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vida cristã

Desigrejado: um peixe fora d’água

Quais as consequências do movimento?

Denise Santana

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Peixe na areia da praia (Andrea Junqueira / Unsplash)

Um peixe fora d’água que pode morrer a qualquer momento. Assim se percebe o movimento das pessoas que não querem ser membros das igrejas evangélicas. Antigamente se ouvia falar sobre os católicos romanos que eram praticantes e não praticantes. Mas os evangélicos eram praticantes. Não existia notícia de um evangélico que não fosse membro de uma igreja. Era comum a emissão de carteira de identificação para os membros. Mas a igreja evangélica mudou.

Hoje existe o evangélico que não quer mais frequentar uma igreja institucional. Eles ficaram conhecidos popularmente como desigrejados que são cristãos evangélicos que se desvincularam das igrejas. Não aceitam mais fazer parte da membresia, criticam a institucionalização da . Os sem igreja são uma tribo informal com pessoas que desistiram da igreja.

O movimento também recebe diversos nomes alternativos. Teólogos e cientistas da religião, que publicaram obras sobre o assunto, descrevem a pessoa que quer distância de igreja como descrente, antidenominacionalista, fé autônoma, sem igreja, tribo, ilhado, separatista. O termo desigrejado é criticado pelas pessoas que não querem ser membros das igrejas que entendem que é pejorativo.

Nas redes sociais circula uma frase que ilustra a realidade atual. A frase diz que chegou o tempo que os evangélicos precisam evangelizar os próprios evangélicos. O cenário religioso brasileiro se alterou. Os evangélicos que não querem saber de igreja tornaram-se autônomos na fé.

Os números

A partir da divulgação da Pesquisa do Orçamento Familiar (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse assunto ficou em evidência e os estudiosos da religião voltaram a atenção para pesquisar sobre o tema.

O IBGE pesquisou o assunto em 2003 e em 2009. Mas divulgou os números no censo de 2010.

De acordo com a pesquisa, 14% entre os declarados evangélicos não têm vínculo institucional. Esse número representa quatro milhões de brasileiros. Números mais atuais não foram pesquisados uma vez que o censo do IBGE é realizado de 10 em 10 anos.

Nova pesquisa deveria ter sido feita este ano, mas foi adiada por causa da Covid-19.

A diferença entre desigrejado e desviado

É necessário fazer separação entre desigrejados e desviados. O primeiro é formado por cristãos que deixaram as igrejas, mas não abandonaram a fé.

Os desigrejados até podem deixar a fé futuramente ou não. Os desigrejados podem esfriar a fé e se desviar, mas não são desviados necessariamente.

Tipos de desigrejados

Não existe um único tipo de público. Existem pessoas com os mais variados discursos justificando a saída da igreja. Os teólogos que estudam esse tema descrevem subgrupos dentro do grande quadro de desigrejados. Eu entendo que é melhor simplificar e ver esse movimento em três grandes partes.

Existe o primeiro grupo de pessoas que abandonaram a igreja e a fé. Esse grupo primeiro abandona as reuniões da igreja, torna-se desigrejado e depois desviado.

No segundo grupo, existem aqueles que abandonaram a igreja, mas mantém a fé. São os cristãos sem igreja. Os decepcionados por terem vivido algum problema na comunidade. Tentam continuar a ser cristãos sem pertencer ou frequentar um templo. Nesse segundo grupo há pessoas que amam a Cristo, mas preferem viver longe dos pastores e dos irmãos. Esses não se consideram fora do corpo de Cristo. Querem servir a Jesus. Só não aceitam a tutela institucional. Algumas das pessoas desse grupo são levadas a sério. Outras são criticadas, rotuladas ironicamente e discriminadas.

Têm ainda os mais radicais. O terceiro grupo é formado pelos que não frequentam culto e pregam o fracasso da igreja organizada. Defendem o cristianismo sem igreja. Afirmam que as pessoas devem sair da igreja para encontrar Deus. Querem que as igrejas acabem em todo o mundo. Que fechem suas portas. Pregam o fim da instituição.

Qual a diferença entre os decepcionados e os radicais? Apesar de ter pessoas que abandonaram a igreja em todos os grupos, a diferença principal entre eles é que o segundo grupo não faz militância pelo fim da organização, para que todos os templos fechem as portas.

