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estudos bíblicos

Israel e a responsabilidade da Igreja

“Isto lhes pareceu bem, como devedores que são para com eles. Porque, se os gentios foram participantes dos seus bens espirituais, devem também ministrar-lhes os temporais.” – Romanos 15:27

Alexandre Dutra

em

Jerusalém. (Foto: Robert Bye / Unsplash)

“Creio que não enfatizamos suficientemente a importância da restauração do povo judeu […] Mas, certamente, se existe algo prometido na Bíblia, é isto […] virá o dia quando os judeus, que foram os primeiros apóstolos aos gentios, os primeiros missionários que foram ao longe, devem ser recolhidos novamente. Até que isso aconteça, a plenitude da Igreja nunca poderá vir. Benefícios inigualáveis para o mundo estão relacionados a restauração de Israel, quando este povo se agregar será como trazer vida aos mortos.” C. H. Spurgeon

A criação de Israel

Poucas palavras na Bíblia são tão famosas quanto Israel, mencionada mais de 2000 vezes na Bíblia Sagrada. Definir Israel é um grande desafio, tanto por sua antiguidade e complexidade como pelo que implica. Porém, esta não é uma tarefa impossível, devido justamente à sua peculiaridade.

Quando olhamos para a descrição do profeta Isaías sobre a formação de Israel, no capítulo 43 de seu livro, percebemos a singularidade desse povo. Em primeiro lugar, Isaías vai afirmar que foi Deus quem “criou Jacó e formou Israel” (Isaías 43:1a).

O profeta faz questão de dizer que o que conhecemos hoje como povo e terra de Israel, no início, se referia a uma única pessoa, conhecida como o patriarca Jacó, filho de Isaque e neto de Abraão.

O nome – Israel

Conforme a narrativa bíblica, Jacó lutou com o anjo do Senhor, foi ferido na coxa, agarrou seu oponente, implorou que fosse abençoado por ele e teve seu nome mudado pelo anjo: “Então disse: Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel; pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste” (Gênesis 32:28).

Desde então, Jacó passou a ser também conhecido como Israel, que significa “aquele que luta com Deus”. Para não deixar dúvida, outro profeta, chamado Oséias, vai afirmar que, na verdade, Jacó lutou com Deus (Oseias 12:3).

Para o professor israelense de hebraico Yakov Gotenberg, o novo nome de Jacó, além de especial, tem um significado maior em hebraico. Ele contém os nomes de todos os patriarcas e matriarcas da Bíblia, organizados em um elegante acrônimo em hebraico.

Em seu original em hebraico, a palavra Israel – ישראל (YISRAEL) – contém as primeiras letras dos três patriarcas e das quatro matriarcas da Bíblia. Por exemplo, os nomes Isaque (יצחק – Yitzhak) e Jacó (יעקב – Yaakov) começam com a letra, Yud (י), a primeira letra de “Israel” em hebraico; Sara (שרה – Sara) começa com a segunda letra, Sin (ש); Rebeca (רבקה – Rivka) e Raquel (רחל – Rachel) começam com a terceira letra, Resh (ר); Abraão (אברהם – Avraham) começa com a quarta letra, Alef (א); e Léia (לאה – Le’a) começa com a última letra do nome Israel, Lamed (ל).

Já o verbo criar (bara’), que aparece em Isaías 43:1a – “MAS agora, assim diz o Senhor que te criou, ó Jacó” -, e é repetido nos versículos 7 e 15, é o mesmo que encontramos em Gênesis na ação criadora de Deus: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1:1) – ou seja, remete ao “criar do nada”, com seu paralelo no latim de ex-nihilo (criar do nada).

Seu uso em certas passagens denota o conceito de “iniciar alguma coisa nova” (cf. Isaías 41:20; 48:6-7; 65:17), o que demonstra de forma clara e evidente que a “criação” da nação de Israel seria uma obra divina, nova, miraculosa, sem precedentes.

Em contraste com o verbo criar em Isaías 43:1 temos o verbo formar (yatsar), que é usado para “criar a partir daquilo que já existe” – “e que te formou, ó Israel” -, isto é, o verbo criar se aplica a Jacó, enquanto o verbo formar é usado, propositalmente, para Israel, uma vez que a nação de Israel foi criada a partir do patriarca Jacó, ao passo que Jacó foi “criado” daquilo que não existia.

