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Opinião

O ponto fraco de Deus

O pregador deve ser irrepreensível, mas não incorrigível!

Tiago Rosas

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Coraçãozinho com as mãos. (Foto: Photo Mix por Pixabay )

“Você é o ponto fraco de Deus”, “No coração de Jesus, você é o centro” – esse é um linguajar não tradicional nem ortodoxo e que somado a um contexto de demasiado emocionalismo e centralização da figura humana na pregação acaba colocando desnecessariamente o pregador sob críticas; algumas moderadas, outras mais ácidas.

Se a intenção do pregador é falar da graça de Deus que alcança o pecador e do maravilhoso plano de redenção para o homem perdido, por que não preferir as expressões bíblicas ou aqueles termos cristãos mais usuais, sem malabarismos e interpretações individualistas? Por que não caminhar sobre os “marcos antigos” que estabeleceram os nossos pais? O ineditismo é vaidoso e perigoso como areia movediça.

A rigor, Deus não tem ponto fraco algum – Ele é o El Shadday, o Deus Todo Poderoso! A rigor, nenhum de nós é o centro no coração de Jesus, mas o Pai é que é o centro no coração do Filho. Ora, o que é antropocentrismo senão colocar o homem no lugar central? (antrophos, em grego, é homem; centrismo, deriva de centro). Que expressão mais antropocêntrica poderia haver do que dizer que o homem é o centro no coração de Jesus?

O que quer que os textos bíblicos queiram dizer sobre a boa disposição de Deus para ouvir os clamores de seus filhos ou sobre sua benevolência para com os pecadores, jamais poderia um pregador interpretar estes textos como se Deus tivesse um ponto fraco ou como se o homem estivesse centralizado no coração de Jesus. Citar versículos bíblicos descontextualizados e mal interpretados para respaldar essas teorias seria, ainda que inconscientemente, valer-se da mesma tática do diabo, quando tentou Jesus no deserto usando o livro dos Salmos (Mt 4.6; Sl 91.11,12).

O pregador, especialmente quando muito influente, precisa ter um senso de gravidade ao tratar das coisas de Deus. Não pode ser frívolo ao falar de seu Senhor! Paulo instruiu Tito a que demonstrasse gravidade, isto é, seriedade no ensino da Palavra (Tt 2.7). Também o instruiu a que demonstrasse incorrupção na doutrina (isto é, a protegesse contra deturpações), e o exortou ainda a que falasse apenas “o que convém a sã doutrina” (v. 1). Com o mesmo senso de responsabilidade, o apóstolo Pedro ensina: “Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus” (1Pe 4.11).

Está de acordo com as palavras de Deus dizer que Deus tem ponto fraco? Está de acordo com as palavras de Deus dizer que o homem é o centro no coração de Jesus? Se o equívoco não foi intencional – nenhum pregador é infalível, e a experiência nos ensina que quem muito fala muito erra – então que o pregador tenha a humildade de corrigir sua linguagem e aperfeiçoar-se na exposição da Palavra de Deus, para manejá-la bem (2 Tm 2.15). Não deve permitir que a fama e os fãs clubes lhe furtem ao dever de ser íntegro na pregação, nem deve usar os resultados de seu trabalho (muitos positivos) como escudo contra críticas.

O pregador deve ser irrepreensível, mas não incorrigível! Isto é, deve esforçar-se ao máximo para que sua conduta de vida e suas palavras não lhe façam merecedor de repreensão, mas, autoavaliando-se e percebendo-se em falta, deve aceitar humildemente a correção seja de postura ou de conteúdo, sempre buscando a glória de Deus por meio da exposição clara e fiel da Palavra.

É bom que o pregador, especialmente o evangelista, não queira envolver-se em polêmicas teológicas. Será sensato se mantiver o foco e afastar-se de discussões, especialmente em matérias que não domina. Era assim que se comportava o leigo, porém, renomado pregador Smith Wigglesworth, no século passado quando não existiam redes sociais para propagandear suas ministrações: quando suas pregações eram sucedidas por debates teológicos, ele se ausentava do debate e o deixava para os mais experientes. Wigglesworth reconhecia suas limitações e não se permitia embaraçar.

Todavia, seria insensatez do pregador não se permitir ser corrigido por pastores experientes e mestres que foram dados à Igreja justamente para edifica-la (Ef 4.11), e livrá-la de meninices e ventos de doutrinas que tragam desordem à Casa de Deus. Na verdade, tudo o que dissemos até aqui se aplica igualmente a pregadores, cantores, escritores e também teólogos – todos passíveis de erros, e todos igualmente corrigíveis.

Se até Pedro precisou ser corrigido por Paulo (Gl 2.11-14), que nenhum de nós se julgue acima de críticas. Dizia Davi: “Fira-me o justo, e isso será um favor; repreenda-me, e será como óleo sobre a minha cabeça, a qual não há de rejeitá-lo” (Sl 141.5). A crítica não pode ser ignorada pelo pregador, nem pode neutralizar-lhe as forças, antes deve ser avaliada e recebida com espírito de mansidão, se servir à sua maturidade espiritual.

Por fim, meditemos em tão preciosa palavra: “Tua é, Senhor, a magnificência, e o poder, e a honra, e a vitória, e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu é, Senhor, o reino, e tu te exaltaste por cabeça sobre todos” (1Crônicas 29.11). A Ele somente seja a glória!

Casado, bacharel em teologia (Livre), evangelista da igreja Assembleia de Deus em Campina Grande-PB, administrador da página EBD Inteligente no Facebook e autor de dois livros: A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira (2016) e Biblifique-se: formando uma geração da Palavra (2018).

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