Siga-nos!

Opinião

Os filhos de Francisco

O curioso ponto de interseção entre o Sínodo da Amazônia, uma rede internacional esquerdista e a revista acadêmica oficial da Assembleia de Deus

Alex Esteves

em

Papa Francisco no Sínodo da Amazônia (Foto: Cris Bouroncle/AFP/Getty Images)

É possível que o estimado leitor tenha recebido alguma informação acerca do Sínodo da Amazônia, um evento realizado no Vaticano neste mês de outubro, sob a presidência do Papa Francisco, com representantes de diferentes países, para tratar de temas eclesiásticos, missionários, indígenas, ecológicos, econômicos, sociais, culturais, políticos e bíblico-teológicos, em torno da seguinte divisa Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral.

Ao ser noticiado pela imprensa brasileira, por ocasião de sua abertura, o Sínodo foi relacionado a problemas ambientais enfrentados pelo governo federal, como as queimadas que devastavam parte da Floresta Amazônica, e talvez seja esse o ponto que mais chame a atenção do leitor que, por qualquer motivo, não se interessa pelos assuntos da Igreja Católica.

Outra abordagem jornalística digna de registro vem assentada na reportagem de Anna Virginia Balloussier, na Folha de S. Paulo, com o título Avanço evangélico no Norte explica preocupação católica em encontro de bispos, e é possível que a jornalista tenha chegado ao cerne da questão.

Além desses aspectos, o Sínodo da Amazônia desperta o especial interesse do crente assembleiano quando ele descobre que um dos participantes do evento é evangelista da Assembleia de Deus em Imperatriz-MA, o qual atende pelo nome de Moab César Carvalho Costa; pesquisando um pouco, o leitor constata que esse evangelista é membro da RELEP (Rede Latino-americana de Estudos Pentecostais), uma entidade internacional cuja ramificação no Brasil conta com vários pesquisadores assembleianos, ladeados por membros de outras denominações evangélicas e também por católicos – o fato de haver um representante “da Assembleia de Deus” na renovação do Pacto das Catacumbas, em Roma, na mesma época do Sínodo da Amazônia, torna a história ainda mais pitoresca.

Depois de ler a DECLARAÇÃO DE APOIO DA RELEP AO SÍNODO PARA A AMAZÔNIA – 2019, disponível no site da entidade, o crente assembleiano, já espantado com a participação de um evangelista de sua igreja num evento como o referido, chefiado pelo Papa, vai lendo os nomes dos signatários do documento, e lá, entre os 33 subscritores, enxerga nada menos que 16 nomes da Assembleia de Deus (alguns deles pastores ou presbíteros), a saber: Adriano Sousa Lima, Ailto Martins, Andréa Nogueira, Ângela Maringoli, Claiton Ivan Pommerening, David Mesquiati de Oliveira, Eunice Rios, Fernando Albano, Gideane Moraes, Ismael de Vasconcelos Ferreira, Lucas Medrado, Maxwell Fajardo, Moab César Carvalho Costa, Orlando Gulonda, Valdinei Ramos Gandra e Victor Breno Barrozo.

Três não assembleianos signatários do documento, cujos nomes vale citar, são Kenner R. C. Terra, da Igreja Batista Atitude (coautor, junto com o pastor David Mesquiati de Oliveira, do livro Experiência e hermenêutica pentecostal, publicado pela CPAD, mas retirado de circulação em virtude de erros teológicos graves, apontados nesta coluna); Valéria Cristina Vilhena, da Igreja Metodista da Luz (feminista que busca reconstruir, em bases progressistas, a imagem da missionária Frida Vingren, e que foi uma das fontes da BBC Brasil para a redação da matéria A missionária sueca perseguida no Brasil, internada em hospício e ‘esquecida’ pela História; e Gedeon Freire de Alencar, da Igreja Betesta (autor de obras de história das Assembleias de Deus e defensor de uma perspectiva criticista do Movimento Pentecostal, com forte sotaque de esquerda).

É Gedeon Alencar quem vai nos ajudar a compreender em que consiste a RELEP, em comentário feito a um post do pastor Geremias do Couto no Facebook.

Antes das transcrições, registre-se que Gedeon Alencar é um dos representantes do que tenho considerado uma tentativa de revisão da história e sociologia do Movimento Pentecostal, sendo este um dos pilares do pentecostalismo liberal-esquerdista, além da hermenêutica pós-moderna travestida de “hermenêutica pentecostal” e da reformulação da cosmovisão pentecostal conforme a “teologia da experiência”.

