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opinião

A crise do poder eclesiástico

A crise de nosso tempo exige a reflexão quanto aos modelos de manutenção de poder.

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Pastor sentado no púlpito da igreja. (Ben White / Unsplash)

Muito mais do que um pregador, do que um conselheiro ou mesmo do que um assistente social, o pastor é um líder que exerce o poder da liderança sobre seu rebanho. Se é grande a responsabilidade de um líder político, que recebeu sua autoridade por meio do voto popular, quanto mais um líder eclesiástico do qual se acredita que recebeu sua autoridade de Deus.

No entanto, o exercício do poder mudou muito nos tempos atuais. A pós-modernidade trouxe mudanças em nossa sociedade, as quais estão abalando as bases até então firmadas acerca da liderança. Os novos tempos em que vivemos trouxeram uma cultura globalizada, que vai além da economia, derruba fronteiras e cria um mundo novo, muito diferente do que estávamos acostumados. Estes novos tempos trouxeram à tona uma sociedade onde o estilo de vida está fundamentado no consumo, além de revoluções que estão destruindo as formas de manutenção da liderança.

Moisés Naim, em sua obra “O Fim do Poder” (2013, Texto Editores Ltda), fala sobre três revoluções que estão mudando a forma da manutenção do poder: a revolução do mais, a revolução da mobilidade e a revolução da mentalidade. Na revolução do mais, a questão é como manter as pessoas sob influência quando elas já têm uma vida mais plena e mais escolhas diante de si do que em qualquer outro tempo. Na revolução da mobilidade, percebemos que as pessoas hoje se deslocam muito mais do que em qualquer outra época, a questão é como controlar as fronteiras de um território em um tempo em que há muito mais pessoas se deslocando. E, finalmente, a revolução da mentalidade, onde não se considera mais nada como certo, ou seja, perderam-se os valores absolutos. É desta revolução que surge profundas mudanças de valores, padrões e normas em nosso tempo.

O autor coloca dentro da revolução da mobilidade a capacidade de enviar informações de um lugar a outro, especialmente através de celulares. Mas eu acredito que é possível categorizar o fenômeno dos smartphones e das redes sociais como uma quarta revolução: a revolução da informação. Os celulares, as redes sociais, a inteligência artificial, enfim, as novas formas de comunicação, estão mudando completamente o mundo, e, em especial, a manutenção do poder.

Nossa sociedade está sendo mudada e moldada completamente, e, por conseguinte, está mudando, também, a maneira de exercer a liderança. Assim como no mundo secular, o exercício do poder eclesiástico está passando por transformações, e os pastores não mais conseguirão manter sua liderança com os mesmos métodos do passado.

O modelo de liderança eclesiástica praticamente não sofreu alterações desde seu início nas igrejas evangélicas brasileiras. A manutenção do poder do líder eclesiástico estava basicamente centrada na figura dele, que monopolizava as decisões.

O mundo evangélico brasileiro conheceu praticamente apenas duas formas de administração: episcopal e presbiterial (não estou falando de doutrina denominacional, mas sim da forma de governo). Na forma episcopal, o poder de decisões está centrado no Bispo, Apóstolo ou Pastor Presidente, que toma as decisões. Na forma presbiterial, o poder está no presbitério, um grupo de líderes que detém o poder das decisões. Tanto em uma forma como na outra, há uma centralização de poder. Enquanto no modelo episcopal o poder é centrado em uma só pessoa; no modelo presbiterial, em um grupo de pessoas.

A crise de nosso tempo exige a reflexão quanto aos modelos de manutenção de poder, que enfrentam dificuldades em se sustentar, diante das revoluções que citamos acima. O poder eclesiástico tem sido abalado e isto é visível no grande número de igrejas independentes que surgem a cada dia, nos escândalos das lideranças potencializados pelas redes sociais, e no contínuo questionamento dos liderados acerca dos valores tidos até então como verdadeiros axiomas.

Além destes exemplos, ainda seria possível citar outros, como o fenômeno dos desigrejados, os reflexos do pós-pandemia, uma crise financeira que assola a maioria das igrejas, entre tantos outros exemplos. Apesar de que algumas dessas crises têm origem em fenômenos externos à igreja, todos eles estão dentro do contexto de nosso tempo e são afetados pelas revoluções já citadas.

