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Estudos Bíblicos

A perseverança dos santos

Agostinho, o contexto da Reforma e a apostasia em Armínio.

Giovani Carvalho

em

Jovem caminhando em estrada de terra (Alexis Antoine / Unsplash)

Antes de discorremos alguns pormenores acerca do assunto, creio ser de suma importância trazer aqui relatos de posicionamentos teológicos dos Pais da Igreja.

Vale ressaltar que os Patriarcas não tinham como prioridade debruçar na doutrina da segurança eterna dos santos, pois o contexto deles era baseado em perseguições físicas e intelectuais por governos e movimentos heréticos.

Segundo Rodrigo Calça Lemos, “as discussões até o quarto século se concentravam sobre temas como a extensão do cânon, a Pessoa do Pai, a Pessoa do Filho, a Pessoa do Espírito, a igreja e os sacramentos”.

Sendo assim, entende-se que os desafios eram diversos. Como supracitado, o referido assunto não foi tratado de forma direta ou detalhada pelos Pais da Igreja, contudo, dentro de alguns escritos dos mesmos, podemos ter uma base acerca do ensino da perda da salvação.

É de forma majoritária que teólogos em suas pesquisas afirmam que a doutrina da perseverança dos santos fora primeiramente proposta por Agostinho, bispo de Hipona, sendo assim, reconhecido e apontado como o pioneiro do referido ensino. Mesmo assim, ainda existem pesquisas que afirmam o contrário como:

Steve Witzki, em seu artigo The Inadequate Precedent for “Once Saved, Always Saved” (O Inadequado Precedente Histórico para o “Uma Vez Salvo, Sempre Salvo”), recorre ao estudioso católico Jamess Akin e ao pesquisador David Bercot para atestar que a crença na “imperdibilidade” da salvação não está presente antes de João Calvino.[1]

Como citado acima, nota-se a expansão em que abrange o tema. Até mesmo Jacó Armínio que citaremos a posteriori, em discordância com o tratado do erudito puritano William Perkins, afirma mais adiante “que a fé verdadeira e de salvação pode ser total e finalmente perdida”[2].

Um fator de sumo interesse é que, nos tempos pós-apostólicos, os crentes que eram batizados recebiam a seguinte conclamação: “Que nenhum de vós seja achado um desertor” [3]. Acredito que até este ponto já expressamos o suficiente para consenso de que os Pais da Igreja defendiam a perda da salvação.

Os Pais Apostólicos são de suma importância. Sendo assim, falaremos um pouco sobre eles aqui, já que vieram de uma época posterior ao Novo Testamento. Vale ressaltar que os Pais Apostólicos são sucessores dos apóstolos, dando continuidade ao seu legado.

Muitos de seus escritos estão vindo de forma direta da própria palavra revelada, vazados da própria escritura, por conta desse fato podemos nos apoiar em seus escritos sabendo que há ali um discernimento a ser passado com mais profundidade.

Um documento de suma importância, que vale a pena ser retratado aqui, é o Didaquê [4], conhecido como o mais antigo documento do primeiro século, também denominado como o ensino dos doze apóstolos – é o manual eclesiástico mais antigo do Cristianismo. Sendo um manual eclesiástico antigo, nota-se que nele contém dizeres concernentes à segurança da salvação.

Vigiem sobre a vida de vocês. Não deixem que suas lâmpadas se apaguem, nem soltem o cinto dos rins. Fiquem preparados, porque vocês não sabem a que hora o Senhor nosso vai chegar. Reúnam-se com frequência para procurar o que convém a vocês. Porque de nada lhes servirá todo o tempo que vocês viveram a fé, se no último momento vocês não estiverem perfeitos. De fato nos últimos dias, os falsos profetas e os corruptores se multiplicarão, as ovelhas se transformarão em lobos e o amor se transformará em ódio.[5]

Observa-se que de acordo com a declaração supracitada, há uma concepção de que se necessita de uma perseverança até o final, de forma que sem ela não é possível alcançar a salvação.

