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Opinião

Coringa – O grito da orfandade

Em um mundo que o ignora, tudo o que queria era apenas ser visto.

JB Carvalho

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Coringa. (Foto: Reprodução / Youtube)

* ALERTA DE SPOLIERS

Joker é a história de um homem que perdeu seus referenciais. Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) tem uma vida de prejuízos e perdas. Primeiro, perde todos os seus modelos.

Cresce sem pai e com uma mãe maluca. Fleck trabalha como palhaço e sonha em ser comediante de stand-up. Seus referenciais de homem são os namorados violentos da mãe, que o amarravam no aquecedor.

Cansado de chorar, aprendeu a rir bizarramente. Ele, então, começa sua fuga de si mesmo. Sua mãe tem uma relação ambígua com o protagonista, e aparece nua em uma banheira, sendo lavada por ele. Ele tem o comportamento de uma pessoa abusada. Para ele, nada era de verdade, e quando descobre que sua mãe mentira para ele todo tempo, seu mundo desaba.

Ele projeta em Murray Franklin (Robert de Niro), o apresentador de TV de seu programa preferido, suas carências e sua orfandade. Ele está à procura de um pai, um modelo, um referencial. Ele deseja ser somente visto, notado, percebido. Ele quer respeito. Ele quer amor. Ele precisa de atenção. Ele queria que Murray “desse tudo para ter um filho como ele”.

Mas em um programa de TV, Murray expõe um vídeo de Fleck fazendo um stand-up sem graça, e zomba e ridiculariza-o diante de todos, o que faz a decepção se aprofundar na alma já pisada e subjugada do pobre rapaz. O coringa está nascendo. Chutado nas ruas e achincalhado por todos, Arthur só perde, vez após vez, e desenvolve um grande rancor, um grande ressentimento, uma grande fúria. Ele é o homem invisível.

Sua assistente social diz que ninguém se importa com ele, nem mesmo com ela, e que o mundo é uma selva. A orfandade é um vazio em sua alma. Ela o recruta, grita aos seus ouvidos, ela o chama poderosamente. Ele pensou ter achado seu pai. Depois de anos de questionamentos, sua mãe lhe diz que ele é filho de Thomas Wayne.

Wayne diz a ele que sua mãe é uma louca e lhe dá um soco na cara, daqueles que machuca muito mais a alma do que o corpo. Fleck descobre que sua mãe fora internada no hospício da cidade e que ele era um filho adotado. Sua doença mental piora. A violência adormecida acorda o sádico quando ele descobre que matar lhe dá prazer.

Esquizofrênico, tem um caso imaginário com sua vizinha. Ele cria uma realidade para si que se choca com os fatos, então vai se debatendo, colidindo e colapsando. Na lógica dele “se eu falar para você, você não vai entender”. Seu personagem vai “evoluindo” de vítima a vilão. A crueldade é acordada.

Ele, então, decide criar um mundo onde só quem sobrevive é quem o respeita (o anão). Arthur prepara sua aparição. Ele organiza seu show e ensaia sua avant-première. Esquelético, depressivo e alucinado, com uma risada histérica, vestido com muitas cores, com maquiagem de palhaço e super produzido, ele desce as escadarias fumando, cantando e dançando.

Ele é o rei do mundo que criou pra si. Afinal de contas, se o mundo é indiferente, eu preciso fazer de mim mesmo o centro dele. Quando a realidade é muito difícil de ser digerida, posso criar uma outra realidade alternativa onde o jogo é invertido. Essa é a lógica do sociopata. Alguém que só apanha e perde o todo tempo, vai tentar reinventar o mundo para que ele mesmo seja o personagem central da história.

Depois que perdeu e perdeu, e não tendo mais nada a perder, Arthur Fleck mergulha no niilismo existencial. Sua psicopatia se agrava e ele busca uma plateia para revelar seu lado mais sombrio. Toc, Toc! Fleck desaparece e faz surgir o Joker. Diante das câmeras, com todo mundo assistindo, o Coringa nasce.

Em um mundo que o ignora, tudo o que queria era apenas ser visto. O palhaço do crime é então erguido às alturas. Ele é visto como um símbolo, um totem, um arquétipo. Era sua hora de “contagiar as multidões e fazer a cidade virar um caos”.

Se o sistema ignora seus sofrimentos e não tem ouvidos para sua dor, então vamos destruí-lo. Depois de apresentar o seu show, Joker é preso, para depois ser liberto por aqueles a quem representava: os ressentidos, magoados e feridos da sociedade. É a revolução dos párias. A massa o segue.

Regendo a desordem, ele traz após si os que habitam no submundo do rancor. Dirigindo a massa, ele é a personificação da cidade. Decadente, suja, cheia de ratos e ratazanas, Gotham City não tem referenciais, e onde não existem valores morais nascem os monstros. E quando os monstros tornam-se a normalidade de uma cidade, precisamos do BATMAN.

Teólogo, professor universitário, compositor filiado a Abramus, jornalista e escritor de 12 livros.

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