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cosmovisão

A falácia da Teologia da Substituição

Como podemos explicar o motivo de Israel ter ressurgido como uma nação no século 20 depois de não existir por 1900 anos?

Alexandre Dutra

em

Bandeira de Israel
Bandeira de Israel (Foto: Direitos Reservados/Deposiphotos)

“A teologia da substituição é simplesmente uma má notícia tanto para a Igreja e para Israel.” (Walter C. Kaiser Jr.)

O que é a Teologia da Substituição?

A Teologia da Substituição (também conhecida como supersessionismo), como teoria, declara que Israel, como nação, tendo falhado com Deus, foi substituída pela Igreja. Declara ainda que Israel está fora dos planos de Deus e que perdeu seu status de povo eleito de Deus, assim, a Igreja é o verdadeiro Israel de Deus. O que resultaria na transferência de todas as bênçãos profetizadas pelos profetas judeus à Israel para a Igreja. 

Retirando por fim do povo judeu toda e qualquer chance ou direito de ser novamente uma nação soberana na terra de Israel, conforme prometido por Deus aos patriarcas e seus descendentes. 

A propósito, as duas principais tendências da interpretação teológica quanto à questão Israel e a Igreja, são:

  1. A Igreja é a continuação de Israel (Teologia da Substituição / Teologia do Pacto); 
  2. A Igreja é diferente e distinta de Israel (Dispensacionalismo / Pré-milenismo).

Algumas perguntas cruciais à teoria da substituição:

  1. Como fica o renascimento do moderno Estado de Israel?

A restauração do moderno Estado de Israel é, assim, um acidente sem nenhuma credencial bíblica. Os cristãos que creem que tal restauração é um ato de Deus, em fidelidade à Sua aliança estabelecida com Abraão cerca de 4000 anos atrás, são considerados enganados. 

Esta é a posição básica dos adeptos dessa teologia.

Há grandes problemas com essa opinião, tais como: a existência contínua do povo judeu durante os séculos, inclusive na terra de Israel, e especialmente, a restauração do estado moderno de Israel. 

Se Israel tem sido condenada por Deus, como dizem, e não há nenhum futuro para a nação judaica, como podemos explicar a sobrevivência sobrenatural do povo judeu durante os últimos 2000 anos apesar de muitas tentativas de destruir essa nação? 

Como podemos explicar o motivo de Israel ter ressurgido como uma nação no século 20 depois de não existir por 1900 anos? 

  1. Será que todas as bênçãos prometidas à Israel foram transferidas à Igreja?

As profecias registradas nas Escrituras que tratam das bençãos à Israel, inclusive quanto a sua restauração, são “espiritualizadas” ou “alegorizadas” e desta forma tornam-se promessas de bênçãos de Deus à Igreja.

As maldições também foram transferidas? Não há resposta! 

(Apud https://www.gotquestions.org/Portugues/teologia-substituicao.html).

Quando começou?

A teologia da substituição surgiu no seio da igreja a partir da metade do segundo século d.C. e tem retomado força nos dias atuais. Devido a influência de alguns reformadores nos meios acadêmicos, ao reconhecimento do curso de teologia pelo MEC e do advento das mídias sociais no arraial do povo de Deus.  

Mesmo que os pais pré-nicenos eram predominantemente pré-milenaristas em sua compreensão das coisas futuras, não puderam impedir que a visão antissemita de alguns de seus líderes mais proeminentes culminasse na teologia da substituição. 

Justino Mártir foi o primeiro a ver “a igreja cristã como” o verdadeiro Israel espiritual, em torno 160 AD. A interpretação de Justino, infelizmente e erroneamente, lançou as bases para a crença crescente de que a Igreja havia substituído Israel.

Sua razão

A Questão e o Problema da Interpretação Alegórica. Segundo Sergio Alberto Feldman em seu texto: O Judeu Na Patrística: Deicida E Aliado Do Demônio, “os historiadores cristãos, tais como Eusébio de Cesareia, ao buscarem uma legalidade histórica da ancestralidade do cristianismo para o reconhecimento do império romano, levaram muitos dos Pais da Igreja a interpretarem alegoricamente as Escrituras para explicarem a antiguidade cristã” (FELDMAN, 2017, p.147). 

A defesa para tal argumento está na interpretação equivocada do texto paulino em Gálatas 4:21-31, em Paulo, a questão é a definição da condição de herdeiro do pacto e da Revelação, mas nos Pais da Igreja se define também a antiguidade e a legitimidade dos cristãos como uma religião antiga e consolidada, ou seja, uma religião lícita. 

