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Estudos Bíblicos

Ensaio para uma tipologia da igreja

Ao mesmo tempo, a consciência das diferentes ênfases eclesiásticas deveria trazer ao crente uma atitude de tolerância e respeito, amor profundo e consideração pelo contexto maior.

Alex Esteves

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Culto em igreja americana. (Foto: Photo by Edward Cisneros on Unsplash)

É uma realidade empiricamente verificável que diferentes igrejas dão destaque a diferentes aspectos da vida cristã, e isso, entre outras coisas, define seu caráter institucional (ou não institucional). Está-se aqui no campo da eclesiologia (doutrina da Igreja).

Numa análise simples, pode-se afirmar que alguns desses aspectos são confessionalidade, comunhão fraternal, autenticidade, louvor, missão, tradição, exercício dos dons espirituais, responsabilidade social e restauração dos traços primitivos.

A depender da maior ou menor ênfase que se dê a um ou mais desses aspectos, tem-se a classificação do tipo de igreja em que você se encontra.

Confessionalidade

Uma igreja acentuadamente confessional tem nas declarações de fé sua referência credal, doutrinária e teológica, pela qual está disposta a pelejar. Seus pastores constituem uma elite teológica bem formada e influente.

Sua apologética é das melhores, sua teologia sistemática é um primor, e sua segurança reside na adesão aos símbolos de fé que professa e carrega como bom depósito.

Essa é uma igreja que consegue perceber com clareza os erros doutrinários e as heresias, mas, se levada ao extremo, sua confessionalidade pode conduzir ao dogmatismo e à confusão entre assentimento intelectual e espiritualidade.

Comunhão fraternal

Uma igreja mais propensa à comunhão fraternal promove encontros frequentes para entrosamento dos seus membros e integração dos novos. Seus membros gostam de estar juntos e se conhecem bem, compartilham anedotas, e se alegram quando leem passagens bíblicas relacionadas à Igreja como o Corpo de Cristo, bem como à cláusula “uns e outros” e suas variações.

Essa é uma igreja acolhedora, que sai depois do culto para comer pizza, e que trata muito bem a todos que a visitam, mas, se levada ao extremo, sua ênfase na comunhão fraternal pode torná-la uma igreja de doutrina indefinida, que evita falar de sistemas teológicos para não constranger os calvinistas e arminianos, continuístas e cessacionistas, enfim, as diversas “tribos” que acolheu.

Autenticidade

Uma igreja que busca a autenticidade como objetivo principal procura evitar elementos culturais “externos”, “importados”, e entende que deve acolher as pessoas e grupos socais sem ditar regras rígidas quanto a usos e costumes.

Seus membros tendem à informalidade e a uma crítica severa da “religiosidade” e de mecanismos formais de liderança e relacionamento eclesiástico.

Essa é uma igreja compromissada com a relevância do testemunho cristão, mas, se levada ao extremo, sua ênfase na autenticidade pode conduzir a uma espécie de “niilismo cristão”, quiçá anarquia, dada a tendência de reputar como carnal toda iniciativa de organização.

Louvor

Uma igreja que prioriza o louvor se destaca por conjuntos musicais bem formados, bons arranjos, constituindo um celeiro de músicos. Às vezes essa igreja se confunde com um ministério da chamada “música cristã contemporânea”. Outras igrejas cantam seus louvores, e seus músicos são premiados como grandes artistas do movimento gospel. Essa é uma igreja musicalmente talentosa e abençoada, mas, se levada ao extremo, sua ênfase no louvor pode conduzir ao raquitismo bíblico, pois, em vez de se basear na pregação e ensino da Bíblia, se baseia em letras de canções.

Missão

Uma igreja que atua mais incisivamente na missão não se contenta em “ficar entre as quatro paredes do templo”.

Ela tem de sair às ruas, visitar órfãos e viúvas, evangelizar mendigos, pregar nos presídios, enviar missionários ao exterior, pregar o Evangelho em sua região e em qualquer lugar. Seus membros são incentivados a orar por missionários, contribuir e atender ao chamado das missões urbanas, regionais, nacionais ou transculturais.

