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opinião

Sobre a necessidade de um diálogo evangélico-liberal

Diálogo com respeito é uma necessidade.

Braulia Ribeiro

em

Ringue de Boxe (Attentie Attentie / Unsplash)

Estudei por três anos para completar meu mestrado em divindade numa escola de teologia super liberal nos EUA. Antes disto eu estava fazendo um doutorado em missiologia num seminário na Califórnia, bastante respeitado no meio evangélico internacional.

O curso no seminário me pareceu redundante e tedioso, afinal de contas eu estava imersa no assunto há 30 anos, acabei sendo reprovada, (vergonha total, fui reprovada em missiologia) mas não desisti.

Graças ao conselho de um professor do próprio seminário, e do Dr. Luís Wesley a quem sou muito grata, professor de uma grande universidade americana, acabei entendendo que o caminho para mim era mesmo uma incursão pela academia dita “secular”.

Aceitei uma bolsa de uma universidade da “Liga da Era”, bolsa integral, generosa, que nem o seminário evangélico me havia oferecido.

Foram três anos de um grande esforço, 4 a 5 matérias por semestre, contato de 3 horas e meia no mínimo em sala de aula cada matéria. A aventura exigiu uma dedicação de 16 horas de estudo por dia para que eu pudesse manter as notas que me garantiriam a bolsa.

Esta nota autobiográfica é necessária para introduzir o assunto deste artigo. Durantes estes três anos eu fui uma pentecostal num ambiente 99% liberal, um atum no meio de um tanque de tubarões.E pior, uma pentecostal extrovertida, autoconfiante e de sensibilidade política conservadora, praticamente uma isca destas que brilham à noite.

Experimentei abuso, pressão por parte dos professores? Me senti obrigada a abraçar certas ideias para não ser eliminada? Fui o centro de chacotas por causa da ? Vi minha fé tratada com desrespeito? Pode continuar fazendo perguntas nesta linha que a resposta vai ser sempre não. Foram três anos de liberdade, desafio intelectual intenso, novas amizades e boas conversas, na maior parte do tempo eu sentia que tinha ido para o céu sem morrer.

Claro que encontrei alguns professores arrogantes, principalmente os mais jovens que militavam por alguma causa identitária. Mas na maioria das vezes fui tratada com respeito e principalmente como alguém que tinha o direito inquestionável de expressar um ponto de vista diferente.

Participei de conferências com as quais discordei 100%, servi como promotora de mídia social para um programa cuja agenda era completamente oposta a tudo o que acredito politicamente. Mas eles me respeitavam sabendo que eu pensava diferente e eu os respeitei enquanto trabalhei para eles.

Não me calei sobre os meus pontos de vista, escrevi textos fora da linha preferida do professor sem com isto prejudicar minhas notas. Uma instituição acadêmica de respeito considera importante que o aluno saiba construir seu argumento com precisão e honestidade, e não que ele concorde com este ou aquele dono da verdade.

Participei de muitos cultos litúrgicos, ministrados por gente de todo tipo. Chorei em todos ou quase todos. Chorava de gratidão, chorava de compaixão por alguns corações ao meu redor, algumas vezes chorei de frustração. Mas sempre senti a presença do “Amado de minh’alma.”  A presença de Deus, eu aprendi, não é refém de nossa humanidade. Deus é o que é, e o “sentir” a presença depende mais de mim mesma, de meu estado de espírito e abertura para o divino, do que do outro.

Continuo no universo da teologia liberal, desta vez estudando numa universidade do Reino Unido que até pouco tempo foi a casa-acadêmica de NT Wright. Tive oportunidade de ir à palestra que marcou a sua aposentadoria. Professores de várias linhas teológicas diferentes, pouquíssimas que seguem a ortodoxia evangélica, todos expressaram com eloquência seu respeito pela pessoa de Tom Wright, homem digno, honesto, e que pelo jeito, vive o que prega.