Os decepcionados estão ainda com as feridas abertas, mas não usam de ideias e palavras tão radicais como o terceiro grupo. Geralmente as pessoas decepcionadas acabam migrando para projetos como reuniões nos lares ou células, por exemplo. Têm pessoas que não querem pertencer à membresia e que são usuários temporários dos serviços e eventos oferecidos pela igreja como os congressos e seminários. Existem os que usam a igreja como vida social.

O que importa não é ajudar a igreja a crescer, mas usá-la para passar o tempo, fazer amigos, servir-se dela como se fosse uma instituição secular apenas. Tudo sem o devido envolvimento de pertencimento. E também há os cristãos sem igreja que são adeptos das ministrações pela televisão e pela internet. Fazem da rede o seu templo. São observadores, sem comunhão e sem compromisso.

O alimento espiritual pela internet

A pós-modernidade trouxe mudanças para a igreja. Os meios de comunicação de massa da atualidade conectam o mundo. A prática da fé passou por transformação ao embarcar no uso da comunicação.

Muitos cristãos se alimentam espiritualmente de conteúdo divulgado pela internet (blogs, portais e redes sociais), rádio, TV, aplicativos (como o WhatsApp). Os desigrejados também entraram nesse contexto de ter alimento espiritual on-line.

Multiplicam-se páginas nas redes sociais debatendo sobre ser desigrejado. Há muitos vídeos postados no YouTube também. A liberdade de postar o próprio conteúdo ajuda na divulgação da ideia de ser avesso à igreja institucional.

A internet criou uma rede de relacionamento das pessoas. Conexão total. A religião não ficou de fora desse universo on-line. A fé saiu dos templos e entrou para a rede. A igreja evangélica brasileira se comunica via internet. E quem também não é mais igreja institucional, como os desigrejados, estão ligados nos grupos on-line.

São muitas as páginas de comunidades dos desigrejados nas redes sociais, pois essa ferramenta possibilita facilmente o compartilhar de informações. São fartamente usados o Facebook, Twitter, Linkedln, os aplicativos Instagram e Snapchat.

Por que as pessoas se afastam da igreja?

São muitas as razões para a desilusão com o corpo de Cristo. Vamos listar algumas:

As pessoas podem se afastar da comunhão dentro do templo alegando que a igreja institucionalizada não cresce e perdeu de vista a sua missão.

Outros, principalmente os jovens, entendem que a igreja está repleta de pessoas de mente fechada, ultraconservadores hipócritas, misóginos, homofóbicos e julgadores.

Muitos frequentadores da igreja sentem-se feridos e decepcionados.

Existem aqueles que afirmam razões históricas para abandonar a comunidade. Dizem que ideias gregas suplantaram o pensamento hebraico na igreja. O paganismo invadiu os templos acabando com a “igreja pura”. A igreja está corrompida. Boa parte do culpado por isso acontecer foi o Império Romano.

De acordo com alguns cristãos insatisfeitos, a igreja é um acidente histórico não bíblico, uma versão do paganismo. Esse grupo condena até o formato atual de culto alegando que é um modelo pagão. Não aceita o modelo de culto com sermão, não aceita a igreja ter prédios, rejeitam os líderes pastores. Não concordam com a liturgia, criticam dar oferta, não aceitam os corais nas reuniões.

Dizem que o modelo atual de culto foi influenciado negativamente pelo Império Romano e que a igreja do século XXI perdeu a pureza que tinha a igreja do século I.

Esse grupo que rejeita o modelo de culto e da organização administrativa da igreja são os mais radicais. Muitos defendem até o fechamento das portas da igreja. Falam também que não é bíblico a visão de igreja organizacional, institucional, hierárquica, programática e com cultos semanais. Defendem que Jesus não veio para criar uma religião.

A ideia dos desigrejados é que devemos ficar distantes das doutrinas humanas e dos rituais existentes hoje. Só assim a igreja estaria mais perto de Deus.

Quais as consequências do movimento?

O pensamento de afastar-se da igreja está gerando pessoas que não participam ativamente. São críticos. Pulam de igreja em igreja. Optam pela distância e não ajudam na edificação. Não contribuem com os cultos das igrejas que visitam.

Esquecem que cada um prestará contas acerca da esperança da fé, de incentivar o amor e as boas obras. Esquecem da responsabilidade de ter o cuidado pelos irmãos. Esquecem de cumprir o “Ide” de Jesus, pois pouco fazem por missões.