Assim veremos, em alguns autores uma busca por ascendência que remonta alegoricamente a Abraão, a Moisés e que coexiste em paralelo com o texto bíblico. 

A exegese pelo método alegórico utilizará tipos, ou figuras, que servirão de molduras para todas as formas de argumentação e de comprovação por serem flexíveis. O texto bíblico servirá de base para defender temas e conceitos que seus autores e redatores nunca pensaram em fazê-lo. 

Minimizar e reduzir o Judaísmo a resquícios arqueológicos, e a um emaranhado de anacronismos arcaicos, foi uma dessas bases.

Ao longo do período da Igreja de maioria gentílica

Como afirmou Don Finto: “O antissemitismo ainda é o mais longo e mais profundo ódio da história humana” (FINTO, 2010, pg.63). Infelizmente a Igreja de maioria gentílica em certos momentos, por meio de alguns de seus líderes mais ilustres sucumbiram ao veneno do antissemitismo. 

João Crisóstomo, no final do século III início do século IV, quando pregou as oito Homilias Contra os Judeus, violou o caráter do povo de Deus apresentando-os como homicidas, gananciosos, imorais e delinquentes: João Crisóstomo exclamou: “Quanto a mim, eu odeio sinagogas… Eu odeio os judeus”.

O grande teólogo protestante reformista Martinho Lutero virou inimigo dos judeus no final de sua vida:

“Suas sinagogas devem ser queimadas […] 

As suas casas devem ser igualmente depredadas e destruídas […] 

Eles devem ser privados de seus livros de oração e seus Talmudes […] 

Os seus rabinos devem ser proibidos de pregar com ameaças de morte […] 

Passagens e privilégios de viagem devem ser totalmente proibidos […] 

Deixem o jovem judeu e a jovem judia trabalhar com o mangual, o machado, a enxada, a pá, a roca e o berilo. Deixem-nos ganhar o seu pão com o suor de seus narizes.”          

Gerard Kittel, um alemão estudioso do Novo Testamento, publicou um livro em 1933 sobre A Questão do Judeu. Seu conselho? Que eles deveriam aceitar qualquer discriminação e difamação, visto que são cidadãos de segunda classe, cujo destino é vagar “inquietamente e sem teto sobre a face da terra” (apud FINTO, 2010, pg.69-70).

Agostinho: o Papel do Judeu na História

Como comenta Feldman: “Agostinho de Hipona é, em muitos sentidos, um dos maiores entre os Pais da Igreja. A dimensão de sua obra e a longevidade de sua influência perpassam toda a história da igreja ressoando até na dissidência luterana e calvinista do século 16. Autor de uma imensa e densa obra teológico-filosófica, sintetiza e define conceitos que constituirão uma efetiva longa duração”. 

Ou ainda: “Dentro da sua concepção da História, confere um papel ao judeu que terá importância vital na continuidade judaica na Alta Idade Média (…). A sua forte identidade teológica com Paulo fez com que ele adotasse certa dose de ternura aos “cegos e teimosos judeus”. Agostino não utiliza a agressiva terminologia e nem incide na satanização dos judeus, como fizera João Crisóstomo. É extremamente crítico aos receptores da Revelação e condena sua cegueira em não reconhecer Cristo na sua encarnação, não se convertendo a verdadeira fé”.

Para Feldman: “Agostinho precisa dos judeus na construção de sua teologia (…).

Para Agostinho e para a Cristandade, a condição do povo judeu de receptor da Revolução contida no Antigo Testamento era condição sine qua nom para validar o Novo Testamento. As previsões ou profecias contidas na Bíblia Hebraica eram o trailer da vinda de Cristo. Sem o primeiro andar judaico (AT) não haveria o prédio cristão, ou seja, a exegese cristã concebia uma continuidade dos dois testamentos. Inúmeras passagens dos profetas judaicos são consideradas previsões da encarnação de Cristo. Anular a revelação da Lei mosaica e das profecias contidas na Bíblia Hebraica seria desmontar o Cristianismo. Agostinho teve de inserir os judeus na sua concepção religiosa e histórica visto serem antecessores da fé cristã (apud Feldman, 2008) (…). Agostinho nunca propôs a destruição dos judeus. Ele concilia a política com a fé ao adequar ambas” (FELDMAN, 2017, pg. 155-157). 

