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O culto cristão na igreja primitiva e na pandemia

O coronavírus trouxe o culto para o ambiente doméstico. A igreja cristã voltou para dentro das casas como na época primitiva.

Denise Santana

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Culto doméstico na China. (Foto: Reprodução/Portas Abertas)

O culto começou nas casas dos cristãos. Por causa da perseguição, também foi realizado nas catacumbas. Vinte e um séculos depois, o culto voltou para as casas. A primeira reunião dos cristãos aconteceu em Jerusalém, no século I. O tempo passou. Atualmente a igreja de Cristo está espalhada pelo planeta. Devido à pandemia, voltou a se reunir nas casas.

Como era o culto primitivo? É importante dizer que, na igreja primeira, Jesus Cristo era adorado como divino, juntamente com Deus. E os cristãos rejeitavam a adoração a outros deuses. O politeísmo não era praticado. Exatamente por se recusar a adorar vários deuses, entre as atividades o culto ao imperador Tibério, os cristãos foram perseguidos. Em Marcos 12:15-16, por exemplo, fala sobre o imperador.

Os primeiros cristãos foram convertidos do judaísmo. Nas primeiras décadas do cristianismo era comum os judeus cristãos participarem das atividades religiosas no templo construído pelo rei Salomão e na sinagoga. Por que os cristãos primitivos não se afastaram do judaísmo? O teólogo Larry Hurtado diz que a razão para o não afastamento era simples: os cristãos entendiam que o Deus que serviam era identificado com o Deus do Antigo Testamento e de Israel. Esse Deus era o mesmo adorado no templo e na sinagoga.

O pastor luterano Nelson Krist, em texto entitulado “Liturgia”, diz que um dos “elementos mais genuínos herdados da tradição israelita pelos cristãos é a ação de graças, uma forma de oração que louva o Senhor, exaltando narrativamente seus grandes feitos ao longo da história. Mas, embora tenha recebido muito do antecessor israelita, o culto cristão só pode ser entendido, em sua essência, a partir do Novo Testamento.

Os primeiros convertidos não participavam de festas sacrificiais e jantares em homenagem a deuses pagãos. O apóstolo Paulo, em recomendação à igreja na cidade grega de Corinto, recomendou que os cristãos não comessem alimento sacrificado aos diversos deuses (1 Co 8:1-13).

A igreja se reunia nas casas. Provavelmente nas casas dos mais ricos porque eram espaços maiores que poderiam acomodar mais pessoas. Mas o grupo de pessoas que se reunia não era de milhares como vemos hoje nos grandes templos. Os arqueólogos descobriram casas em Roma onde cabiam nove pessoas. Eram grupos pequenos. Estudiosos afirmam que o grupo não passava de quarenta e cinco pessoas, mesmo se usassem a varanda das casas (mansões) para aumentar o espaço.

Os cristãos praticavam a ceia e o batismo. Em Atos 2.42-47 descreve-se a vida da comunidade cristã em Jerusalém. O texto cita o termo “partir do pão”. Essa era a ceia, um ato litúrgico combinado com uma refeição. A celebração da ceia era frequente nos cultos. Também em 1 Co 11.24-25 o apóstolo Paulo comenta sobre fazer a ceia em memória a Jesus Cristo. O pastor Nelson Kirst entende que “nessas palavras existem mais um aspecto da fundamentação bíblica do culto cristão. Deus quer que sua comunidade se encontre com ele. Para que isso aconteça, Jesus instaura um rito. Jesus conta com a continuação de tais refeições comunitárias e determina que, quando seus discípulos se reunirem novamente para tal ceia, o façam ‘em memória de mim’.”

A reunião acontecia aos domingos, o dia do Senhor. Lembrando que foi o domingo o dia da ressurreição. Portanto, dia significativo na cultura cristã. Cada domingo era uma Páscoa. Um momento de lembrar da ressurreição e de adorar a Deus. Até mesmo registros extrabíblicos mostram que os cultos já eram realizados, desde o século I, aos domingos. Inácio e Justino Mártir comentam sobre esse assunto em seus escritos. Também existe esse registro no Didaquê. Somente por meio do imperador Constantino foi que o domingo tornou-se dia de descanso.

Sobre o aspecto dos cumprimentos, era um costume comum no culto dar o beijo da comunhão litúrgica. Paulo traz vários textos que comentam sobre o beijo como em Rm 16.16, 1 Co 16.20 e 2 Co 13.12. Esse ato também era chamado de beijo de santo amor, conforme 1 Pe 5.14. Já a saudação deles era com palavras simples como “graça e paz”. Até mesmo fora dos textos bíblicos temos registros históricos sobre o beijo. Tertuliano (160-220 d.C.) o chamava de “ósculo da paz”. E Clemente de Alexandria (150-215 d.C.) de “ósculo místico”. Os cristãos também se chamavam de irmãos e de irmãs.

