Siga-nos!

opinião

Suicídio: É possível preveni-lo

Compreensão deste comportamento continua sendo um fator extremamente enigmático.

Abner Morillas

em

Suicídio. (Foto: Ian Espinosa /Unsplash)

“O meu povo foi destruído por falta de conhecimento.” (Oseias 4.6A)

O suicídio não é um fenômeno novo, no entanto, a compreensão deste comportamento continua sendo um fator extremamente enigmático e sua complexidade é ainda maior quando nos deparamos com o aumento do suicídio entre cristãos leigos e pastores de nossas igrejas.

O suicídio pode ser definido como um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, cuja intenção seja a morte, de forma consciente e intencional, mesmo que ambivalente, usando um meio que ele acredita ser letal.

Também fazem parte do que, habitualmente, chamamos de comportamento suicida: os pensamentos, os planos e a tentativa de suicídio.

As pessoas se matam quando não existe uma esperança, desparecem as perspectivas, somem os objetivos ou deixa de existir uma causa a que permanecer neste mundo.

Portanto, podemos afirmar que o suicídio é um fenômeno complexo, multifatorial e que a palavra central não é MORTE, mas DOR PSÍQUICA. Desta forma, o suicídio tem a ver com a interrupção da dor psíquica.

O que dizem as estatísticas:

Mais de 804.000 pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo.

  • O que equivale a 2.200 suicídios por dia
  • O que corresponde a 91 suicídios por hora, mais de 1 pessoa a cada 40 segundos.
  • O número de suicídios, no mundo, supera as estatísticas de homicídios e daqueles que tombam em conflitos armados em guerras.
  • O suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos.
  • 75% dos suicídios no mundo ocorrem em países de baixa e média renda.
  • Ingestão de pesticida, enforcamento e armas de fogo estão entre os métodos mais comuns de suicídio em nível global.

O Brasil é o oitavo país com o maior número de suicídios. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 32 brasileiros morrem diariamente, vítimas de suicídio. Os dados são ainda mais alarmantes em relação aos jovens. O suicídio, no Brasil mata mais pessoas entre 15 e 29 anos do que o HIV em todo o mundo.

A cada 45 minutos temos uma morte por suicídio no Brasil.

Estudo feito pela UNICAMP registrou que, a cada uma pessoa atendida no Pronto Socorro por tentativa de suicídio, três tentaram e não receberam ajuda, cinco planejaram a própria morte e dezessete pessoas pensaram em tirar sua vida.

Quais os principais sentimentos detectados antes da pessoa atentar contra a própria vida?

O que leva uma pessoa se matar?

Vários motivos podem levar alguém ao suicídio. Normalmente não é um motivo único, e sim um conjunto de situações, e a pessoa tem necessidade de aliviar pressões internas e externas como cobranças sociais, culpa, remorso, depressão, ansiedade, medo, fracasso, humilhação etc.

 

Transtornos Psiquiátricos:

1) 90% das pessoas que cometem suicídio foram ou poderiam ter sido diagnosticadas com algum transtorno psiquiátrico. Isso quer dizer que 9 em cada 10 suicídios poderiam ser evitados.

Diagnósticos mais frequentes associados ao suicídio.

  • 36% Transtorno do Humor,
  • 23% Transtorno por uso de substâncias psicoativas
  • 12% Transtorno de personalidade
  • 11% Esquizofrenia
  • 6% Transtorno de Ansiedade
  • 5% Outros diagnósticos
  • 4% Transtorno de ajustamento
  • 3% Sem diagnóstico

2) Tentativa prévia de suicídio:

É o fator preditivo isolado mais importante. Pacientes que tentaram suicídio, previamente, têm de cinco a seis vezes mais chances de tentar suicídio novamente. Estima-se que 50% daqueles que se suicidaram já haviam tentado anteriormente.

