Apocalipse 12.7, nota de rodapé; Dave Hunt. Em defesa da fé cristã: respostas a perguntas difíceis, 2° ed., CPAD, p. 221.
[6] Miguel é um arcanjo cuja referência na Bíblia está sempre atrelada aos cuidados com o povo judeu. Ele é chamado de vosso príncipe (Dn 10.21) e de o grande príncipe, que se levanta a favor dos filhos do teu povo (Dn 12.1). Segundo Horton, a mulher que é alvo da fúria do dragão em Apocalipse 12 “provavelmente represente Israel (o remanescente fiel)”. Sendo assim, faz todo sentido pensar em uma batalha angelical entre o arcanjo protetor deste povo e o diabo, que tentará a todo custo impedi-lo de ter acesso à salvação no período tribulacional – o tempo de angústia para Jacó (Jr 30.7) – , talvez até acusando os judeus pelos séculos passados de idolatria, ingratidão e por haverem entregue o próprio Filho de Deus para morrer. Suas acusações, porém, não prevalecerão.

 



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