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Opinião

Pregação evangélica e relevância social num mundo pós-moderno

Como a pregação evangélica é entendida em nossos dias?

Alex Esteves

em

Cruz. (Foto: jcomp - www.freepik.com)

O chamado “evangelicalismo contemporâneo” é caracterizado pelo estabelecimento de pontes com a sociedade, a juventude, a cultura e o mundo acadêmico. Foi assim que surgiu um Francis Schaeffer e sua L’Abri. Foi assim que um John Stott demonstrou, com maestria, objetividade e elegância, a atualidade do Novo Testamento.

Foi assim que igrejas evangélicas superaram os limites propostos pelo fundamentalismo. Mas há que se perguntar, pensando em nosso país e seus muitos milhões de evangélicos: em nossos dias, a sociedade brasileira tem reconhecido em pastores e líderes evangélicos alguma relevância no debate público? A pregação evangélica brasileira é, em algum sentido, entendida como um campo propício à reflexão sobre os problemas reais das pessoas, e sobre suas questões mais profundas?

Alguém poderá objetar dizendo que o mundo não tem como compreender os valores e conceitos do reino de Deus, que não devemos esperar aprovação social. Está certo, concordo com isso.

Entendo verdadeiramente que a Igreja sempre será, de algum modo, incompreendida pela sociedade, e que há algum problema sério quando igrejas se veem absorvidas pelo espírito da época ou se comportam como uma simples subcultura perdida no tecido social. Entretanto, não se pode negar que as pessoas estão à procura de respostas morais e espirituais que (autênticos) pregadores da Palavra de Deus têm condições de oferecer.

Digo isto porque é cada vez mais frequente a procura por figuras que exercem o papel de orientadores em questões morais, espirituais e existenciais, algo que até há pouco tempo era exercido por palestrantes de autoajuda, mas que agora se enxerga em intelectuais de grosso calibre (filósofos, historiadores, cientistas políticos).

O público consome a produção desses personagens porque está em busca de respostas para perguntas como “De onde viemos?”, “Qual o sentido da existência?”, “Existe algo além deste plano?”, “Qual o propósito nas coisas que eu faço?”, “Existe uma inteligência guiando a história e o mundo?” A demanda por resposta a essas perguntas não advém, nesse caso, de uma curiosidade intelectual e acadêmica, mas de um vazio profundo na alma.

Todas essas perguntas encontram resposta na Bíblia, mas o Homem Pós-moderno se gaba de não ter religião, e de desconfiar especialmente da religião cristã, que considera dogmática, absolutista, institucionalista, irracional, anticientífica e ultrapassada.

Ao mesmo tempo, esse Homem Pós-Moderno procura uma religiosidade pautada pelo não pertencimento, pela liberdade de “amarras” institucionais, por uma espiritualidade autocentrada e pela possibilidade de escolher de cada filosofia religiosa o que melhor lhe aprouver. Trata-se, pois, de uma religiosidade sem religião.

É nessa procura por transcendência sem o Deus Transcendente que muitas pessoas têm optado por meditação transcendental, budismo ocidentalizado, um pouco de cada coisa, e é nesse contexto que surgem os influenciadores a que me refiro, os quais, partindo de premissas racionalistas e secularistas, substituem, no coração de muita gente, a função que seria própria de um pastor – alimentar a alma. E não será por acaso que um teólogo liberal se pareça muito com um intelectual ateu que fala de temas como a felicidade, pois o discurso de ambos estabelece meios de lidar com a finitude e fragilidade da vida sem que se considerem os pressupostos da revelação bíblica.

Aqui, porém, reduzo o escopo de nossa discussão para um aspecto que me preocupa: como a pregação evangélica é entendida em nossos dias? Como os pregadores evangélicos são vistos pela sociedade? Se somos alvo de desprezo ou zombaria, isto se deve somente a uma conduta anticristã dos nossos detratores ou a um comportamento deplorável que muitos de nós têm manifestado? Os pregadores evangélicos hoje podem ser tidos como referências morais? As pessoas vão procurar nossos vídeos de pregação quando estão aflitas e angustiadas no recôndito dos seus lares? Essas pessoas entendem que podemos articular frases racionais sobre temas importantes da vida, não nos limitando a frases de efeito e à repetição de ideias de outrem? Elas têm condições de reconhecer em nós pessoas sensatas, que sabem explicar a Bíblia com um mínimo de coesão e inteligência?

Não precisamos cair nos extremos: existe o extremo de um fundamentalismo cristão que propõe a fuga das discussões sociais e culturais, a pregação “para dentro”, a espiritualização de tudo, a alienação e o fanatismo como supostos instrumentos de santificação; e existe, por outro lado, o extremo da adesão ao pós-modernismo, como faz o movimento da igreja emergente (em sua feição liberal), que, na tentativa de tornar “aceitável” a mensagem, muda de tal maneira a forma de evangelizar, de adorar a Deus e de se reunir como igreja que acaba mudando também o conteúdo de sua pregação.

Precisamos, sim, encontrar meios de falar ao Homem Pós-Moderno, precisamos encontrar meios de falar aos adolescentes e jovens, a essa geração dos millennials, e este é um desafio importante, mas não podemos, de modo nenhum, renunciar ao cerne do Evangelho, que se acha fundamentado na Cruz de Cristo – na vergonha, tragédia e escândalo da Cruz, na ação sobrenatural do Deus amoroso e misericordioso que enviou o Seu Filho para morrer em substituição penal aos pecadores, a fim de purgar a culpa dos que se arrependerem.

Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.