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“É impossível pastorear um rebanho apenas do microfone”, ensina pastor

Daniel Fich conversou com o Gospel Prime sobre igreja, liderança e coronavírus.

Michael Caceres

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Pastor Daniel Fich
Pastor Daniel Fich (Foto: Reprodução)

A pandemia causada pelo coronavírus tornou-se um grande desafio para a igreja brasileira, pois os pastores tiverem de se adaptar após proibição de reuniões e cultos e promover meios para manter o atendimento espiritual de seus membros.

Consciente da necessidade de proximidade com os fiéis, o pastor Daniel Fich diz que “é impossível pastorear um rebanho apenas do microfone”.

Daniel Fich é pastor presidente da Assembleia de Deus em Lajeado, cidade interiorana do Rio Grande do Sul, que viu sua rotina interrompida pela covid-19, tornando-se a mais atingida do estado, levando o pastor a ver os desafios aumentarem, com atendimentos espirituais, orientações emocionais e necessidades com alimentação.

O pastor também é jurista, formado em Direito e com especialização em direito religioso. Membro da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (ANAJURE), preside o Centro Social Trezentos de Gidion, que oferece apoio social para crianças e adolescentes.

Casado com Adriana Fich, pai do Mateus Yan e do Levi, o pastor conversou com o Gospel Prime sobre liderança, igreja, evangelismo e justiça.

Confira na íntegra:

Gospel Prime – Como tem sido o impacto dos trabalhos sociais desenvolvidos pela AD Lajeado?

Daniel Fich – Em Lajeado historicamente atuamos no acolhimento de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. A igreja possui um Centro Social chamado Trezentos de Gidion, onde essas crianças são cuidadas através de equipe multidisciplinar.

Também trabalhamos com bastante intensidade na distribuição de alimentos.

Há mais de quatro décadas a igreja entrega mensalmente duas toneladas de alimentos às famílias necessitadas. Nesse tempo a demanda tem sido ainda maior, mas a solidariedade também tem sido muito grande.

Qual o maior desafio que estão enfrentando com essa crise?

Nossa cidade tem sofrido restrições muito severas, sendo a cidade com maior número de casos no RS. Sabemos que a Igreja somos nós, mas é na comunhão do convívio que nos tornamos Corpo de Cristo. A impossibilidade de reunir-se tem sido bastante desafiadora.

De que forma a igreja tem mantido os trabalhos na pandemia?

Durante mais de 60 dias nossos cultos foram 100% online. As mídias sociais têm sido muito importantes. Mas em todo o tempo mantivemos os atendimentos espirituais e de aconselhamento de forma individualizada e nunca paramos de distribuir alimentos. Para suprir a demanda realizamos o Drive Thru da Solidariedade.

Nossos obreiros também adotaram cultos em pequenos grupos por aplicativos e inúmeros cultos relâmpagos foram realizados na frente das casas das pessoas dos grupos de risco com carros de som.

Muitas pessoas têm buscado ajuda por problemas financeiros e emocionais?

Sim. Nossa sociedade já estava doente em suas emoções. É só olhar os números da depressão, ansiedade e suicídio. Agora muitas pessoas tem perdido o emprego, empresas faliram e lamentavelmente a situação ficou ainda pior.

As doenças da alma terão terreno fértil no pós-pandemia. Será um tempo das igrejas darem muito apoio e suporte, mobilizando seus membros das áreas de psicologia e psiquiatria para uma atuação de apoio ao ministério.

A boa notícia é que Jesus também cura as doenças emocionais.

Acredita que este acontecimento pode resultar em um avivamento?

Agora estamos impedidos de abraçar, apertar mãos e temos que ficar longe um do outro nos templos por causa do distanciamento implementado pelas autoridades.

Todavia, por estarmos apertando mãos e distribuindo abraços nos louvores de saudação, não significa que antes estávamos de fato unidos.

Se houver arrependimento e uma busca consciente e consistente da oração e Palavra, sim, poderemos viver um grande avivamento. Outro ponto importante é que essa crise talvez nos impulsione a resgatar a no lar, e se isso de fato acontecer, a igreja sairá fortalecida.

O que muda na vida dos cristãos depois da pandemia?

Penso que os eventos diminuirão consideravelmente e talvez a agenda da igreja deixe de ser tão programática e passe a ser mais relacional. Acredito que vamos valorizar mais o convívio. O abraço será mais verdadeiro e, sem dúvida, saberemos que estar reunidos no templo é um privilégio.

Como tem se preparado para o pós-pandemia?

Particularmente, estamos aproveitando esse tempo para reestruturar e equipar melhor nosso ministério de comunicação, pois desejamos ter uma presença mais efetiva nas mídias digitais.

