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Opinião

Black Lives Matter: você sabe o que está apoiando?

As contradições entre os objetivos do movimento político e as verdades bíblicas.

Filipe Samuel Nunes

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Black Lives Matter (Clay Banks / Unsplash)

Black Lives Matter… Três palavras que têm sido arremessadas como uma arma política, criando uma convulsão social e emocional. E, é esse precisamente o objectivo. Black Lives Matter (BLM) é mais do que um slogan ou hashtag alertando o mundo para a injustiça racial após a morte de negros como Trayvon Martin, Michael Brown e George Floyd.

O BLM é um poderoso movimento político. Eu aprecio as correntes do movimento BLM que defendem a dignidade, igualdade e valor dos portadores da imagem de Deus.

Mas faço um apelo: antes de nos juntarmos a este movimento, nós, cristãos bíblicos, devemos entender adequadamente o que estamos apoiando. Naturalmente, vejo muitas contradições entre a visão de mundo cristã e o BLM. Fiquemos por três.

O que é justiça?

Em Isaías 61:8, Deus canta um hino à justiça: “porque Eu o Senhor, amo a Justiça”. Afirmação clara e definitiva. Então surge a pergunta: será que tudo o que atualmente está sendo decretado como “injustiça” é realmente uma questão de justiça do ponto de vista Bíblico?

A resposta a esta pergunta é essencial porque precisamos saber exatamente se vale a pena “lutar” por esta causa. Vejamos! O hebraico tem duas expressões-chave para “justiça”.

A primeira é tzedakah, às vezes traduzida como justiça ou caridade. Refere-se às nossas escolhas e relacionamentos do dia-a-dia, e ao que eles revelam sobre o nosso coração. O nosso coração estará no lugar certo se praticarmos tzedakah. Como estamos tratando os membros da nossa família, colegas e amigos? Estamos demonstrando justiça, generosidade e igualdade? Isso é tzedakah.

Uma outra palavra hebraica muitas vezes traduzida como justiça é mishpat. Significa punir os malfeitores e cuidar das vítimas de injustiças. Mishpat tem a ver com o mundo da jurisprudência, os juízes, as leis e os tribunais. Um princípio fundamental do mishpat é a imparcialidade. A justiça é cega!

Os juízes são ordenados a “ouvir os casos entre seus irmãos, e julgar com justiça entre um homem e seu irmão ou o estrangeiro que está com ele”. Não devemos ser parciais no julgamento: “Ouvirás os pequenos e os grandes” (Dt. 1:16-17).

Tendo em conta estas ideias bíblicas, vejamos algumas das singularidades da abordagem do BLM à justiça, como se pode ler no seu próprio site na internet (blacklivesmatter.com).

“Afirmamos as vidas de negros “bichas” e trans, deficientes, indocumentados, pessoas com antecedentes criminais, mulheres, e todos os negros que vivem ao longo do espectro de gênero. Nossa rede centraliza aqueles que foram marginalizados dentro dos movimentos de libertação dos Negros. Somos guiados pelo facto de que todas as vidas negras são importantes, independentemente da identidade sexual real ou percebida, identidade de gênero, expressão de gênero, status econômico, habilidade, deficiência, crenças religiosas ou descrenças, status imigratório ou localização. Damos espaço para a participação e liderança de irmãos e irmãs transgêneros. Somos auto-reflexivos e fazemos o trabalho necessário para desmantelar o privilégio cis-gênero e elevar o povo transgênero negro, especialmente mulheres trans negras que continuam a ser desproporcionalmente afetadas pela violência trans-antagonista”.

Estas são as causas do BLM. Tudo o que sai desta agenda é visto como injusto. E isso significa claramente que elevar a verdade bíblica e a doutrina cristã para falar destes assuntos será considerado injusto.

O que são vidas negras?

Sim, as vidas negras são importantes. Todavia, Deus está igualmente preocupado com toda a vida humana. Afirmar o contrário é violentar o ensino bíblico. Ninguém deve ser submetido a racismo, vergonha, abuso, maus tratos ou morte por causa da cor da sua pele.

Toda a humanidade carrega a imagem de Deus e Ele deseja um relacionamento amoroso com suas criaturas. Em Mateus 6 lemos sobre o conhecimento e cuidado de nosso Pai Celestial em relação às nossas necessidades físicas e ao nosso bem-estar.

João 3:16 fala do amor de Deus pelo mundo, e 2 Pedro 3:9 afirma que ele não deseja que ninguém pereça, mas que todos se arrependam e cheguem a salvação. Em nenhuma parte da Bíblia, vemos o amor auto-sacrificial e redentor de Deus ligado à cor da nossa pele.

