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opinião

Pequenos e grandes racismos

Racismo existe e precisa, sim, ser objeto de providências, e não apenas por parte do Estado

William Douglas

em

Ndeye Fatou Ndiaye (Reprodução / Instagram)

O que mais me preocupa não são os jovens acusados de racismo, mas a reação dos adultos. Enquanto muitos clamam pela expulsão dos alunos, parece que saem incólumes os grandes racismos.

Estou tratando das mensagens racistas que alunos do Colégio Franco-Brasileiro, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio, escreveram em um grupo de WhatsApp para se referir a uma colega negra que também estuda na instituição.

O episódio criminoso vitimou, em primeiro plano, Ndeye Fatou Ndiaye, de 15 anos e, de forma dispersa, a todos nós. A jovem relatou que o racismo é frequente no seu dia a dia, mas que é a segunda vez que enfrenta um episódio grave envolvendo colegas de classe.

O pai das meninas, Mamour Sop Ndiaye, de 45 anos, esteve em reunião com o colégio na quarta-feira, onde foi informado que um ofício foi encaminhado para o Conselho Tutelar e que, por ora, a instituição não tomará outras providências. Mamour é professor universitário e veio do Senegal para o Brasil há 22 anos. Imagino a situação deste pai ao ouvir que a escola, por ora, “não tomará providências”. Como assim?

O episódio mostra que o racismo existe e que precisa, sim, ser objeto de providências, e não apenas por parte do Estado. A reação ao episódio foi, de um lado, muitos querendo a expulsão dos alunos que praticaram racismo e, de outro, o Colégio Franco-Brasileiro emitir uma nota de repúdio na qual repete chavões típicos de marketing de crise enquanto diz que não fará nada, deixando tudo por conta das autoridades. Vou comentar ambas as “soluções”.

Inicialmente, para choque de muitos, não creio que o melhor caminho seja a expulsão. Os jovens que escreveram aquelas mensagens são, na verdade, repetidores de um racismo que não nasceu com eles. Não podemos esquecer que, por mais repugnante que seja a atitude dos jovens, eles são… jovens! Eu me preocupo mais com os pais deles. Pode ser que neste momento estejam envergonhados, vítimas extras do mau comportamento dos filhos, ou pode ser que sejam, de forma direta ou indireta, a fonte dessa cultura de discriminação e deboche. Eu não sei. Sei, porém, que cabe também ao colégio, e não apenas ao Estado, pesquisar isso.

Os pais dos alunos precisam ser chamados a se manifestar. Estes jovens em especial, mas todos da escola, precisam ser educados. A expulsão, portanto, talvez não seja a melhor solução. Talvez mais merecedores de uma expulsão sejam aqueles que incentivam ou que se omitem, pois são os participantes mais reprováveis deste lamentável episódio. Precisamos expulsar o racismo dos alunos e não os alunos da escola.

Não é pequeno o que passou a adolescente e sua família, mas é descomunalmente maior o que lhes impõe, e a todos nós, a atitude da escola. É quase uma provocação. Afinal, o maior racismo é, ao meu sentir, se omitir diante do racismo. É o pior deles, pois se disfarça de santidade, repetindo cantos bonitos e divorciados de atitudes. As frases racistas são mais honestas e sinceras: elas falam em voz alta. O mais preocupante é o grito silencioso de repudiáveis notas de repúdio e os cinismos disfarçados de prudência.

A decisão de “esperar as autoridades”, não ajuda em nada a expulsar o racismo dos alunos e da sociedade. Como assim esperar as autoridades? O Colégio Franco-Brasileiro não sabe que também é autoridade? Que é autoridade educacional, não se recorda? É muito fácil jogar tudo para as autoridades e se omitir. Isso é inaceitável.

Essa atitude mancha o nome da instituição e os nomes que carrega: mancha o nome da França, com seus ideais revolucionários (igualdade, liberdade e fraternidade), e o nome do Brasil, que acolheu tantos franceses e senegaleses. No caso da França, sua história na África deveria fazer uma escola com o nome do país ser mais assertiva diante de episódios como este.

A Nota de Repúdio que o colégio divulgou diz que ele está “analisando todos os fatos para que sejam tomadas as devidas providências”. Enrolação. Se a instituição, como alega, “repudia, de forma veemente, toda forma de racismo”, deveria anunciar de imediato algumas providências. Há soluções que demandam reflexão, mas diante da gravidade do caso há medidas que podem e devem ser tomadas e anunciadas de imediato.

Sugiro algumas:

  1. um pedido formal de desculpas à família;
  2. um pedido formal de desculpas à comunidade, por não estar sendo capaz de evitar o racismo que tanto afirma deplorar;
  3. um compromisso de realizar eventos, com presença obrigatória de todos os alunos, para discutir o assunto;
  4. o compromisso de realizar palestras sobre o tema, com brancos e pretos na mesa;
  5. informar quantos professores negros possui, e um plano para aumentar seu número;
  6. a concessão de um bom número de bolsas de estudo para pessoas negras, de forma a acostumar seus alunos com a diversidade;
  7. um programa de convivência que inclua diversidade cultural, de preferência com a participação dos pais dos alunos;
  8.  um programa de apoio a alguma escola pública perto de sua sede, utilizando seus recursos;
  9. noticiar os livros que passará a adotar para contribuir com a correção do problema;
  10. envio de comunicação a todos os pais no sentido de que, observado o problema, os alunos devem ter reforçadas as orientações familiares relativas a cidadania, respeito e combate ao racismo e discriminação.

Se o colégio quiser fazer algo efetivo, não faltam ideias. O que falta é vontade. Então, não deveria a instituição de ensino acrescer aos vitupérios do racismo o vitupério de uma nota com palavras bonitas e omissões feias.

A verdade é que nós, enquanto sociedade, temos ensinado, por ação ou omissão, racismo aos meninos e meninas, e precisamos corrigir isso. Como disse Nelson Mandela, “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião.

Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta” (Long Walk to Freedom, 1995).

Alguém – ou todos nós – ensinou esses jovens que praticaram racismo. Alguém ensinou, ou está tolerando, a omissão de quem deveria agir de fato e não apenas repetir frases bonitas.

Alguém e todos nós precisamos desensinar a prática destas coisas ruins. Enfim, creio que pelo esforço dos adultos esses jovens de comportamento racista poderão ser corrigidos, educados, salvos mesmo. O que tenho dúvida é se os adultos irão aprender e mudar alguma coisa com esse episódio.

Aguardamos, portanto, não só as providências das autoridades públicas, que saberão tratar os autores das ofensas de acordo com a lei, o bom senso e as circunstâncias do caso, mas também aguardamos providências imediatas, concretas e sérias da autoridade educacional envolvida. Pelo bem do nome da França, pelo bem do nome do Brasil, pelo bem da Educação, pelo bem de todos.

Juiz Federal, Titular da 4ª Vara Federal de Niterói (RJ) com vários prêmios de produtividade. Professor Universitário. Mestre em Direito, pela Universidade Gama Filho – UGF. Pós-graduado em Políticas Públicas e Governo – EPPG/UFRJ. Bacharel em Direito, pela Universidade Federal Fluminense – UFF. Autor best-seller no Brasil e nos Estados Unidos.

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