Vejamos, primeiro, o que escreveu o pastor Geremias do Couto:

“A RELEP precisa com urgência de um forte repelente saturado de ortodoxia bíblica. Por falar nisso, gostaria de saber do suposto representante da Assembleia de Deus no Sínodo da Amazônia, em Roma, o qual teria assinado o Pacto das Catacumbas, se ele o fez por conta própria ou se estava autorizado por uma dessas convenções: CGADB, CONAMAD ou CADB. ‘Perguntar não ofende’”.

Em resposta, disse Gedeon Freire de Alencar (com a grafia e destaques do original): 

“Geremias seu post escrito por alguém com pouco conhecimento da historia se justificaria, mas por voce me espanta. A RELEP Rede Latino-americana de Estudos Pentecostais Núcleo Brasil esta precisando de repelente de ortodoxia biblica? A RELEP não é igreja ou grupo religioso, é um grupo de academicos; cada um responsavel por sua pesquisa e tem liberdade para faze-la. Nao precisamos dá satisfacao aos canones religiosos – algo que nem mesmos os religiosos fazem. Voce conhece muito bem as instituicoes religiosas para saber disso. Se entre voces, ditos teologos oficiais e oficiosos, academicos ou organicos, não há ‘ortodoxia’. Eu tenho compromisso historico com a ciencia e metodologia.

Desde quando qualquer pastor no Brasil, inclusive voce, precisa de uma autorizacao de alguma convencao para falar e realizar algo? Voce conhece bem as entradas das tres – e muitas outras – para saber que o critério final de falar NA ou PELA convencao é tudo, menos ortodoxia biblica.. O Moab César Carvalho Costa esta, sim, representando a RELEP, por que temos, atualmente, capital simbolico academico para tanto. E seu pastor e sua convencao local tambem sabem de sua participacao.

E os muitos post satanizando os ecumenismos mostram o quando o desconhecimento da historia da igreja faz falta. Ecumenismos foi obra e acao das Sociedades biblicas e, nos anos 40, teve artigo no Mensageiro da Paz de apoio. O Conselho Mundial de Igrejas nasceu pra curar a falencia ‘crista das duas guerras mundiais, e temos uma longa historia depois”.

O pesquisador Gedeon Alencar foi sincero ao afirmar, em outras palavras, que a RELEP não tem compromisso com doutrinas oficiais, sistemas teológicos ou regras ditadas por convenções de igrejas – apesar de entender que um pesquisador que se define como cristão precisa ser norteado por pressupostos de uma cosmovisão genuinamente cristã, reconheço tanto a sua sinceridade quanto a correspondência dessas declarações com aquilo que, de fato, a RELEP vem a ser: uma instituição interessada em escrever sobre a identidade, história, sociologia, cultura e teologia pentecostais, mas não apegada a declarações de fé do protestantismo histórico-pentecostal (e, digo eu, orientada pelas premissas da esquerda teológica).

Contudo, ainda não dissemos o mais importante: há algum tempo, a CGADB conta com uma revista acadêmica, a REPAS (Revista de Estudos Pentecostais Assembleianos), vinculada ao CEC (Conselho de Educação e Cultura) e destinada a reunir textos de valor intelectual em apoio à teologia e identidade pentecostais, tendo como editor-chefe o prestigiado e respeitado pastor e comentarista de Lições Bíblicas Douglas Roberto de Almeida Baptista. A ideia do periódico, em tese, é muito positiva.

Ocorre que a RELEP praticamente desembarcou dentro da REPAS, pois – preste bem atenção nisso, por favor! – dos 12 membros de sua Comissão Científica, pelo menos 9 são integrantes daquela entidade, quais sejam, Adriano Sousa Lima, Ailto Martins, Andréa Nogueira dos Santos, David Mesquiati de Oliveira, Fernando Albano, Ismael de Vasconcelos Ferreira, José Ozean Gomes, Maria José Costa Lima e Maxwell Fajardo. Todos eles, à exceção de José Ozean Gomes e Maria José Costa Lima, assinaram o documento da RELEP em apoio ao Sínodo da Amazônia, aos quais se associa Claiton Ivan Pommerening, pastor da Assembleia de Deus, comentarista de Lições Bíblicas e editor-executivo da REPAS.

Se o leitor comparar atentamente a lista dos pesquisadores da RELEP com a lista dos membros da Comissão Científica da REPAS, terá a nítida impressão de que a REPAS foi ocupada por um cavalo de troia cheio de pesquisadores da RELEP, o que estreita a relação entre uma e outra instância, e faz supor (justificadamente) que a REPAS, conquanto revista acadêmica da CGADB, chancelada pelo CEC, é, na verdade, um expediente dominado pela esquerda teológica “pentecostal”, ainda que esse, com certeza, não tenha sido o propósito de todos os envolvidos em sua criação.

