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escatologia

David Owuor e as duas testemunhas do Apocalipse

Uma análise bíblica do autointitulado “profeta do fim”.

Reinaldo Batista

em

David Owuor. (Reprodução)

Existem razões para acreditar que o doutor David Owuor seja as duas testemunhas? O objetivo deste artigo é sugerir que existem tais razões, e não comprovar tal identidade.

Afim de defender que essa crença não implica contradição, mentira ou delírio, estruturamos nosso texto em três partes. Na primeira parte, levantaremos as possíveis objeções a essa proposição afirmativa, considerando algumas das diversas classificações hermenêuticas da escatologia.

Na segunda parte, analisaremos o aspecto temporal da expectativa judaica pela vinda de Elias. Por fim, iremos analisar a terminologia grega preservada na tradução de João Ferreira de Almeida, revista e corrigida, a fim de validar a nossa tese.

Devido a premência do tema, adotamos uma linguagem simples (e não simplista), cujas referências serão pressupostas, e não pormenorizadas conforme as nossas regras acadêmicas. Posto que o nosso objetivo não é escrever um tratado que avalie todas as teses publicadas sobre o tema, suspeito que nosso campo de investigação se apresente por demais limitado; mas não irresponsável.

Por isso, trata-se mais de um texto cuja linguagem pode ser demasiada simples para aqueles que são especialistas no assunto, e de poucos termos técnicos para precisar temas que consideramos importantíssimos para o presente e para o futuro.

Há mais de dois mil anos, alguns judeus esperavam um Messias que, sendo rei, confrontasse os romanos daquele tempo, vencesse-os e não morresse em uma cruz. Também, pelo fato de aquele “estranho” profeta andar no meio de pecadores e se dizer filho do próprio Deus, outros doutores da Lei não acharam lugar para ele em suas correntes teológicas. Alguns até criam nele, mas ele deveria nascer em um determinado lugar, e não noutro. Contudo, a fim de contrariar qualquer interpretação “conveniente” das profecias, aquele era o Ungido profetizado pelos antigos.

Se recuarmos mais um pouco na história hebraica, veremos dois profetas alertando o povo sobre o cativeiro babilônico, são estes Jeremias e Ezequiel. Posto que cada um deles profetizava “à sua maneira” a respeito do mesmo evento, não deram crédito aos seus alertas.

Não obstante, os dois profetas estavam certos. Tudo o que eles profetizaram aconteceu.[1] Muitos séculos se passaram e suspeito que estejamos repetindo o mesmo erro. Trata-se da indiferença à pregação do Dr. David Owuor.

Doutor[2] em medicina, renomado cientista, trabalhou nas Universidades de Haifa, no Monte Carmelo, Israel e em New Jersey USA; ele desenvolveu pesquisas nas complexas áreas de Mapeamento do Genoma Humano e Biotecnologia com foco centrado na cura do câncer. O Dr. David Owuor apareceu em cena mundial já faz alguns anos.

Faz alertas proféticos, chama os crentes ao arrependimento e há pouco tempo revelou ser as “duas testemunhas”, descritas em Apocalipse, no capítulo onze. Mas, receio que não haja espaço para este personagem em nossas classificações teológicas.

Contudo, se, de fato, houver alguma relação entre esse queniano e o texto de Apocalipse onze, então muitos de nós estaríamos perdendo um momento precioso e crucial na história da Igreja.

Posições céticas do problema

Antes de apresentarmos os argumentos em defesa desta tese, destacaremos suas possíveis antíteses, que julgamos serem a razão do ceticismo de muitos. Cabe-se ressaltar, porém, que seremos breves na exposição desses argumentos céticos, o que significa que partiremos do pressuposto de que o leitor já conhece as correntes teológicas apresentadas a seguir[3].