3) Doenças clínicas não psiquiátricas:

Algumas características ou sintomas das doenças podem conferir ao paciente um risco maior de suicídio. Entre as características do transtorno é a gravidade. Pacientes mais graves e com dor têm maior risco de suicídio.

4) Desesperança, desespero, desamparo e impulsividade:

Sentimentos de desesperança, desamparo e desespero são fortemente associados ao suicídio. É preciso estar atento, pois a desesperança pode persistir mesmo após a remissão de outros sintomas depressivos.

Impulsividade, principalmente entre jovens e adolescentes, figura como importante fator de risco. A combinação da impulsividade, desesperança com o abuso de substâncias pode ser, particularmente, letal.

5) Alguns grupos têm o risco aumentado de cometer suicídio:

  • Mulheres tentam mais suicídio
  • Homens cometem mais suicídio

Os óbitos por suicídio são em torno de três vezes maiores entre os homens do que entre as mulheres (homens fazem uso de métodos mais letais). Inversamente, as tentativas de suicídio são, em média, três vezes mais frequentes entre as mulheres.

  • Risco maior entre os jovens
  • Não descuidar dos idosos (a letalidade do método é maior do que a dos jovens)
  • História familiar e genética:

6) Fatores associados a Transtornos Psiquiátricos podem conferir um risco maior ao suicídio:

Álcool e drogas quando associados aos transtornos aumentam o risco.

7) Quando a vida na sociedade não responde às fantasias criadas pelo indivíduo, deixando-o frustrado e reprimido, leva-o a situações dramáticas e ao sofrimento.

8) Outras experiências frustradas de vida, em que a pessoa não conseguiu expressar, causam situações dolorosas bloqueadas. Essas situações podem aparecer como depressão e/ou tensões, dor ou até doenças psicossomáticas.

9) Eventos adversos na infância e na adolescência:

Todas as experiências da infância (período pré e perinatal, inclusive) que não atendam às necessidades naturais de desenvolvimento (aproximação, calor materno, segurança emocional dada pelos pais e pelo ambiente, estímulos intelectuais apropriados etc.) podem ser gatilhos para o suicídio.

10) Um dos sérios problemas da sociedade, principalmente, nos meios urbanos, é o anonimato. Todos, e ninguém se conhece. Como diz Harvey Cox (A cidade do homem), o ser humano em nosso tempo é uma cifra sem rosto.

Os contatos humanos são impessoais, superficiais, transitórios e segmentários.

MITOS COMUNS SOBRE COMPORTAMENTOS SUICIDAS

Mito1: As pessoas que falam sobre o suicídio não farão mal a si próprias, pois querem apenas chamar a atenção.

Isto é FALSO!

Todas as ameaças de se fazer mal, devem ser levadas muito a sério.

Mito 2: O suicídio é sempre impulsivo e acontece sem aviso.

FALSO!

Morrer pelas suas próprias mãos pode parecer ter sido impulsivo, mas o suicídio pode ter sido ponderado durante algum tempo. Muitos indivíduos suicidas comunicam algum tipo de mensagem verbal ou comportamental sobre as suas ideações da intenção de se fazerem mal.

Mito 3: Os indivíduos suicidas querem mesmo morrer ou estão decididos a matar-se.

FALSO!

A maioria das pessoas que se sentem suicidas partilham os seus pensamentos com, pelo menos, uma outra pessoa, ou ligam para uma linha telefônica de emergência ou para um médico, o que constitui prova de ambivalência, e não de empenhamento em se matar.

Mito 4: quando um indivíduo mostra sinais de melhoria ou sobrevive a uma tentativa de suicídio, está fora de perigo.

FALSO!

Na verdade, um dos períodos mais perigosos é, imediatamente, depois da crise, ou quando a pessoa está no hospital, na sequência de uma tentativa. A semana que se segue à alta do hospital é um período durante o qual a pessoa está, particularmente, fragilizada e em perigo de se fazer mal. Como um preditor do comportamento futuro é o comportamento passado, a pessoa suicida, muitas vezes, continua em risco.