A questão, portanto, é: como exercer a liderança neste tempo de profundas revoluções? Na minha visão, é necessário a liderança eclesiástica evoluir para um modelo descentralizado, onde aconteça o compartilhamento de responsabilidades na mesma intensidade que se compartilha o poder da liderança. Neste modelo de liderança, o líder maior está ligado a outros hierarquicamente inferiores que trabalham conjuntamente com ele no comando da igreja, e o poder da liderança flui em sinergia debaixo do mover do Espírito de Deus.

Esse tipo de liderança tem sua base bíblica em Números 11.17, quando Deus disse que Moisés deveria juntar setenta homens que compartilhariam com ele a liderança do povo. Geralmente pensamos nesta passagem apenas como a criação de uma estrutura de comando, mas o que aconteceu foi muito maior, Deus estava colocando sobre aqueles novos líderes da mesma essência do Espírito que estava sobre Moisés. Portanto, eles estavam unidos a Moisés não apenas em autoridade, mas na mesma essência espiritual. Não havia um grupo de WhatsApp onde Moisés pudesse passar a eles o que fazer, mas a liderança deveria fluir entre eles sendo Moisés o líder maior.

Outro exemplo bíblico de uma liderança descentralizada, mas que se move sob o mesmo Espírito de Deus, está logo após a experiência do Pentecostes, quando a igreja experimentou sua primeira e grande expansão. Havia uma liderança da igreja em Jerusalém, como fica claro no livro de Atos, onde é possível ver a Pedro como líder, bem como Tiago e, depois, Paulo, liderando a igreja dos gentios. Mas onde estão os demais apóstolos?

Muitos daqueles homens se espalharam por diversos lugares levando o Evangelho de Jesus. As Boas Novas foram levadas por aqueles homens a longínquas regiões, alcançando os atuais Turcomenistão e Uzbequistão. Simão, o Zelote, teria ido tão longe que talvez tenha chegado ao lugar que hoje chamamos de Inglaterra. A atual Armênia também recebeu o Evangelho em primeira mão por um dos apóstolos. Ainda que houvesse uma liderança colocada em Jerusalém, não era possível manter comunicação frequente entre o líder de Jerusalém e eles, simplesmente por não existir tecnologia para isto. Mas todos eles estavam debaixo do mesmo mover do Espírito de Deus, que operava no líder maior estabelecido em Jerusalém.

O que o livro de Atos dos Apóstolos e a história da igreja primitiva nos mostram é uma liderança descentralizada, que fluía sob o mesmo Espírito. Havia uma liderança maior, mas esta liderança não tinha nenhuma condição de controlar tudo. O poder da liderança era utilizado para orientar e direcionar, porém o planejamento, a organização e o controle eram amplamente divididos com os demais líderes. As responsabilidades e o poder de liderar, portanto, não estavam centralizadas, mas compartilhadas.

Acredito que este seja um modelo de liderança que precisamos voltar a buscar para superar as revoluções de nosso tempo que ameaçam a igreja. Um corpo sem cabeça é apenas um organismo sem vida, assim como uma igreja sem liderança. Não tenho dúvida que há um ataque orquestrado de forças espirituais contrárias para destruir a igreja, e um destes ataques busca destruir a liderança.

Como chegar a este novo (porém antigo) modelo de liderança? O desafio que está diante dos líderes eclesiásticos é gigantesco. Constatar e sugerir modelos, sem dúvida, é a parte mais fácil; alcançar a realização, porém, é muito difícil.

Moisés falava com Deus, os apóstolos estavam orando, foi este tipo de ação que trouxe um novo mover de liderança. Mais uma vez, acredito que este modelo descentralizado e que flui em compartilhamento de poder e responsabilidade, mas em unidade, é o modelo que precisamos buscar para essa época. Mas, para alcançarmos este ou qualquer outro modelo que seja eficiente diante das revoluções do nosso tempo, creio que precisaremos fazer como Moisés e os apóstolos: falar com Deus e buscar em oração as estratégias para esta realização.

Presidente da AD Viamão, foi missionário em Israel, África do Sul e Paraguai. Graduado em administração e teologia. Pós graduação em Metodologia do Ensino Superior, Ensino Religioso, Gestão Estratégica de Pessoas. Mestrado em Teologia.

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