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opinião

A hermenêutica da suspeita

Populistas à esquerda e à direita aproveitam-se dessa hermenêutica da suspeita.

Alex Esteves

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Pessoas aplaudem discurso político
Pessoas aplaudem discurso político (Foto: Direitos Reservados/Deposiphotos)

Observa-se no cotidiano um padrão em conversas que vão de cinema a política, de cultura pop a religião, de governo eclesiástico a manuscritologia, de literatura a, sei lá, astronomia: para tudo que impera no mundo, aponta-se uma versão alternativa, uma teoria que preconiza “a verdadeira verdade”. Deve ser alguma síndrome, e já chegou ao nível de pandemia… Vejamos:

Elvis Presley é o maior nome do rock mundial? “Ah, não, isso é porque era branco, não merecia todo aquele sucesso; Chucky Berry, que era negro, tinha de ser o rei do Rock” (o duelo brasileiro trava-se entre Roberto Carlos e Tim Maia). A Terra é redonda (ou melhor, geoide), e o Homem foi à lua, mas os terraplanistas pensam que “a NASA está enganando vocês”.  Medicamentos salvam vidas depois de testados conforme protocolos científicos, mas correntes de WhatsApp trazem sempre o melhor remédio, receitas alternativas que a “indústria farmacêutica” esconde para não perder dinheiro”. Os evangelistas relatam a história de Jesus, mas algum cético metido a inteligente prefere especular sobre a adolescência (não relatada) do Filho de Deus. 

Ressalvado meu especial interesse na derradeira questão mencionada, não quero adentrar ao mérito dessas disputas, embora esteja certo de que alguns leitores se concentrarão mais nos exemplos que apresentei do que no cerne da questão… Como diria o sábio, “faz parte”. O que destaco, porém, está relacionado às motivações do discurso, sendo, portanto, algo mais filosófico: há, subjacente às discussões contemporâneas, uma tendência a suspeitar da “história contada pelos vencedores” ou da “versão oficial propagada pelo sistema” (establishment para os que se acham sofisticados). No conjunto da obra, é como se toda a história da humanidade não passasse de uma grande mentira inventada por elites dominantes, religiões secretas ou seres extraterrestres…

Você deve ter pensado agora em “teoria da conspiração”. De fato, parece haver uma tentação muito grande, especialmente em nossos dias, à construção de mundos paralelos, forjados a partir das chamadas “narrativas”, que, em linhas gerais (e nos limites da presente abordagem), podem ser definidas como modelos de interpretação da realidade

As narrativas, tomadas nesse contexto, contam com um longo repertório intelectual e político produzido nas hostes do Comunismo, autodeclarado, com toda humildade, um “Socialismo Científico”… É justamente entre os comunistas, por força das ideias de Marx e Engels, que se incentiva a criação de uma narrativa dos oprimidos (“ideologia do proletariado”) para substituir a narrativa dos opressores (“ideologia burguesa”). Desse modo, a ideologia, como arsenal de crenças e valores necessários à narrativa, não teria nenhum interesse em representar fielmente a realidade social e cultural, perseguindo, isto sim, o objetivo de transformar a economia (infraestrutura) pela releitura do mundo social e cultural (superestrutura).

Essa ênfase na ideologia para construção de narrativas esteve presente na Alemanha Nazista: se, para o Comunismo, o Partido é o condutor da história porque representativo da classe operária, no pensamento nacional-socialista (de onde vem o termo “nazista”) quem conduz a história é a “Nação”, por sua vocação étnica pretensamente superior. 

Vale dizer que tanto o Comunismo como o Nazismo tinham projetos absolutamente ousados de engenharia social, para os quais seria necessário criar novos conceitos sobre a origem das coisas (cosmogonia); sobre o Homem (antropologia); sobre a causa dos problemas humanos (um arremedo de “hamartiologia”); sobre a emancipação da Humanidade (uma espécie de “soteriologia”); e, enfim, sobre a dinâmica da história universal (escatologia política). 

Tudo isso fez com que comunistas e nazistas criassem suas respectivas religiões políticas em substituição à religião verdadeira, provendo-se, nesse mister, de um acervo peculiar de papéis sociais e instrumentos característicos de uma religião secular (oradores, catequizadores, livros sagrados, conversão, estilo de vida, linguagem correta, anátemas e guerras pela “verdade”).

