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estudos bíblicos

Os dois tipos de carregadores de cruz na Bíblia

Quem é você?

Armando Taranto Neto

em

Simão Cirineu carrega a cruz com Jesus em "A Paixão de Cristo"(Reprodução)

Lucas 9.23-24 e Marcos 15.21 nos dizem respectivamente:

“Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará.” (ARA) (Grifo meu)

“E ocorreu que certo homem de Cirene, chamado Simão, pai de Alexandre e de Rufo, passava por ali, vindo do campo. Eles o forçaram a carregar a cruz.” (KJA) (Grifo Meu)

Segundo os textos em referência acima podemos compreender que existem duas categorias de pessoas que carregam a cruz do evangelho, os “voluntários” e os “convocados”.

Na primeira perícope é claro o amoroso convite feito por Jesus, onde Ele deixa bem explícito que, se alguém decidiu segui-lo, deve fazer um balanço, uma avaliação sobre tudo aquilo que deverá renunciar para, então, começar uma nova jornada de peregrinação espiritual.

Esta auto negação gerará dentro do homem um sentimento de tensão entre aquilo que deve tornar-se, de acordo com as Santas revelações das Escrituras, e as paixões e depravações que sua carne deseja. É uma situação semelhante a um paciente pós operatório obedecendo a ordem médica da “Dieta Zero” (Zero Ausência de ingestão alimentar. Destina-se a doentes que tenham indicação para pausa alimentar ou contraindicação para a utilização do tubo digestivo.) quando se está proibido de qualquer ingesta de alimento ou água.

Me recordo quando tive que ficar por dez dias nesta situação, internado em um hospital no calor escaldante do Rio de Janeiro, sedento, mas só podia me contentar em umedecer a boca com água sem engolir. Assim é quem carrega a Cruz do Evangelho, ela não nos matará, mas nos colocará em uma situação de total abstinência das paixões do mundo.

Perceba que o Mestre diz em Lucas que: “se alguém deseja“; não há aqui qualquer ordem ou força de lei para obrigar alguém a carregar a Cruz, mas é uma decisão pessoal, exclusiva do indivíduo, ele é livre para segui-lo ou não, levar a Cruz ou não, renunciar as concupiscências da carne ou não.

Este amoroso convite continua ecoando em nossos dias, suavemente como uma brisa bondosa, procurando uma alma perdida e sem esperança para dar-lhe um novo sentido de vida.

Por outro lado, temos o episódio de Marcos. Jesus estava se dirigindo para o local de Sua crucificação juntamente com dois criminosos. Cada um deles carregava a parte horizontal da cruz (Patibulum – Travessa vertical da cruz, também chamada de antena) que seria unida à base vertical que os aguardava no lugar chamado Caveira.

Não nos é revelado o porquê, mas por algum motivo os soldados romanos agarraram um homem de Cirene chamado Simão, que vinha de seu trabalho diário no campo e colocaram, “a força”, o “Patibulum” que Jesus carregava sobre seus ombros. Com certeza Cristo estava exausto depois de uma noite inteira de interrogatórios, espancamentos, afrontas e não tendo comido ou bebido nada. Sua humanidade estava completamente exposta.

Talvez o Filho de Deus não suportasse sequer seu próprio peso, quanto mais carregar por quase dois quilômetros uma carga extra de aproximadamente 25 a 35 quilos.

Simão Cirineu representa aqueles que foram convocados para carregar a cruz. São os que estão passando por uma situação que não escolheram, nasceram em uma família perversa que também não optaram, foram diagnosticados com uma enfermidade terrível que não pediram, se envolveram emocionalmente com alguém que lhes enganou e destruiu-lhes os sonhos ou você que, tal qual Simão, depois que resolveu se aproximar do Senhor está amargando o abandono, discriminação e a dor por parte daqueles que estão gritando no meio da multidão.

A Bíblia não nos revela que Simão tenha dito alguma coisa, mas quem sabe não tenha refletido:

  • ” – Eu não tenho nada a ver com isso! Esta Cruz não me pertence!”
  • ” – Que vergonha estou passando aqui no meio desta multidão!”
  • ” – Eu não fiz nada para merecer este sofrimento!”
  • ” – Maldita hora que fui resolver me aproximar deste homem!”
  • ” – Tem tanta gente na multidão! Por que vocês escolheram justamente a mim?”

Quem sabe não sejam estas as mesmas reações que estamos tendo nestes dias?

Às vezes passamos por situações que fogem completamente ao nosso controle e não conseguimos racionalizar os motivos de tamanho sofrimento.

Entramos em um estado de auto piedade nos sentindo como que um alvo da conspiração de todo o universo. Ou ainda, pensamos até em amaldiçoar nossa existência e nos arrependermos do dia que nos “aproximamos deste Homem Jesus”. Pois antes desta Cruz tudo era prazer e alegria.

Outros entram em um estado depressivo tão profundo que pensam em dar cabo de suas próprias vidas.

