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opinião

Jejum para ateus?

Notas sobre o Dia nacional de jejum e o Estado laico

William Douglas

em

Bandeira do Brasil. (Foto: Rafaela Biazi / Unsplash)

O Dia nacional de jejum e oração, que ocorrerá em 5/4/2020, é uma ótima ocasião para reflexões em três grupos:

  • (a) para todos, a fim de pontuarmos alguns conceitos sobre liberdade religiosa, e Estado laico no Direito Constitucional;
  • (b) para os não cristãos, para avaliar um conceito de união que ultrapassa a teologia de cada um, e,
  • (c) para os cristãos, a partir de conceitos bíblicos aplicáveis à vida social e política.

Reflexões para todos

O Estado é laico, todos sabemos. O que muitos não sabem – e outros querem manipular – é o conceito correto de laicidade. Cuidado, aqui, para não confundir laico com laicista: as palavras são parecidas, mas o sentido é totalmente diferente. Laico é o no qual não há religião ou ateísmo oficial e no qual todas as opções religiosas e o ateísmo são respeitados.

Ele é não confessional, em posição ao Estado confessional, que é aquele que  que opta oficialmente por uma determinada religião ou pelo ateísmo. Já o Estado laicista segue o chamado laicismo francês, é aquele que  expulsa a religião do espaço público. Não vamos aprofundar este tema aqui, mas recomendamos o livro “A na Era do Ceticismo”, de Timothy Keller, para quem quiser entender  as razões pelas quais o Estado laico é melhor do que o laicista, já que respeita a igualdade de todos.

O Brasil precisa aprender a respeitar o Estado Laico. Quem crê precisa respeitar quem não crê e vice-versa. Quem crê em uma religião precisa respeitar quem crê na outra, ou não crê em nenhuma. Aquele que se sente incomodado com a fé ou com o ateísmo alheio é que está errado. Eu, protestante/evangélico, preciso aprender a respeitar a devoção dos católicos a Nossa Senhora e dos umbandistas e candomblecistas a Iemanjá. Todos temos que aprender a respeitar a fé do outro e a respeitar o sentimento religioso alheio, mesmo que ele não nos diga nada. Isso é um marco civilizatório.

O Estado respeita e até mesmo se alia à religião, sem perseguições ou preferências, para proteger o interesse público. Veja o preâmbulo da Constituição Federal, e seus artigos 5º, VI, VII e VIII; 19, I; 150, VI, “b”, 120, 213 e 226, 3º. Assim, por exemplo (como já decidiu o TRF2) haver um culto em repartição pública não agride o Estado laico, mas seria errado obrigar alguém a participar dele, ou impedir que algum grupo também possa fazer o seu. Você não é obrigado a participar, tem direito de fazer o seu, só não pode ser intolerante e se incomodar ou atrapalhar o sagrado alheio.

Ninguém deve se incomodar se líderes religiosos, ou o Presidente, Governadores e Prefeitos, se unirem a este momento. O Estado é laico: todo cidadão é livre para exercer sua fé. Isso não muda os demais direitos e deveres  de cada um, é apenas uma peça em um mosaico, mas uma peça garantida pelos direitos humanos e pela própria Constituição Federal. Quem se incomodar com isso estará sendo preconceituoso e intolerante, não estará respeitando a CF e os direitos humanos. Eis a regra: se não quiser, é direito seu não participar, mas respeite o sagrado alheio.

Reflexões para não cristãos

Ontem postei vídeo de irmãs carmelitas buscando alimentos na Igreja da Cidade, de São José dos Campos, evento corriqueiro naquela cidade. Fome não tem religião e todos devem se unir pelo bem. Apesar das teologias diferentes, há parceria:  este é o conceito. Igualmente, participo de um grupo, sob a liderança do Cardeal Dom Orani Tempesta, que reúne católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas e candomblecistas, Fé Bahá’í, judeus, muçulmanos etc, todos trabalhando pelo respeito recíproco e pelo bem.

Há mais de 20 anos sou liderado por um padre, o Frei David, na Educafro, OSCIP católica que trabalha com inclusão social e racial. Quando distribuí, junto com meus leitores, 155 mil litros e 6 poços artesianos em Governador Valadares, a água também foi para instituições espíritas, católicas e seculares, três poços foram furados em favelas, dois em igrejas católicas e um em uma igreja batista. Sou evangélico e estou apoiando mudança legislativa para classificar invasão de terreiros como terrorismo. Eu respeito a laicidade e o sagrado do outro.

Qual a reflexão aqui? Apesar de diferenças teológicas com católicos e espíritas, reconheço o extraordinário trabalho que eles promovem. Daí, cada um mantendo suas convicções, todos trabalhamos juntos.

