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Opinião

À descoberta do tesouro

Nós encontramos o tesouro quando deixamos que a Palavra prevaleça em nós em todas as circunstâncias do nosso dia-a-dia.

José Brissos-Lino

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Caixa do tesouro. (Foto: Roman Kraft / Unsplash)

“Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo” (Mateus 13:44).

O texto em epígrafe remete-nos para uma reflexão que começa com um episódio curioso. 

Uma deliciosa estória judaica

Eisik de Yékel era um judeu polaco, de Cracóvia. Os muitos anos vividos na miséria não haviam abalado a sua confiança em Deus, e ele acabou recompensado com uma revelação.

Recebeu em sonhos o mandato de deslocar-se até à cidade de Praga e de procurar aí um tesouro que estaria escondido debaixo da ponte que conduz ao palácio real.

A primeira vez que sonhou com isso não ligou. À segunda ficou intrigado. Quando o sonho se repetiu pela terceira vez, Eisik levou-o a sério e fez-se a pé ao longo caminho.

Chegou, por fim, a Praga e dirigiu-se imediatamente à ponte, mas esta — percebeu com desânimo — era controlada, noite e dia, por sentinelas, o que tornava impossível qualquer escavação no local. Contudo, não perdeu a esperança e girava para cá e para lá ao longo da ponte.

Não decorreu muito tempo até que o capitão da guarda o interpelasse perguntando se esperava alguém ou procurava ali alguma coisa. A Eisik, porém, aquele soldado deve ter parecido amistoso, pois decidiu contar-lhe o sonho que o arrastara de sua casa até aquele ponto distante.

O capitão não pôde conter uma gargalhada: “E por causa de um sonho, pobre homem, viajaste até aqui, desperdiçando as solas no caminho! Quem se pode fiar em sonhos! Imagina que, se assim fosse, também eu deveria já ter peregrinado até Cracóvia e escavar na casa de um certo judeu, chamado Eisik de Yékel, para tomar posse do tesouro que se encontra debaixo do forno! Estaria metido em belos trabalhos se confiasse em sonhos e me pusesse a escavar nas casas de uma cidade estranha onde uma metade dos habitantes judeus se chama Eisik e a outra metade Yékel!”

Abanava a cabeça e não parava de rir. Eisik saudou-o, tomou o caminho de regresso a casa, e desenterrou o tesouro que há muito o esperava.

O conceito de reino dos céus ou reino de Deus

As passagens paralelas de Marcos e Lucas usam a expressão “reino de Deus”. Portanto, reino dos céus é o mesmo que reino de Deus.

O Evangelho de Mateus foi escrito principalmente para um público judeu, entre os quais era comum evitar dizer diretamente o nome de Deus à parte de uma ocasião de reverência. Assim Mateus substituiu a expressão “Reino de Deus” por “Reino dos céus” – o céu onde Deus está.

Jesus disse: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça” (Mateus 6:33). Ensinou sobre o reino em parábolas e até ensinou a orar: “Venha o teu reino ” (Mateus 6:10). A temática do Evangelho é o reino de Deus.

Os profetas bíblicos do Antigo Testamento referiram-se ao domínio divino sobre o céu e a terra, e o Seu futuro reinado sobre todas as nações da Terra. Muitos judeus do primeiro século estavam, como José de Arimateia, “esperando o reino de Deus (Marcos 15:43). Pensavam que o Messias seria um chefe militar que iria expulsar os romanos, subjugar todos os inimigos e abrir uma época de glória no futuro.

Mas Jesus disse: “eis que o reino de Deus está entre vós” (Lucas 17:21), o que dá a ideia de um sentido mais pessoal do reino, que parte da aceitação de Jesus como rei.

W. E. Vine define o sentido da expressão como: “a esfera em que seu domínio (de Deus) é reconhecido”. Ou seja, o reino de Deus refere-se principalmente à aceitação interior e submissão pessoal a Deus como soberano. Jesus disse a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo” (João 18:36).

A Igreja não foi chamada para governar o mundo, nem para impor a fé pela força, nem por leis inspiradas na Bíblia, nem por um governo teocrático. Foi chamada apenas para proclamar o Evangelho. E o Evangelho é uma notícia (boa nova) e uma proposta de vida alinhada com Deus.

Mas virá um tempo em que o governo de Deus será universalmente aceite. Neste momento Satanás é o “príncipe deste mundo” (João 12:31, 14:30, 16:11) e o apóstolo Paulo chamou-lhe o “deus deste século” (2 Coríntios 4:4).

Mas onde está então o reino de Deus?

Toda a gente anda à procura dum tesouro na vida: bens materiais, filhos, netos, notoriedade, etc. Mas o reino de Deus aqui representado pelo tesouro é a presença real de Jesus entre nós e a Sua absoluta e amorosa soberania na nossa vida.

O reino de Deus não se resume a uma experiência espiritual, mas age também na totalidade do mundo material e humano. Nós encontramos o tesouro quando deixamos que a Palavra prevaleça em nós em todas as circunstâncias do nosso dia-a-dia. A Epístola de Judas fala em “santíssima fé” (1:20).

Na estória judaica Eisik de Yékel percorreu meio mundo para descobrir um tesouro que, afinal, estava dentro da sua casa. Nós é que somos o campo que esconde o tesouro. É na relação com Deus que devemos procurar o reino dos céus.

Quando temos comunhão com Deus sentimos que a nossa carne vai dando lugar ao Espírito. Podemos até prescindir das nossas ideias, projectos pessoais e ideais que só tendem à condição terrena, para nos apoderar dos bens espirituais que o Evangelho nos propõe e que vão influenciar a nossa vida.

O homem da parábola vendeu tudo quanto tinha para comprar aquele campo. Deus não partilha o nosso coração com nada nem ninguém. Só conseguimos descobrir este tesouro quando nos despojamos daquilo que nos escraviza e condiciona.

A conversão não é apenas um momento. É um processo, um estilo de vida.

Quais são os sinais da presença do reino de Deus em nós?

(Romanos 14:17): “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.”

Justiça, paz, alegria, mesmo nos momentos de dificuldade, a vontade de ajudar o próximo, a fraternidade nos relacionamentos e a esperança que provém da fé.

Conta-se que um dia, ao receber em casa algumas visitas ilustres, um rabi perguntou: “Onde mora Deus?” Como não obteve resposta, o rabi adiantou: “Deus mora onde o deixamos entrar.”

Nasceu em Lisboa (1954), é casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e investigador.

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