Regressando novamente aos escritos dos Pais Apostólicos, como por exemplo Policarpo de Esmirna, que segundo estudiosos foi bispo em Esmirna e morreu por volta de 155 com a idade de 86 anos. O referido bispo chegou a ouvir em sua juventude alguns apóstolos do Senhor Jesus Cristo. O bispo, ao endereçar a carta aos crentes filipenses, diz em um trecho:

De igual forma, que os diáconos sejam irrepreensíveis diante da justiça dele. São servidores de Deus e de Cristo, e não dos homens. Que não caluniem, nem sejam dúplices, nem amantes do dinheiro. Sejam castos em todas as coisas, misericordiosos, zelosos, andando segundo a verdade do Senhor, que se tornou servidor de todos. Se o aguardarmos neste mundo, ele nos dará em troca o tempo futuro, pois ele nos prometeu ressuscitar-nos dentre os mortos, e, se a nossa conduta for digna dele, também reinaremos com ele, se tivermos fé.[6]

Observa-se que Policarpo está adepto ao sentido de que o cristão pode perder sua salvação, caso não seja digno em permanecer nEle ou se não tiver fé.

Um excepcional pai da Igreja grega, chamado Orígenes, fora considerado um dos maiores teólogos da Igreja Antiga e o primeiro teólogo sistemático da Igreja, sendo assim, professor nas escolas de Alexandria e Cesária da Palestina. Orígenes também popularizou o método de estudo alegórico, sem contar no seu estudo dedicado ao Antigo Testamento. Contudo, Orígenes não fornece algum indício de que os crentes não pudessem cair da graça ou apostatar sua fé, note sua alegação ao referido assunto:

Examinemos o que dizem alguns heterodoxos [gnósticos]. Eles servem desses textos [p. ex., Romanos 9:18] para quase suprimir o livre-arbítrio, argumentando que há naturezas perdidas, incapazes de salvação, e outras que estão salvas e são incapazes de se perder […].[7]

 Orígenes demonstra claramente que pessoas salvas podem vir perder a salvação.

O Bispo de Hipona

Agora entremos de forma razoável na biografia do Bispo de Hipona, Agostinho. Dado a data se sua conversão em 387 d.C., Agostinho viveu entre os anos (354 – 430 d.C.) e tornou-se bispo da África Setentrional. Como todos sabem o bispo de Hipona foi grande escritor a ponto de grande parte da teologia católica e protestante estar inclinada conforme seu pensamento.

Algo surpreendente que podemos relatar aqui sobre a vida de Agostinho foi que no princípio de sua carreia o bispo não tinha tanta inclinação para a fé em milagres no ministério do Espírito Santo.

Segundo Eddie Hyatt, para Agostinho, as línguas que surgiram em Pentecostes eram só para aquele momento, como um sinal, e que o mesmo já havia passado. Segue ainda que o testemunho da presença do Espírito Santo não é mais segundo a manifestação dos milagres e sim por via do amor de Deus a igreja manifestado no coração de alguns crentes. Ele continua:

Mais tarde, porém, Agostinho demonstra um grande interesse pelo sobrenatural e relata vários acontecimentos miraculosos na sua própria vida e na de outros. Em sua obra A cidade de Deus, todo um capítulo tem o título de “Sobre os milagres que foram operados para que o mundo pudesse crer em Cristo e que não deixaram de ser operados agora que o mundo crê”. Agostinho diz: “Pois até agora mesmo os milagres são operados no nome de Cristo, seja pelos seus sacramentos, seja pela oração, seja pelas relíquias dos seus santos.[8]

Conhecido por ter uma abrangência exuberante concernente aos temas da vida e fé cristã, o seu pensamento tomou forma a partir de seus debates com quatro oponentes: o maniqueísmo, o donatismo, o pelagianismo e alguns pagãos de romanos.

O teólogo Rodrigo Lemos, em sua obra Os Pais da Igreja e a Segurança Eterna dos Salvos, traz algo de cunho interessante acerca da vida de Agostinho, que tem interesse primordial em nosso presente diálogo: “quando falamos sobre Agostinho, assim como acontece com Philip Melanchthon, o braço direito de Martinho Lutero,[9] temos que perguntar: estamos nos referindo ao ‘Agostinho jovem’ ou ao ‘Agostinho velho? ’”.