Ao mesmo tempo, queremos aprofundar a dinâmica da fé no lar. Um amigo me disse: “Não foram os decretos de isolamento que nos prenderam, foi Deus que nos enviou para dentro de nossas casas”.

A Igreja pode se preparar para os desafios que virão? De que forma?

Sim. Planejar o futuro é bíblico. Deus dá a palavra final, mas não temos o direito de negligenciar a prudência. A Igreja de Cristo nunca será surpreendida, mas como instituição, precisamos estar preparados para alguns desafios. Destacaria os precedentes jurídicos que ficarão após essa pandemia.

Todos queremos combater essa crise de saúde, e sempre digo que a igreja não faz parte do problema, ela faz parte da solução, mas é inegável que muitas decisões foram arbitrárias. Alguns prefeitos colocaram as igrejas em ordem de preferência inferior que os bares.

Estar com a documentação cem por cento em dia é o primeiro passo para evitar problemas.

Qual conselho o senhor daria para os pastores?

Estejam perto de suas ovelhas. É impossível pastorear um rebanho apenas do microfone.

A insegurança jurídica atual pode afetar a Igreja?

Não podemos generalizar e dizer que todos os prefeitos e governadores estão perseguindo a Igreja. Isso seria insano, pois o mundo inteiro parou. Mas o que devemos considerar é que sim, algumas autoridades extrapolaram nas restrições, demonstrando uma clara vocação autoritária e isso tende a se repetir no futuro.

As violações a liberdade religiosa, sem dúvida ainda trarão muita dor de cabeça aos líderes religiosos no Brasil, infelizmente.

Vê ações inconstitucionais no combate à pandemia?

Muitas! Imagina pessoas sendo presas em plena luz do dia por estarem caminhando na rua. Trabalhadores sendo algemados, igrejas sendo fechadas. Houveram casos de líderes sendo proibidos de reunir uma equipe com menos de 10 pessoas com as portas fechadas para fazer uma transmissão online.

Em nome do combate ao coronavírus a Constituição foi rasgada em muitos aspectos, dentre eles o direito de ir e vir e a liberdade de culto.

É dever do cristão lutar pela reta Justiça?

Sim, o Senhor é justo e ama a justiça (Salmos 11:7) e Jó 37.23 diz que Ele é exaltado em poder, mas, em sua justiça e retidão, não oprime ninguém.

Um evangelho que não combate as injustiças, sejam elas praticadas por quem quer seja, está longe do Cristo neotestamentário.

De que forma a Igreja pode se tornar mais atuante?

Ser crente dentro do templo é fácil. Jesus nos enviou para o mundo. Todos os domingos quando declaramos a benção pastoral, a grande comissão é reafirmada e a Igreja é enviada para fora. A Igreja deve estar onde estão os drogados, os órfãos, os abusados, os corruptos, etc…

A Igreja precisa ser intencional. Devemos treinar nosso povo, desde as crianças, adolescentes, jovens, enfim, todos, para viver um Evangelho de tempo integral, pois só assim alcançaremos as escolas, universidades, empresas, etc.

Qual estratégia de evangelismo considera indispensável?

Em primeiro lugar, nenhuma estratégia substituirá a ação do Espírito Santo. Só Ele pode convencer um pecador. Todavia, penso que para definir uma estratégia ou adotar determinado método é indispensável conhecer a realidade espiritual e cultural do local onde a Igreja está ou pretende alcançar. As vezes em uma mesma cidade, de um bairro para o outro, a abordagem precisa ser totalmente diferente.

Porém, alguns métodos já têm eficácia comprovada, por exemplo, nas comunidades carentes, a ação social abre as portas para a pregação do Evangelho.

Já nos grandes condomínios e arranha-céus não se chega de outra forma se não pela mídia e, nesse sentido, especialmente para quem não pode pagar um caríssimo programa de rádio ou TV, as mídias sociais têm sido uma grande porta para a evangelização.

O que deve mudar no Brasil depois deste período de crise?

A solidariedade do povo é inquestionável. Lindas ações se revelaram nesse tempo triste e espero que realmente isso continue. Muitas pessoas descobriram o prazer de ajudar.

Deixe-nos uma mensagem de esperança:

É possível que ao ler este texto você esteja passando por situações onde as nuvens da incerteza encobriram a sua esperança, mas eu quero incentivá-lo a fazer que a Bíblia diz: “Todavia, lembro-me também do que pode dar-me esperança” (Lamentações 3:21).

Deixe a esperança nutrir o seu coração com a certeza de que o Senhor não o esqueceu. Quando você escolhe a esperança, escolhe a cura, pois a esperança destrói o pessimismo, o negativismo e o fatalismo. Lembre-se, Deus está no controle!

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