Em primeiro lugar, presumimos uma objeção dividida em quatro contestações: pré-tribulacionista, a-milenista, mesotribulacionista e “judaizante”[4]:

  1. David Owuor é um mesotribuacionista e ele estaria adiantando, com seus milagres e profecias, aquilo que, dadas as interpretações pré-tribulacionistas, só deveria ocorrer no período da grande tribulação;
  2. É desconfortável, diriam os a-milenistas, acreditar num dispensacionalista que se autodenomina o profeta dos fins dos tempos;
  3. É confuso ver que o profeta David Owuor preenche todos os requisitos dados pela Bíblia, mesmo sendo pré-tribulacionista, diriam os meso-tribulacionistas;
  4. Não há qualquer possibilidade de “as duas oliveiras”[5] serem alguém “enxertado” – ajuizariam os judaizantes – ; pois,  escatologicamente falando, seria impensável “duas testemunhas” não-hebreias (não-judaicas).

Em segundo lugar, pode-se argumentar que, postas as analogias entre as características dos dois profetas neotestamentários de Apocalipse 11 com os dois profetas veterotestamentários, aqueles e estes só poderão ser, estritamente falando, os mesmos profetas cuja analogia corresponde, a saber, Moisés e Elias.

Em terceiro lugar, temos que a Bíblia fala em “duas” pessoas e David Owuor é apenas, quantitativamente, um homem. Temos, assim, uma assimetria. E esta interpretação é paradoxal.

Tentaremos refutar esses argumentos acima seguindo a mesma ordem que foram expostos: primeiro apresentaremos respostas as quatro primeiras objeções, depois nos debruçaremos sobre as duas últimas, as quais julgamos requererem maior apreciação.

Devemos nos lembrar que a suspeita dos pré-tribulacionistas, de que David Owuor seria meso-tribulacionista, é falsa. Em diversas palestras podemos ver claramente a sua posição escatológica bem definida. Ele é pré-tribulacionista, pois chama a Igreja ao arrependimento em face do arrebatamento, cujo processo desencadeará uma série de juízos de Deus sobre os ímpios.

De acordo com as suas pregações, o anticristo reinará por um tempo predeterminado pelas profecias, lutará com as duas testemunhas e o resultante disso segue-se aos passos determinados pela interpretação pré-tribulacionista. Ou seja, ele aceita a interpretação de que a grande tribulação ocorrerá entre o arrebatamento e a segunda vinda de cristo, que instaurará o Milênio.

Isto posto, cabe salientar que parece não ser verossímil que as suas profecias e milagres, realizados antes da tribulação, invalidem a sua atuação nos tempos da tribulação. Lembremos que Moisés fez milagres[6] antes mesmo de desencadear aquelas maravilhas cardeais[7] que marcaram a história dos hebreus.

Como trata-se de hermenêutica, e levando-se em conta que as profecias não estão dadas em uma linguagem simples, mas hermética, o desconforto dos a-milenistas frente ao dispensacionalismo de David Owuor é justificado.

Mas as abstrações não podem se sobrepor aos fatos. Particularmente falando, o preconceito da cosmovisão da história adotada pelo profeta não deve invalidar as evidências das suas ações, desde que suas ações estejam respaldadas pela Palavra. Mas, de fato, David Owuor é dispensacionalista.

Quanto à objeção mesotribulacionista podemos argumentar da mesma forma que fizemos no ponto 2, isto é, devemos olhar os fatos, se eles concordam com a Palavra. Com uma ressalva. Levemos o dilema de C. S. Lews em conta e indaguemos: Ou David Owuor é de fato o profeta do fim dos tempos, ou é mentiroso, ou é louco. Esse dilema que foi usado no século XX contra os ateus, referia-se a Jesus como Filho de Deus.

Entretanto, é legítimo utilizá-lo para tal situação, posto que, como veremos adiante, as maravilhas e os milagres feitos por este profeta queniano são patentes aos olhos de todos, e inegáveis. Se ele for de fato um verdadeiro profeta, então ele é as “duas testemunhas”, pois assim ele o diz. Nesse caso, ele não seria nem mentiroso nem louco. Caso ele se auto intitule “duas testemunhas” e não seja, então ele é mentiroso e as suas ações são enganosas.

Se ele não for de fato as duas testemunhas e não estiver mentindo é porque ele é louco, e não deveríamos se quer estar escrevendo esse texto. Mas ao que parece, louco e mentiroso não levam ninguém ao genuíno arrependimento com mudança de vida, nem fazem milagres, como ressurreição de mortos, nem maravilhas de proporção local, como fazer chover, e global, como o cumprimento da profecia do novo coronavírus (COVID-19). Incluindo aqui profecias cumpridas em relação ao céu sideral e ao Brasil.