O verbo bara’ é um verbo usado exclusivamente para referir-se aos atos criativos de Deus. Aqui precisamos dar uma boa olhada nos antepassados de Jacó, onde vamos constatar que suas matriarcas eram estéreis.

Israel e a esterilidade

Começando com Abraão, somos informados que Sara, sua mulher, não podia lhe dar filhos porque era estéril: “E Sarai foi estéril, não tinha filhos” (Gênesis 11:30); o milagre da fertilidade aconteceu vinte e cinco anos depois da promessa divina, tendo Sara a idade de noventa anos, depois de ter encerrado o ciclo natural das mulheres e o corpo de Abraão já ter adormecido (Gênesis 17:17). Como resultado da promessa divina, temos o nascimento milagroso de Isaque.

Para acrescentar à saga da nação de Israel, temos o caso da esterilidade da matriarca Rebeca, esposa de Isaque (Gênesis 25:21). Após vinte anos de oração insistente de Isaque por sua mulher, Rebeca engravidou de gêmeos. A benção veio duplicada (Gênesis 25:24).

E, para finalizar, e assim justificar o uso do verbo bara’, na criação da nação de Israel temos o drama da esterilidade da terceira matriarca, Raquel (Gênesis 29:31), a esposa amada de Jacó.

Raquel suplicou a maternidade para Jacó (Gênesis 30:1-2), sendo que o mesmo nada podia fazer, uma vez que Lia, sua segunda esposa lhe dava filhos. Contudo, depois de muita súplica, Deus ouviu Raquel e de forma milagrosa lhe abriu a madre (Gênesis 30:22).

É interessante notar que, para quem não podia ter nenhum filho, quando o seu primeiro nasceu, esta deu-lhe o nome de José, que significa “O Senhor me acrescente outro filho” (Gênesis 30:23-24).

De fato, Raquel teve outro filho, o que acabou levando-a a morrer no parto. Antes de morrer, porém, ela chamou o menino de “Benoni”, que significa “filho do meu lamento”, ou tristeza; todavia, Jacó mudou o nome do menino para Benjamin, que significa “filho da minha destra”, ou força (Gênesis 35:16-19)

O propósito de Israel

O profeta Isaías ainda nos revelou, em seu capítulo, os propósitos da criação da nação de Israel.

Em primeiro lugar, Deus criou Israel para sua glória (Isaías 43:7), manifestação concreta de seu poder criativo; em segundo, para serem suas testemunhas, como seu povo escolhido revelariam o único Deus vivo e verdadeiro em meio ao afastamento das nações, devido à idolatria – criação de deuses semelhantes aos homens, egoístas, frívolos e falhos (Isaías 43:10); e, por fim, através de Israel, Deus se apresenta como Goel – aquele que tem poder para redimir, perdoar e purificar pecados, de salvar por amor (Isaías 43:11,14).

A Igreja

A Igreja iniciou em Jerusalém e passou a ser, como a nação de Israel, uma instituição divina. A igreja é a comunidade de todos os judeus e gentios que creem que o Senhor Jesus é o Messias de Israel e o Salvador do Mundo. O próprio Senhor Jesus disse em Mateus 16:18 que ele edificaria a sua igreja.

No Tanach (AT), o termo hebraico é Qahal, que significa congregação ou assembleia (Salmo 22:22), enquanto no Novo Testamento o termo grego para congregação ou assembleia é Ekklesia, sendo a ideia a mesma.

Portanto, no Novo Testamento, a palavra “igreja” pode ser aplicada a um grupo de pessoas de qualquer tamanho, desde um pequeno grupo que se reúne sempre em uma residência (Romanos 16:5 e 1 Coríntios 16:19), até um grupo maior de todos os que fazem parte da igreja em qualquer região (Atos 9:31), por exemplo, de uma cidade inteira (1 Coríntios 1:2; 2 Coríntios 1:1 e 1 Tessalonicenses 1:1); finalmente, a igreja do mundo inteiro pode ser chamada “a igreja” (Hebreus 12:23).

Responsabilidades da Igreja

Semelhantemente a Israel, a Igreja tem os seus propósitos divinos para cumprir na terra. Podemos entender os propósitos da igreja em termos de ministério com relação:

  • (i) a Deus,
  • (ii) aos primeiramente chamados cristãos, discípulos, seguidores do Messias, Jesus (Atos 11:26),
  • (iii) às nações e
  • (iv) a Israel.

