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Opinião

“E daí?”: O malabarismo hermenêutico da imprensa para desmoralizar o presidente

A geração do “E daí?” que não aceita um, E, daí?

Sady Santana

em

Jair Bolsonaro fala com a imprensa (Reprodução)

Expressões e motes surgem o tempo todo na linguagem da internet. Alguém diz algo, pronto. Logo esse algo viraliza e toma conta do ambiente virtual e os memes pipocam. Atualmente, a palavra do momento que está estampada em todo lugar é o “F*d*-se”. E quando entramos em uma livraria recebemos uma avalanche de capas e capas de livros exibindo essa expressão em letras garrafais: Como ligar o F*, Dê um F* para isso, para aquilo. Mas, o que isso quer dizer?

Imagino que a popularidade dessa expressão esteja ligada a um comportamento inconsciente de desligamento daquilo que incomoda. É algo análogo a um ‘Não tô nem aí”, ou, “Dane-se”, “Não me importo”.

Sabe-se que hoje vivemos o período da pós-verdade, onde os fatos agora podem ser facilmente editados, sem nenhum pudor. É o nada ético deepfake, que usa a inteligência artificial de forma a deixar uma imagem completamente verossímil. A narrativa fica apta a contar outra história, diferente da original. Se o uso ficar apenas no campo ficcional, não há problema. O caso fica temeroso quando se usa esses aplicativos para o engano.

No jornalismo isso não é novo. Os deepfakes nasceram com a notícia. Pesquisas e entrevistas são sucedidas por cortes, mudanças, edição e reedição. Essa é a rotina nos pequenos e grandes jornais. O velho jornalismo sempre entendeu de cortar falas e emendá-las ao seu bel prazer. E agora, com o aplicativo certo, isso se torna ainda mais fácil e trivial. Assessorias políticas fazem isso o tempo inteiro.

Mas, o que de fato, tem sido mais comum – não que seja novo, é o uso de frases tiradas de contexto com o fim de desmoralizar o falante. Quando se quer derrubar um político em campanha, ou quando se quer derrubar um Mandatário do seu cargo, nem precisa inventar.

Basta que se desloque uma frase do contexto. Faz-se um malabarismo hermenêutico aqui e ali, e pronto, eis o reforço da mensagem que se quer passar. Aí, se você não acreditar de pronto, e decidi assistir todo o discurso, vai perceber que a fala existe, de fato, mas, um pequeno recorte favorece um certo realce de espírito. É tudo muito sutil. E assim, o bom e velho título em negrito de Primeira Página vai organizando um país de acordo com a conveniência do dono do jornal.

Por esses dias, vi um vídeo curto com a fala do Presidente, que é um homem grosseirão e impolido, respondendo a um repórter impertinente que o acossava. Ele disse: “E daí? Quer que eu faça o quê”? Pronto. Logo a mesma blitz do “Dane-se” entrou em paranoia.

O questionamento era a respeito do aumento de mortes no país pelo vírus. E uso o termo “acossou” porque é exatamente isso que a mídia poderosa vem fazendo. Nunca se viu um homem dar conta de cada vírgula que usa. Tudo é grave, é inaceitável.  Esse homem é insensível. Vê suas palavras? Ele nada se importa com mortes, ou com a dor alheia. Bozo, cruel, homofóbico, racista, e aí vai…E a notícia bombástica toma todas as redes sociais. Muitos verão o vídeo cortado, a fala deslocada, e seguirão suas vidas, levando aquela mensagem.

Parei para assistir toda a conversa, mais de 30 minutos. Vi o clima de sempre, povo conversando com o Presidente, jornalista jogando iscas, afrontas, perseguindo aqui e ali. E então o surge o primeiro “E daí?”, ríspido, austero, e para os dias atuais, indigesto. Depois, há um segundo “E daí” mais ameno, explicativo, voz controlada.  Se você tem boa vontade com a pessoa, vai considerar o seu temperamento, e vai identificar prontamente que o primeiro “E dai” é explicado pelo segundo.

E que tem a ver com a imprensa que o persegue, e que o quer responsabilizar pelas mortes da qual ele não tem o controle. Então, vai ficando claro que não é para o povo que ele retruca e nem para os enlutados. E se você tiver mais um pouco de boa vontade, poderá perceber o sentimento nele de impotência diante da realidade. E que nada tem a ver com o sentimento da geração “Dane-se”.

