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estudos bíblicos

A natureza do ser humano

O apóstolo Paulo exorta-nos à santificação de nosso ser por completo

Tiago Rosas

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Jovem de braços abertos olhando pro sol. (Foto: Zac Durant / Unsplash)

Dando continuidade ao nosso estudo dentro da antropologia bíblica, hoje estudaremos a natureza do ser humano em distinção a natureza de Deus e dos anjos.

É um assunto mais teórico e menos prático; no entanto, o estudo atento auxiliará no entendimento da nossa própria humanidade, bem como afugentará alguns mitos e equívocos quanto à nossa existência no corpo e fora do corpo, no presente e na eternidade.

A complexidade do ser humano

A natureza de Deus

“Deus é espírito” – é uma breve declaração de Jesus sobre a natureza de Deus (Jo 4.24). E “espírito não tem carne e osso”, também Jesus o afirma (Lc 24.39). O apóstolo Paulo diz que Jesus encarnado é a imagem visível do “Deus invisível” (Cl 1.15).

Assim, por não ter um corpo físico/material Deus é invisível aos homens. Quando a Bíblia fala de “mão de Deus”, “olhos de Deus”, “pés de Deus”, etc. está se utilizando de uma linguagem antropomórfica, isto é, atribuindo formas humanas a Deus para nossa compreensão acerca de sua Pessoa e de seu agir, ainda que Deus não tenha corpo igual ao nosso no céu. Deus sempre esteve invisível aos homens, menos quando ele se apresentou por teofania (manifestação visível de Deus), como no Antigo Testamento, ou por sua revelação através do Filho encarnado “Jesus Cristo, homem” (1Tm 2.5).

Na Trindade, apenas o Filho é semelhante aos homens sob os aspectos da constituição física, já que, uma vez concebido no ventre de Maria, Jesus recebeu corpo humano para nunca mais deixá-lo! Sua ressurreição foi literal e corpórea, e com o corpo ressurreto ele voltou para o Pai, de onde virá outra vez para nos buscar!

A natureza dos anjos

Semelhante a Deus em sua natureza, os anjos também são espíritos (“espíritos ministradores” – Hb 1.14), e assim sendo não possuem corpo material nem podem ser vistos pelos homens, e também não estão suscetíveis às leis da física, da química ou da matemática que regem o nosso universo. A criação deles certamente se deu na eternidade, antes da criação do mundo, quando não necessitavam de corpo físico e a matéria ainda nem existia.

A não ser que se apresentem por angelofânia (manifestação visível dos anjos – por exemplo, em Lc 2.13), estes seres espirituais passam e trabalham entre nós desapercebidamente.

Ouso dizer que não passa de mentira e puro emocionalismo o que se ouve em alguns cultos onde pregadores abusam da ingenuidade do povo, dizendo: “tô vendo anjo aqui, tô vendo anjo ali, tô vendo anjo passeando com bandeja na mão…”. Se de fato acontecesse uma angelofania, então todos os presentes veriam os anjos. Mas parece que só os pregadores movimenteiros tem este sexto sentido. Tragicômico!

A natureza dos homens

Embora de modo algum diremos que a natureza do ser humano é mais complexa que a de Deus (quem ou o quê pode ser mais complexo que Deus?!) ou dos anjos (em relação aos quais o homem foi feito menor – Sl 8.5), é fato inconteste que o homem se distingue dos seres espirituais em sua constituição física. Isso não faz dele maior ou mais complexo que os seres espirituais, mas apenas o faz diferente. Anjos continuam sendo maiores que os homens, e Deus continua sendo incomparavelmente maior que todas as suas criaturas!

Mas essa constituição material e imaterial, física e espiritual é realmente exclusiva da humanidade criada por Deus. E sendo assim, entre os seres inteligentes, tanto celestiais como humanos, somente o homem pode: desenvolver-se fisicamente, envelhecer, procriar e morrer.