O que Simão Cirineu não sabia é que: Ele tinha que fazer o que Jesus não poderia naquele momento para que Cristo fizesse o que ele, Simão, não podia fazer; Jesus profetizou:

“E quando o iam levando, tomaram um certo Simão, cireneu, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas, para que a levasse após Jesus. E seguia-o grande multidão de povo e de mulheres, as quais batiam nos peitos, e o lamentavam. Jesus, porém, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos”. (Lc 23:26-28)

Ah bendita Cruz que cria um ambiente profético e Jesus pode falar através daquilo que estamos passando ou por meio daquela Nova Criatura que estamos nos tornando.

Bendita Cruz que não escolhi, que me machuca e me neutraliza. Me cala e me transforma. Gloriosa Cruz que não pedi, mas que nunca abandonarei. Quem foi convocado a carregar a Cruz que não pediu será guiado pelo próprio Senhor, não o perderemos de vista, assim como Simão seguia Jesus que ia à sua frente:

“…e puseram-lhe a cruz às costas, para que a levasse após Jesus.” (Lc 23:26)

O verdadeiro Evangelho de Jesus não promete o “Shangri-lá” (Paraíso na terra) de James Hilton , como faz a teologia da prosperidade e outras falsas doutrinas, mas aflição de alma e de espírito, entretanto Ele promete estar conosco em todo o tempo:

“Eu disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (Jo 16:33)

Os carregadores de Cruz que foram convocados devem entender que o sofrimento faz parte do processo. E se Jesus sofreu, por certo sofreremos:

“Porque, se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?” (Lc 23:31)

Outro fato muito importante a ser lembrado é que todo aquele que toma a sua Cruz, sela voluntária ou “forçada” tem a certeza de que chegará ao destino dirigido por Jesus:

E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira” (Lc 23:33a)  (Grifo meu)

Não temos ideia de quanto tempo levou a jornada de Simão Cirineu seguindo após Jesus, nem mesmo quantas quedas o carregador de Cruz de Cirene teve no percurso, porém a sua missão foi cumprida. Ele chegou ao destino proposto. Quero dizer a você, carregador de Cruz voluntário ou convocado,  que está pensando em abandoar sua verga, não importa quantas quedas ou quantas vezes tenhamos tomado caminhos equivocados, olhe para Jesus, não perca-O de vista que Ele nos guiará ao nosso destino final, a Terra da Promessa, a Nova Jerusalém:

“Os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor, e deleita-se no seu caminho. Ainda que caia, não ficará prostrado, pois o Senhor o sustém com a sua mão.” (Sl 37:23,24)

“Pois ainda que um justo caia sete vezes, sete vezes tornará a se erguer; os ímpios, todavia, são arrastados para a desgraça!” (Pv 24.16)

“Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a felicidade perenes, ou a morte, destruição e infelicidade! Portanto, hoje te ordeno que ames a Yahweh, o SENHOR teu Deus, andando em seus santos caminhos e guardando todos os seus mandamentos, decretos e ordenanças; assim tereis vida plena e muito crescerás em número, e o Eterno, teu Deus, te abençoará na terra em que estás entrando a fim de tomares posse dela.” (Dt 30.15-16)

Fico imaginando os dois momentos que o Cirineu teve de plena intimidade com o Cordeiro de Deus, o primeiro quando se aproximou para aliviá-lo do peso da Cruz. Posso vê-lo contemplando-O olho no olho ; quem sabe recebendo um tímido e dolorido sorriso de gratidão do Mestre que carinhosamente lhe transfere a verga ensanguentada.

Segundo ato, a devolução da trave ao Cristo fatigado, esgotado, entretanto agradecido, como se dissesse: “Simão até aqui é o teu limite, daqui pra frente é minha missão, vou enfrentar o que você não suportaria, faço isso porque te amo! Confie em mim vou vencer por todos vocês!”.

Uma vez mais se contemplam um ao outro, Simão vê o profeta de Nazaré, o Filho do Homem enxerga uma alma de valor que será um instrumento de Sua missão.

Certo é que todo aquele que tem um encontro com o Cristo não será mais o mesmo, Lucas nos diz:

“E constrangeram um certo Simão, cireneu, pai de Alexandre e de Rufo, que por ali passava.” (Mc 15:21)

É de se concluir, biblicamente falando, que o encontro de Simão Cirineu com Jesus transformou não só a si como sua família. Marcos deixa registrado que este Simão de Cirene era alguém conhecido na comunidade, pois são citados dois de seus filhos, Alexandre e Rufo.

Não quero forçar a Bíblia a dizer o que eu quero, incorrendo em erro exegético e hermenêutico, mas existe sim a possibilidade de Simão ser o pai e marido dos irmãos saudados por Paulo em Romanos 16.13:

Saudai  Rufo, este eleito do Senhor, e sua mãe, que é também minha“.

Bem, amado carregador de Cruz, não importa se escolhemos carregar o “Patibulum” ou nos foi “forçadamente” colocado em nossos ombros, a promessa é que o Cordeiro de Deus, o nosso Salvador de Nazaré carregou a parte mais pesada e mais dolorosa da trave. Que não venhamos negligenciar nossa chamada. Não perca Jesus de vista, ainda não chegamos ao lugar do encontro.

Que o Senhor te abençoe.

Graduado em Teologia. Pós-graduado em Teologia Bíblica. Mestre em Sociologia da Religião. Doutorando em Teologia.

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