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opinião

Cuidado com a messianização da política

A (incômoda) necessidade de refletirmos sobre a natureza da ação política e a natureza do ativismo cristão.

Alex Esteves

em

Jair Bolsonaro de costas. (Foto: Montagem)

A pandemia do COVID-19 é um daqueles problemas gigantes que aceleram a necessidade de reavaliarmos nossa cosmovisão, nossa teologia e nossos valores. Depois da tempestade passar, veremos quais foram as teologias “sobreviventes”, qual a maneira por que enxergamos a relação entre religião e política, e se surgiram novas teologias nesse contexto.

Antes de prosseguir, confesso suspeitar de que a teologia da prosperidade, o triunfalismo, o pseudopentecostalismo do “reteté” e a teologia coaching terão sido (mais uma vez) desmoralizados por sua absoluta incapacidade de responder ao sofrimento e à pergunta filosófico-teológica que diz: “Se Deus é bom e poderoso, por que o mal existe?” Gritos e palavras açucaradas não podem vencer a realidade, pois se baseiam em expectativas humanas, e não na fé cristã, que confia somente em Deus e Sua Palavra.

Em adição, podemos considerar que a incredulidade racionalista do liberalismo teológico e o subjetivismo desconstrucionista das hermenêuticas pós-modernas nada poderão fazer pelos que sofrem, pois sua prédica é ostensivamente inócua diante das adversidades, além de não se ancorar no primado de que a Bíblia é a Palavra divinamente inspirada, autoritativa, inerrante, infalível, absoluta, suficiente, compreensível e eterna; tampouco a esquerda evangélica poderá contribuir de qualquer modo aproveitável, haja vista sua vocação exclusiva para construir narrativas ideologicamente orientadas em sua guerra cultural conduzida pelo marxismo e afins.

Dito isso, o que me chama a atenção é que a pandemia do novo coronavírus tem potencializado um tipo de teologia política de índole “neopentecostal”, cujas características passo a enumerar, tais como as enxergo:

1 – certeza prévia de que determinados governantes foram destinados e aprovados por Deus para uma missão específica, de matiz algo messiânico-escatológica, o que afasta (ou diminui) a possibilidade de avaliação crítica de sua conduta, ideologia e valores;

2 – estilo cruzadista de atuar na seara pública, como se os adversários políticos fossem espécie de muçulmanos habitando a Terra Santa;

3- manejo equivocado do conceito de submissão às autoridades civis (cf. Rm 13.1-7; Tt 3.1,2; I Pe 2.13-17), conceito este substituído pela patrulha ideológica contra aqueles que ousarem avaliar a conduta, a ideologia ou os valores das pessoas investidas de autoridade com a qual eles concordam;

4 – aplicação, ao campo político, de uma teologia ekbalística, ou seja, uma abordagem teológica que parte da (falsa) premissa de que a solução de todos os problemas sociais, políticos, econômicos, sanitários e comportamentais passaria pela expulsão (do grego ekbalo) de demônios que estariam por trás das estruturas materiais, desde o vírus que mata até as instâncias governamentais dominadas por corruptos – a isto se associa a crença em impropriedades doutrinárias como espíritos territoriais, “atos proféticos” e cobertura espiritual;

5 – desprezo das peculiaridades do Antigo e do Novo Testamentos, a ponto de se desconsiderar que uma democracia representativa do Séc. XXI, como a brasileira, não pode simplesmente lidar com os seus governantes como Israel lidava com os juízes na época da teocracia ou com os reis no período da monarquia;

6 – percepção errada de como religião e política devem se relacionar, com a consequente violação do princípio da laicidade do Estado – em lugar de uma aplicação saudável dos princípios bíblicos à atuação política, ao debate público e à vida em sociedade, o que se constata é a espiritualização maniqueísta das questões políticas.

Essa teologia política “neopentecostal” pauta a reação evangélica brasileira à crise do COVID-19. Um exemplo disso, embora pareça algo muito legítimo, merece nossa atenção: pastores pedem ao presidente da República que faça uma convocação nacional à oração e ao jejum, o que soa estranho ao estado democrático de direito e à própria consciência cristã, pois:

  • (a) os pastores são eles;
  • (b) o presidente não deu mostras de ser, de fato, um militante da fé evangélica; e, mais importante,
  • (c) não cabe a um presidente da República convocar a nação para a prática de um segmento religioso.

Absorve-se acriticamente a ideologia do presidente como se ela fosse nada mais do que conservadorismo cristão, e isto porque o segmento “neopentecostal” conseguiu inserir a sua própria ideologia. Entretanto, o que se “compra” é uma agenda apenas parcialmente conservadora, que convive com a campanha reacionária de certos ideólogos e seus seguidores, que parecem pensar que estão avançando para a retomada de Jerusalém nos primórdios do segundo milênio…

Mui diferente disso, o conservadorismo político tem verdadeira repulsa por modelos políticos abstratos, radicalizados e utópicos, preferindo medidas prudenciais e a valorização do repertório de conhecimentos que foram aprovados pelo tempo, pelo bom senso e pela ciência, ou que favorecem, de algum modo, a dignidade da pessoa humana.

Conservadores não elegem inimigos políticos, não adoram governantes, desconfiam sempre do poder, não costumam andar em hordas e não fazem revoluções.

À luz da Bíblia, a relação entre religião cristã e política pode ser compreendida como uma convivência harmoniosa, em que os valores do reino de Deus devem ter liberdade para influir no debate social, na construção de políticas públicas e na defesa da livre consciência. Quanto a orar pela nação, cuida-se de uma prática constante da vida cristã (cf. I Tm 2.1-4), independentemente de o governante ser cristão ou não, e com ou sem convocação da parte dos líderes da igreja.

Para isso, a teologia protestante ortodoxa tem muito a contribuir, se conseguir demonstrar que o mandato cultural (cf. Gn 1.26-28) implica a boa administração dos recursos naturais e o exercício da criatividade em todas as áreas da vida humana, e não a edificação, pelos evangélicos, de uma narrativa política destinada à apropriação do poder, apenas revestida de linguagem “bíblica”, mas eivada de traços daquele dualismo gnóstico dos primeiros séculos da Era Cristã, no qual o mundo material era visto como necessariamente ruim e divorciado de Deus.

Por fim, deixo registrado que votei no presidente Jair Bolsonaro e torço sinceramente por seu governo, que, de maneira geral, aprovo, especialmente quanto à justiça, economia, direitos humanos e família, além dos ministros militares e outros setores que manifestam valor técnico e um aspecto salutar de liberal-conservadorismo. O que me incomoda muito, como pastor e observador da cena evangélica brasileira, é que possamos sucumbir aos instrumentos biblicamente infundados da visão de mundo triunfalista do “neopentecostalismo”.

Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Co-pastor da sede da Assembleia de Deus em Salvador. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.

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