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Opinião

Plantar igrejas ou abrir CNPJs?

As motivações pessoais são fundamentais para a unidade do Reino e para a saúde das igrejas estabelecidas.

Carlito Paes

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Templo evangélico no campo. (Foto: Andrew Seaman / Unsplash)

A princípio, em uma leitura superficial, essa pode até parecer apenas uma questão semântica. Não é tão simples assim. Existem conceitos bem diferentes por trás das duas expressões. Precisamos cuidar para que não façamos a coisa certa da forma errada.

Não podemos confundir a orientação bíblica de plantar e estabelecer igrejas de forma orgânica e espiritual – expandindo o Reino de Deus na Terra, salvando vidas e edificando o Corpo de Cristo – com o simples planejamento para análise e abertura de novas igrejas locais como uma prática comercial de expansão de filiais de uma organização.

Essa dinâmica gera movimentação de membros entre igrejas e ampliação de ministérios locais, porém, por adesão, e não diretamente por meio do evangelismo e de conversões à fé em Jesus.

Não devemos diminuir a grandeza de expansão do Reino ao confundirmos plantar novas igrejas com o simples fato de abrir uma nova unidade da nossa igreja ou denominação.

Não que isso seja um pecado em si, porque Deus abençoa e usa diferentes estratégias por Sua graça e misericórdia, porém, elas não estão no plano da vontade diretiva de Deus; estão mais para vontade permissiva Dele.

Precisamos fazer sempre a coisa certa da forma certa, já que, para nós, os meios não justificam os fins, antes, tantos os meios quanto os fins precisam ser pautados pela ética e integridade. Isso infere, inclusive, no cuidado com os relacionamentos interpessoais que envolvem nossos irmãos de fé.

Sou pastor de igreja local há quase 30 anos, já servi em 3 estados diferentes do Brasil e em igrejas batistas distintas. Desde 1997 estou à frente da mesma igreja na cidade de São José dos Campos (SP) que, pela graça de Deus, cresceu de 620 membros para mais de 13.000 membros na mesma cidade, além das igrejas plantadas em outros municípios, gerando nestes últimos 8 anos uma membresia de 6.000 pessoas em 21 igrejas.

Tenho viajado por todo país ministrando para pastores em seminários e conferências de liderança, já tendo pregado em todas as capitais estaduais do nosso país.

Tenho feito mentoria com pastores há muitos anos, seja na denominação, no antigo movimento do Purpose Driven, na AIBC (Aliança das Igrejas Batistas em Células), no GKPN (Global Kingdom Partnership Network) e, na última década, na Rede Inspire de Igrejas no Brasil e em algumas cidades no mundo. Em todas essas esferas, converso com muitos líderes e vejo que muitos estão atravessando crises e divisões em seus ministérios.

A maioria destas crises vêm de líderes de suas próprias igrejas locais, pessoas que foram discipuladas e treinadas por eles, que ganharam liderança, visibilidade e influência e que, em determinado momento, não se submeteram aos processos e saíram para plantar suas próprias igrejas, levando consigo um grupo daquela igreja local e gerando uma situação crítica naquela comunidade, provocando divisão e sequelas.

Plantar igrejas é uma grande necessidade no Brasil e no mundo. Como afirma meu amigo, pastor e consultor Michael Brodeur, “a melhor época para plantar igrejas era alguns anos atrás, a segunda melhor época é agora”.

Eu planto igrejas e incentivo igrejas a fazerem o mesmo, porém, temos que entender que este é um assunto sério e espiritual, que não pode ser realizado de qualquer forma. Não se planta igrejas com base na insatisfação pessoal. As motivações pessoais são fundamentais para a unidade do Reino e para a saúde das igrejas estabelecidas.

O fenômeno de mudança de membros entre igrejas e migração de igrejas não se explica tanto pelo aspecto teológico, mas muito mais pelo psicológico e social. Existe muita gente doente indo, de forma ilusória, atrás de pessoas doentes. Obviamente, isso não é uma afirmação que se generaliza a todos, porém, sabemos que muitos casos nascem da negação de suas próprias crises pessoais. É mais fácil perseguir um alívio momentâneo do que resolver um problema como se deve. Contudo, é só questão de tempo até que novos atritos, crises e cisões sejam gerados.

Uma igreja saudavelmente plantada não é fruto de uma tentativa fundamentada na emoção. Ela deve ter uma igreja como mãe e pastores mais experientes por perto para prover mentoria. Tenho dito que a parte mais fácil de se começar uma igreja é alugar um salão, pintá-lo de preto, colocar algumas luzes led, montar uma banda legal com artistas de outras igrejas e chamar tudo isso de church.

Contudo, o mais difícil será evangelizar, ganhar pessoas, batizar, discipular, tratar, cuidar, pastorear, exortar em amor, instruir em justiça, multiplicar, pastorear com zelo e ética e enviar. É mais difícil lidar com o Estado, com a sociedade e com as ovelhas e travar batalhas diárias contra o inimigo. Isso tudo é o difícil, e também é nisto que muitos se perdem.