Mito 5: os indivíduos que tentam ou cometem suicídio têm sempre alguma perturbação mental.

FALSO!

Os comportamentos suicidas têm sido associados à depressão, abuso de substâncias, esquizofrenia e outras perturbações mentais, além dos comportamentos destrutivos e agressivos. No entanto, esta associação não deve ser sobrestimada.

Mito 6: Após uma pessoa tentar cometer suicídio uma vez, nunca voltará a tentar novamente.

FALSO!

Na verdade, as tentativas de suicídio são um preditor crucial desse ato.

Fatores Protetivos:

1) Vínculos protegem a pessoa do Suicídio.

Boa estrutura familiar,

Ser pai ou mãe.

Ter pai ou mãe vivos;

Ter emprego (trabalho);

Pertencer a um grupo social (igreja, fraternidade etc.);

Boa rede social de apoio;

Ser casado(a).

Dessa forma, é sabido que ausência de vínculos favorece o suicídio:

A pessoa solteira ou solitária

Pessoa sem trabalho

Pessoa com poucos vínculos sociais associados com outros problemas citados nesse artigo podem ser um fator de risco a mais para o suicídio

2) Suicídio tem prevenção

Se identificada, a pessoa em risco do suicídio, nós podemos abordá-la minimizando os riscos e ajudá-la na caminhada para a vida. E não é preciso ser médico ou psicólogo para fazer esta primeira abordagem na pessoa.

3) O procedimento, mais importante também é o mais simples: “OUVIR”.

Mais do que dar conselhos ou regras. Ouça!

Sem julgamentos ou críticas. Ouça!

4) Perguntar sobre suicídio é um meio de evitar o suicídio.

Não tente distrair a pessoa na tentativa de fazê-la esquecer o sofrimento, deixe-a falar sobre isto e mostre empatia para com o sofrimento dela.

Falar sobre o assunto tira a força do fenômeno.

E, por fim, é preciso intervir, mesmo que a pessoa não queira avise familiares. Nesse momento, mais importante do que a confidencialidade da conversa e a lealdade a pessoa é preservar a integridade física dela.

O suicídio na doutrina cristã

Há 6 suicídios na Bíblia, e o mais famoso deles é o de Judas Iscariotes, depois de ter traído Jesus.

Abimelec: Juízes 9,35

Saul: 1 Samuel 31.4

O escudeiro de Saul: 1 Samuel 31.4-6

Aitofel: 2 Samuel 17.23

Zimri: 1 Reis 16.18

Judas: Mateus 27.5

Alguns consideram a morte de Sansão como um suicídio, todavia o seu objetivo não era tirar a própria vida, mas vingar seu povo.

Fundamento Bíblico

No cristianismo e a partir de uma perspectiva religiosa justifica-se a condenação absoluta do suicídio com base no mandamento “não matarás”. Tal como aparece na Bíblia, este mandamento não apresenta qualquer referência direta ao suicídio, embora nos pareça implícito que ele se refira a qualquer atentado contra a vida. Esse mesmo conceito está contido no mandamento de Jesus: “amarás o teu próximo como a ti mesmo.

A vida pertence a Deus:

São Tomás de Aquino argumenta, dizendo: “a vida é um dom dado ao homem por Deus e sujeito ao seu divino poder; portanto, quem priva-se a si mesmo da vida peca contra Deus”.

“O Ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir, eu vim para que tenham vida e a tenham plenamente (em abundância).” (João 10.10)

“Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor, planos de fazê-los prosperar e não de causar dano, planos de dar a vocês esperança e um futuro.” (Jeremias 29.11)

Pastor, psicólogo (CRP 43974-6). Doutor em Psiquiatria (FMUSP). Mestre em Ciências Médicas (FMUSP). Especialista em aconselhamento, professor na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Visite: www.gaip-saude.com.br

Trending