Entende-se que Agostinho, antes de seu debate com Pelágio, defendia o livre-arbítrio, a graça irresistível e a predestinação com base na presciência divina. Classificam essa parte de sua história como o “Agostinho jovem”. Todavia, o “Agostinho velho” se caracterizou posteriormente ao pensamento monergista, levando ao distanciamento da teologia majoritária dos Pais da Igreja que lhe antecederam.

Entretanto, cabe-nos dizer algo sobre a perseverança mencionada por ele. Quando Agostinho trata deste assunto nas obras A Correção e a Graça (427) e O Dom da Perseverança (429), o bispo hiponense faz uma distinção no mínimo curiosa entre duas classes de salvos, a saber, “eleitos” e “crentes”. Para ele, aqueles a quem Deus predestinou incondicionalmente para a salvação eterna – neste caso, os eleitos – certamente perseverarão na fé, pois além de receberem o dom da initium fidei (“começo da fé”), recebem, também o dom da perseverantes fidei (“perseverança da fé”). Porém, para Agostinho, existe um outro grupo de pessoas as quais receberam o dom da initium fidei – ou seja, creram verdadeiramente em Cristo – mas que por não fazerem parte dos eleitos/predestinados, não receberam juntamente o dom da perseverantes fidei para continuar perseverando na fé. Assim sendo, os eleitos – que receberam não apenas o dom da initium fidei, como também o da perseverantes fidei – jamais perecerão. Porém, os crentes – que receberam apenas o dom da initium fidei – podem se perder.[10]

Sim, é isso, Agostinho ensinou que um verdadeiro crente pode perder a salvação. Como podemos notar, ensinou que aquele que é regenerado, porém não-eleito, pode perder a salvação.

Todavia, os crentes regenerados eleitos obviamente perseverarão na fé. Sendo assim, entende-se, com base nos relatos supracitados, que o bispo hiponense nos leva a crer que ele mesmo é o criador da doutrina da perseverança dos santos.

Contexto da Reforma

No contexto de Jacó Armínio, tudo que se dizia sobre a perseverança dos santos era dentro dos conceitos calvinistas, predominantemente. Contudo, para discorrermos o pensamento de Armínio aqui, precisaremos apresentar a premissa calvinista para melhor entendimento.

O calvinismo entende que não há possibilidade de o verdadeiro cristão cair da graça, entende que a perseverança final do crente é fundamentada na eleição eterna de Deus.

Sendo assim, se faz distinção entre os verdadeiros e os falsos cristãos: entende-se que o primeiro grupo não é capaz de apostatar da fé, pois receberam fé salvadora, enquanto o segundo grupo é conhecido como detentores de uma fé temporária. E os que “apostatam da fé”, na verdade, não tinham a fé salvadora, o que desconsidera a possibilidade de apostasia.

Dentro de um pensamento empírico[11] de apostasia da fé, comentam que, apesar da apostasia ser um perigo real dentro da comunidade cristã, muitos que já professaram a realidade do evangelho como verdadeira, a posteriori, abandonaram a fé e chegaram à morte fora da igreja.

Por fim, distante dos ensinos do evangelho, sustenta-se que os tais que se apostataram da fé não foram “reais cristãos”, acompanhado de tal experiência (empírica), usando o argumento de 1 Jo 2.19, que diz:

“Saíram dentro nós, mais não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos”.

Entretanto, é necessário nos atentarmos ao contexto do texto, que está apontando aos gnósticos, sendo assim, para uma sustentação monergista; do contrário, nos envolveríamos contraditoriamente com o versículo 24 que diz:

“Portanto desde o princípio ouvistes, permaneça em vós. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também vós permanecereis no Filho e no Pai” (grifo meu).

Nota-se o contexto expressando a perseverança dos santos e a condicionalidade do mesmo.

A conjunção “se” (ἐάν – translit. ean) é uma partícula condicional que, segundo o léxico de Thayer (1437 no léxico de Strong), refere-se ao tempo e a experiência, introduzindo algo futuro e potencial, portanto, não determinado. Podemos comparar o uso dessa conjunção condicional em passagens como Mt 6.22,23; 17.20; Lc 10.6; Jo 7.17; 8.54; At 5.38; At 13.41; Rm 2.25 e 1 Co 9.16, dentre outras[12].