O homem é um ser constituído de três elementos ou substâncias: corpo, alma e espírito (1Ts 5.23). Nem o Pai, nem o Espírito Santo, nem os anjos, nem os animais compartilham conosco desta tricotomia (três substâncias), senão apenas Jesus Cristo, visto que em sua encarnação ele se fez “semelhante aos homens” (Fp 2.7) e não se envergonha de nos chamar de irmãos (Hb 2.11), porque de fato recebeu corpo igual ao nosso, sujeito às mesmas fraquezas e limitações físicas.

Todavia, claro, por ocasião da ressurreição, este corpo humano de Jesus revestiu-se de incorrupção e imortalidade, e assim também acontecerá conosco, na ressurreição para a vida eterna (1Co 15.53); tendo adentrado aos céus, Cristo revestiu-se daquela glória que ele tinha junto ao Pai antes que o mundo fosse criado (Jo 17.5; Ap 1.12-18). O mesmo também se dará conosco, visto que seremos como ele é (1Jo 3.1-2).

As características do corpo humano

Materialidade

O corpo humano foi criado a partir da matéria já existente, o barro ou pó da terra (Gn 2.7), e assim sendo está sujeito a todas as limitações e condições que o tempo e a vida material lhe impõe: fome, sede, frio, cansaço, perigos, morte, etc.

Como matéria, o corpo humano foi feito por Deus uma máquina poderosíssima, cheia de engrenagens e nanopartículas cujo trabalho simultâneo garante o funcionamento dos nossos cinco sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar), além da expressão de nossos sentimentos, vontade e intelecto.

A ciência tem algumas informações interessantes a nos passar sobre a estrutura do corpo humano. Embora nossa aula na EBD não seja de biologia ou genética, são informações úteis para levar-nos a uma percepção semelhante àquela de Davi: de um modo especial e admirável fomos formados! (Sl 139.14).

Segundo especialistas, o organismo humano constitui-se de 216 tecidos organizados no esqueleto que possui 206 ossos. O cérebro tem um trilhão de células nervosas e seus sinais trafegam ao longo dos nervos até um máximo de 360km/h: uma mensagem enviada da cabeça para o pé chega em 1/50 de segundo. O cérebro de um homem pesa 1,4 kg; o cérebro de uma mulher pesa 1,25 kg. A organização do corpo humano é extraordinária e nem sempre é percebida pelo homem comum. O corpo humano tem 70% de água; tem 96.500 km de veias e artérias; tem 10 bilhões de vasos capilares; há 100 trilhões de células no corpo; o DNA é uma fábrica supercomplexa, que contém o código da vida.

Estamos plenamente convencidos de que o corpo humano, com toda esta complexa estrutura, jamais poderia ser fruto da evolução e de processos não-dirigidos. Ninguém jamais admitiria que um simples bolo de chocolate sobre a mesa apareceu ali após milhões de anos de evolução e mistura não dirigida dos ingredientes que o compõe. Por que deveríamos ser céticos o bastante ou ingenuamente religiosos evolucionistas para acreditar na evolução das espécies?

Visibilidade e tangibilidade

A propriedade visibilidade quer dizer que o corpo humano pode ser visto. E de fato o vemos! Sua alma e espírito, entretanto, são substâncias invisíveis. Sendo assim, ignore essas falsas notícias que circulam nas redes sociais de “imagens inéditas” de almas deixando o corpo das pessoas enquanto elas dormem ou após a sua morte, ou mesmo de supostas aparições de espíritos de celebridades mortas ou de parentes falecidos. Tudo não passa de montagem feita em computador ou lendas urbanas! Espíritos não podem ser captados pelas lentes de uma câmera fotográfica!

A propriedade tangibilidade quer dizer que o corpo humano é tangível, isto é, pode ser percebido pelo tato. Foi assim que Tomé tirou sua dúvida quanto ao Cristo ressurreto, quando o viu (visibilidade) e o tocou (tangibilidade). Maravilhado diante do Cristo que vencera a morte, então exclamou: “Senhor meu, e Deus meu!” (Jo 20.24-48).