Ministério com relação a Deus: adorar! No relacionamento com Deus, o propósito da igreja é adorá-lo. Deus nos destinou e nos escolheu em Cristo “para sermos para louvor da sua glória” (Efésios 1:12). Paulo ordena à igreja de Colossos que louve a Deus (Colossenses 3:16).

Com relação aos cristãos: edificar. De acordo com as Escrituras, a igreja tem a obrigação de nutrir aqueles que já são cristãos e edificá-los à maturidade na (Efésios 4:12-13).

Já com relação às nações: evangelizar e exercer misericórdia. Enquanto para Israel Deus preparou uma terra prometida, para a Igreja ele disse “Ide por todo mundo,  pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16.15). Essa obra evangelística de declarar o evangelho é o ministério principal da igreja com relação ao mundo.

O ministério de misericórdia inclui cuidado dos pobres e dos necessitados em nome do Senhor. Embora a ênfase do Novo Testamento esteja na ajuda material para os que fazem parte da igreja (Atos 11:29-30; Gálatas 6:10), há ainda uma afirmação de que é correto ajudar os descrentes ainda que eles não respondam com gratidão nem aceitem a mensagem do evangelho (Lucas 6:35-36).

Assim definimos o propósito da Igreja com as palavra do apóstolo Paulo em I Coríntios 10:32 “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos [gentios, nações], nem à igreja de Deus”.

Responsabilidade da Igreja com Israel

Quanto a Israel, a Igreja deve compartilhar tanto bens materiais quanto espirituais, em gratidão a tudo o que esse povo, judeu, legou à humanidade em geral e à igreja em particular:

“Que são israelitas [designação de povo], dos quais é a adoção de filhos [condição física e “espiritual”], e a glória [revelação divina], e as alianças [posição de vassalo e suserano], e a lei [forma de relação e obediência – Sinai], e o culto [forma de adoração], e as promessas [bênçãos condicionais e incondicionais]; dos quais são os pais [patriarcas], e dos quais é Cristo [Messias, Salvador] segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém” (Romanos 9:4-5).

Tudo que a Igreja é e tem é graças à obra que o Senhor Jesus, o maior judeu, realizou numa cruz na cidade de Jerusalém.

Nas palavras de Paulo, o apóstolo aos gentios, a igreja deve compartilhar bens materiais com Israel: “Isto lhes pareceu bem, como devedores que são para com eles [judeus]. Porque, se os gentios foram participantes dos seus bens espirituais, devem também ministrar-lhes os temporais” (Romanos 15:27); ou seja, no contexto de ajuda humanitária, a igreja tem o dever moral de orientar os seus membros a combater o antissemitismo (se tratando do povo judeu nas nações), ou o antissionismo (se tratando do povo judeu em Israel).

Defender o direito de Israel à sua Terra (Gênesis 15:17-21; 17:1-9), como prometida na “Bíblia Sagrada”, através das promessas imutáveis e irrevogáveis de Deus, ditas e escritas, por todas as Escrituras (Antigo e Novo Testamento), por meio de seus santos profetas e apóstolos.

Apoiar a Aliá, direito de retorno de judeus para a Terra de Israel. Cobrar de nossos políticos decisões favoráveis a Israel. Incentivar e orientar os cristãos a se envolver no processo de paz para Israel com seus vizinhos, motivando assim as pessoas a orar pela “paz de Jerusalém”, como ordena o salmista: “Orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam” (Salmo 122:6).

E, por fim, e mais importante, devemos compartilhar os bens espirituais. O maior bem da Igreja é, sem sobra de dúvida, o Evangelho (1 Coríntios 15:1-4), sobre o qual nos diz o apóstolo Paulo: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” (Romanos 1:16). O evangelho que começou em Jerusalém deve voltar para Israel através do ministério da reconciliação da Igreja do Messias (Lucas 24:46-47).

Como Igreja, temos a responsabilidade de testemunhar da redenção que há somente no sangue remidor do Messias de Israel (Jesus Cristo) a todos judeus e gentios. Assumamos, pois, esta responsabilidade! Que o Deus de Israel e da Igreja nos abençoe.

Pastor Batista, Diretor dos Amigos de Sião, Mestre em Letras - Estudos Judaicos (USP).

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