Os desigrejados mais radicais defendem o fim das igrejas institucionalizadas. Para substituir a igreja que dizem estar corrompida, criam um modelo alternativo de reunião. Sustentam que esse novo modelo criado é o verdadeiro e baseado na igreja primitiva.

Vivendo os modelos alternativos

Por causa da saída de muitos evangélicos das igrejas tradicionais, uma nova onda de igreja alternativa está ganhando força no Brasil. São as reuniões domésticas. Diante das novas ideias para a administração eclesiástica e doutrinas diferentes, as pessoas apontam novos caminhos de ser igreja.

Surge a pergunta: são desigrejadas as pessoas que frequenta as reuniões cristãs nos lares? A resposta é não. O ministério em célula (reunião doméstica ou igreja em casa) é uma alternativa para onde migram as pessoas que não desejam mais pertencer a uma igreja tradicional. Pode ser um caminho viável para os desigrejados não se tornarem desviados e não se desvencilharem de vez da comunhão com outras pessoas da mesma fé.

Mas que fique bem claro: o modelo de igreja em casa não é desigrejada, não prega o fim da igreja tradicional e não quer se afastar da fé. Muito pelo contrário.

Os cristãos que optam por esse modelo são fiéis, praticam as ordenanças da ceia e do batismo. Querem participar do corpo de Cristo. Só entendem que podem desenvolver a comunhão em ambiente diferente ao do templo. E veem no modelo bíblico uma alternativa. É a busca por ser parecidos com a prática de fé dos primeiros cristãos, em Jerusalém, que também se reuniam em casas.

Não existe uma estatística no Brasil sobre o número de residências nas quais acontecem cultos. Informalmente, sabe-se que é uma realidade esse tipo de reunião cristã. Nas conversas com os amigos é comum ouvir as pessoas dizendo que deixaram os templos e decidiram servir a Deus e à comunidade por meio das igrejas em casa. Muitos decepcionados com a igreja institucional buscam o caminho da comunidade da fé por meio da participação em pequenos grupos e células. Fazer parte desses grupos significa estar inserido no corpo de Cristo, mas de maneira informal.

O lar é um espaço propício para o ajuntamento em comunhão. Esse tipo de reunião pode muito bem servir de caminho para os desigrejados voltarem ao ajuntamento de fé. Inclusive existe base bíblica e teológica para esse modelo. As casas foram os locais de encontro dos primeiros cristãos no século I. O livro bíblico de Atos dá vários exemplos de Koinonia, ou seja, de comunidade, participação. Lucas, o autor do livro, mostra que a igreja compartilhada nos lares tinha características ímpares como hospitalidade, ajuda mútua entre as pessoas, divisão dos bens e da alimentação. Foi das casas de Jerusalém que os cristãos expandiram o ministério indo para as cidades de Filipos, Cesareia, Damasco, Éfeso entre outros locais. Cidades diferentes, mas ação padronizada. Todos se reuniam em casas.

Mesmo sendo uma opção para os desigrejados que não querem ser membros de uma igreja formal, o modelo de igreja doméstica não é livre de problemas. Há dificuldades em se viver valores éticos e relacionais. E há ainda uma crítica, pois parece que são defensores do niilismo. Mas não são. Os adeptos da igreja em casa não pregam essa doutrina filosófica. Não defendem uma visão cética radical em relação à igreja tradicional, não buscam aniquilar as convicções tradicionais. A visão de igreja em casa só quer ser uma opção a mais. Uma possibilidade de ser igreja fora do tradicional, na tentativa de voltar ao modelo primitivo.

Realmente não se pode generalizar afirmando que as pessoas que buscam uma comunhão alternativa nas residências são todas niilistas. Mas também não se pode negar que, dentro do movimento dos desigrejados, existe, sim, a filosofia niilista. O que é niilismo? O termo que vem do latim nihil e significa nada. O conceito de niilismo é, dentro de uma visão nietzschiana, “a descoberta da perda da verdade, da morte de Deus, ou melhor, o estado, a condição de um mundo sem mais verdade.” Há ainda outros autores que definem niilismo como “o processo pelo qual os valores fundamentais da metafísica se revelam infundados e como tais se aniquilam em sua total inconsistência filosófica.”

