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opinião

Cardi-B, exploração sexual de menores e o sexo à moda “Outlander”

Não existe nada mais liberador para a mulher do que um relacionamento sólido com um homem de caráter.

Braulia Ribeiro

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Cardi-B
Cardi-B (Reprodução)

Um meme circula entre os jovens americanos, e a piada é a seguinte: o jovem toca para o pai ou a mãe a música “WAP”, da rapper Cardi B. A letra do rap, extremamente pornográfica e de mau gosto, é uma espécie de louvor à genitália feminina e às benesses da lubrificação vaginal. Podem aguardar: se ainda não estourou, com certeza vai estourar no Brasil porque nós somos mestres em importar lixo americano sem controle de qualidade.

Os pais, da geração em que ainda existia um código de decência mesmo que mínimo e que regia o que podia ou não ser propagado publicamente, mostram uma cara de horror ao ouvir as grosserias da rapper, e o jovem filma a reação. Hahaha. Pronto, ficou normalizada a conversa sobre os detalhes fisiológicos de vaginas com a linguagem mais chula e degradante possível. E eu que pensava que Anitta era o fundo do poço.

A jornalista Jennifer Velez escrevendo para o site do Grammy, chama a letra de “sexualmente empoderada” e reproduz um pito que Cardi-B dá no público, toda cheia de razão: “Existem rappers que estão cantando o que vocês querem ouvir e os rappers que têm consciência, mas não são eles que vocês estão ouvindo”.

A cantora é conhecida por chamar os críticos de moralistas, tentando sempre fazer com que sua fala de bordel de quinta categoria se passe por um grito liberador para mulheres oprimidas. Se você sentiu uma leve náusea, não está sozinho, ainda. Parece que os que sabem distinguir lixo de empoderamento verdadeiro estão em número cada vez menor.

Será o fim de todo bom gosto e critério no diálogo público sobre a sexualidade? O serviço de vídeo-stream Netflix, também produtora de filmes e televisão muito poderosa, e que tem a família Obama como um de seus principais editores, lançou há um tempo um filme que nos mostra que ainda podemos descer mais baixo. O filme, que tinha que ser francês, com o nome em inglês de “Cuties”, ganhou um prêmio em Sundance, outra coisa que não surpreende, e pretende andar na mesma linha da Cardi-B.

Apesar de não passar de uma canalhice voyeurística que reduz meninas pré-adolescentes a mero pedaços de carne, o filme se tinge de ares revolucionários para vender a sua sujeira. O filme foi recebido com minha indignação pelo público americano. O senador republicano Ted Cruz pediu ao departamento de Justiça que investigasse a Netflix por pornografia infantil, basedo na participação das atrizes de 12 anos em cenas erotizadoras. “Todos os pedófilos do país vão assistir “Cuties”, disse Cruz.

A autora do script do filme, Maïmouna Doucouré, de pais senegaleses nascida e criada em Paris, disse numa entrevista à revista Variety que compartilha da indignação do público que protestou veementemente contra o filme; a hashtag #cancelNetflix circulou como número 1 por um ou dois dias por aqui. Doucouré culpou a Netflix por ter promovido o filme usando uma foto provocativa que mostrava as garotas rebolando em shortinhos provocativos de funkeira.

“É importante que o público saiba que estamos na mesma luta”, disse Doucouré à revista. “A hiperssexualização de crianças acontece na mídia social e ela está em todo lugar. As pessoas concordam com isso. Nós precisamos de proteger nossas crianças e o que eu fiz foi abrir os olhos das pessoas.”

Espera aí. Ela quer nos vender a ilusão de que está na verdade defendendo as meninas contra a hiperssexualização? Sim. Mas, no que me diz respeito a minha luta não tem nada a ver com a dela. Um leitor, sobre a fala da cineasta, se pergunta: “Se ela tivesse que fazer um filme contra o abuso de animais, abusaria de animais para isto?” Me engana que eu gosto.

Enquanto isso, o canal a cabo StarZ apostou no sexo em pelo menos em uma de suas produções. Outlander, já na sexta temporada, é uma série bem produzida baseada nos livros de ficção histórica da autora Diana Gabaldon, e virou cult entre os streamers americanos. É sabido que a série tem as cenas de sexo mais “calientes” da TV. Apresentar cenas de sexo quase explícito não é novo. Canais a cabo se dedicaram a criar séries e programas com uma liberdade maior para as cenas de sexo. Um exemplo é a série da HBO “Game of Thrones,” ótima história, mas que tem contra si o esmero com que apresenta em detalhes intensos cenas de incesto, estupro e outros tipos de violência sexual.

Outlander tem uma diferença que nos surpreende. As cenas de sexo tórrido que apelam para a imaginação de milhões de espectadores são parte da história de um casal casado. Na obra de Galbadon, amor, sexo e compromisso para o resto da vida andam juntos. Apesar de expostos a muitas dificuldades e tentações, se mantêm fiéis um ao outro. O casal faz amor na tela, no auge da sua juventude, mas também depois maduros, com 50 e mais, encontrando na intimidade e no amor o verdadeiro significado de sua sexualidade.

Para a surpresa de gente como Cardi-B, que pensa que lixo é o que o povo quer ver, o sucesso desta história de amor à moda antiga é imenso. Algumas revistas femininas explicam o apelo erótico das cenas falando da “química” dos atores. Uma articulista feminista da revista Glamour considera que as cenas de sexo em Outlander são quentes porque são “genuinamente feministas.”

Opa, peraí, minha cara, que eu saiba da última vez que ouvi o casamento é considerado pelas feministas como instituição opressora, ou não? O vídeo da Cardi-B tecendo loas à sua genitália, como se ela fosse um patrimônio público, não é feminista? Não é feminista a Anitta, empoderada, que usa o sexo como um homem sem porto nem âncora? Não é o alvo de 9 entre 10 feministas conquistar a mesma liberdade sexual dos homens, ou seja praticar sexo com a maior variedade de parceiros possível, sem o peso do compromisso ou até da possibilidade da gravidez? O aborto não é uma ferramenta que proporciona este tipo de igualdade para a mulher?

O que a articulista de Glamour considera como “feminista” é o fato de que para o casal da série o prazer tem que ser mútuo. Mas o que a pobre da repórter feminista não percebeu, é que sexo consensual não é revolucionário ou feminista. Esse protocolo de consentimento, de respeito mútuo, e principalmente do foco no prazer feminino, é norma e não exceção em relacionamentos duradouros e, me atrevo a dizer, principalmente em casamentos cristãos. Não existe nada mais liberador para a mulher do que um relacionamento sólido com um homem de caráter.

A obsessão humana por sexo não é um mero desejo por pênis ou vaginas, por corpos e momentos de paixão frenética. Nosso desejo secreto que às vezes não revelamos nem para nós mesmos, é alcançar profunda intimidade e aceitação com outro ser humano. Queremos ser amados e aceitos incondicionalmente, num contexto de segurança e confiança plena. Não há nada mais erótico do que sexo com amor. Coisa nova na TV, esse tipo de sexo não é novo para milhões de cristãos e conservadores ao redor do mundo.

Trabalhou como missionária na Amazônia e no Pacífico Sul. É Mestre em Divindade pela Universidade de Yale, Estados Unidos, e doutoranda em história e teologia política na Universidade de St. Andrews, Escócia. É autora dos livros Chamado Radical e Tem Alguém Aí Em Cima?, publicados pela Editora Ultimato. É casada com Reinaldo Ribeiro e mãe de três filhos.

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