Por que escrevi isto? Para me lamentar pelo cenário teológico brasileiro. Os ataques constantes entre um lado e outro, o clima de ódio e desrespeito, não permite nenhum diálogo produtivo. Pelo bem de nosso país, e da igreja ainda imatura que temos no Brasil, precisamos aprender o valor do respeito mútuo e do diálogo. Talvez alguns mais atentos vão dizer que estou sendo incoerente ou hipócrita porque já publiquei neste mesmo site respostas ao Ed René Kivtz e ao Yago Martins.

Se você é um destes, volte aos artigos e observe que eu não ataquei a pessoa deles, mas dialoguei com as ideias que eles professam. Não sou avessa ao diálogo e nem ao embate de ideias. Podemos sim discordar uns dos outros. Diálogo com respeito é uma necessidade. O que não é ético é tornar a nossa voz de pastor, de evangélico, de líder, na voz de um inquisidor medieval.

Num Brasil em que o STF e o Congresso em arroubos fascistas se sentem no direito de silenciar pessoas por serem produtores de conteúdo favorável ao presidente, nós os evangélicos teríamos que pelo menos tentar ser um modelo de tolerância.

Ao invés disso, embarcamos juntos na onda do ódio dogmático. O UFC religioso está em plena temporada. Os dois lados, o evangélico e o liberal, são donos da verdade. Um lado galopa altivo montado numa espiritualidade presunçosa que os permite chamar todos os que discordam deles de “filhos do demo”. O outro lado se mune de um absolutismo racional que só pertence a eles, menosprezando a capacidade acadêmica e intelectual de todos os demais, donos únicos da verdade divina e política.

Os dois lados presumem mau-caratismo e canalhice no outro, e não poupam insultos aos opositores. O pior é que esta briga de ringue de vale tudo é pública. É uma briga sem cerimônia, feita muitas vezes no púlpito, outrora um lugar de ensino positivo, mas agora usado ora como palanque eleitoral, ora como megafone de campo de concentração traulitando clichês para assegurar a uniformidade de pensamento do rebanho. É uma briga pública travada no Twitter, no Facebook, no Instagram.

Quando vamos sair do jardim da infância da fé e trabalhar juntos para que o que é essencial no cristianismo não se perca para as próximas gerações? Pode ser que este ideal da co-beligerância seja alto demais, impossível demais. Mas e um respeito silencioso, que tal, será que é pedir demais? Que tal evocar uma consciência de nossa limitação humana e reconhecer pelo menos a possibilidade de não estarmos 100% certos em um ponto ou outro? Que tal em nome do que reconhecemos ser um atributo unicamente divino, a infalibilidade e a onisciência, permitir ao outro o espaço para o diálogo?

O pior de tudo é que a sociedade “secular” está muito intolerante. Visões políticas radicais que pedem o cancelamento, e em alguns casos a aniquilação do oponente se tornam parte do “normal”. O que nós cristãos temos a dizer aos jovens que hoje pensam que matar o outro em nome da cor de sua pele, de sua opção sexual, partido político, presidente favorito é um ato de justiça?

E como este espírito de intolerância vai dando ares de rigor moral ao banal, fica-em-casa, uso de máscara, fé absoluta na convicção “científica” do momento, não posso deixar de pensar que a tendência evangélica de moralizar e dogmatizar o que não é moral e nem deveria ser um dogma, é diretamente responsável por esta atmosfera cada vez mais tóxica, cada mais irrespirável.

Parabéns para nós. Afinal de contas somos sim, muito influentes.

Trabalhou como missionária na Amazônia e no Pacífico Sul. É Mestre em Divindade pela Universidade de Yale, Estados Unidos, e doutoranda em história e teologia política na Universidade de St. Andrews, Escócia. É autora dos livros Chamado Radical e Tem Alguém Aí Em Cima?, publicados pela Editora Ultimato. É casada com Reinaldo Ribeiro e mãe de três filhos.

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