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escatologia

A estrela que importa

As estrelas estão muito presentes na história bíblica. Desde o momento da Criação até à estrela do Oriente que guiou os magos a Belém, passando pela tradição sálmica e por um Abraão a quem Iavé desafiou a contar as estrelas.

José Brissos-Lino

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Céu estrelado (Gage Smith / Unsplash)

Segundo Marcos 13 Jesus tinha passado o tempo a ensinar, no templo, mas os discípulos, em vez de valorizar o seu ensino, valorizavam a solidez do templo.

Daí que o Mestre tenha desfeito as suas expectativas ao anunciar que chegaria o dia em que o centro de adoração do judaísmo seria destruído, em resposta ao orgulho religioso (a solidez das pedras do Templo), profecia que se veio a cumprir cerca de quarenta anos depois.

Mais tarde, já em privado, alguns dos discípulos pediram-lhe esclarecimentos, introduzindo a questão do “fim do mundo”. Mas o texto fala em fim duma era ou época (ainos) e não em fim do mundo físico (kosmos).

Podemos dizer que o que está aqui em questão é o fim do sistema judaico caracterizado pelo poder do templo (sinédrio), que tinha uma vertente religiosa e outra política. Falamos do sinédrio, da elite sacerdotal corrupta e da influência da seita dos saduceus, uma espécie de aristocracia judaica.

Com a destruição do tempo de Jerusalém acabaram os sacrifícios mosaicos, e todo esse poder político-religioso foi reduzido a pó. De certo modo podemos dizer que “aquele” mundo findou com a incursão de Tito dentro das portas da cidade, a profanação do altar, e de facto não ficou “pedra sobre pedra”.

O Templo representava uma religião institucionalizada e o Mestre Jesus chamou a atenção dos seus discípulos para o mais importante: a relação pessoal com Deus, a firmeza da e a vigilância, mas sem medo dos acontecimentos.

Jesus apenas usou uma vez a expressão fim do mundo, na parábola do semeador, e para se referir não a um cataclismo global, mas ao fim daquela era, ou à implantação do reino de Deus:

“O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo (desta era); e os ceifeiros são os anjos” (Mateus 13:39).

Não é o fim do kosmos (mundo) mas do ainos (era ou época). Mas os medos ancestrais e o imaginário dos povos sempre alimentaram a ideia do fim do mundo como um cataclismo universal. O que nos deve preocupar não é o fim do mundo, mas sim estarmos em comunhão com Cristo, nos braços do Pai.

A segunda parte do discurso de Jesus (do vs. 14 em diante) fala da profecia de Daniel, depois fala da sua Segunda Vinda (Parousia):

“E então verão vir o Filho do homem nas nuvens, com grande poder e glória” (Marcos 13:26).

Mas apressa-se a dizer:

“Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, senão o Pai. Olhai, vigiai e orai; porque não sabeis quando chegará o tempo” (v 32,33);

“Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o senhor da casa; se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã. Para que, vindo de improviso, não vos ache dormindo” (v 35,36).

Para alguns, falar em sinais dos tempos não é mais do que uma nova versão da leitura das estrelas. Temos que decidir se ainda estamos a guiar-nos pelas estrelas, como os sábios do Oriente, ou se já crescemos… Eles não conheciam o Evangelho e por isso pensavam que eram as estrelas que interpretavam e conduziam o destino dos homens.

Mas sabemos hoje que a vocação das estrelas é outra, pois elas são chamadas a louvar Jesus: “Louvai-o, sol e lua; louvai-o, todas as estrelas luzentes” (Salmo 148:3).

E também não podemos esquecer que as estrelas são passageiras, ao contrário da Palavra de Deus: “Passará o céu (as estrelas) e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (v 31).

Que as estrelas não nos impeçam de ver a única estrela que importa, a “Estrela da Alva ou Estrela da Manhã”:

“E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” (2 Pedro 1:19).

Nasceu em Lisboa (1954), é casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e investigador.

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