A participação e a adoração no culto era para todos porque se consideravam corpo de Cristo. Assim, homens e mulheres, sejam livres ou escravos, independentemente da situação social, econômico ou de gênero, adoravam na igreja. Todos podiam fazer oração e profecia públicas. É super conhecido o texto de Gl 3.28 que diz que todos são um em Cristo, independente de ser homem, mulher, escravo, livre, judeu ou grego.

Na igreja doméstica não havia sacerdócio hereditário. No século I não havia nenhum tipo de ordem sacerdotal cristã. Cada crente se via como sacerdote. A reunião era considerada santa. Apesar de a reunião ser simples, os cristãos se sentiam importantes. A simplicidade na forma não impedia de que se sentissem ricos de coração e de vivência de . O apóstolo Paulo ensinou, para a igreja na cidade de Corinto, que deveriam pensar em si mesmos como templo de Deus. Portanto, pessoas muito importantes. Eles se entendiam como santuário vivo. A adoração nos primeiros grupos cristãos era informal, aberta e todos poderiam contribuir se sentissem que estavam inspirados para fazê-lo.

Mesmo sem ter templos suntuosos, objetos que representassem a fé como estátuas de deuses, altares ou vestimentas específicas, os primeiros cristãos tinham plena alegria nas reuniões caseiras. O fervor religioso era um traço marcante. Várias vezes o Novo Testamento comenta sobre a alegria e o regozijo no qual a igreja se reunia. Um exemplo dessa satisfação está escrita em Atos 2.26-47. O culto era visto como um encontro direto com Deus.

Nelson Kirst traz uma perspectiva histórica muito interessante ao descrever o culto. Ele afirma que “o culto cristão pode ser visto como um rio que nasce de duas vertentes: a primeira comunidade cristã e a sinagoga judaica. Da primeira comunidade cristã herdou a ceia, que muito cedo veio a chamar-se eucaristia. Da sinagoga judaica, que os primeiros cristãos ainda frequentaram durante algum tempo, veio-lhe a liturgia da Palavra. Não tardou para que a eucaristia fosse combinada com a liturgia da Palavra, tomando-se esta como que a introdução daquela. Foi essa combinação que veio a ser chamada missa. Seu primeiro registro documental aparece em Justino Mártir, em meados do século II, o que significa que ela já deve ter sido praticada algum tempo antes. Cada bloco dessa combinação tinha três partes. Era assim a estrutura básica mais antiga do culto cristão: liturgia da Palavra se dividia em leituras bíblicas, interpretação e oração de intercessão. Já a liturgia da eucaristia se dividia em preparo da mesa, oração eucarística e comunhão. Essa estrutura básica do culto cristão é não só a mais antiga que podemos documentar, mas também aquela que se manteve através dos tempos, vindo a ser alterada apenas por algumas tradições descendentes da Reforma. Com o passar dos séculos, esse núcleo original foi sofrendo ampliações e também alguns cortes. Houve ampliações na liturgia da Palavra (aumento do número de leituras bíblicas, introdução de cânticos intermediários entre as leituras, inclusão do credo) e na liturgia da eucaristia (gesto da paz, ofertório, diversos cânticos). Um verdadeiro inchaço ocorreu da liturgia da Palavra em diante, onde se desenvolveu uma volumosa liturgia de abertura. Os acréscimos da liturgia de encerramento foram mínimos (apenas bênção e envio). Os últimos elementos a terem ingresso na liturgia dominical da igreja do Ocidente foram: penitência individual, com confissão de culpa e absolvição (séc. 9), o credo (confissão de fé – início do séc. 11) e a bênção final (séc. 12). A par desses acréscimos, ocorreram cortes lastimáveis. Na igreja do Ocidente foram reduzidas as leituras bíblicas, a interpretação da Palavra veio a desaparecer em grande parte e a oração de intercessão chegou a ser eliminada por completo. Foi só no novo missal de 1970 que a Igreja Católica Apostólica Romana tomou novamente obrigatórias a homilia e a oração de intercessão. De modo geral, percebe-se ao longo da história e ainda em nossos dias, na maioria das tradições litúrgicas, uma recorrente tendência a aumentar o secundário e cortar o essencial. Lutero, liturgicamente conservador, permaneceu bastante fiel à liturgia herdada da igreja ocidental, alterando-a apenas nos pontos em que ele o julgou teologicamente imprescindível.”

A igreja na pandemia

Passados anos e anos, como é o culto hoje? Que traço é igual à igreja do século I e o que mudou? A ministração da ceia e do batismo permanecem iguais. Ambas as práticas são realizadas ainda hoje entre os cristãos. Chamar de “irmão e irmã” também é uma modelo de cumprimento que permanece. Mas o ósculo santo caiu em desuso desde o século III. Hoje não é comum o crente dá o beijo santo, com exceção da igreja ortodoxa grega que ainda o pratica nas festas religiosas.