Niilista é o contestador dos valores e da ordem social vigente. É o homem que nada crê nada ou reconhece. Aquele que tudo examina do ponto de vista crítico. É o homem que não se curva perante nenhuma autoridade e que não admite como artigo de fé nenhum princípio, por maior respeito que mereça. O niilista vive um choque de gerações. Ele expõe a rachadura que existe entre pessoas com visão tradicional e outras com abertura de pensamento. Existem alguns que apelam para crença em antigos princípios, principalmente de fé. E existem outros que não são mais capazes de cultivar uma crença. Realidade que ilustra bem o mundo atual onde cresce o número de ateus e desigrejados.

O niilismo é uma corrente filosófica, um estilo de vida crítico que jogou por terra fundamentos antes sólidos como a religião. Nele se fala sobre o fim da verdade, do critério absoluto e universal. É o ser humano convocando seus semelhantes à sua própria liberdade e responsabilidade, agora não mais garantida, nem controlada por nada, muito menos pela religião.

Entendo a prática da espiritualidade

Além das ideias niilistas, é preciso entender como é a espiritualidade no mundo de hoje. A pós-modernidade desenhou um universo religioso próprio que pode ser percebido muito claramente no Brasil. A visão pós-moderna do universo religioso brasileiro é múltipla. Entenda por pós-modernidade uma época de mudança de hábitos, valores, concepções e práticas que marcaram o mundo e o diferencia dos períodos históricos passados. É um conjunto de novos valores na música, na literatura, na arte, nos filmes, nas novelas, no modo de vestir e no trato com as pessoas. É um tempo no qual valores educacionais, sociais, políticos, morais e religiosos estão sendo contestados e outros são propostos para o lugar.

O mundo pós-moderno engloba todas as crenças, nas suas mais variadas linhas de credo. A sociedade caminhou para exercer uma espiritualidade autônoma, longe da tutela das instituições religiosas, longe do domínio religioso. É preciso entender que a prática da espiritualidade na era pós-moderna tem características diversas como as pessoas avessas à tutela institucional. Religião não é institucional, as pessoas são religiosas sozinhas. São autônomas no exercício de suas crenças. Estão com Deus, mas querem ficar longe da instituição igreja. O grande exemplo são os desigrejados.

Hoje mudou também a ideia do que é verdadeiro e falso. A sociedade procura o que funciona sem querer saber se é certo ou errado. A religiosidade tornou-se subjetiva, mudando a ideia do que é verdadeiro e falso uma vez que agora não se está preocupado com a verdade absoluta. Aliás, na visão de muitas pessoas, não existe mais espaço para a verdade inquestionável. Já era o absolutismo.

O niilismo trouxe essa quebra de paradigma e colocou um fim na verdade absoluta. Tudo é questionado e criticado. Hoje as pessoas querem saber o que lhes é agradável, o que pode saciar a ideia do que quer agora, imediatamente. É a ideia do eu, do meu e do agora. A pessoa diz o que quer, do jeito que quer viver e crer e deseja resultados de sua fé imediatamente.

Estamos na era do egoísmo e do individualismo extremo. Abaixo a coletividade, pois o importante é sobressair a vontade própria. Parece contraditório, mas – mesmo existindo as comunidades em rede, aumenta o individualismo. Em outras palavras, a pessoa está cada vez mais sozinha mesmo conectada.

O formato das redes sociais propicia o sistema de relação focado na pessoa e não no grupo. É como se uma pessoa estivesse só, vivesse só, cercada de uma multidão.

Esse novo padrão de relações sociais é o “individualismo em rede”. Acontece a comunicação em velocidade alta, a barreira geográfica é inexistente para esse contato e o mundo está ficando sem fio. A vida compartilhada em comunidade deu lugar ao isolamento, ao individualismo. Os desigrejados estão assim: muita gente debatendo a fé nas redes sociais, mas distantes da comunhão com os irmãos da mesma fé.

A religiosidade atual também tem um traço tribal. A pessoa não se associa à instituição, mas a tribo onde se reúne por afinidade. Se concorda com um tema e discorda das instituições tradicionais, cria grupos autônomos, com novas interpretações sociais e bíblicas, e se vincula. Essa é a nova postura de uma sociedade tribal. A espiritualidade também é emotiva onde a religiosidade é baseada no sentimento e não no conhecimento.

O pragmatismo é outro traço, pregando o prazer do aqui e agora. Passa pelo imaginário popular que o que se pode obter no momento é mais importante do que os resultados a longo prazo. É a busca por satisfação do momento em detrimento do futuro. É a ênfase no resultado. As coisas são avaliadas em função do que podem produzir. Vive-se em uma época de mudança de valores.