Nesta hora em que todo o país enfrenta uma pandemia, quero convidar todos os que não se consideram cristãos a se reunirem conosco, sem levar em conta as diferenças teológicas, políticas e/ou filosóficas, mas focando em um só povo em torno de um só objetivo: pedir a Deus que nos socorra. Não é ecumenismo, mas sim todos pedindo, cada um ao seu sagrado, os milagres que apenas o sagrado tem o poder de fazer.

Não apenas as diferentes tradições religiosas, mas também os ateus, céticos, agnósticos e os não religiosos são bem-vindos.

Reflexões para os cristãos

Temo causar enfado a não cristãos, e, para evitar isto, alerto que este item é bem religioso mesmo. Se você não é religioso, talvez valha a pena pular para a conclusão.

Amanhã estarei jejuando e orando. Contem comigo. Convidei a todos. Um mensagem no meu instagram, @williamdouglas, indagou sobre o jejum dever ser feito em secreto (Mateus 6.16,18). Alertei que isso se aplica ao jejum individual e que, sim, a Bíblia crítica jejum, orações e esmolas feitas por vaidade ou para receber o aplauso de terceiros. Contudo, o caso aqui é diferente: é um jejum coletivo, onde obviamente cabe o convite e o chamado a todos.

E que cada um diga que está participando e a outros convide não por vanglória, mas para criar algo necessário para enfrentar crises nacionais: a união de todos. Acrescento que quando vem o avivamento, todos acabam sabendo, prevalecendo não qualquer vaidade, mas o agir do Espírito.

Então, qualquer que seja sua opinião sobre outros ramos do cristianismo, sobre outros que (com teologia diferente) se inspiram em Jesus, sobre aquilo que você considera erros do outro (sem nunca esquecer a questão do cisco e da trave, em Mateus 7), não é hora de dividir, nem de discutir. A hora é de todos nós, mantendo nossa teologia e convicções, encontrarmos um ponto comum: acreditamos em Deus e vamos jejuar e orar pedindo seu socorro. Apenas isso. E será lindo, será épico, será santo.

Não de forma alternativa ou contraposta, mas em paralelo, cabe sempre um segundo jejum. Jesus pregou e praticou o jejum tradicional e, concomitantemente, disse que veio cumprir a lei e os profetas, e nos recomendou a prática das Escrituras. Assim, devemos tanto jejuar regularmente, como fazia o Apóstolo Paulo, mas igualmente praticar o jejum que mais agrada a Deus, descrito pelo Profeta Isaías.

O Profeta fala para os dias de hoje! Ele alerta que o jejum mais especial que podemos fazer não é um dia, ou três, como Ester, ou 21, como Daniel, ou  40, como Jesus.  O melhor jejum é cotidianamente soltar as ligaduras da impiedade, desfazer as ataduras do jugo e livrar os oprimidos.

Ou, nas próprias palavras do profeta: “que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda. Então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. E o Senhor te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam.” (Isaías 58).

Certamente, como disse Billy Graham, a Bíblia é mais atual que o jornal de amanhã cedo. Precisamos de jejum e oração, e devemos praticar a justiça. Deus nos chama para abandonar a corrupção e de apoiar quem a pratica (“Aparte-se da injustiça aquele que profere o nome do Senhor” – 2 Timóteo 2.4). Devemos lutar pela justiça social e para ajudar os órfãos, pobres, viúvas e necessitados.

Sempre foi assim no cristianismo, não é a toa que nós é quem criamos os primeiros asilos para doentes e orfanatos, e quem começou a dar educação para todos. Vamos manter essa tradição! Espero que nosso jejum continue na segunda-feira e assim vá até o final dos séculos.

Conclusão

Os países que se uniram foram aqueles que mais se saíram bem no enfrentamento de pestes, guerras e desastres naturais. Vamos nos unir. Temos que superar a polarização e achar pontos em comum acima das divergências religiosas, políticas ou filosóficas. Este é o caminho.

Todos respeitando o outro, respeitando a Constituição e trabalhando juntos para vencermos o coronavírus. Essa vitória nos dará exemplo, treino e confiança de que, juntos, venceremos também a corrupção, a fome, a falta de educação, segurança e justiça. Vamos vencer tudo, juntos.

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Juiz Federal, Titular da 4ª Vara Federal de Niterói (RJ) com vários prêmios de produtividade. Professor Universitário. Mestre em Direito, pela Universidade Gama Filho – UGF. Pós-graduado em Políticas Públicas e Governo – EPPG/UFRJ. Bacharel em Direito, pela Universidade Federal Fluminense – UFF. Autor best-seller no Brasil e nos Estados Unidos.

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