Tendo em vista que o Dr. David Owuor é nascido no continente africano, mais especificamente na África subsaariana, os argumentos a seguir poderiam enveredar para o tema racismo. Mas, como qualquer argumento que se opõe a David Owuor alegando a sua condição de negro africano não merece atenção, rejeitaremos qualquer abordagem nesta perspectiva.

Nos tempos veterotestamentários temos vários homens[8] não-hebreus que desempenharam papéis importantíssimos e específicos na história de Israel; por isso somos levados a desacreditar na singularidade dos hebreus para desenvolver esse papel na história humana. Mas, se alguém recusa essa premissa, podemos assumir uma outra. A de que não conhecemos de fato a genealogia de David Owuor.

Não sabemos se seus ancestrais o remetem a Abraão. Assumamos a hipótese que sim. Nesse caso ele é hebreu. Mas, caso ele não seja, temos a convicção de que a cruz enxerta os gentios na descendência abraâmica pela [9]. Sendo assim, não seria mera conjectura, mas fato que o Dr. Owuor está legitimamente habilitado para exercer o ministério supostamente reservado apenas para hebreus.

Corroboramos com Rice Brooks (2016) quando constata que temos o estranho costume de “tentarmos acreditar em coisas absurdas e loucas enquanto duvidamos e descartamos as coisas críveis e importantes”[10].

A despeito da clara posição bíblica concernente à vida e à morte frente a reencarnação, temos na tradição escatológica a crença[11] de que Moisés, cuja morte está bem descrita no Pentateuco, e Elias, que já foi elevado aos céus em um redemoinho[12], haverão de voltar ao mundo nos fins dos tempos para cumprir o que foi revelado pelo apóstolo João na visão que teve na ilha de Patmos.

Contudo, a questão que se deve colocar é a seguinte: em detrimento do fato de que o corpo de Moisés fora ocultado dos homens e disputado pelos seres espirituais, a reintrodução desse patriarca na história humana não configuraria reencarnação[13], no sentido mais trivial do termo? Entretanto, deixemos essa indagação por ora e nos voltemos para as posições céticas acima.

Ao objetarmos a segunda posição cética (que defende ser Moisés e Elias as duas testemunhas) estaremos, consequentemente, refutando a terceira (que defende a dissimetria quantitativa entre os personagens apocalípticos e a unidade da pessoa de David Owuor), isto é, se na Bíblia são descritas duas pessoas, como David Owuor, sendo um só homem, pode corresponder a essas descrições?

O Elias que havia de vir já veio e virá

Os dois atributos das duas testemunhas, interpretados como sendo “Elias e Moisés”, são dois ministérios e não se trata dos dois personagens históricos veterotestamentários.

Sabemos que as Duas Testemunhas são mensageiros de Deus que têm a missão de desmascarar o anticristo e o falso profeta e alertar para o juízo de Deus. Tudo isso ocorreria antes daquilo que Rosivaldo de Araújo chama de “período de Restauração de todas as coisas”, o Milênio (ARAÚJO, 2011, p.277).

A questão que deveremos responder, e que acreditamos abranger as duas interpelações acima mencionadas, é: seriam as “duas testemunhas” de Apocalipse 11 uma analogia de dois ministérios, cujos referentes são personagens históricos, ou elas serão precisamente a manifestação física dos dois personagens históricos, que possuíam aqueles ministérios específicos? Parece imperioso, portanto, recorrermos às biografias[14] de Moisés e de Elias para recordarmos em que consistiam os seus respectivos ministérios.

Moisés foi um descendente da tribo de Levi, nascido no Egito em 1527a.C. Aos três meses de vida foi resgatado do Nilo pela filha de faraó, que pediu para que uma das hebreias, no caso, sua mãe, o criasse.

Moisés recebeu educação egípcia, se casou e teve dois filhos. Recebeu um chamado de Deus, e aceitando foi interceder pelos hebreus junto a Faraó. Ele fez jus ao significado de seu nome ao “tirar” os seus irmãos do Egito e conduzi-lo ao deserto de Zim, com propósito emancipatório e perspectiva religiosa, eis o êxodo. Resolveu muitas disputas entre o povo e o liderou.