As críticas dos desigrejados à igreja

São inúmeras as discordâncias dos desigrejados à igreja institucional. Sem a intenção de mudar o que entendem que está errado, optam por se desvincular, tornando-se autônomos na fé. Ou pior: muitos estão abandonando de vez o cristianismo.

Qual é a posição dos desigrejados sobre o afastamento das igrejas? Eles dizem que o cristão não é membro de uma denominação, mas do corpo de Cristo. Não se prendem as obrigações religiosas e às tradições. Afirmam que procuram vivenciar o que de fato Cristo ensinou acerca de um relacionamento simples com Deus. Não ofertam ou dizimam porque entendem que não podem se prender a um sistema de recompensas e punições. Acreditam que só pode tornar uma comunidade quando houver mais confiança em Deus e menos medo.

O que mais criticam? Os desigrejados criticam o surgimento de muitas denominações evangélicas, o poder apostólico das igrejas neopentecostais, a institucionalização e secularização das denominações históricas, a profissionalização do ministério pastoral, a busca de diplomas teológicos reconhecidos pelo estado, a variedade de métodos de crescimento das igrejas tradicionais e o fracasso das igrejas emergentes.

Sobre a variedade de métodos de crescimento de igrejas, a crítica recai sobre a visão que persegue a quantidade e não a qualidade de aprendizado das pessoas. A qualquer custo a igreja busca mais membros e não o maior crescimento espiritual desses. A busca por crescimento rápido gera muitas pessoas alcançadas, mas poucas transformadas. O foco das reuniões é para certificar se os objetivos foram alcançados. O resultado? Frustração ao não conseguir bater as metas que são complicadas e difíceis de cumprir. Isso gera grandes cobranças por parte da liderança e disputa entre as pessoas para ver quem atingiu a meta. Os desigrejados rejeitam todos esses pontos acima citados. Dizem que buscam estruturas que expressam mais a vida alcançada pela graça de Deus e não pelo esforço humano.

As queixas não param por aí. São inúmeras. As causas para deixar a igreja também. Além dos pontos acima citados, os desigrejados criticam ainda líderes manipuladores que usam pessoas para o serviço de um ministério. Não concordam com a ideia de igreja voltada para o sucesso da instituição. Não aceitam a estrutura organizacional e a hierarquia, pois consideram que isso prejudica o cristão uma vez que não o permite viver o sacerdócio de todo o crente.

Além de defender o fim dos templos, o dízimo é outro assunto muito polêmico. Os desigrejados são contra ser dizimista. Dizem que não existe essa necessidade no Novo Testamento. Que dízimo é somente assunto do Antigo Testamento.

As críticas não acabaram. Existem mais justificativas dos desigrejados para abandonar os irmãos na fé e o vínculo de membresia. Dizem que a igreja organizada não é bíblica porque Jesus não construiu uma nos moldes que existe hoje.

Também afirmam que, a partir do século II, foi inventada a hierarquia na igreja e que aqueles cristãos se deixaram impregnar pelo pensamento filosófico grego. Ou seja, que ideias não cristãs se infiltraram no cristianismo primitivo o desvirtuando dos ensinamentos de Jesus. O Império Romano – principalmente o imperador Constantino, teria sido o grande incentivador para que a igreja deixasse de ser pura e simples como era no século I. No século IV a igreja se tornou aliada e influenciada pelo Estado romano. Isso significa corrupção para os desigrejados. Até as confissões de fé criadas pelos patrísticos (pais da igreja) são criticadas, pois impedem o livre pensar.

Ainda defendem que a Reforma Protestante tentou, mas não conseguiu corrigir os erros da igreja. Apesar de a Reforma ter se levantado contra a corrupção, os protestantes acabaram caindo nos mesmos erros ao criarem denominações organizadas, sistemas interligados de hierarquia e processos de manutenção do sistema, como a disciplina e a exclusão dos dissidentes, e ao elaborarem confissões de fé e catecismos que engessaram a mensagem de Jesus e impediram o livre pensamento teológico. Toda a estrutura é criticada: dízimo, hierarquia nos cargos, ficha de membro, tesouraria, clero, confissão de fé, faculdade de Teologia. 

A dor dos desigrejados

São muitas as histórias de abuso de ovelhas machucadas pelos pastores. Mas o que é um abuso espiritual? Existe ligação entre o abuso e o desigrejado?