Combatendo a Falácia da Teologia da Substituição 

Transcrevo dois exemplos de como combater a falácia da teologia da substituição:

  1. Em 1560, os grandes líderes protestantes ingleses e escoceses que elaboraram a Bíblia Genebra, reconheceram o chamado de Deus para Israel que ainda seria cumprido. Esses homens escreveram nas margens de Romanos 11:15,25 “Ele revela que virá o tempo em que a nação do povo judeu, embora nem todos particularmente, se ajuntarão a Igreja de Cristo”.
  2. Em 1649, John Owen empregou perante a Câmara dos Comuns, predizendo o momento em que este “povo antigo” virá a “experimentar” aprender a plenitude dos gentios […] em resposta a milhões de orações […] em nenhuma outra parte do mundo, não existe uma outra promessa mais evidente que o início do levantamento do Reino do Senhor Jesus Cristo tem a ver com o povo judeu” (Apud, FINTO, 2010, pg. 39)

A Igreja Assumiu o Lugar de Israel? 

Até aqui ouvimos os comentários de homens, mas, é a Bíblia Sagrada que nos dará a resposta:  A Igreja assumiu o lugar de Israel? Não! Pelo simples fato de que Israel e Igreja são duas instituições criadas por Deus de forma particular e distinta. Portanto, as promessas e profecias são particulares e direcionadas a cada uma delas – Israel e Igreja. A criação de Israel, como Nação em Êxodo 19 e 20; A criação da Igreja em Atos 2.

O Senhor Jesus Cristo é apresentado como o Rei de Israel, Senhor da Igreja e Juiz das Nações:

  1. Cristo, o Rei de Israel, Mateus 2:1-2 “E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, 2 Dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo”.  
  2. Cristo, o Juiz das Nações, Isaías 2:4 “E ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em enxadões e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerrear”.
  3. Cristo, o Senhor da Igreja, Efésios 4:4-6 “Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; 5 Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; 6 Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós”.

Israel

O que é Israel? 

Uma nação criada por Deus em promessa aos Patriarcas Abraão, Isaque e Jacó com propósitos claros e definidos como encontramos no profeta Isaías e no apóstolo Paulo (Isaías 43:1,7,10,12,14-15; Romanos 9:4-5).

Jeremias declara que Israel “jamais deixará de ser uma nação” (Jeremias 35-37); em apenas um sermão, o apóstolo Paulo se refere três vezes a Israel como uma entidade ininterrupta (Atos 13:17, 23, 24). 

E sobre os doze portões da Jerusalém Celestial estão escritos os nomes das “12 tribos dos filhos de Israel” (Apocalipse 21:12), juntem-se a isso os nomes dos “12 apóstolos do Cordeiro”, nos fundamentos (Apocalipse 21:14). 

Jerusalém: Deus escolheu Jerusalém, dizendo: “Porei o meu nome nela para sempre.” (2 Reis 21:7 e 2 Crônicas 33:7). 

Igreja

Edificada pelo Messias, Mateus 16:18 “E também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

União de judeus e gentios que creem em Jesus como o Messias, Efésios 2:11-14 “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; 12. Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. 13. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. 14. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio”.

Semelhanças entre Israel e a Igreja

Semelhanças entre Israel e a Igreja: 

  1. ambas são chamadas povo “eleito” de Deus (Isaías 45:4; Mateus 24:31; 1 Pedro 1:2); 
  2. ambas são chamadas povo “adquirido/especial” separado do mundo (Levítico 20:24-26; Deuteronômio 14:2; Tito 2:14; 1 Pedro 2:9); 
  3. ambas seriam odiadas e perseguidas pelo mundo até a morte (Salmos 119:161; 143:3; Mateus 24:9; João 15:20; 17:14); 
  4. ambas seriam chamadas à santidade (Levítico 20:7; 1 Pedro 1:15). 

Diferenças entre Israel e a Igreja

À Israel são prometidos um país e uma cidade (Jerusalém). À Igreja é prometido um lar no céu; Israel será governada pelo Messias; Israel reconhecerá o Messias pela primeira vez, no tempo de sua Segunda Vinda; a Igreja chegará do céu com ele, em triunfo (Zacarias 14:4-5 e Judas 14), como sua noiva, ao seu lado.

Não podemos esquecer:

Que após a cruz e a ressurreição, o Senhor Jesus ordenou: “fazer discípulos de todas as nações” e “pregar o evangelho a toda criatura” (Mateus 28:19 e Marcos 16:15). Mesmo assim, o Evangelho continua sendo “primeiro do judeu e também do grego” (Romanos 1:16).

 

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Pastor Batista, Diretor dos Amigos de Sião, Mestre em Letras - Estudos Judaicos (USP).

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