Diante das “grandes narrativas” (“metanarrativas”) utópicas propostas por nazistas e comunistas, que marcaram tragicamente o Séc. XX, o mundo ocidental respondeu com democracia, liberalismo econômico, conservadorismo político, social-democracia, liberalismo social, democracia cristã, esforços de pacificação (às vezes por meio da guerra) e tratados de desenvolvimento social e econômico, erigindo-se como prioridade, no plano dos organismos internacionais, a defesa dos direitos humanos. Como sói acontecer com as plataformas políticas mais conservadoras, o edifício liberal-conservador se estabeleceu como resposta à banalização do mal e à miséria perpetrados pelos laboratórios de engenharia social acima referidos.

Com a Queda do Muro de Berlim (1989) e a dissolução da União Soviética (1991), ruíram as metanarrativas, o que veio a potencializar algo que já se semeara durante décadas: em lugar das narrativas abrangentes, que, prometendo explicar tudo, dividiram o mundo em blocos de poder, a chamada “condição pós-moderna” consiste em algo mais subjetivo, fragmentado, plural e inclusivo, com um discurso “mais tolerante” e a substituição de temas sociais e econômicos por questões como sexualidade, arranjos familiares, diversidade de gênero, empoderamento feminino, “direitos reprodutivos” (leia-se: aborto), multiculturalismo, ações afirmativas de cunho racial e preservação ambiental. 

Crescia, pois, a Nova Esquerda, que, com suas reivindicações de questionamento da autoridade, estava cada vez mais enfronhada nos parlamentos, chefias de governo, universidades e instâncias de entretenimento e difusão cultural.

É certo que toda essa parafernália ideológica atingiria profundamente a filosofia, a teologia, o direito, as ciências sociais – na verdade, ideias que hoje frequentam muitos púlpitos, mesas de bar e tribunais saíram das mentes imaginativas de intelectuais progressistas. Uma dessas ideias atende pelo nome de “hermenêutica da suspeita”, uma perspectiva de interpretação voltada a descortinar ou desmascarar crenças, interesses e fatos nem sempre confessáveis e supostamente escondidos sob o manto das palavras de um texto. 

Para o ideário formatado nesses moldes contribuíram figuras como Jacques Derrida (com o seu conceito de “desconstrução”), Paul Ricouer (exatamente com a sua “hermenêutica da suspeita”) e Michael Foucault, com suas teorias sociais sobre temas como violência, poder e sexo – para quem gosta de termos técnicos, esses filósofos são conhecidos como “pós-estruturalistas”. No panteão desconstrucionista foram colocados Marx, Neitzsche e Freud, porque suas obras teriam revelado os fatores que iludem a consciência humana, impedindo-a de enxergar o que estaria por trás dos fenômenos.

Até este momento da leitura, o amigo mais alinhado à direita política pode eventualmente se supor isento desse mal ora registrado, mas peço que vá devagar, pois “o santo é de barro” (ou a estátua tem os pés de barro, se preferir). Sendo cristão, entendo que a origem de todos os males é a Queda, e não alguma ideologia, opressão social ou coisa que o valha. Entendo também que a pecaminosidade é universal (a Epístola aos Romanos aborda o tema). Bem por isso, e pelos dados comprovados empiricamente, posso afirmar que a construção ideológica de narrativas responsáveis por um mundo paralelo golpeia à direita e à esquerda, desde que haja mentes e corações disponíveis às suas investidas.

Nestas linhas, nosso enfoque é a hermenêutica da suspeita em seu sentido lato, e não simplesmente o tratamento filosófico-progressista que se lhe conferiu, apesar de as coisas estarem umbilicalmente associadas.

Dito isso, não é difícil provar que o começo da hermenêutica da suspeita se verificou no Éden, quando, conforme o Cap. 3 de Gênesis, a serpente propôs à mulher uma explicação alternativa para o veto divino à árvore do conhecimento do bem e do mal. Deus havia dito que não se poderia comer daquele fruto, sob pena de morte, e essa era uma determinação de natureza ética que, se observada, propiciaria vida, bem-estar e comunhão com o Criador, haja vista a provisão ética concedida pelo próprio Deus, e não pelo grito de emancipação do Homem.