Para quem deseja fazer da forma correta, recomendo a leitura do livro Enraizado, de Banning Liebscher (Editora Inspire). Atravesse com processos com sabedoria, etapa por etapa, sem cair na armadilha de tentar gerenciar suas situações ao transformar pedras em pão. Lembre-se sempre de que você pagará o preço agora ou depois, mas, se não respeitar os processos de Deus, será apenas uma questão de tempo até que tenha que pagar.

Não faço tais afirmações por ter uma igreja estagnada e perdendo membros, pelo contrário, na igreja local onde sirvo batizamos 1.580 novos membros em 2019 e neste ano, já tivemos 248 batismos. Além de 21 igrejas plantadas em 8 anos, estamos plantando atualmente 23 novas igrejas, hoje em estágio de células, todas iniciadas por meio de impactos evangelísticos, ações nas casas, projetos de Casas de Paz e células.

Escrevo sobre este tema com o intuito de ajudarmos uns aos outros e unirmos o Reino de Deus. Precisamos plantar novas igrejas com o alvo de alcançar pessoas sem Jesus, não para atrair crentes insatisfeitos. Como disse Rick Warren: “É necessário existir todo tipo de igreja, para alcançar todo tipo de pessoa”.

Mas o que temos visto recorrentemente é mais do mesmo. Ou ainda, pior do que o mesmo, porque as lideranças já começam com o coração doente. Até hoje, nunca passei por estas duas tristezas: ter um pastor de minha equipe divorciado e, tampouco, ter um membro da equipe pastoral sair de nossa igreja local para abrir uma nova igreja de forma equivocada. Isso não é um troféu, mas um cenário destes 23 anos de muito trabalho numa mesma cidade.

Contudo, tenho consciência de que é uma realidade que pode mudar no futuro, porque não temos o controle sobre o coração das pessoas. Em contrapartida, buscamos sempre em nossa realidade local iniciar novas igrejas nas casas a partir da referência bíblica: “Saudai aos irmãos que estão em Laodiceia, bem como Ninfa e a igreja que se reúne em sua casa” (Colossenses 4:15).

A plantação de igrejas biblicamente saudáveis começa nas casas e, com o crescimento orgânico e natural, cremos na multiplicação das células até a implementação de reuniões mensais e então no aluguel de um local para uso compartilhado. A partir de 5 células consolidadas, passamos a considerar um lugar fixo para publicamente estabelecer uma igreja local.

Quando simplesmente ignoramos algumas etapas, chegando a uma cidade já fazendo reformas em um bom ponto comercial e marcando o lançamento com um cantor famoso, pulamos a fase do evangelismo pessoal e dos pequenos grupos nas casas, atraindo assim os descontentes com suas igrejas. E muitos vêm com vários tipos de situações e feridas não tratadas.

Como chegam a um novo lugar, será só questão de tempo para que surjam novas divisões, fruto da insatisfação pessoal e emocional, e não da vontade de Deus. Consequentemente, chegamos ao estágio de hoje: muitos pastores órfãos, que não se submeteram à filiação, falando de paternidade espiritual.

É fato, também, que precisamos plantar igrejas no sertão nordestino, entre os ribeirinhos, nas pequenas cidades e povoados do Brasil e nas comunidades carentes dos grandes centros. A vontade e Deus não consiste em fazer o que é mais fácil, mas no que Ele mandou fazer e no que é correto. Vivo já há 23 anos numa cidade de 700 mil habitantes, moderna e tecnológica, e a partir dela estamos plantando igrejas onde muitos não querem nem mesmo ir.

Criticar o que grandes igrejas fazem é fácil, difícil é construir o que elas construíram ao longo dos muitos anos. Não existe benção na desonra. A honra precede a colheita!

Concluo reafirmando: ganhe vidas e plante igrejas, isto é sábio e nobre; mas não se iluda em apenas abrir uma nova filial, um novo CNPJ e convidar adeptos pela internet.

Pode até parecer fácil fazer desta forma, mas, com o tempo, a obra de cada um será revelada. Plantar uma igreja é desafiador; abrir uma firma religiosa gospel é bem fácil. O que Deus te mandou fazer?

Juntos pelo Rei e pela expansão do seu Reino!

Carlito Paes, pastor Batista, Palestrante e Escritor. Bacharel e Mestre em Teologia, Pastor Líder da Igreja da Cidade em S. J. dos Campos-SP. Fundador da Rede de Igrejas da Cidade e da Rede Inspire de Igrejas, autor de 26 livros públicados pelas Editoras Vida e Inspire e fundador de diversas organizações ministeriais como Colégio Inspire! Escreve semanalmente para o Jornal O Vale e para o Gospel Prime, casado com Leila Paes, pastora e psicóloga, vivem em SJC desde de 1997 com 4 filhos!

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