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Estudos Bíblicos

A estreita relação entre hipocrisia e desequilíbrio

Não é à toa que se fala muito, atualmente, de relacionamentos frágeis ou “líquidos”, nos quais a “fluidez” é a palavra da vez.

Artur Eduardo

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Na primeira parte desta série, falamos, dentre outras coisas, sobre a aparente pretensão de tratarmos daquilo que chamamos de “o maior problema da igreja atual”. Com tantos problemas, é difícil elencarmos “o maior”, mas, quando vemos o tratamento que existe na Bíblia à hipocrisia, não temos muitas outras opções, senão aprofundarmo-nos mais e mais no que concerne àquela prática. Na verdade, a hipocrisia estaria listada como um vício. Nos moldes aristotélicos, a hypokritês, que designava os atores que “fingiam” seus personagens nos palcos, passa a ser considerada uma falta, um “defeito” da moral, cuja ação virtuosa seria o “meio”, o equilíbrio entre a falta e o excesso. É por isso que, até hoje, falamos em “equilíbrio” das coisas. Como quase todo mundo parece viver desiquilibrado, a importância deste estudo acentua-se.

Ligar a hipocrisia ao desequilíbrio e, mais especificamente, ao aumento do desequilíbrio na atualidade, não é tarefa difícil. Praticamente todo mundo concorda que vivemos uma época de excessos, de polarizações, em que vemos com mais clareza as faltas e os exageros, ou, em outras palavras, os “vícios” de uma sociedade doente. O fingimento nas relações claramente segue este desequilíbrio, posto que parece que os homens tentam fugir cada vez mais dos relacionamentos que constroem.

Não é à toa que se fala muito, atualmente, de relacionamentos frágeis ou líquidos, nos quais a “fluidez” é a palavra da vez. A inconsistência em como vivemos nossas relações, hoje, é reflexo direto de nossa própria inconsistência como seres individuais, antes mesmo de sermos seres sociais. Quando chamados à atenção sobre isto, fugimos existencialmente, não dando ouvidos ao que se nos está sendo cobrado, e fazemos caras de choro, com pena de nós mesmos, no melhor estilo da “geração mimada” em que nos tornamos. E falar sobre este assunto não só tem se tornado um peso, um fardo, como causa extrema insatisfação existencial; o que, sem dúvida, é mais uma prova inequívoca do profundo desequilíbrio social, emocional, psicológico e espiritual que vivemos.

A Bíblia, como um livro de sabedoria que também é, nos ensina quanto aos vícios. Chamando-nos à atenção aos perigos do desequilíbrio moral, adverte-nos: “Não sejas demasiadamente justo, nem exageradamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? Não sejas demasiadamente perverso, nem sejas louco; por que morrerias fora do teu tempo?” – Eclesiastes 7:16-17. Quase como se estivesse dizendo que no “excesso” ou no “exagero” da justiça e da sabedoria se caracteriza exatamente a falta de sabedoria, tal qual na extrema falta de ambas, a saber, na perversidade e na loucura (também em “excesso”), o Livro do Eclesiastes revela um importante conceito hebraico que, bem antes da ética aristotélica, ensina-nos que o equilíbrio é um sentimento que nos livra inclusive da destruição e da morte. Este princípio teórico é asseverado em várias outras partes da Escritura, mostrando-nos sua importância para a sabedoria antiga.

Outro texto bíblico que corrobora o que digo é: “Como cidade derribada, que não tem muros, assim é o homem que não tem domínio próprio”, Provérbios 25:28. Que melhor definição sinônima de “equilíbrio moral e psicológico” do que “domínio próprio”? A esta característica, atribuímos o bom senso, a prudência, a temperança, a serenidade. O que não nos é muito aparente, por enquanto, é a sua ligação com a hipocrisia, mas isto, prezado internauta, é porque ainda não fizemos o link causa-efeito, ou seja, as implicações sinérgicas entre a hipocrisia e o desequilíbrio.

No texto anterior, dissemos que há “desdobramentos teóricos e práticos” da questão, e procuraremos falar sobre os mesmos, elencando-os à medida em que avançamos em nossa meta, que é a completa exposição da hipocrisia como “o” maior problema da Igreja atual. A falta do domínio próprio, por exemplo, resulta em ações, acerca das quais normalmente nos arrependemos de tê-las praticado. É justamente aí que entram outros aspectos, psicológicos, os quais confirmam a suspeita da vulnerabilidade daquele(a) que assim age, isto é, contra sua própria consciência, tendo que “assassinar” o bom senso, levando-o(a) a mentir, distorcer, ludibriar, afim de que possa-se manter o edifício de (auto) engano que ele(a) próprio(a) erigiu para si.

Ora, quem mente, distorce conceitos e fatos e ludibria o próximo, tendo que viver na mentira e no engano constantemente, para que o que foi dito se sustente. O efeito a longo prazo? A crença naquilo que se diz e no que se criou, na própria ilusão da verdade, muitas vezes nos servindo de subsídio para, infantilmente, transmitirmos aos outros, dentro de frágeis relações, que a forma como transmitimos e compartilhamos como pessoas vale mais do que o quê compartilhamos. Em suma: nas relações atuais, para uma parcela crescente de seres humanos, a forma vale mais e em detrimento do próprio conteúdo, ocasionando um acentuado desequilíbrio nocivo resultante. Esse é o resultado direto e o que proporciona um modus operandi típico da nossa maneira de viver e da forma como nos relacionamos uns com os outros: relacionamentos frágeis e um ambiente mais do que propício para o florescimento da hipocrisia. No próximo texto desta série, aprofundaremos mais as questões práticas espirituais resultantes dos pontos negativos da relação entre equilíbrio e hipocrisia. (continua…)

Bacharel em Teologia e Filosofia. Pós-graduado em Gestão EaD e Teologia Bíblica. Mestre e Doutorando em Filosofia pela UFPE. Doutor em Teologia pela FATEFAMA. Diretor-presidente do IALTH -Instituto Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades. Pastor da IEVCA - Igreja Evangélica Aliança. Casado com Patrícia, com quem tem uma filha, Daniela.

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