O homem está sob pressão. Justamente porque não tem mesmo o que fazer a respeito. Palavras verdadeiras são duras, às vezes. Principalmente no meio de tanto sofrimento neste momento. O vírus tem um ciclo, é uma realidade que vidas serão perdidas, o Brasil tem resultados diferentes e animadores, mais do que muitas outras nações.

E mais, o STF lhe atou as mãos quanto a muitas das possibilidades de ajuda do Governo Federal, e deu aos governadores total carta branca para fazerem o que melhor lhe parecerem. E, aí? O que mais ele pode fazer? Lembrando que, quando a epidemia se for, ficará sobre ele o fardo pesado de reconstrução de vidas e de um país inteiro. Muitos conseguem entender isso perfeitamente.

Mas, a geração “Palavras Machucam” não perdoa e não suporta um, e daí, mesmo que o tempo todo mandam um “e daí” para a família, para os pais e para a nação. Sobre não digerir o estilo duro e verdadeiro de certos dirigentes, podemos encontrar nas Escrituras homens duros com palavras, nem por isso eram insensíveis a dor humana.

Exemplos como, Neemias que arrastou os judeus desobedientes pelos cabelos e João Batista que chamava os fariseus de raça de víboras no deserto, são alguns. Nos dias próximos, Margareth Thacher, era dura e direta e foi chamada de A dama de ferro, Winston Churchill, simplesmente desmascarava seus opositores, o tempo todo.

À época, Lloyd Jones, o último dos puritanos, deu seu parecer sobre as palavras duras de Churchill. Ele disse:

O tipo de homem que atualmente é elogiado é aquele que poderia ser descrito por “meio termo”, que jamais se coloca em qualquer extremo de posição. Pelo contrário, é um homem agradável a todos, que não cria dificuldades, e nem é causador de problemas por causa de seus pontos de vistas”. 

Essa é a mesma geração de Jones, que condena o defender ideias, apaixonadamente, que tem aversão a homens sem meias palavras, e os considera como extremos infames. Não se pode apreciar homens decididos, sem ser acusado de defender extremos danosos, e de “passar pano” até para o próprio mal.

Há pessoas que pensam que a posição política mais sábia é o do “Centro Alguma Coisa”. No âmbito ideológico, se você for um observador e atento saberá que isso não existe. Ao final, dois grandes blocos sempre se formam. Se você é cristão e pensa assim, algo deve estar te iludindo.

Você pode até defender o “centro alguma coisa”, mas terá que em seguida, desconsiderar que o coração humano é desesperadamente corrupto e perverso, pendido para o mal. Se te incomoda os extremos, deveria considerar que as Escrituras trabalham no plano bem definido, do lá e cá. Há dois caminhos, duas portas, dois destinos.  

Concluindo, duas coisas podemos considerar em meio a tudo isso:

Primeiro, não se está aqui defendendo o desequilíbrio, nem a falta de habilidade em conversar, ou mesmo que não se tenha que buscar moderação em tudo, como a Bíblia recomenda.

Considero essas coisas necessárias e as busco diariamente. Mas, não posso desconsiderar que há uma luta entre luz e trevas, ferrenha. E haverá imperfeição nos homens, e nos mandatários, por mais bem intencionados que estejam. Chefes de Estados estão sob a mira de abutres, continuamente. E erram, sucessivas vezes. Mas, cada um responderá pelos seus mandos e desmandos.

Agora, o que não se pode admitir é o participar no conluio perverso midiático. Pense antes de compartilhar “meias verdades”, e verifique se isso é uma verdade ou não. Há narrativas montadas com o fim de ganho político infectando o mundo midiático. Saiba que, ao deixar de observar a realidade dos fatos, você corre o risco de estar participando da destruição de reputações ou até ajudando na instabilidade do país. E se esse homem estiver justo perante Deus, Ele lhe tomará as dores.

Segunda coisa é que, não há três lados, não há meio termo. Há o lado da vida e o lado da morte, o lado da verdade e o lado da mentira. No entanto, uma declaração pode conter, apenas, parte de uma realidade. Precisamos aguardar, pesquisar e só aí condenar ou aprovar. Porque é necessário, também, reprovar as obras das trevas. Tomara que, nem eu e nem você, estejamos aprovando as meias verdades, ou o engodo travestido de justiça e luta, e nem sejamos encontrados militando com as trevas.

“Feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova”. (Rm 14.22)

Jornalista e escritora, com um livro publicado "Feminilidade Bíblica - Repensando o papel da mulher à luz de cantares", e também escritora de livro didático. Casada com Nelson Ferreira, pastor da IPB, mãe da Acsa e avó da Clarisse. Em breve publicará seu primeiro romance .

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