Morreu em 1407 a.C. nas planícies de Moabe com 120 anos, tendo seu cadáver ocultado pelo próprio altíssimo (Dt 34.6). E como está escrito ainda em Deuteronômio 34.10, Moisés foi um profeta incomparável na história de Israel, ele foi aquele “a quem o SENHOR conhecera face a face”.

Como não estamos escrevendo um tratado da vida de Moisés, nem um compêndio hermenêutico da história da teologia, gostaríamos de nos ater apenas a pontos específicos da vida de Moisés. E, posto que estamos querendo entender a relação de Moisés com as “duas testemunhas”, o que salta aos nossos olhos quando examinamos a vida desse profeta de Israel é a sua intimidade com Deus.

Contudo, é o seu ministério de milagres e maravilhas que mais interessa para essa análise, pois as duas testemunhas, diz o texto, “têm poder sobre as águas para convertê-las em sangue e para ferir a terra com toda sorte de pragas” (Ap.11.6). Sabemos que essa capacidade foi um atributo do ministério de Moisés. De mais ninguém.

Diferentemente de Moisés, Elias nasceu em Gileade, em meados do século IX a.C. Profetizou durante o reinado de Acabe, cujo reinado em Israel se estendeu entre os anos 873 e 853 a.C. e viveu num momento de crise fazendo milagres e maravilhas. Ele desafiou os profetas adoradores de Baal, deus pagão que estava sendo levado pelo povo a competir com o Criador, advertiu a Acabe sobre a seca e a fome que haviam de vir, e não passou pela morte física.

Temos que as duas testemunhas terão o “poder para fechar o céu, para que não chova nos dias da sua profecia” (Ap. 11.6) e sabemos que Elias foi o profeta que segundo as suas palavras “nem orvalho, nem chuva” houve (1Reis 17.1).

Conforme lemos nos Evangelhos de Mateus (capítulo 17) e de Lucas (capítulo9), Moisés e Elias foram os dois profetas que apareceram no momento da transfiguração ao lado de Jesus Cristo. E depois do episódio, seus discípulos perguntaram-no: “Por que dizem, então, os escribas que é mister que Elias venha primeiro?”. Esta pergunta é sugestiva, dado que ela é feita depois que Jesus os havia alertado que eles só poderiam relatar o caso da transfiguração a alguém depois da sua ressurreição. A dúvida foi: Elias não devia já ter se manifestado?

A resposta de Jesus parece dúbia, mas não é contraditória: “Em verdade Elias virá primeiro e restaurará todas as coisas. Mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram tudo o que quiseram” (Mateus 17.11 e 12). Então houve mais de um Elias neste contexto? Sim e não.

Se por Elias se quer dizer “ministério de Elias”, sim; se a pergunta se direcionar para a pessoa física do tisbita que viveu no século IX a.C., não.

Na verdade, por Elias devemos entender o “ministério de Elias”, conforme nos orienta o capítulo 17 e versículo 13 de Mateus: Jesus estava falando “de João Batista”.

A tese de que o Elias de Mateus 17 é um “ministério” segundo a ordem de Elias, o tisbita, é confirmada quando lemos Lucas 1.17 e nos é dito que João Batista agiria “no espírito e virtude de Elias”. Outrossim, é-nos dito em Marcos 11.14, quando Jesus estava explicando quem era João Batista, que “é este o Elias que havia de vir”. E em Marcos 9.13 Jesus enfatiza: “como dele está escrito”. A pergunta que fica é: onde está escrito que Elias teria que voltar à terra? A resposta é: em Malaquias 4.5.

Antes de prosseguirmos devemos lembrar que o profeta Malaquias profetizou por volta de 460 a.C. e as suas profecias eram de conteúdo escatológico. Foi ele quem disse “Eis que eu vos envio o profeta Elias, antes que venha o dia grande e terrível do SENHOR” (Malaquias 4.5). Se entendermos da mesma forma que os discípulos entenderam, por profeta Elias compreenderemos também “ministério de Elias”.