Não é necessário dizer que a liberdade de pensamento protege os integrantes da RELEP para a disseminação de quaisquer ideias, mas é muito importante que a CGADB avalie a natureza da relação entre a RELEP e a REPAS. Há de se perguntar: será que não havia acadêmicos pentecostais para a composição de uma comissão científica, de modo que se teve de recorrer à fina flor da esquerda teológica “pentecostal”?

O pastor Claiton Ivan Pommerening, editor-executivo da REPAS, está aberto a explicar ao CEC, à CPAD, ao Conselho de Doutrina, à Comissão de Apologética, e, enfim, à CGADB em que consiste mesmo a RELEP, e qual a gênese desse desembarque de pesquisadores da RELEP no âmago da REPAS?

Caberia também perguntar que razões levaram o pastor Claiton Ivan Pommerening, comentarista de revistas da CPAD, a subscrever o documento da RELEP em apoio ao Sínodo da Amazônia. Isto é ainda mais relevante quando se depara com o fato assombroso de que, dos signatários daquele documento, 8 são ligados à REPAS, uma revista acadêmica oficial da CGADB.

Trata-se de fato que devamos desconsiderar? Não é importante saber o que se passa no interior de uma comissão acadêmica designada para uma revista confessional de nossa igreja? Ou o adjetivo “acadêmico” retira do periódico o caráter confessional?

Há algum tempo venho escrevendo sobre o pentecostalismo liberal-esquerdista, um fenômeno real e doutrinariamente perigoso, especialmente porque pode afetar os fundamentos da fé cristã evangélica, dada a infiltração de uma visão de mundo “progressista”, sob o manto de suposto reforço à teologia e identidade pentecostais (lembrem-se, mais uma vez, da “hermenêutica pentecostal” pós-moderna e da “teologia da experiência”).

No mesmo contexto em que vou escrevendo, procuro os canais internos da instituição, os quais, no entanto – por motivos que não posso perscrutar, mas que, em alguma medida, compreendo -, costumam ser mais lentos em seus efeitos do que os modestos artigos que vou publicando nesta coluna.

Neste momento, está-se diante da fase inicial de uma tentativa de sequestro da fé pentecostal por uma cosmovisão esquerdista, o que precisa ser diagnosticado com celeridade, para que no futuro o pentecostalismo brasileiro não venha a ser conhecido como um movimento liberal-progressista, historicamente dissidente, teologicamente sectário e ideologicamente ressentido. Impedir que isso aconteça é uma luta a ser travada.

Talvez seja difícil para alguns enxergar tal possibilidade, por julgarem que uma igreja familiarizada com a experiência poderosa do Espírito não estaria vulnerável às sutilezas do subjetivismo liberal, criticista e pós-moderno, mas prefiro trabalhar para afastar a ameaça a esperar que ela, ao se concretizar, prove que era possível.

Luteranos, metodistas, batistas e presbiterianos podem nos dizer o quanto sofreram – e ainda sofrem – com a intrusão liberal-esquerdista, e o que aconteceu com igrejas ou denominações inteiras sob cujos olhos a sementinha da esquerda teológica brotou, sem que houvesse uma boa enxada de ortodoxia para removê-la liminarmente.

Por fim, é lamentável (e significativo) que o Sínodo apoiado por líderes assembleianos, vários deles membros da Comissão Científica de nossa revista acadêmica, tenha por finalidade o avanço da Igreja Romana num território tão caro à história das Assembleias de Deus, onde, em 10 de novembro de 1910, na cidade de Belém do Pará, desembarcaram os missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, e onde começou aquela que é hoje a maior igreja evangélica do Brasil e a maior igreja pentecostal do mundo – bem ali, em solo amazônico, onde bispos católicos e o próprio Papa esperam aprofundar sua influência, sem conhecer a natureza e o alcance da extraordinária obra do Espírito Santo.

Fontes:
http://www.cnbb.org.br/o-sinodo-para-a-pan-amazonia/
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/06/internacional/1570365990_513584.html
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/10/avanco-evangelico-no-norte-explica-preocupacao-catolica-em-encontro-de-bispos.shtml
https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2019-10/um-grupo-de-padres-sinodais-renova-pacto-das-catacumbas.html
https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827
http://relep.org.br/site/
http://relep.org.br/site/pesquisadores/
http://revista.repas.com.br/index.php/repas/about/editorialTeam
https://www.escavador.com/sobre/2977743/maria-jose-costa-lima

Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Co-pastor da sede da Assembleia de Deus em Salvador. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Trending