A partir daqui, entendemos que seria uma incongruência dizer que o cristão poderia se apostatar dentro do sistema calvinista. De acordo com a afirmativa de que Deus, por meios de seus decretos soberanos e eternos, elegeu determinado cristão, não tem nexo afirmar que ele pode cair da graça.

Logo, Deus decreta a salvação de forma arbitrária, como também é o principal responsável pela manutenção e obviamente a providência da referida salvação. O teólogo presbiteriano e líder americano A. A. Hodge, citado por Franklin Ferreira, traz a seguinte definição: “a contínua operação do Espírito Santo no crente, pela qual a obra da graça divina, iniciada no coração, tem prosseguimentos e se completa. Os crentes continuam de pé até o fim, porque Deus nunca abandona sua obra”[13].

Segundo Berkhof, a doutrina da perseverança dos santos é uma contínua atividade do Espírito Santo no crente, sendo assim a obra da graça de Deus é iniciada no coração, até que se complete. Tal suposição alega que aqueles a quem Deus regenera Ele chama de forma eficaz para um estado de graça a qual não podem cair de forma total e/ou definitiva, então, há uma perseverança até a eternidade.

O Cânone 5.9 do Sínodo de Dort declarou que “os crentes podem estar certos dessa preservação dos eleitos para salvação e da perseverança dos verdadeiros crentes na fé”. Ainda segundo o cânone, “esta certeza ocorre de acordo com a medida de sua fé, ela qual eles creem que são permanecerão verdadeiros e vivos membros da Igreja, e quem tem o perdão dos pecados e a vida eterna”. A confissão de Westminster declara que, “os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que ele chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado da graça, nem total, nem finalmente; mas, com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim e serão eternamente salvos” e acrescenta que “esta perseverança dos santo não depende do livre arbítrio deles mas da imutabilidade do decreto da eleição, procedente do livre e imutável amor de Deus Pai, da eficácia do mérito e intercessão de Jesus Cristo, da permanência do Espírito e da semente de Deus neles e da natureza do pacto da graça”.[14]

Falo de forma prudente, e sem intenção de proferir generalizações, que a doutrina da perseverança dos santos, na visão calvinista, pode produzir no crente uma falsa segurança de salvação, trazendo assim um induzimento para modus operandi de vida de forma contraditória em relação à santificação.

Percebe-se que a “segurança” da salvação não lhe pode provocar uma vivência sem preocupação e zelo contra a prática do pecado, pois o pecado ainda serve de muro entre a comunhão do homem para com o seu Criador. Fiquemos com o posicionamento de Ferreira e Myatt que diz: “não existe perseverança sem santificação, pois não existe justificação sem regeneração. Toda árvore boa produz fruto bom”[15].

A apostasia em Armínio

O arminianismo é oriundo de Jacó/Tiago Armínio (1560-1609), que no decorrer de sua vida escreveu duas grandes obras. Pastor e teólogo holandês, Armínio defendeu o sinergismo, que acredita na cooperação divino-humana na salvação – oposto ao monergismo, que tem sua crença que Deus é quem determina a salvação, excluindo assim a participação humana.

É importante salientarmos que Armínio não foi o primeiro teólogo sinergista da história, antes mesmo da Reforma houve teólogos que em seus posicionamentos demonstraram-se sinergistas, como por exemplo os pais da Igreja supracitados.

Há várias definições que apontam para o sinergismo, contudo nem todas a favorecem positivamente; aqui neste assunto estamos falando da responsabilidade humana e da sua habilidade livre de aceitar ou rejeitar a graça salvífica. Como o foco aqui é expressar um pouco da teologia arminiana, acho mais do que justo embasar parte do contexto segundo as palavras do erudito Roger Olson, falando da teologia sinergista de forma introdutória:

Philip Melanchton (1497-156), o representante de Martinho Lutero na Reforma Alemã, era sinergista, mas Lutero não era. Em virtude da influência de Melanchton no luteranismo pós-Lutero, muitos luteranos em toda a Europa adotaram uma perspectiva sinergística acerca da salvação, abstendo-se da predestinação incondicional e afirmando que a graça é resistível. A teologia arminiana foi, em princípio, suprimida nas Províncias Unidas (conhecidas atualmente como Países Baixos), mas foi entendida posteriormente e disseminada para a Inglaterra e às colônias americanas, principalmente atrás da influência de João Wesley e dos Metodistas. Muitos dos primeiros batistas (batistas gerais) eram arminianos, assim como muitos o são atualmente. Várias denominações são dedicadas à teologia arminiana, mesmo onde a terminologia não é utilizada. Dentre estas denominações estão todos os pentecostais, restauracionistas (igrejas de Cristo e outras denominações estão todos os pentecostais, restauracionistas (Igrejas de Cristo e outras denominações originadas nos avivamentos de Alexander Campbell), metodistas (e todas as ramificações do metodismo, incluindo o grande movimento de Santidade) e muitos, se não todos, os batistas. A influência de Armínio e da teologia arminiana acerca de Armínio, mas sobre a teologia que é oriunda da sua obra teológica na Holanda.[16]

Vale ressaltar que tanto os arminianos quanto os calvinistas acreditam que a salvação é pela graça por meio da fé, assim como ambos negam que qualquer parte da soteriologia está embasada nas obras e méritos humanos.

De grande serventia, o pastor holandês escreveu em suas ponderações que os crentes fiéis tanto quanto pessoas regeneradas são capazes de perder a fé ou, “na realidade, perdem a fé, totalmente e finalmente”.

Pondera ainda que, desde os tempos dos apóstolos até seus dias atuais, tal posicionamento nunca foi uma doutrina de magnitude universal.

Tampouco aquela que afirma o contrário jamais foi reconhecida como uma opinião herege, ou melhor, aquela que afirma que é possível que os fiéis percam a fé sempre teve mais apoiadores na igreja de Cristo que aquela que nega a possibilidade de que isso ocorra.[17]

Cautelosamente, Armínio advoga mostrando que a perda da salvação, mesmo não sendo unânime até os dias de hoje, é uma realidade. Quando Jacó Armínio fala sobre a certeza da salvação como uma garantia real na vida do crente, por intermédio do Espírito Santo e os frutos vindos do mesmo, ele traz detalhes interessantes que diz: “penso que esta pessoa deva orar constantemente: “ Senhor, não entres em juízo com o teu servo! ” (Armínio, As Obras de Armínio – Volume 1, 2015, p. 233).

Outro ponto importante nas afirmativas de Armínio está baseado em seus artigos I e II realizado com a finalidade de responder apologeticamente às calúnias proferidas a ele, acusado de disseminação herética[18]. Inicialmente, ele começa trazendo uma distinção em afirmativas falando que: “Pois uma coisa é declarar que ‘é possível, para os fiéis, cair da fé e da salvação’, e outra coisa é dizer que ‘eles realmente caem’.” Jacó Armínio traz ao entendimento dos leitores de seu artigo que, segundo os teólogos da antiguidade, havia consenso sobre a possibilidade dos eleitos não serem salvos, pois os mesmos poderiam não estar dispostos a obedecer a chamada divina para salvação.

Segundo um dos maiores estudiosos da teologia de Jacó Armínio, seria um equívoco afirmar que Jacó Armínio negou a doutrina da perseverança dos santos; percebe-se que Armínio não foi muito claro em sua posição sobre a possibilidade de apostasia. Keith Stanglin narra que quando ele mais precisou dar um posicionamento ao tema de perseverança dos santos, ele não se arriscou em sua opinião.

Vale ressaltar que, de acordo com a relevância da pergunta acerca da perda da salvação, Armínio não pergunta e nem responde de forma objetiva, mas, segundo suas declarações, estudiosos chegaram à conclusão de que Armínio tenha defendido a possibilidade de apostasia, apesar de existirem uma certa minoria que considera Armínio com um posicionamento incerto.

