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estudos bíblicos

Ser religioso é realmente o nosso problema?

Cuidado para que numa busca por uma santidade suprarreligiosa não flerte propostas revolucionárias “para além do bem e do mal”.

Reinaldo Batista

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Bíblia no banco da igreja. (Annie Spratt / Unsplash)

Religiosidade e imoralidade são altamente excludentes, e só a primeira é capaz de revelar o verdadeiro arrependimento do pecador. Isso acontece quando a perversidade dá lugar à prudência, ao amor e à santidade.

O artigo “Religiosidade é pior que imoralidade”, publicado nas páginas deste portal de conteúdo cristão, pareceu-nos um tanto estranho.

E esta estranheza corresponde à relação feita entre dois conceitos antitéticos cuja assimetria não pode ser entendida em termos conjuntivos de “um e outro, qual é pior? “, mas sim como uma disjunção: “um é bom e o outro é ruim”.

Dito de outra forma, a religiosidade não pode ser equiparada à imoralidade como se ela fosse sinônimo de um mal moral, pois, se fosse assim, poderíamos afirmar, de forma inversa, isto é, que a irreligiosidade (ou a-religiosidade) seria melhor do que a religiosidade. E isso, suspeitamos que não seja uma alternativa ao escritor do referido artigo. Então só me resta a opção disjuntiva: ou alguém é religioso ou é imoral (mas não amoral).

Dito isto, caímos inequivocamente noutro extremo, a saber, ou somos irreligiosos (ou a-religiosos) ou somos morais. Esta conclusão lógica não vai ao cerne da questão, e perde muito de sua verossimilhança se lembrarmos que alguém pode ser moral sem ser necessariamente um religioso. Mas um religioso não pode ao mesmo tempo ser um imoral.

Religiosidade e Imoralidade são conceitos mutuamente excludentes. E essa disjunção se dá de tal forma que a religiosidade só poderá ser pior do que a imoralidade para quem é a-religioso ou amoral; ou, em termos nietzschianos, para aquele que está para “além do bem e do mal”, pois é o único capaz de julgar os dois conceitos mutuamente contraditórios apenas como concorrentes, como que de fora deles. O problema é que o oposto de religiosidade não é imoralidade e sim irreligiosidade. E à imoralidade não se contrapõe a religiosidade, mas a moralidade.

Se há alguma confusão aqui, ela não é apenas de natureza lógica ou de caráter conceitual, mas especificamente um problema terminológico, pois, suspeitamos que o escritor do artigo confundiu religiosidade com hipocrisia. E julgamos que a sua máxima poderia ser mais persuasiva se se concluísse que a hipocrisia, dada a sua perversidade, fosse pior que a imoralidade.

No sentido romano, o religioso pode ser imoral sem negar o alicerce de sua crença nos deuses, pois conceitualmente falando, religare é ser ligado ao passado por meio de uma tradição que, em última instância, repousa na autoridade do senatus. A religião grega, por sua vez, estava baseada em uma tradição popular – o orfismo, por exemplo – cujo suprassumo da moral da pólis não estava escrito num livro sagrado.

Mas a religiosidade judaico-cristã não admite imoralidade. Ela está bem delimitada e completamente fundamentada em códigos morais extremamente explícitos, de tal forma que a não observância desses parâmetros escritos implica em irreligiosidade, ou melhor, em imoralidade. Por isso a religiosidade não pode ser igual, ou pior do que, a imoralidade.

Se por “religiosidade” entendermos “hipocrisia”, então, mesmo com certa incongruência terminológica, o movimento do texto passa a fazer mais sentido. Pois quando lermos que “o religioso, por sua aparência de piedade, é um pecador vacinado contra o arrependimento”, entenderemos que é o hipócrita, e não o religioso, que, “envenenado” pela sua máscara, vive resistindo ao arrependimento.

Mas, caso mantivéssemos esta sentença, e a atribuíssemos ao religioso, poderíamos lembrar que a “aparência de piedade” do religioso é reveladora daquilo que de fato ele é, a saber, piedoso. Disso podemos concluir que o pecador “vacinado contra o arrependimento” não seria o religioso, mas um pseudorreligioso.