Parece crível que, neste contexto, Moisés e Elias são os dois maiores representantes das sagradas Escrituras consideradas como “leis” e “profecias”. Em resposta às críticas dos fariseus Jesus destacou que “A Lei e os Profetas duraram até João” (Lucas 16.14), e mais a frente, a partir da parábola do rico e Lázaro, foi lembrado ao rico que os seus parentes “têm Moisés e os Profetas”. Vemos claramente uma figura de linguagem por metonímia do nome Moisés para dizer “Lei” em Lucas 16.29 e 31. Aqui temos que a “lei de Moisés” é representada em termos linguísticos pelo próprio “Moisés”.

Se observarmos o texto escatológico de Apocalipse 11.6 veremos que os nomes de Moisés e Elias não são mencionados. Há apenas uma alusão aos milagres executados pelas duas testemunhas que lembram os seus feitos. Contudo, a semelhança entre os ministérios de Moisés, Elias e João Batista e o das duas testemunhas é grande.

Moisés confrontou Faraó e libertou o povo do Egito; Elias desmascarou o rei Acabe e confrontou os profetas de Baal; João Batista desmascarou Herodes, confrontou os fariseus e levou o povo ao arrependimento; as Duas Testemunhas desmascarará o Anticristo, confrontará seu sistema e conduzirá os homens ao arrependimento.

Mas isso não é tudo, resta saber o que o texto original grego fala sobre as duas testemunhas. E parece, também, que no texto da Septuaginta as duas testemunhas não são duas pessoas físicas distintas, mas dois ministérios em uma só pessoa. E isso corrobora com a crença na relação entre David Owuor e as Duas Testemunhas.

As duas testemunhas têm um só corpo

Não há contradição alguma em se afirmar que o Dr. David Owuor é as duas testemunhas. Pois, as “duas testemunhas” só possuem um corpo.

Há muita dificuldade quando se trata de buscar uma tradução fiel do texto bíblico. Ainda mais embaraçosas são as comparações com os textos originais cujo conteúdo pode ter sido alterado aqui e ali por pura conveniência em termos de sintaxe.

Ocorre que a tradução para o Português, feita por João Ferreira de Almeida (Revista e Corrigida), conservou termos cruciais para a interpretação de Apocalipse 11. É sabido que não se deve isolar uma tradução e elegê-la como o suprassumo da exegese, como se ela pudesse resolver todo e qualquer problema hermenêutico. Mas ao recorrermos ao texto grego da septuaginta, descobrimos que a tradução de Almeida não foi feita por conveniência nem por coerência gramatical. Na verdade, ela manteve aquilo que corresponde ao espírito do próprio texto: a fidelidade semântica.

Lemos que em Apocalipse 11.8 diz: “E jazerá o seu corpo morto na praça da grande cidade […]”. Em outras versões, como, por exemplo, a King James, temos a seguinte tradução: “E os seus corpos mortos[…]”; ou na Nova Tradução na Linguagem de Hoje – NTLH: “E os seus corpos ficarão na rua […]”. A diferença de concordância nominal nos textos é latente. A versão de Almeida preservou a frase no singular, “o seu corpo”, já as outras versões acabaram sendo traídas pelo excesso de cuidado técnico.

Quando lemos pela primeira vez o texto da tradução de Almeida poderemos ser levados a acusa-lo de descuido de concordância nominal, pois ele nos diz que “o” corpo das “duas” testemunhas. Mas é exatamente essa a palavra no original grego. Os termos empregados para “o seu corpo morto” são “και το πτωμα” ou “e o cadáver”, em tradução livre. Ou seja, a frase está no singular. Para se apresentar no plural a sentença deveria ser escrita “και το πτωματα”, isto é, “e os seus corpos”.

Vale lembrar que esse mesmo artigo neutro no singular aparece em Lucas 23.52 quando Pilatos pediu “o [τò] corpo de Jesus”; e em Lucas 12.4, quando não devemos temer “os que matam o (τò) corpo”. Entretanto, quando lemos em 1 Coríntios 6.15, e vemos Paulo perguntando: “Não sabeis vós que os [τα] vossos corpos [σωματα] são membros de Cristo?”, o artigo aparece no plural.

Não há erro de tradução. O que o texto grego nos mostra é que o escritor que recebeu diretamente a visão de João sabia que as duas testemunhas eram dois ministérios exercidos por uma só pessoa física. Se isso não for suficiente, temos o texto da tradução de Almeida (Edição Revista e Corrigida) preservando até o fim a coerência do versículo 8, pois no versículo 9 ele mantém o substantivo “corpo” no singular, mas neste trecho o original traz “τα πτώματα”, as carcaças, ou os cadáveres, em tradução livre.

