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opinião

Da luta pelo povo para a luta pelo poder

O caminho de um governo incapaz de autocrítica

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Autocrítica é a capacidade de uma pessoa de reconhecer suas qualidades, defeitos e o próprio caráter, adquirindo consciência dos erros e acertos de suas ações.

A incapacidade para tal ação pode levar o indivíduo a ver somente o que lhe convém em detrimento das demais coisas.

Neste caso, para desviar o foco dessa autocrítica, colocar olhar em outro alvo para atacar, levando todo o grupo a não ver o óbvio (que seria identificar as causas de sua queda) e evoluir como pessoa e/ou grupo, é uma estratégia adotada para não enfrentar o óbvio.

Porém essa aparente incapacidade de alguns líderes e grupos de realizarem uma autocrítica não é de se surpreender, afinal, é mais fácil encontrar o que há de errado no outro do que em nós mesmos. Um governo é feito de tentativas e erros e, nesse processo também ocorrem acertos. Não podemos endeusar ninguém no acerto e muito menos demonizar nos erros. 

É o momento de cada um olhar para seu próprio “umbigo”

O que se viu nesse pleito foi uma briga de interesses pelo poder disfarçado de defesa dos interesses do povo. Os representantes partidários, utilizando os medos e anseios sociais como plataforma de projeção e promoção de ideologias próprias, se portaram como verdadeiros “Judas” cuidando dos valores da comitiva messiânica sob o argumento de administrá-los, quando na verdade tinha interesses escusos no coração.

Acredito que se o foco estivesse, verdadeiramente, nas motivações pessoais e/ou partidárias, esse período eleitoral não teria sido de agressões mútuas e segmentação dos grupos na sociedade.

Se os candidatos e partidos estivessem preocupados com o povo teriam focado em propostas políticas para benefício do país. Essas propostas (ou a falta delas) teriam vindo para gerar esperança no povo, ao invés de serem expostas para ofuscar ou ridicularizar o outro.

Não houveram propostas concretas, plausíveis e muito menos plenas nem dos que permaneceram falando e muito menos de quem pouco falou. Esse pleito mostrou que a política, isto é, a organização e direção do país, não consiste na multidão de palavras cheias de engodo e nem em figuras representativas de valores (são frágeis e passageiras), mas, que é preciso adquirir uma consciência plena de que o sistema político brasileiro atual não atende os anseios sociais e que algo diferente precisa ser feito.

O governo anterior teve lampejos de uma boa administração antes de se perder em ideologias grupais. Os olhos desprovidos da parcialidade político-partidária irá ver que nos governos do Partido dos Trabalhadores teve um período de alguns anos de crescimento econômico e geração de empregos, além da redução das desigualdades sociais, antes de afundar em uma das maiores crises que esse país já viveu.

Dentre outras explicações para o crescimento, alguns especialistas dizem que se deu pelo aumento nos preços de produtos que o país exportava no período: petróleo, minério de ferro e soja, resultando em um crescimento por quatro ou cinco anos, voltando a calamidade em seguida. Outros afirmam que o crescimento do período foi consequência das condições macroeconômicas criadas no fim da década de 1990, após os preços serem estabilizados e adotados o tripé composto pelo regime de metas de inflação, de superávit primário e pela taxa de câmbio flutuante e que, o papel do estado como promotor da distribuição de renda e crescimento de maneira desordenada e exagerada, fez com que viesse o colapso. Independente da teoria, deve-se ressaltar que aconteceram acertos e erros.

A avaliação necessária, por parte do governo, para a manutenção do crescimento econômico (requisito básico para o desenvolvimento de outras áreas) não veio. Ao invés da evolução, optou-se por uma política ideológica. O partido outrora popular caiu pelas ribanceiras da corrupção altruísta, isto é, tirar dos ricos para dar aos pobres, afinal, tudo vale para o bem comum maior, que neste caso não foi a população a maior beneficiada, mas o plano de poder do partido e seus camaradas. Daí o emprego da expressão “da luta pelo povo para a luta pelo poder” empregado a partir do título da obra Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder de autoria do professor aposentado da USP José de Souza Martins.

Quem foi o culpado?

Não foi um intervencionismo autoritário, intolerante, inflexível que instalou a crise no Brasil, mas, sim, o modelo político e de desenvolvimento dos últimos anos. E isso é fruto da incapacidade de reavaliação de quem esteve tantos anos no poder. Esse pensamento foi retratado pelo senador do PDT do Ceará eleito Cid Gomes que em uma reunião de apoio disse que o PT precisava dessa reavaliação e completou: “foram vocês que fizeram o Bolsonaro!”