O conceito de abuso é o uso incorreto, excesso, uso imoderado de poder, mau uso, desmando. A palavra vem do latim “abusus”. O abuso espiritual pode ser definido como “o encontro entre uma pessoa fraca e uma forte, em que a forte usa o nome de Deus para influenciar a fraca e levá-la a tomar decisões que acabam por diminuí-la física, material ou emocionalmente.”

Analisando a segunda pergunta, é preciso saber o que o abuso espiritual tem a ver com o tema desigrejado. Muita coisa. A decepção com a liderança é um dos motivos pelos quais as pessoas deixam as igrejas e se tornam desigrejadas. Por isso é importante tocar nesse ponto de gente machucada. O problema é que a decepção toca direto o coração da vítima.

E como a Bíblia diz, em Provérbios 18:19, seria bem mais fácil conquistar uma fortaleza do que ganhar novamente a amizade de uma pessoa ofendida. Entendeu a questão? É difícil conquistar novamente os corações desiludidos com a fé cristã que se separam da igreja, que se desinteressam pelo corpo de Cristo. Entre os motivos pelos quais as pessoas tornam-se sem igreja é por causa da decepção. E as consequências do abuso de autoridade deixam cicatrizes na alma das pessoas.

No Facebook existem diversas comunidades de desigrejados. Eu apliquei uma enquete perguntando às pessoas porque deixaram a igreja. As respostas são as mais variadas. Os nomes dos participantes não serão divulgados para resguardar as identidades.

As opiniões foram dadas espontaneamente por pessoas que participam dos inúmeros grupos. Veja as respostas: “no começo todas as igrejas parecem um jardim do Éden. Depois vai mostrando as farsas. É campanha disso e daquilo. Parece que somos doentes quando saímos da igreja. Mas ninguém nos procura para saber o que aconteceu. Mas essas pessoas nos chamavam de irmãos quando frequentávamos as reuniões. Hoje sou desigrejado, mas não sou desviado. Sou cristão. Sinto muita vergonha de ter participado do meio evangélico”.

Outra pessoa disse: “me tornei desigrejada porque foi aberto o meu entendido à verdade”. Também recebi esse comentário: “sou desigrejado porque as Escrituras afirmam que a igreja é a pessoa e não o local”. E ainda: “onde na Bíblia alguém sobe em um altar para pregar?”. E mais: “o templo são as pessoas. Aqueles que vão às igrejas são idólatras porque acham que Deus está lá. Eles idolatram o local. São aqueles que idolatram imagens”.

A dor, o isolamento, a decepção, a desmotivação, a ira dos desigrejados pode ser compreendida em parte. Muitas reclamações deles têm fundamento. Estão corretos quando reclamam da visão da igreja como empresa onde a liderança só quer o lucro. Estão certos quando insistem em dizer que muitas igrejas estão com uma visão competitiva e não de Reino. Estão com toda razão quando comentam sobre membros do corpo de Cristo que não nasceram de novo e são falsos, mentirosos e dissimulados. A igreja é um hospital onde tem gente doente. É imperfeita. Para que se importar com uma igreja cheia de defeitos, não é mesmo?

Mas é necessário redescobrir a importância do convívio entre as pessoas da mesma fé. É necessário redescobrir o prazer de ser comunidade de fé. Não é o tempo fora do convívio que restaurará a vida dos desigrejados. De nada servirá dar um tempo da igreja na expectativa de ter a vida restaurada. Tempo não cura ferida. Se tempo curasse, as farmácias venderiam relógios. Certamente é o amor e a graça que curam a dor.

A crítica da igreja aos desigrejados

Não é uma tarefa fácil convencer os desigrejados a voltar à comunhão com a igreja institucionalizada. Mas alguns teólogos têm se lançado na tentativa. Inicialmente, é preciso conversar sobre o óbvio: que a igreja é imperfeita porque as pessoas são imperfeitas.

E que não importa se a igreja está na cidade A ou B, se é da denominação A ou B, se a reunião é em casa, no templo ou em qualquer outro local. Continuará a ser imperfeita.

Também é necessário entender o real sentido do que é ser igreja e não a ideia de fazer parte de uma. Igreja é a pessoa em si. Aonde o cristão vai, ali está a igreja. Se entra em um prédio, ali entra a igreja. Se vai pescar, ali está a igreja. Igreja é um povo e não o local. Igreja são as pessoas que se relacionam umas com as outras. Se esse relacionamento é perdido, a compreensão de igreja fica distorcida.