Em suas declarações de sentimentos, Jacó Armínio expressa sobre a perseverança dos santos. Armínio traz importantes ponderações ao dizer sobre a constância do cristão: a partir do momento em que o crente passa pela regeneração e recebe o Espírito Santo, torna-se capacitado pelo mesmo para o combate contra o pecado, a carne e hostes espirituais. Interessante que Armínio é enfático em dizer que as pessoas são “enxertadas em Cristo”, por meio da fé verdadeira, mas vindo de uma capacitação do Espírito Santo.

Jesus Cristo, também pelo seu Espírito Santo, as auxilia em todas as tentações que enfrentam, e lhes proporciona o pronto socorro de sua mão; também entendo que Cristo as guarda não as deixando cair, desde que tenham se preparado para a batalha, implorando a sua ajuda, e não querendo vencer apenas por suas próprias forças. De modo que não é possível para eles, por qualquer astúcia ou poder de satanás, serem induzidos ou arrancados das mãos de Cristo.[19]

Ao notarmos João 10.28, veremos Jesus afirmando que ninguém arrebata suas ovelhas de suas mãos e Armínio está em concordância, segundo o posicionamento supracitado. Sendo assim, chamamos atenção para a ideia sincrética de batalha espiritual, em que alguns acreditam que Satanás está em cabo de guerra com Deus. Obviamente, ele está muito longe de estar em pé de igualdade com nosso Cristo.

Contudo, precisamos estar alertas nesse pensamento que acaba se configurando numa linha dualista. A teologia arminiana não crê que Satanás tem a capacidade de tirar uma ovelha das mãos de Cristo (Sumo Pastor) e muito menos seus anjos caídos. Ao atentarmos para a carta aos Romanos 8.38,39, se afirma da seguinte maneira:

“Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir. Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor”.

Vale frisar que Jacó Armínio, de acordo com Roger Olson, trabalhou de forma árdua e incansável para realçar a graça como unicamente eficaz a salvação e até mesmo “primeiro impulso de boa vontade para com Deus”, abrangendo também “o desejo de receber o evangelho e responder positivamente a ele”. Segundo Armínio, ninguém pode receber ou desejar Deus de acordo com suas próprias forças interiores. Para ele, a graça pode ser resistida devido às atitudes humanas em resistirem o Espírito Santo. Roger Olson argumenta que:

Para Armínio, então, a questão não era se a salvação é inteiramente da graça, mas se a graça é resistível. Claro, os calvinistas de então, e os atuais, argumentavam que, se a graça é resistível, a salvação não é inteiramente da graça. Os arminianos simplesmente não veem sentido algum nesta assertiva. Um presente recebido livremente não é um presente menor do que um recebido sob coerção.[20]

O cerne da questão está em que a própria pessoa negligentemente cede a algum tipo de influência e também a fatores internos ou externos e, consequentemente, em vias de fatos, acaba abandonando a Cristo.

[1] WITZKI, Steve. The Inaedequate Historical Precedent for “Once Saved, Always Saved”. [The Arminian Magazine | Vol. 21 | Nº 1]. Orangeburg, Fundamental Wesleyan Publishers, 2003. Apud. Lemos, R. C. (2019). Os Pais da Igreja e a Segurança Eterna dos Salvos . São Paulo: Reflexão, p. 27.

[2] Armínio, J. (2015). As Obras de Armínio, Volume 3. Rio de Janeiro: CPAD, p 457.

[3] WHITE, R. E. O. Perseverança. In: ELWELL, Walter A. [Ed.]. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. [Vol. 3 | N-Z]. [Trad. Gordon Chown]. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 147. Apud. Lemos, R. C. (2019). Os Pais da Igreja e a Segurança Eterna dos Salvos . São Paulo: Reflexão, p. 27.

