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Estudos Bíblicos

Explicando o argumento do desígnio, para principiantes

Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. (Salmos. 19:3)

Moisés C. Oliveira

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Neste artigo pretendo apresentar ao leitor comum – pouco habituado à leituras mais sofisticadas – um argumento sólido e consistente em favor da existência de Deus, conhecido como Argumento do Desígnio. Atualmente há diversas versões desse argumento em que o nome pode variar um tanto. Aqui apresento a versão de William Paley, o primeiro a expor essa ideia, no início do século 19 e que levou esse nome. Primeiro exporei a analogia de Paley, depois sua ideia em formato de argumento.

Vale salientar que a Bíblia não apresenta argumentos para tentar provar a existência de Deus. No entanto, esse tipo de conhecimento é útil na medida em que pode auxiliar jovens estudantes cristãos que são desafiados por ateus – seja na escola ou em universidades – a contra argumentarem e refutarem ideias que confrontem sua fé, baseados num sólido argumento.

Outro ponto a acrescentar é que o uso de uma sólida argumentação deve vir na vida cristão acompanhada da leitura e meditação da Palavra, bem como, tempo dedicado à oração, afinal deve-se sempre ponderar qual o objetivo a ser alcançado; discutir por discutir, entrar em celeumas, despertar a ira de uma pessoa por conta de assunto tão nobre que não se deu conta de tratar? O objetivo deveria ser trazer aquele que ainda não conhece a Cristo, para perto da luz do Seu conhecimento; se for por meio de argumentação, a princípio, que seja.

Conhecer um bom argumento que prove a existência de Deus, também é necessário para estabelecer um ponto de contato com um ateu ou cético que não aceita a autoridade da Bíblia. Há casos que torna-se difícil estabeler um diálogo, pois um fala da ciência e suas leis e o outro fala de um livro com verdades que transcendem a própria existência. A princípio, a polarização do diálogo entre conceitos incongruentes como ciência versus fé, dificulta sua evolução. Com o argumento apresentado aqui, o cristão tem a oportunidade de estabelecer um ponto de partida para o desenvolvimento de um diálogo e posteriomente evoluírem no debate.

Aquele que quiser ser levado a sério na argumentação deverá zelar pela lógica, pela validade das premissas (afirmações) que a compõem e pela conclusão que decorre dela.

Um argumento sólido apresenta ao menos três características: ser válido, ser coerente e ter  poder de convencimento.

Validade: é impossível que a partir de premissas verdadeiras sua conclusão seja falsa;

Coerência: quando observada a correta aplicação dos seus termos e premissas;

Poder de convencimento: quando seu argumento parte de premissas comuns e verdadeiras para ambos os lados, muito embora seu oponente não concorde com a conclusão, não possa negar sua validade.

O Argumento do Desígnio, de Paley, que propõe provar a existência de Deus, possui as três características acima mencionadas e despertou a curiosidade e interesse de mentes brilhantes e merece todo respeito, seja pela sua robustez, seja pela criatividade com que Paley o elaborou. O Argumento do Desígnio pode ser entendido, em outras palavras, como o Argumento de quem concebeu, quem pensou as coisas, o mundo, a realidade, da forma como são.

A analogia de Paley

O argumento de Paley se inicia com uma analogia; que, a princípio, é a forma mais adequada que se dispõe para atingir uma verdade sublime, senão através de recursos da linguagem. Esse recurso retórico e didático também foi usado por Jesus ao ensinar por suas parábolas e figuras de linguagem à multidão tão heterogênea que ouvia seus sermões. Era uma forma muito eficiente de estabelecer um nível de comunicação comum tanto a letrados como iletrados e apresentar verdades teológicas sofisticadas.

Suponha um viajante vagando por um deserto, quando de repente encontra um relógio – um lindo relógio com detalhes refinados e ponteiros, funcionando perfeitamente. Curioso, ele examina suas partes; abre-o e vê suas minúsculas engrenagens, com seu intrincado e delicado mecanismo que opera todo o conjunto maravilhosamente.

O viajante observa que o relógio parece ter um propósito – a saber, contar as horas – e que cada uma de suas engrenagens, molas e eixinhos estão perfeitamente e harmonicamente ajustados, contribuindo para esse fim.

Todas as suas partes cooperam, cada uma individualmente, de forma perfeita e harmônica para sua função.