Todavia, a humanidade preferiu acreditar que o Senhor estaria a esconder a verdade por baixo do mandamento proibitivo. Seria como dizer “Ah, agora eu compreendo! Isso Deus não me disse! Ele sabe que se nós comermos do fruto seremos como Ele, sabendo o bem e o mal”… Ali se inicou a ruína de todos nós.

O relato da Queda aponta, ainda, para o problema do ressentimento, tema precioso à filosofia e à ciência política, mas também relevante para a teologia: Adão e Eva deixaram-se conduzir pelo ressentimento em relação ao poder exclusivo da Divindade. Séculos depois, encontramos em Nínive o profeta Jonas muito chateado por ter sua visão teológica contrariada. Não por acaso, Deus lhe pergunta: “É razável esse teu ressentimento?” (cf. Jn 4.4).

A raiz pecaminosa (e, portanto, volitiva) da hermenêutica da suspeita explica por que mesmo pessoas inteligentes às vezes preferem acreditar em mentiras a acreditar na verdade. A mentira seduz porque parece revelar o oculto, o interdito, do que se segue um prazer divinatório quando se “descobre” o mistério – “agora eu sei o que os poderosos não queriam que eu soubesse!”. Se puder, dê uma pausa e leia 1 Jo 2.16 e Tg 1.13-15.

Veja como se trata de algo relacionado à vontade, e não somente à cognição: mesmo diante de provas robustas em contrário, muitas pessoas insistem em ideias errôneas, que “corroboram” suas crenças preexistentes (elas criam seus próprios fatos!); e, arrogando-se o direito de não confiar na grande imprensa – o que não está de todo errado! –, contraditoriamente depositam confiança em notícias falsas, frequentemente de fácil verificação. É por isso que, nesta era pós-moderna, tanto sucesso fazem as fake news, que nada mais são do que falsas narrativas multiplicadas pelo amplo alcance das mídias e redes sociais, dando ensejo à proliferação de bolhas de credulidade e subjetivismo.

Populistas à esquerda e à direita aproveitam-se dessa hermenêutica da suspeita tomada em sentido amplo, mirando seus petardos contra o inimigo da vez: uma nação estrangeira, o Comunismo, o Capitalismo, as elites, a ciência, os judeus, os médicos, as igrejas, os “estadunidenses”, o “homem branco e heterossexual”, a “família tradicional”, a “extrema direita”, os “fascistas” etc. Como a realidade é bem mais complexa do que se poderia apreender em poucas sinapses nervosas, as pessoas aderem mais facilmente a explicações (narrativas) mais “arredondadas”, que possam se ajustar aos seus preconceitos.

Como escapar disso? Considerando que ninguém enxerga todas as coisas em toda a sua extensão e profundidade, senão o próprio Deus (e somente Ele), como poderemos viver felizes manejando as muitas dúvidas e as poucas certezas de que dispomos? Para isso, ofereço duas sugestões para reflexão, uma de cunho político e outra de cunho teológico:

(a) em termos políticos, entendo que o (verdadeiro) conservadorismo pode ajudar, pois, avesso a agendas fantásticas quanto ao passado (reacionarismo) ou ao futuro (utopia), o conservador olha para frente aproveitando e respeitando as contribuições da história, da informação e da ciência, num misto de confiança e desconfiança – confiança no que passou pelos testes da lógica, da convivência social e da história, e desconfiança em programas políticos divisivos, mirabolantes ou imprudentes;

(b) já em termos teológicos, proponho que depositemos nossa inteira confiança em Deus, na Pessoa do Senhor Jesus Cristo, Autor e Consumador da nossa fé (cf. Hb 12.2), sem deixar que preferências político-ideológicas, culturais ou de qualquer outra ordem fabriquem em nossos corações narrativas que não correspondam à verdade. Peçamos ao Senhor que nos dê iluminação para nos abstermos da aparência do mal (cf. 1 Ts 5.22), sendo prudentes em todas as coisas (cf. Pv 1.2-5; Mt 10.16), dando espaço ao que é puro, justo e honesto (cf. Fp 4.8). Afinal, o Deus que revela “se há algum caminho mau” (cf. Sl 13.24) tem poder para nos orientar a discernir verdade e falsidade.

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Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Co-pastor da sede da Assembleia de Deus em Salvador. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.

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