[4] Estudiosos estimam que são escritos anteriores a destruição do templo de Jerusalém, entre os anos 60 e 70 d.C. Outros estimam que foi escrito entre os anos 70 e 90 d.C., contudo são coesos quanto a origem sendo na Judeia ou Síria. Segundo Willy Rordorf, a Didaquê é uma “compilação anônima de diversas fontes derivadas da tradição viva, de comunidades eclesiais bem definidas”, portanto a questão da datação equivale à questão das datas das tradições ali registradas, que indubitavelmente remontariam ao século I d. C., derrubando as teses de datação tardia (século II). Quanto à sua autenticidade, é consenso que o mesmo não tenha sido escrito pelos doze apóstolos, ainda que o título do escrito lhes faça menção. Contudo, estudiosos acreditam na compilação de fontes orais tendo recebido os ensinamentos que resultaram na elaboração do texto. Também é comum dizer que tenha sido escrito por mais de uma pessoa. O texto foi mencionado por escritores antigos, inclusive por Eusébio de Cesareia que viveu no século III, em seu livro “História Eclesiástica”, mas a descoberta desse manuscrito, na íntegra, em grego, num códice do século XI (ano 1056) ocorreu somente em 1873 num mosteiro em Constantinopla, o chamado Codex Hierosolymitanus. É considerado apócrifo por Eusébio, Atanásio de Alexandria e Rufino. Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre: https://pt.wikipedia.org/wiki/Didaqu%C3%AA

[5] Didaqué, 16.1-3. In: FRANGIOTTI, Roque. [Introdução e notas explicativas]. Padres Apostólicos. [Trads. Ivo Storniolo e Euclides M. Balacin]. (Coleção Patrística | Vol.1). São Paulo, Paulus, 1995, p.359. Apud. Lemos, R. C. (2019). Os Pais da Igreja e a Segurança Eterna dos Salvos . São Paulo: Reflexão, p. 35.

[6] POLICARPO, Segunda carta aos Filipenses, 5.2 In: FRANGIOTTI, Roque. [Introdução M. Balancin]. (Coleção Patrística | Vol. 1). São Paulo, Paulus, 1995, p. 142. Os itálicos são nossos. Apud. Lemos, R. C. (2019). Os Pais da Igreja e a Segurança Eterna dos Salvos . São Paulo: Reflexão, p. 52.

[7] ORÍGENES, Tratado Sobre Princípios, III. 1.8. In: LUPI, João Eduardo Pinto basto. [Trad.]. Orígenes. Tratado sobre os Princípios. (Coleção Patrística | Vol.30). São Paulo, Paulus, 2012, p.2015. Os acréscimos entre colchetes e os itálicos são nossos. De acordo com McDermott, “Orígenes enfatizou, por exemplo, a liberdade humana com o objetivo de combater os gnósticos, para os quais o homem não podia fazer coisa alguma para alterar seu destino eterno”. (Cf. MCDERMOTT, Gerald R. Grandes Teólogos: uma síntese do pensamento teológico em 21 séculos da Igreja. [Trad. A. G. mendes]. São Paulo: Vida Nova, 2013, p.20). Apud. Lemos, R. C. (2019). Os Pais da Igreja e a Segurança Eterna dos Salvos . São Paulo: Reflexão, p. 73.

[8] Hyatt, E. (2018). 2000 anos de Cristianismo Carismático. Natal – RN: Carisma. P. 68,69.

[9] Philip Melanchton inicialmente foi monergista. Entretanto, posteriormente, ele aderiu a um certo tipo de sinergismo. Diversas referências bibliográficas afirmam o sinergismo de Melanchthon. (Cf. SCHNUCKER, R. V. Melanchthon, Philip. In: ELWELL. Walter A. [Ed.]. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. [Vol. 2 | E-M]. [Trad. Gordon Chown]. São Paulo, Vida Nova, 2009, p.495. Apud. Lemos, R. C. (2019). Os Pais da Igreja e a Segurança Eterna dos Salvos . São Paulo: Reflexão, p. 105.

[10] Cf. AGOSTINHO, A Correção da Graça, 13, 14, 15, 16. In: FRANGIOTTI, Roque. [Introdução e notas explicativas]. A graça (II) / Santo Agostinho. [Trad. Agustinho Belmonte]. (Coleção Patrística | Vol. 13). São Paulo, Paulus, 2002, pp. 97-100; AGOSTINHO, O Dom da Perseverança, 54. In: FRANGIOTTI, Roque, ibidem, p. 271. Knapp comenta que “há um tipo de ‘predestinação dupla’ aqui (embora, certamente, Agostinho não usa tal termo) – primeiro uma predestinação para uma vida inicial de fé (como descrita em De praedestinatione sanctorum) e uma predestinação adicional para a perseverança”. (Cf. KNAPP, Henry. Augustine and Owen on Perseverance. [Westminster Theological Journal | 62.1]. Philadelphia, Westminster Theologiacal Seminary Press, 200, p.81). Apud. Ibidem p. 108.