A fim de evitar mal-entendidos, devemos entender que o hipócrita grego designava o próprio ator, já o seu correspondente latino, a persona, era a máscara afixada ao rosto do ator de acordo com a peça. E essa linguagem teatral já demonstra que o papel do hipócrita, em nossa abordagem, é parecer ser, sem que essa aparência tenha correspondente na realidade. Pois, ainda que, particularmente, o hipócrita grego pudesse atuar em detrimento da máscara, ou a persona romana permitisse a fala do seu ator, de forma geral, tudo não se passava de um teatro.

Eis a natureza da hipocrisia: a dissimulação. Assim sendo, temos que é a hipocrisia, e não a religiosidade, sinônimo da imoralidade.

O autor ajuíza que a religiosidade “bloqueia os pecadores contra o arrependimento”. Aqui o que vejo é a equiparação entre religiosidade e incredulidade. E revela uma contradição em termos, pois o que impede o arrependimento não é a religiosidade e sim a incredulidade. Deus não endureceu o coração de Faraó com a religião, mas com a incredulidade, a impossibilidade de crer na urgência do povo por adorar fora do Egito.

Quando o escritor cita Mateus 21:28-32 a incredulidade dos fariseus é interpretada em termos de religiosidade. E, ainda no mesmo trecho, é-nos dado um outro sentido dessa suposta religiosidade, a hipocrisia: “Aprendemos a falar e nos comportar com ares de bons cristãos e, com isso, encobrir nossa desobediência”. Mas quem encobre a sua própria desobediência não é o religioso, é o hipócrita movido pela sua incredulidade.

E quando o texto caminha para a conclusão, o autor nos diz: “A aparência de obediência não está entre os pecadores; está entre os religiosos. Já a verdadeira obediência nem sempre está com eles”. A tautologia deste enunciado saltaria aos nossos olhos, se não fosse um detalhe: o pecador pode sim parecer obediente, e o religioso em dados momentos peca.

Não foi a civilização grega ou romana que deu origem à religião. Se buscarmos a origem desse fenômeno enquanto uma religação (religare) com o sagrado, deveremos voltar a Gênesis 4.26, quando o neto de Adão, da linhagem de Sete, chamado Enos, nasce.  Foi nessa época que se “começou-se a invocar o nome do Senhor”.

Desde os antigos, a religião nunca foi equiparada com a perversidade, nem com o veneno. E quando há críticas a atos execráveis de alguns supostos religiosos, falava-se em uma falsa religiosidade. É assim que vemos desde Tiago, que fala em “verdadeira” religião, os teólogos apologistas do século IV d.C., como Agostinho de Hipona, que se emancipou “do falso conceito de Deus”, e até mesmo no século XX, com Clive Staples Lews, que faz uma crítica das “concepções concorrentes de Deus”.

Desses três, o apóstolo Tiago é o mais enfático ao dizer que há pessoas que se consideram religiosas sem o ser, pois a religião que Deus aceita tem características bem definidas.

Ser religioso, segundo essa definição é “cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e, especialmente, não se deixar corromper pelas filosofias mundanas”. Aqui são desveladas duas características da religião, além da prudência das palavras: o amor e a santidade.

Mas Tiago também fala de uma pseudorreligião, e esta, não tendo valor algum para Deus, não tem, portanto, verdadeiro valor religioso. A insensatez dos falatórios profanos, da blasfêmia e das más conversações por parte do autoproclamado religioso submete-o a um estado de autoengano, um desacordo consigo mesmo. “Sua espiritualidade não tem valor real algum!” (Versão King James).

Tememos que numa busca por uma santidade suprarreligiosa estejamos flertando com as propostas revolucionárias modernas de uma cultura cuja ética esteja “para além do bem e do mal”, ou de uma nova espiritualidade, para a qual a religião se apresenta apenas como “o opium do povo”.

E, em detrimento do “politicamente correto”, receamos também que, começando com o termo “religião”, coloquemos de lado a Religião, “que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada”; e tudo isso em prol de “um contínuo quebrantamento e reconhecimento de quanto dependemos de Deus Para tudo”. Isso seria no mínimo paradoxal.

Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Professor da EBD na Primeira Igreja Batista de Amargosa-Ba. Bolsista de iniciação científica CAPES/UFBA. Experiência docente nos níveis superior e básico. Atua na área de Filosofia Política Contemporânea.

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