Muitos criticam os desigrejados dizendo que querem viver sem compromisso, que não é bom ser cristão sozinho. Os críticos afirmam que é preciso a comunhão dos que têm a mesma fé, a vivência junto a uma comunidade de intercessores, um grupo de amigos que se ajudam, uma família que se edifica mutuamente. O corpo é manifestado nas igrejas locais.

Os membros do corpo devem ter comunhão com os irmãos nas igrejas locais, ser aperfeiçoados na igreja local e ser edificados em mutualidade.

A falta de limites é outra crítica que os desigrejados recebem. A impressão que fica é que são contra qualquer sistema que os imponha limites. Na verdade, não são contra a institucionalização da igreja.

Querem seguir a vida do jeito que entendem, agindo como quiserem. Não querem ser corrigidos, exortados em amor. Os críticos dizem que os desigrejados são pessoas antiautoridade, antilimites e que têm a mentalidade secular do mundo atual.

A resposta da Bíblia

Parece novo, mas o costume de abandonar a igreja e a fé é antigo. Há registros no Novo Testamento.

O problema da evasão de seguidores já pode ser visto no ministério de Jesus. O termo desigrejado não aparece na Bíblia. É uma palavra usada na atualidade. Mas várias cenas narradas nos textos bíblicos mostram que a questão de deixar a igreja já existia no século I.

Um dos episódios para ilustrar teve Jesus como personagem principal. Ele fez um discurso muito forte, conforme é narrado em João 6.66. Depois disso, muitos discípulos O abandonaram. Jesus perguntou se mais alguém gostaria de ir embora. Simão Pedro perguntou para onde iriam se só Ele tinha as palavras de vida eterna.

Em 1 João 2:19 há a descrição sobre os desertores. São chamados de anticristos. Já o apóstolo Paulo também tocou nesse assunto. Disse que algumas pessoas apostatariam da fé nos últimos dias (1Tm 4:1). Na cosmovisão da igreja primitiva, aqueles já eram os últimos dias. Então, entendia que a apostasia era algo daquele tempo e não uma questão futura.

O livro aos Hebreus também trata sobre os problemas da evasão da igreja. É clara a exortação para que as pessoas permanecessem firmes no Evangelho. Hebreus 10.25 diz: “não abandonemos, como alguns estão fazendo, o costume de assistir às nossas reuniões. Pelo contrário, animemos uns aos outros e ainda mais agora que vocês veem que o dia está chegando.”

Não foi somente no século I que as pessoas deixaram a igreja. Também nos séculos seguintes o problema existia. Os cristãos deixavam de participar por causa da perseguição e das heresias. Muitas ideias heréticas causaram confusão na doutrina cristã e afastaram as pessoas da fé. Exemplos são o gnosticismo, arianismo, marcionismo, ebionismo, maniqueísmo, neoplatonismo, montanismo, monarquianismo, donatismo e docetismo.

Como referência extra bíblica, há a narrativa histórica sobre o imperador Décio. Quando ele subiu ao trono, promulgou um édito (ano 250) que exigia um sacrifício anual nos altares romanos aos deuses e ao imperador. Quem fizesse o sacrifício receberia o certificado chamado libellus. O que é isso? Era um documento dado ao cidadão romano certificando a realização de um sacrifício pagão. Atestando, portanto, sua lealdade às autoridades do Império Romano.

Quem se recusasse a cultuar o imperador, sofria perseguição religiosa e política. Muitos cristãos prestaram cerimônia ao imperador e negaram a fé para ter o certificado. Por que prestaram culto ao imperador? Para fugir da perseguição e da morte. Esse também foi um tipo de abandono do grupo cristão.

É preciso entender que o Reino de Deus é uma família. Não é carreira solo. Na Bíblia não existe nenhum texto que respalde a atitude de abandonar a igreja. O que existe é a ordem de congregar. Os cristãos devem congregar para oferecer a Deus adoração coletiva. É preciso congregar para encorajar uns aos outros, para a edificação e exortação mútua. Para advertir um ao outro do pecado. A Bíblia manda a igreja andar unida. Desde a igreja primitiva os cristãos são chamados a viver em comunhão, à adoração em conjunto, exortação mútua em amor e crescimento de todos. Isso dentro de um corpo, na congregação dos santos que é a igreja.