Os defensores do movimento BLM não têm este padrão. De acordo com o site:

Black Lives Matter Foundation, Inc é uma organização global nos EUA, Reino Unido e Canadá, cuja missão é erradicar a supremacia branca e construir o poder local para intervir na violência infligida às comunidades negras pelo Estado… combatemos atos de violência, criando espaço para a imaginação e inovação negra e centrando a alegria negra, estamos ganhando melhorias imediatas nas nossas vidas.

O objetivo declarado do BLM é trabalhar em benefício do povo negro, não de todas as pessoas (qualquer organização semelhante que faça o mesmo pelos brancos é logo rotulada de racista). Isto vai na contra-mão com o foco das Escrituras, que nos exorta a promover o bem de todas as pessoas, independentemente da cor.

O que é a família?

A Escritura define a família nuclear como começando com um homem e uma mulher. Em Genesis ambos são instruídos a serem fecundos, e a se multiplicarem e a dominarem o espaço envolvente que Deus criou. A concepção de Deus acerca da unidade familiar é repetida no Novo Testamento: “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe e se unirá à sua esposa, e os dois se tornarão uma só carne” (Efésios 5:31).

A revelação imutável de Deus, o seu ideal de família, é um homem ligado a uma mulher. Embora haja muitos modelos de família, hoje em dia, a referência de família, permanece.

O BLM está novamente na contra-mão. Na verdade, há uma aversão à ideia de família nuclear, como definida pelas Escrituras:

“Nós perturbamos a exigência da estrutura familiar nuclear imposta pelo Ocidente, apoiando-nos uns aos outros como famílias extensas e ‘aldeias’ que coletivamente cuidam uns dos outros, especialmente de nossos filhos, para que mães, pais e filhos estejam confortáveis”.

Esta “ruptura” da estrutura familiar nuclear vai diretamente contra os desígnios de Deus. O que acontece quando tentamos redesenhar o plano de Deus? Melhorar o que Ele idealizou? Nada de bom! Só tristeza! É loucura ir contra a vontade declarada de Deus.

Na melhor das hipóteses, criamos ídolos e minamos os fundamentos da nossa sociedade. (Na verdade é esse o objectivo do BLM) Criamos monstrinhos pululantes que saqueiam lojas, incendeiam carros e recorrem à violência para se expressar. Ora, “a violência é sempre uma rendição da inteligência, um recuo do pensamento” (José Eduardo Agualusa).

Em 1 Samuel 8, o juiz-profeta Samuel designou seus filhos para liderar a nação de Israel. Mas seus filhos perverteram o curso da justiça, fazendo com que em parte a nação de Israel exigisse um rei em seu lugar. Esta exigência essencialmente tentou redesenhar o governo teocrático de Israel, em vigor, naquele tempo. Resultado: uma espiral descendente de violência, guerra internas, corrupção, exílio e separação de Deus. O resto da história todos conhecemos.

Ora bem. Então os Cristãos não se devem manifestar contra a injustiça racial? Não. Pelo contrário. O Cristão deve defender a justiça. Esta atitude não é nova para o Cristianismo. Ao longo da história da Igreja, os Cristãos dinâmicos têm-se comprometido no serviço para apoiar os vulneráveis da sociedade pecadora em que vivemos. Os Cristãos estiveram sempre na vanguarda da criação de escolas, hospitais, orfanatos, etc. Tiago 1:27 nos exorta: “A religião que é pura e imaculada diante de Deus Pai é esta: visitar órfãos e viúvas em sua aflição, e manter-se livre do mundo”.

Mais uma vez, a foco na justiça dentro da sociedade é bem claro. O que é novo e preocupante é a ideia de que temos de nos pronunciar sobre o assunto. E que se nos calamos estamos a ser cúmplices de pecados que herdámos dos nossos antepassados. Isto é perigoso!

Como cristãos não precisamos de movimentos que nos ditem como, quando e onde devemos tomar uma posição. Não aceitamos lições morais sobre a justiça. Porque onde há qualquer tipo de injustiça, os cristãos devem usar responsavelmente as suas vozes para falar a verdade.

No entanto, antes de irmos à luta devemos entender como alguns definem ‘justiça’. Será que este movimento apoia a cosmovisão cristã bíblica? O BLM não o faz.

A esperança é vermos sempre uma abordagem de justiça social, claramente cristã. Rejeitamos um alinhamento baseado nos critérios subjetivos e superficiais das politiquices rasteiras.

Formou-se em Teologia na Inglaterra, exerceu trabalho pastoral durante 25 anos em Portugal e vive há 12 anos no Brasil onde ensina Inglês como segunda língua.

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