[11] O empirismo é um conceito filosófico que poder ser contrastado com o racionalismo; na verdade, eles são exatamente os extremos opostos um do outro. No empirismo, a ideia básica é que a experiência, a percepção dos sentidos e a indução são a base do conhecimento, enquanto que o racionalismo a base do conhecimento são ideias, pensamento, razão e dedução inatas. A palavra empirismo é derivada do grego empeiria, que significa “experiência”, da qual recebemos a palavra experimento, o que implica que o empirismo está envolvido com a pesquisa real, experiência, observação. Os empiristas acreditam que a percepção sensorial é a principal fonte de conhecimento, e esse conhecimento é obtido apenas através da experiência e não através de ideias inatas. Dicionário de Cristianismo e Ciência. (2018). Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil. P. 257.

[12] Couto, V. (2016). Em favor do Arminianismo-Wesleyano: Um estudo bíblico, teológico e exegético de sua relevãncia na contemporaneidade. São Paulo: Reflexão, p. 196.

[13] HODGE. Apud FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 883.

[14] (BERKHOF 212) Apud Couto, V. (2016). Em favor do Arminianismo-Wesleyano: Um estudo bíblico, teológico e exegético de sua relevãncia na contemporaneidade. São Paulo: Reflexão, p. 197.

[15] FERREIRA; MYATT. Op., Cit., p. 884.

[16] Olson, R. (2013). Teologia Arminiana – Mitos e Ralidades . São Paulo: Reflexão. P. 19. O texto em itálico é alteração minha.

[17] Armínio, J. (2015). As Obras de Armínio, Volume 2. Rio de Janeiro: CPAD. P. 434.

[18] A ligação entre estes dois artigos é tão íntima, que quando o primeiro deles é expresso, o segundo é necessariamente inferido; e, em contrapartida, quando o último é expresso, o primeiro é inferido, de acordo com a intenção das pessoas que se enquadram nesses artigos. Pois, se “a fé não é peculiar aos eleitos”, e se a perseverança na fé e na salvação pertence apenas à eleição, segue-se que os crentes não apenas têm possibilidade, mas alguns deles realmente podem, “se distanciar da fé da salvação”, segue-se que os crentes finalmente caiam da fé da salvação”, segue-se que “a fé não é peculiar aos eleitos”. Por serem os indivíduos aos quais estes artigos se referem, é impossível que eles não sejam salvos. A razão da consequência é que as palavras fé e crentes, de acordo com esta hipótese, têm um significado mais amplo do que as palavras eleição e eleito. O primeiro compreende algumas pessoas que não são eleitas, isto é, “alguns que finalmente caíram da fé e da salvação”. Portanto, não há necessidade de compor estes dois artigos; ´bastante suficiente a proposição de apenas um. E se os autores haviam procurado tal ampliação, como se não houvera uma existência real, mas consistisse de meras palavras, seria possível deduzir o Segundo do Primeiro, por conseguinte. Assim, fica evidente atrás desta multidão de artigos, que o grande objetivo foi fazer com que parecesse às pessoas que elas estavam erradas em muitos pontos, aproveitando-se da curiosidade das mesmas, com o propósito de fazê-las suspeitar de heresia, sem que houvesse uma causa verdadeira. Armínio, J. (2015). As Obras de Armínio, Volume 1. Rio de Janeiro: CPAD. P. 255;

[19] Armínio, J. (2015). As Obras de Armínio, Volume 1. Rio de Janeiro: CPAD. P. 232;

[20] Olson, R. (2013). Teologia Arminiana – Mitos e Ralidades . São Paulo: Reflexão. P, 210.

Graduado em Direito, pós-graduando em docência no ensino superior pela Faculdade Vale do Cricaré (FVC), cursou Teologia livre pela CETADEB. É idealizador do IG Carvalho Teológico e membro da 1ª Igreja Assembleia de Deus em São Mateus (ES).

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