A Bíblia é clara quanto à ordem para os cristãos viverem em ajuntamento e comunhão. Vejamos:

Em 1 Coríntios 12:24-28, o apóstolo Paulo diz que Deus formou o corpo e ordena que não haja divisão nesse corpo. Mas que os membros cuidem uns dos outros. Diz que, se um membro padece, todos padecem. Se um membro é honrado, todos devem ficar felizes.

Em Hebreus 10:25 está escrito que as pessoas não deveriam deixar de congregar. Por que o texto fala assim? Porque algumas pessoas estavam deixando de congregar, estavam longe da igreja. Ainda adverte que o corpo deve admoestar (advertir, exortar) o próprio corpo.

Outros versículos também advertem contra o separatismo. Em 1 Corintios 12:12-14 o apóstolo Paulo diz que o corpo é um só, mas tem muitos membros. Ou seja, a igreja é uma só e tem muitas pessoas envolvidas. Mas o envolvimento tem que ser em um só corpo.

A Bíblia ensina que o cristão só pode ser membro do corpo se está ligado nesse corpo de Cristo. Só pode ser cristão saudável se ligado à igreja. Não dá para ser cristão sem estar no corpo. Se uma pessoa não congrega, não tem comunhão, não participe da doutrina eclesiástica, está colocando em cheque a sua conversão.

A igreja do Novo Testamento, que é o modelo que os desigrejados querem viver, perseverou na comunhão, no relacionamento. Como ter koinonia sozinho sem estar unido ao corpo? É preciso companheirismo, relacionamento social, ter algo um comum com o outro. É necessário viver de forma corporativa, comunitária, um ajudando o outro.

Há ainda diversos outros versículos que ensinam a viver em comunhão, dentro da igreja, a congregar. São eles: 1 Co 1.9; At 8:1; At 7:38; At 19:32; Rm 16:1; Mt 16.18; Mt 18.17; At 2:42,47; At 5:11; Ef 5:23-25; 1 Co 1:9; 1 Co 10:16; 2 Co 13:13; Fp 2:1; 3:10; 1 Jo 1:3,6,7; At 2:42; 2 Co 6:14; Gl 2:9; Rm 16:16; Pv 22:6; 1 Co 3:16; 2 Tm 3:16,17.

Na verdade, ao contrário do que os desigrejados alegam, o Novo Testamento é um convite às pessoas viverem em comunidade.

Portanto, diante de todo o exposto, a ideia é simples: a igreja primitiva vivia no contexto de corpo. Era organizada, as pessoas tinham funções, os cultos tinham regras próprias e rotina estabelecida. Até a celebração constante da ceia e do batismo é uma prova de que existia uma rotina, uma agenda programada de ações a serem realizadas. Inclusive doavam seus bens para o bom andamento dos trabalhos. A Bíblia mostra tudo contrário do que sustentam os desigrejados que são contra as estruturas organizacional e ritualística existentes hoje.

Qual a mensagem final à igreja, corpo de Cristo? Ela precisa ser defendida. Então, para todos os grupos de desigrejados, a palavra final é uma só: retorne. Dê meia volta. Caminhe junto. Faça parte da igreja visível e invisível.

Eu conclamo as pessoas a irem para a igreja. Vá pelo evangelho, pela pregação genuína da Bíblia. Vá para estar perto da palavra de Deus. Não se junte à fila dos que desprezam a igreja. Não fortaleça a voz dos que escarnecem dela. Junte-se em oração por ela. Veja a igreja como pontos fortes e fracos. Ame-a na saúde e na doença. Sim, a impurezas da noiva precisam ser expostas. Mas com amor e nunca com afastamento e zombaria.

Os erros da igreja precisam ser abandonados aos pés da cruz. Se todos somos a igreja, essa limpeza e santidade precisa começar pelas nossas vidas. Não aponte o dedo. Ame a igreja. O amor cobre multidão de erros, defeitos e pecados. A igreja que decepciona é a mesma que cura. Pessoas imperfeitas não podem exigir uma igreja perfeita. O Deus da igreja é que é Perfeito.

Minha opinião é clara: convido os desigrejados a um retorno. Ainda há lugar na casa do Pai para todos.

Denise Santana é jornalista, teóloga e professora. Tem mestrado em Teologia pela Escola Superior de Teologia, no Rio Grande do Sul. Pós-graduação em MBA Gestão da Comunicação nas Organizações pela Universidade Católica de Brasília. Bacharelado em Comunicação Social, Jornalismo, pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília. Licenciatura plena em História pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília. Bacharelado em Teologia pela Faculdade Evangélica de Brasília.

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