Essa é uma igreja missionária, mas, se levada ao extremo, essa ênfase na missão pode conduzir à falta de fortalecimento dos que foram alcançados, pois a simples adesão à comunidade já torna o novo crente um missionário, ainda que sem discipulado e preparo.

Tradição

Uma igreja mais ligada à tradição pensa em termos de identidade. Ela entende que deve manter certos costumes porque eles definem seus fundamentos e rememoram sua história gloriosa, seu passado muitas vezes lembrado de forma nostálgica.

Essa igreja tem o que rememorar, não nasceu ontem, e seu repertório cultural é importante para conferir sensação de segurança e estabilidade, mas, se levada ao extremo, a tradição se torna tradicionalismo, e a igreja não consegue lidar com as mudanças sociais, com o espírito da época nem com as pessoas mais jovens.

Dons espirituais

Uma igreja que valoriza em primeiro lugar o exercício dos dons espirituais é aquela que reconhece a contemporaneidade dos dons espirituais carismáticos, o que impulsiona sua evangelização. Essa é uma igreja atuante, avivada, que ora e jejua com regularidade, mas, se levada ao extremo, essa ênfase carismático-pentecostal pode conduzir ao fanatismo, misticismo ou experiencialismo, e à noção equivocada de que experiência do Espírito é apenas aquela relacionada a sinais e prodígios, além de uma substituição da autoridade pastoral pela autoproclamada autoridade de “profetas” e “profetisas”.

Responsabilidade social

Uma igreja que se preocupa mais com a responsabilidade social está sempre lembrando da assistência aos pobres, e alguns de seus líderes escrevem e pregam sobre como a Bíblia tem um apelo social. Essa é uma igreja que entende a importância das obras como confirmação e exteriorização da fé, mas, se levada ao extremo, essa ênfase no papel social da igreja pode caracterizá-la como uma espécie de associação filantrópica religiosa, o que é menos do que igreja de Cristo. Também surgem nessa igreja pastores que são mais militantes de esquerda do que qualquer outra coisa.

Restauração dos traços primitivos

Uma igreja mais voltada à restauração dos traços primitivos preocupa-se em não ir além dos elementos básicos encontrados em Atos dos Apóstolos e nas Epístolas, buscando afastar-se das características que entende terem sido adotadas no curso da Igreja, mas sem base bíblica.

São muitas as igrejas de tipo restauracionista, abrangendo desde as chamadas “igrejas locais” até àquelas que leem a Bíblia pelo método literal.

Essa igreja é sincera, piedosa e simples, mas sua ênfase na restauração dos traços primitivos pode conduzir ao sectarismo, ao desprezo pela boa teologia e a uma interpretação legalista das Escrituras.

Confissão de fé, comunhão fraternal, autenticidade, louvor, missão, tradição, exercício dos dons espirituais, responsabilidade social, restauração dos traços primitivos – tudo isto deveria marcar nossas igrejas, mas sabemos que elas são falhas; conhecemos nosso rebanho.

As ênfases surgirão por razões históricas, sociais, espirituais, doutrinário-teológicas, intelectuais, psicológicas, circunstanciais, mas, acima de tudo, precisamos ter em mira que nada disso se sustenta sem o fundamento sólido da Palavra de Deus.

Bem por isso, a maior ênfase que se deve dar é ao ensino sistemático da Bíblia, à exposição de textos inspirados pelo Espírito Santo, para que o próprio Deus conduza Sua igreja para onde Ele quer que ela esteja.

Ao mesmo tempo, a consciência das diferentes ênfases eclesiásticas deveria trazer ao crente uma atitude de tolerância e respeito, amor profundo e consideração pelo contexto maior – muito maior! – que corresponde à Igreja de Cristo e ao reino de Deus. Precisamos aprender uns com os outros. Precisamos de humildade.

Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.

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