Examinando mais detidamente, o viajante percebe que, para qualquer engrenagem dada, há uma medida exata e uma posição adequada para tal, de maneira que o menor desvio que fosse em sua medida tal como são, provocaria o colapso do mecanismo e impediria seu funcionamento.

Se uma de suas molas fosse levemente mais apertada ou afrouxada, o posicionamento dos mostradores ou suas engrenagens alterado ainda que minimamente – se alguma coisa nesse relógio tivesse sido de alguma maneira diferente, teria comprometido seu funcionamento como um todo.

O viajante vê que cada coisa no relógio contribui para o funcionamento do todo.

Paley então faz uma observação: “seria razoável para o viajante concluir de onde esse relógio surgiu?”

E continua: “o viajante deveria pensar, eu sei que não fui eu quem fez esse relógio, mas sei que ele é fruto do trabalho de alguém. Deve haver um responsável por isso”.

E, havemos de convir, essa é uma conclusão natural a qual o viajante deveria chegar. Um relógio implica um fabricante de relógios.

Modelando o argumento

O próximo passo agora é transformar as idéias de Paley em um argumento rigoroso.

Uma boa maneira de se fazer isso é utilizar um princípio empregado na filosofia chamado de inferência à melhor explicação.

Inferência à melhor explicação, basicamente, trata-se de um recurso argumentativo que propõe que diante de certas explicações para determinada evidência, a melhor explicação que encontrarmos será a mais provável de ser verdadeira.

Aplicado a um caso particular para exemplificar, seria assim: ouço arranhões na parede, ouço um caminhar de pequenos pés no forro da minha casa à noite e meu queijo amanhece com um bocado comido. Em condições como esta, eu deveria inferir que a melhor explicação para os arranhões, as pegadas no forro e o queijo comido é que um camundongo veio morar comigo. Portanto, a principal inferência à melhor explicação me diria que “eu deveria acreditar que um camundongo veio morar comigo”.

Nada complicado até aqui. Apelamos para inferência à melhor explicação o tempo todo, mesmo sem conhecimento explícito do que estamos fazendo.

Abaixo, o diagrama do argumento montado, com suas premissas e a conclusão.

Premissa 1(inferência para a melhor explicação). Suponha a evidência E, e consideradas diversas hipóteses, digamos H e H’. A regra diz que devemos inferir H em vez de H’ exatamente se H for uma melhor explicação que H’.
Premissa 2Sabemos que os organismos vivos são compostos de partes perfeitamente adequadas e harmonicamente ajustadas para manter suas vidas.
Premissa 3A melhor explicação de como aconteceu que as partes de organismos vivos funcionem perfeitamente adequadas e harmonicamente entre si e cada qual com seu propósito para manter suas vidas é que alguém as concebeu assim.
ConclusãoDeveríamos acreditar que alguém concebeu que as partes de organismos vivos funcionem perfeitamente adequadas e harmonicamente entre si, a saber, Deus.

Dado o objetivo desse artigo e para fins didáticos, optei por essa explicação simplificada, evitando nomenclatura técnica o quanto possível, focando mais no esclarecimento do mecanismo do argumento, tornando-o acessível a um maior número de pessoas interessadas nesse conhecimento.

Há refutações para esse argumento que obrigam o estudante e apologista da fé a aprofundar e atualizar seus conhecimentos para estar devidamente preparado a dar razão da sua fé.

O desenvolvimento desse argumento gerou um outro que tem impactado ainda mais o meio acadêmico. Foi proposto por Roger White, importante filósofo do renomado MIT, no ano 2000, nos EUA que publicou artigo que sustenta a existência de Deus, num compacto e sofisticado argumento que deu o nome de “Fine-tuning e universos múltiplos” – (Fine-Tuning and Multiple Universes)  que pretendo tratar em uma próxima oportunidade.

Bibliografia

FRAASSEN, Bas C. Van; La imagen Científica. Universidad Nacional Autónoma de México, 1ª Edición, 1996.

PALEY, William; The Works of William Paley, D.D., Archdeacon of Carlisle, 1827.

TOULMIN, Stephen E.; The uses of argument. Cambridge University Press, 2003.

Formado em Letras (Literatura Inglesa e Portuguesa), pastor assembleiano, professor da EBD e de teologia, residindo em São José, SC.

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