Mortalidade

A alma e o espírito são imortais (uma vez criados por Deus jamais deixarão de existir), porém o corpo é suscetível à morte. Na verdade, tornou-se suscetível à morte com a entrada do pecado no mundo.

Contudo, esta propriedade do corpo não significa aniquilação final, já que tanto os justos como os injustos ressuscitarão (Jo 5.28,29), isto é, receberão seus corpos de volta (Ap 20.13), plenamente adaptados quer para o gozo eterno com Cristo e seus santos, quer para o sofrimento eterno com o diabo e seus anjos! Talvez você nunca parou para refletir nisso, mas os salvos entrarão no céu com corpo, alma e espírito; igualmente os ímpios serão lançados no lago de fogo com corpo, alma e espírito. Que glória indizível será para os santos e que sofrimento terrível será para os ímpios! Por isso Jesus falou em “choro e ranger de dentes”, o que pode sim ser entendido literalmente (Mt 13.50; Mc Lc 13.28)

Alma, o nosso elo com o mundo exterior

Alma e espírito são inseparáveis

O espírito nunca se separa da alma e vice-versa. Essas substâncias do nosso ser podem ser distinguidas, porém jamais separadas uma da outra! Isso porque o espírito e a alma juntos formam a nossa “pessoa espiritual”, e juntos ao corpo constituem o ser humano integral em perfeita unidade.

Espírito sem alma seria um espírito morto, o que é impensável; enquanto que uma alma sem espírito, seria uma consciência ambulante, sem existência própria, sem identidade, sem personalidade, o que é igualmente impensável.

A alma é a janela para o mundo exterior

É difícil, senão impossível, definir com precisão o significado de alma. Os dicionaristas por vezes não são muito claros ou didáticos na explicação, o que acaba não auxiliando muito o crente leigo. Também é comum na comparação entre diferentes dicionários, vermos significados de alma e de espírito sendo usados intercambiavelmente, o que gera mais confusão que compreensão.

Isso, porém, não é de se estranhar, visto que em geral os próprios escritores bíblicos, de uma forma especial os do Antigo Testamento, não fazem distinção precisa entre nephesh (alma em hebraico) e ruah (espírito em hebraico). A Bíblia não foi escrita como um livro de teologia sistemática, onde possamos encontrar a matéria Antropologia com essas conceituações feitas detalhadamente pelos autores bíblicos. Com a revelação progressiva do Novo Testamento é que se percebe mais claramente uma distinção entre psyche (alma, em grego) e pneuma (espírito em grego). Entretanto, mesmo assim, persistem algumas dificuldades na compreensão da natureza de cada uma dessas entidades. Realmente, só a Palavra de Deus pode discernir a “divisão da alma e do espírito” (Hb 4.12).

Por considerarmos uma das mais sucintas e, no entanto, mais lúcidas conceituações de alma, partilhamos com o leitor essa definição de Menzies e Horton:

Pode-se dizer que o termo “alma” é usado teologicamente para denotar o próprio “eu”, particularmente em relação à vida consciente, aqui e agora (Ap 6.9). A alma humana provê a nossa autoconsciência [consciência de que existo e de quem sou]. É a alma que torna o indivíduo uma personalidade genuína, dotada de características ímpares. As faculdades da alma, comumente consideradas, são: intelecto, emoções e vontade. Juntas, essas qualidades compõem a pessoa real.[1]

A separação da alma e do corpo gera a morte

A experiência de morte é justamente essa separação entre o nosso ser interior (alma e espírito) e o ser exterior (corpo).

Quando morre o ímpio, seu ser interior já entra em sofrimento (embora a condenação final e o sentenciamento ao lago de fogo só virão no juízo final, o que agravará ainda mais o estado eterno dos perdidos – Ap 20.15); quando morre o salvo, seu ser interior já entra no repouso, embora também este ainda não seja seu estado eterno, já que a ressureição final dos justos lhe devolverá o corpo pelo qual ele entrará no “gozo do seu Senhor” (Mt 25.23; Ap 21.3-5).

