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Opinião

Não basta construir, é preciso consagrar

Hoje parece haver cada vez mais simpatizantes e menos convertidos, pessoas que, afirmando-se cristãs, não mudaram de vida nem de mentalidade e não produzem fruto

José Brissos-Lino

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Esdras ensina ao povo. (Foto: JW.org)

O Livro de Esdras relata-nos logo no início que, no tempo de Deus, o povo judeu exilado foi autorizado e estimulado por Ciro, rei da Pérsia, a regressar a Jerusalém, a fim de “edificar a casa do Senhor” (1:5), tendo providenciado e custeado toda a logística com vista ao regresso do povo em massa.

Os milhares que realmente optaram por voltar a Jerusalém começaram por reconstruir o altar e retomar os sacrifícios segundo a lei de Moisés. De facto não nos “construímos” para Deus sem começar pelo altar e pelos sacrifícios.

Depois procederam à colocação dos alicerces do templo com choro e louvor em simultâneo, uma vez que não há alicerces sólidos sem arrependimento (choro) e adoração (louvor), até que os samaritanos desencorajaram a reconstrução. E a verdade é que não nos “construímos” para Deus sem oposição. Os samaritanos eram israelitas e isso mostra que a pior oposição ao trabalho divino em nós somos nós próprios, mais do que qualquer inimigo externo.

Entretanto os vasos da casa do Senhor tinham sido restituídos, pois sempre que há restauração há restituição. A vontade de Deus era a restauração do templo onde o Seu povo poderia cultuá-lo, razão porque Ele tem prazer na nossa restauração espiritual e nisso põe todo o seu empenho.

Esdras relata que Bislão e os companheiros apresentaram falsas acusações ao rei da Pérsia, Artaxerxes, no sentido de este vir a mandar suspender a obra, o que de facto aconteceu. Durante a tarefa de reconstrução espiritual teremos sempre que lidar com a murmuração, a calúnia e a intriga, significando que os poderes deste mundo tentarão parar a nossa “construção” de modo recorrente.

Entretanto, passaram-se dezasseis anos desde a data em que as obras foram interrompidas. Durante esse período os judeus construíram as suas casas de família, até que Ageu e Zacarias os encorajaram e exortaram a retomar a tarefa.

Ora, isso aconteceu quando o governador Tatenai investigou a legalidade da reconstrução (5:3-17) e questionou Dario, então no poder imperial persa, mas este assegurou-lhe que o projecto era legal, e confirmou a ordem de reconstrução (6:1-12).

De facto a nossa “construção” tem que ser feita em boa ordem. Mas a boa ordem implica também o tipo de construção que estamos a desenvolver, isto é, que género de materiais aplicamos: “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha. A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” (1 Coríntios 3:11-15).

No final da construção o templo de Jerusalém, agora restaurado, foi formalmente dedicado a Deus (6:13-18). A nossa construção espiritual só faz sentido se for para a dedicar e consagrar ao Senhor: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” (1 Coríntios 3:16,17).

A primeira grande festividade judaica celebrada no novo templo foi a Pessach (Festa da Páscoa), que recordava a libertação dos anos de escravidão dos antepassados no Egipto. De facto só somos verdadeiramente livres quando nos construímos e consagramos ao Senhor. O nosso acto de consagração tem que levar em conta que estamos a sair de um domínio (do pecado) para outro (a submissão a Deus).

Hoje parece haver cada vez mais simpatizantes e menos convertidos, pessoas que, afirmando-se cristãs, não mudaram de vida nem de mentalidade e não produzem fruto, ao contrário do ensino do Mestre: “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 7:17-21).

Quando Deus está no controle, nem murmuração, nem calúnia, nem intriga, nem poder algum deste mundo pode fazer parar a nossa construção. Ela deve ser feita em boa ordem. O nosso templo deve ser consagrado ao Senhor a cada dia.

Consagremos o nosso “templo” a Deus.

Nasceu em Lisboa (1954), é casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e investigador.

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