Hoje também se rejeita a adoração a deuses pagãos. Comentando especificamente sobre as igrejas protestantes, a reunião acontece nos templos, mas várias igrejas introduziram projetos de reuniões nas casas dos membros. Isso é chamado de pequenos grupos ou igreja doméstica. Um formato de atividade que lembra a igreja primitiva. Já a alegria continua sendo um traço marcante. Ainda hoje os cultos são cheios de sorrisos, pois os cristãos entendem que cultuam a um Deus vivo. Inclusive é comum ouvir a igreja repetir o versículo que diz que “a alegria do Senhor é a nossa força”.

Apesar de algumas práticas permanecerem as mesmas, outras foram mudadas. A pandemia, por exemplo, alterou o formato do culto atualmente. Era inimaginável para Pedro, Maria, João e Lázaro estarem parados em frente à tela de um computador cultuando a Deus. Essa é a realidade de boa parte das igrejas cristãs brasileiras desde o ano passado. O coronavírus trouxe o culto para o ambiente doméstico novamente. A igreja voltou para dentro das casas como na época primitiva.

Não faltam cristãos que cultuam pela internet. Fabiane Behling Luckow, 40 anos, musicista, etnomusicóloga e pesquisadora é um exemplo. A igreja dela mudou o formato das reuniões. Antes da pandemia, eram poucas atividades on-line. A adaptação teve que ser rápida diante da necessidade de restrição de funcionamento dos templos por decreto do governo local. Ela conta que, em uma semana, os fiéis tiveram que gravar cultos para as pessoas assistirem. Isso foi em março do ano passado. Como a pandemia só aumenta, até hoje a igreja continua com encontros virtuais. Fabiane é membro da Comunidade Evangélica São João, em Pelotas, Rio Grande do Sul. O grupo pertencente à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Ela pesquisa sobre culto e liturgia a partir de uma perspectiva fenomenológica. Como doutoranda em Teologia nas Faculdades EST e pesquisadora na área de culto, Fabiane comenta sobre como a pandemia interferiu na igreja evangélica. “Creio que a forma mais visível foi a restrição aos encontros presenciais. O culto, as celebrações e demais encontros que acontecem nas comunidades cristãs são espaços nos quais a comunhão, o pastoreio e o cuidado mútuo, entre outros aspectos relacionais acontecem de forma muito efetiva. Ainda que muitas igrejas continuassem se reunindo, com restrições ou mesmo desobedecendo às indicações das autoridades, esses encontros foram impactados por medidas como o uso das máscaras, a limitação do número de pessoas, a ausência de crianças e idosos e a falta de contato físico. Os impactos são visíveis. A falta de encontro presenciais, em muitas realidades, também desarticulou financeiramente muitas igrejas, bem como suas ações, tanto evangelísticas quanto sociais. Quanto ao conteúdo dos cultos (pregações, músicas, orações) a pandemia tornou-se um assunto recorrente, ainda que em maior ou menos grau”.

Apesar da difícil fase que o Brasil atravessa por causa do coronavírus, Fabiane acredita que a pandemia ajudou os cristãos a darem mais testemunho público de fé. Outro aspecto interessante é que aumentou o conteúdo cristão na internet. De culto às aulas de escola bíblica, tudo pode ser acessado gratuitamente nos canais das igrejas.

A pandemia trouxe consequências negativas para as igrejas. Fabiane destaca, por exemplo, o risco da desarticulação das comunidades locais. “O encontro da comunidade, tanto nos cultos quanto em modalidade de pequenos grupos, é a forma mais paradigmática de ser igreja. Quando isso passa a acontecer de forma on-line, a experiência da comunhão ganha outros contornos. Nem todas as pessoas têm acesso à internet, nem todas tem familiaridade com as mídias. Ao mesmo tempo, temos percebido uma estafa, um cansaço dos formatos on-line, especialmente por parte dos jovens e jovens adultos, muitos dos quais trabalham em home office e tantos outros ainda estudam na modalidade à distância. Isso tudo tem contribuído para essa desarticulação”.

Como a experiência de transmissão dos cultos pela internet foram bem sucedidas, Fabiane acredita que esse serviço permanecerá mesmo quando a pandemia passar. O papel da igreja agora é compreender as mudanças e propor uma forma efetiva de amar e servir à nova realidade de dor e luto pelos qual muitas pessoas atravessam. Cabe à igreja ser luz e esperança para o futuro.

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Denise Santana é jornalista, teóloga e professora. Tem mestrado em Teologia pela Escola Superior de Teologia, no Rio Grande do Sul. Pós-graduação em MBA Gestão da Comunicação nas Organizações pela Universidade Católica de Brasília. Bacharelado em Comunicação Social, Jornalismo, pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília. Licenciatura plena em História pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília. Bacharelado em Teologia pela Faculdade Evangélica de Brasília.

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