O espírito e o nosso contato com Deus

Diferentemente do que ensinam os materialistas, para os quais a existência humana se reduz à matéria, cremos piamente que o homem é um ser material, mas também espiritual, e tem diante de si uma eternidade para viver, seja diante de Deus no céu, ou junto com o diabo no inferno.

O que é o espírito

Espírito é o nosso próprio ser interior revestido pela alma que lhe dá consciência. Deus é espírito, porque não tem corpo físico (Jo 4.24); nós não somos espíritos, mas temos espírito, e também somos constituídos de corpo. É esse espírito do homem que sobe até Deus após a sua morte (Ec 12.7). Por isso Jesus orou na cruz: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23.46).

A existência da alma e do espírito, que permanecem mesmo após a morte física e com os quais o homem se relaciona com o mundo espiritual, é um ensino bíblico inquestionável, ainda que seus detalhes possam constituir-se um mistério para nossa limitada inteligência. Veja-se, só a título de exemplo, a parábola contada pelo próprio Jesus sobre um certo rico e um certo mendigo chamado Lázaro, cujo enredo em sua maior parte se dá num ambiente espiritual, após a morte de ambos (Lc 16.19-31).

O elo entre o nosso corpo e Deus

O espírito do homem lhe foi dado para que ele estivesse em comunhão com o Deus que é espírito. O sucesso desta comunicação é garantido pelo Espírito Santo, quando o crente a ele se submete para fazer a Sua vontade. Diz o apóstolo Paulo: “Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne” (Gl 5.16).

Visto que o espírito é o canal através do qual o homem pode conhecer a Deus e as coisas inerentes ao seu domínio (“o Espírito de Deus testifica com o nosso espírito” – Rm 8.16), precisamos manter esse canal desobstruído de sujeiras e fluxo de coisas impuras; do contrário, sua relação com Deus estará prejudicada ou mesmo interrompida.

A sede de nossa comunhão com Deus

O apóstolo Paulo exorta-nos à santificação de nosso ser por completo, começando de dentro pra fora (pois assim é o processo de santificação): “espírito, alma e corpo” (1 Ts 5.23). De fato, o espírito é a sede de nossa comunhão com Deus, por isso a santificação deve começar em nosso interior, permeando todo o nosso ser! (Mt 23.26)

De que modo integramos nosso ser por inteiro na santificação, comunhão e adoração a Deus? De muitas formas:

  1. Orando regularmente (1Ts 5.17)
  2. Meditando diariamente na Palavra (Sl 1.2; Cl 3.16)
  3. Jejuando com frequência (Jl 2.15; Mt 17.21. OBS: se o alimento fortalece o corpo, o jejum fortalece o espírito, quando o crente põe-se diante de Deus em consagração)
  4. Participando da comunhão com a igreja local (At 1.13,14; Hb 10.25)
  5. Alimentando-se da leitura de bons livros (2Tm 4.13)
  6. Enchendo-se do Espírito Santo (Ef 5.18)
  7. Adorando a Deus com cânticos espirituais (Ef 5.19)
  8. Através do dom de línguas (1Co 14.4) – este é um dom, inclusive, cuja edificação se dá diretamente em nosso espírito, mesmo que nossa mente não compreenda o que nosso espírito está falando misteriosamente com Deus.

Conclusão

Ao findar deste estudo estejamos mais conscientes de quem somos hoje e do que viremos a ser. Devotemo-nos integralmente ao Senhor todos os dias para que sejamos por ele aperfeiçoados até chegarmos a ser “homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4.13).

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Referência

[1] William Menzies e Stanley Horton. Doutrinas bíblicas: os fundamentos da nossa , CPAD, p. 68

Casado, bacharel em teologia (Livre), evangelista da igreja Assembleia de Deus em Campina Grande-PB, administrador da página EBD Inteligente no Facebook e autor de quatro livros.

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