Conclusão

Logo, parece que não há contradição na afirmação de que David Owuor é as duas testemunhas, pois, nesse caso, ele possuiria os ministérios das duas testemunhas, dispensando, assim, a necessidade da pluralidade física.

Isto posto, temos que é prudente, neste momento de “dores de parto”, ao menos analisarmos alguns discursos proféticos dessa “voz que clama no deserto” e, ao encontrarmos coerência com a Palavra de Deus, darmos crédito a sua pregação. Pois corremos sérios riscos de reproduzir algumas atitudes antigas e, por pura conveniência, perder o momento da nossa visitação.

[1] O rei Zedequias fora condenado por Deus, pelos profetas Jeremias e Ezequiel. Mas a sentença parecera um pouco estranha, pois, enquanto um profeta dizia que ele veria o rei da Babilônia, e na Babilônia morreria, o outro profetizava que ele não veria aquele lugar. Mas é manifesto que ele foi à Babilônia e não a viu, pois estava com os olhos vazados pelos seus inimigos (Cf. Jeremias 34.3 e Ezequiel 12.13).
[2] Essas informações foram copiadas do canal do Youtube “Alerta Brasil”: Disponível em <https://www.youtube.com/channel/UCDlj09UCbc2VybkgdmrF0gg>
[3] Referimos-nos às teorias dispensacionalistas e os pontos de interpretação pré-tribulacionista, meso-tribulacionista, pós-tribulacionista; pré-milenista, pós-milienista e a-milenista; e a visão dispensacionalista da história humana.
[4] Faço uso desse termo tomando emprestado de seu sentido original, para designar aqueles que tendem a requerer das escrituras proféticas personagens estritamente judaicos para desenvolver os ministérios das “duas testemunhas”. Mas, em seu sentido literal, “Judaizantes são pessoas que, não sendo geneticamente israelitas, nem tendo passado por uma conversão formal ao judaísmo, seguem partes da religião e tradição judaicas. O termo foi usado no Novo Testamento para referir aos cristãos hebreus que requeriam que os cristãos gentios seguissem leis mosaicas”.
[5] O termo “duas oliveiras” que aparece em Apocalipse 11.4 aparece também em Zacarias 4.3.
[6] Referimos-nos aos milagres feitos diante da sarça ardente: a vara que se transformou em serpente e a mão leprosa (cf. Êxodo 4).
[7] Exploraremos esse ponto de vista a seguir.
[8] Para o bem ou para o mal, aqui e ali encontramos alguns, como Ciro, profetizado muito tempo antes ou Melquisedeque, o rei de Salém.
[9] Leia-se os textos do apóstolo Paulo aos Romanos capítulo 11.
[10] BROOCKS, R. Deus não está morto 2: Argumentos e respostas para as principais questões sobre o Filho de Deus. Trad. A. C. Lacerda. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2016, p.21.
[11] Não adentraremos na discussão a respeito da historicidade desse problema, pois não é o objetivo do presente artigo. Mas cabe-se ressaltar que os argumentos escatológicos em defesa deste ponto de vista não são irrelevantes nem infundados. Muito pelo contrário, são altamente persuasivos, dadas as características particulares. O problema só aparece quando aquela tese é apreciada de maneira geral, isto é, levando-se em conta os pressupostos que serão apresentados no decorrer de nossa premissa.
[12] Conferir 2 Reis 2.
[13] No Fédon de Platão já temos a introdução da reminiscência grega na filosofia, a partir da religião órfica. Mas a religião Hindu já possui essa concepção da vida há milênios.
[14] MANSER, M. H.;REID, D. K. Quem é quem na Bíblia. Trad. Magda D. Z. Huf. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013: cf. os verbetes “Acabe”, “Elias” e “Moisés”.

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Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Professor da EBD na Primeira Igreja Batista de Amargosa-Ba. Bolsista de iniciação científica CAPES/UFBA. Experiência docente nos níveis superior e básico. Atua na área de Filosofia Política Contemporânea.

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