Acredito que seja parcialmente verdadeira a afirmação do político. Embora Jair Bolsonaro esteja no meio político há mais de duas décadas, foi surpreendente que ele não apenas surgisse como candidato à presidente, mas que também vencesse o pleito em sua primeira investida, ainda mais filiado ao PSL, um partido minúsculo e sem dinheiro para apoiá-lo.

Uma parte significativa da população mostrou-se indignada e descontente, mas o antigo governo, recluso em sua redoma do egoísmo e da arrogância, passou a fazer o que se tornou expert: “atacar os que pensavam contrários e à prática do vitimismo”. Isso o impediu de ver os erros, conforme destaca o professor da UECE – Universidade Estadual do Ceará, João Bosco Nogueira:

  1. Prometeram ao sofrido povo brasileiro a ética, mas se tornaram protagonistas no enredo dos “grandes corruptos”;
  2. Abraçaram (sem considerar as demais) bandeiras de temas sensíveis em um país de grande dimensão religiosa, até mesmo hostilizando alguns setores do cristianismo;
  3. Desorganizaram, principalmente no governo Dilma, as finanças públicas, inclusive assumindo posicionamento favorável ao mercado em alguns momentos, frustrando os mais pobres.

Destaco ainda, o erro mais recente e ainda mais gritante do partido que me pareceu intragável para boa parte da população, o fato de um partido da envergadura do PT ignorar a disciplina legal da democracia e tentar subverter as regras ao insistir na candidatura de Lula à presidência, fazendo parecer que despreza as leis e as instituições, levando, inclusive, o procurador regional do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), Maurício Gotardo Gerum a afirmar que o partido fomentava uma autocracia personalista, além de trair a democracia que tantas vezes afirmaram defender. 

O personalismo é perigoso

Personalismo é um termo aplicável ao indivíduo que procura se estabelecer como o centro em qualquer situação. No que diz respeito à liderança política, descreve uma pessoa que coloca seus interesses individuais acima dos coletivos.

Um governo não deve ser pautado na figura de seu líder e no que ele representa. O personalismo imperou no país no último governo. Vê-se com frequência o emprego do prefixo “ex” quando se fala de muitas figuras de destaque Brasil e mundo afora. Mas nota-se que, em relação ao partido dos trabalhadores e seus partidários, essa cultura é tão fortemente enraizada, que depois de anos, qualquer referência ao ex-presidente Lula é “o presidente”, ao passo que não é comum empregar a mesma expressão à Dilma. Parece-nos que havia um endeusamento de Lula entre os ativistas.

Agora, o novo presidente tem o desafio de cumprir o slogan de sua campanha em sua plenitude, afinal, Brasil acima de todos implica em uma posição mais elevada do que a si mesmo. O risco de personalismo em qualquer governo que é elevado à condição de “salvador da pátria” é real. O que o Brasil não precisa é sair de um extremo a outro em pouco tempo, tendo em vista, que as consequências podem ser aterradoras. Seus valores foram referenciais para muitos brasileiros, mas precisa entender que valores e princípios são para ser ensinados e respeitados e não impostos à força. Os valores voltados para resgatar a dignidade do brasileiro estão acima dos valores individuais do governante, e isso não deve ser esquecido.

O Brasil precisa cultivar o respeito e o amor ao próximo. A violência já impera e banha nosso solo há muitos anos (não é fruto da fala do candidato eleito). Nos últimos anos houve uma cisão sob o falso argumento de defesa das minorias e ataques gratuitos foram estimulados por causa de ideias diferentes. Por isso, valores como o respeito e a tolerância devem ser resgatados e jamais negociados. Defender os interesses do bem comum para todos e não para alguns.

Agradar a maioria será impossível, tendo em vista que algumas medidas impopulares deverão ser tomadas, mas esforçar-se para diminuir a margem de erro é um dever de todo governante. Para isso, o exercício da autocrítica é fundamental.

A democracia brasileira, assim como o objetivo final desta – o povo – é maior do que o presidente eleito Jair Messias Bolsonaro ou o ícone dos quatro últimos governos do país, Luiz Inácio da Silva.

REFERÊNCIAS
https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/08/09/pt-despreza-leis-e-desestabiliza-quadro-politico-diz-mpf-em-acao-por-lula.htm
https://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/2018/06/1972422-laura-carvalho-analisa-erros-e-acertos-economicos-de-lula-e-dilma.shtml
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/irmao-de-ciro-chama-petistas-de-babacas-e-diz-que-partido-merece-perder.shtml
Mariana Alvim – @marianaalvimDa BBC News Brasil em São Paulo, 28/10/2018. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45973986

Bacharel em Teologia pela FAETEL - Faculdade Teológica de Ciências Humanas e Sociais Logos, São Paulo e; graduando em Psicologia (2017) e Pós-graduando em Didática do Ensino Superior (2017), FACIMED - Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal, RO.

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