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Desmistificando um falso dilema calvinista

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A alguns dias nos foi apresentado um texto intitulado “Um argumento cristológico contra o princípio das possibilidades alternativas (PPA)” [1], como que possuindo uma lógica indestrutível, em defesa do calvinismo [2]. O que o autor do texto pretende é demonstrar que não existem possibilidades de escolha como fazer ou não fazer “x”, vez que somos condicionados desde sempre a fazer ou não fazer tudo conforme a predestinação, e ainda assim (embora extremamente contraditório) somos os únicos responsáveis pelos atos inevitáveis, por aquilo para o qual fomos (segundo os calvinistas) incondicionalmente predestinados.

Pois bem, o silogismo do autor tem o fim de provar a veracidade do calvinismo e negar o princípio das possibilidades alternativas, ou seja, afirmar que fazemos tudo conforme um determinismo, uma suposta predestinação, e ainda assim, na ausência de possibilidades, que somos moralmente responsáveis pelos atos, apresentando-nos as seguintes premissas:

  1. Cristo não poderia ter pecado;
  2. Portanto, Cristo não poderia fazer outra coisa senão se abster de pecar;
  3. Cristo era moralmente responsável quando ele se absteve de pecar;
  4. Se a habilidade de fazer o contrário é uma condição necessária da responsabilidade moral, e Cristo era moralmente responsável quando ele se absteve de pecar, então Cristo poderia ter pecado;
  5. Portanto, a habilidade de fazer o contrário não é uma condição necessária da responsabilidade moral (isto é, PPA é falso).

Vejamos:

Afirmativa 1: “Cristo não poderia ter pecado”.

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Quem discordaria desta afirmativa? (ninguém) Contudo é necessário fazer algumas observações.

Um calvinista entende que Cristo não podia pecar em virtude de uma predestinação, pré-ordenação, porque assim todos os seres deste mundo, incluindo a Cristo, foram predestinados. Mas isto é um pensamento perigoso, reduz a divindade de Cristo, pois acreditar que seus atos foram frutos de uma predestinação e não de Seu próprio caráter, enquanto Deus em carne, e de sua liberdade reduz o seu papel salvífico. Cristo era e é livre, em todos os seus atos (Jo 10,17-18). O não pecar não se origina em algo externo, anterior, embora já estivesse escrito, mas se origina em Si mesmo, em Sua natureza, na qual habita/habitou corporalmente toda a plenitude da divindade. Cl 2.9. A premissa do texto é verdadeira, mas as implicações calvinistas, objetivadas pelo autor, são falsas.

Então, ciente desta grande e importante diferença, prosseguiremos.

Afirmativa 2: “Portanto, Cristo não poderia fazer outra coisa senão se abster de pecar.”

Ora, o fato de Cristo se abster de pecar não encontra pouso em uma predestinação, mas em sua liberdade. Por ser não escravo do pecado, como toda a humanidade caída e, portanto, sendo livre do pecado, podia se abster do pecado. O não pecar advém de sua própria natureza santa, do seu ser, de seu interior, de sua liberdade e não de uma força irresistível exterior, mas como fruto de sua liberdade, a mesma liberdade do pecado que deseja conceder a todos e que concede aos que crêem, isto é, a possibilidade de (pela Graça) resistir ao pecado. Jo 8.32-36

A premissa é verdadeira, mas as implicações calvinistas, objetivadas pelo autor, são falsas.

Afirmativa 3: “Cristo era moralmente responsável quando ele se absteve de pecar”;

É claro que Cristo era moralmente responsável, pois agiu em sua liberdade. O que o calvinista tenta supor é que se Cristo não podia pecar então, subentende-se que, ele não era livre e ainda assim moralmente responsável por seus atos.

Ora, tal pensamento faz com o pecado pareça uma brincadeira ou que se as tentações (que nos seduzem ao pecado) fossem mera ilusão e não uma investida, uma possibilidade. Como se Cristo, por uma determinação e não em razão de si mesmo, estivesse impedido de pecar.

Vejamos, em sua divindade e por ser Deus Cristo não poderia cometer pecado, pois vai contra a Sua própria natureza. A possibilidade do pecado, isto é as tentações, eram reais diante dele, não eram um teatro, mas uma realidade.

“Então, foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.” Mt 4.1 JFA

“Pelo que convinha que, em tudo, fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel e sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. Porque, naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu*, pode socorrer aos que são tentados.” Hb 2.17-18 JFA *Padeceu tem o sentido de “sofreu”.

“Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado.” Hb 4.15 JFA

Resumindo, o não pecar de Cristo é fruto de sua liberdade. Só é livre aquele que não é escravo ou que não tem a sua consciência/os seus atos controlados por outro, e ninguém pode, logicamente falando, ser tido como escravo de si mesmo. O não pecar não é fruto de pré-condição, mas de sua própria natureza. A possibilidade do pecado, mediante as tentações, estava sempre diante dele (enquanto homem-Deus), e como o leão, mesmo tendo fome e fragilizado em sua natureza humana, não contrariou sua natureza divina. Isto não tem qualquer relação com as supostas implicações em defesas do calvinismo ou contra as múltiplas possibilidades de escolha, pois Cristo, no mínimo, poderia escolher como (modo, forma) não pecar ou como responder a seus acusadores, como responder ao tentador.

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A premissa é verdadeira, mas as implicações calvinistas, objetivadas pelo autor, são falsas.

Afirmativa 4: “Se a habilidade de fazer o contrário é uma condição necessária da responsabilidade moral, e Cristo era moralmente responsável quando ele se absteve de pecar, então Cristo poderia ter pecado;”

Resposta: Cristo não foi contabilizado por uma incapacidade, por falta de escolha, por não ter liberdade. O que o argumento sugere é que Cristo não era livre para escolher, porque ele não podia pecar. Mas isto não é verdade, o não pecar não é fruto de uma incapacidade ou de uma pré-determinação, ou uma ação de uma força externa irresistível, mas fruto de sua liberdade do pecado, derivado de sua própria natureza. Deus não pode mentir (Hb 6.18; Tt 1.2), mas isto não é fruto de uma incapacidade, de falta de escolhas livres, de incapacidade de alternativas multiplicas, mas porque mentir contraria a Sua natureza santa e justa, e agindo em sua liberdade Cristo era moralmente responsável. Sem liberdade, movidos por forças irresistíveis ou por pré-condição fatal, ninguém pode ser considerado responsável por seus atos ou pode ser considerado digno de honra ou de desonra por eles.

Afirmativa 5: “Portanto, a habilidade de fazer o contrário não é uma condição necessária da responsabilidade moral (isto é, PPA é falso)”.

Portando, dizemos nós, já está mais que demonstrado que o fato de Cristo não poder pecar não implica em uma negativa de possibilidades alternativas, pois no mínimo poderia escolher como (modo) não pecar. Falso, não é o princípio das possibilidades alternativas, mas o dilema levantado pelo teólogo predestinista.

Transcrevo a conclusão do autor “Eu concluo que qualquer um que sustenta uma cristologia ortodoxa deve rejeitar o PPA. É desnecessário dizer que isso traz um problema para arminianos[3] que querem empunhar o PPA contra seus irmão calvinistas.”

A cristologia ortodoxa rejeita a predestinação calvinista (sobretudo a dupla-predestinação), pelo menos três sínodos, a predestinação a condenação foi considerada anátema. Foram eles o Sínodo de Arles (473 d.C.), Sínodo de Lião (475 d.C.) e Sínodo de Orange (529 d.C.) [4], sobre este destaco o excerto:

“Alem de não crermos que algumas pessoas são predestinadas ao mal pelo poder divino, cremos que se houver alguém que deseje crer neste exagero, nós, com grande repulsa, declaramo-lhes anátemas.” [5]

Isto sem consideramos os pais primitivos, antes de Agostinho de Hipona. [6]

Pois bem, espero ter ajudado a desmistificar mais este falso dilema proposto pelos deterministas. Até a próxima e um forte abraço. Que a graça e a paz de nosso Senhor Jesus Cristo seja como todos.

______________________________________________________________________

[1] Disponível em http://pelocalvinismo.blogspot.com.br/2014/06/um-argumento-cristologico-contra-o.html. Acesso em 10/06/2014.

[2] O calvinismo é a doutrina que deve seu nome e suas origens ao teólogo e reformador francês João Calvino (1509-1564). Essa corrente é popularmente conhecida por defender as doutrinas da eleição incondicional e predestinação. Obviamente o calvinismo é muito mais profundo e não pode ser explicado em apenas uma nota de rodapé, entretanto, quanto à soteriologia, podemos resumir suas ideias principais através dos cinco pontos seguintes: (1) Depravação total: devido ao pecado de Adão, a raça humana é completamente incapaz de fazer qualquer coisa que possa produzir salvação; o homem está morto em pecados e, a menos que Deus aja primeiramente no homem, ele não poderá ser salvo. (2) Eleição incondicional: Deus, na eternidade, através de um decreto soberano, elegeu alguns homens para serem salvos, independentemente da vontade do homem ou de fé prevista. (3) Expiação limitada: Deus enviou seu Filho, Jesus Cristo, para morrer em um sentido salvífico apenas pelos eleitos. (4) Graça irresistível: Deus chama eficazmente a todos os eleitos através de sua graça; eles não podem resisti-la. (5) Perseverança dos santos: os eleitos, após chamados, perseverarão até o fim; não existe qualquer possibilidade de apostasia. (COUTINHO, Samuel Paulo, Sínodo de Dort. Disponível em http://deusamouomundo.com/remonstrantes/432/. Acesso em 04/10/2013.) Vide ainda <http://pt.wikipedia.org/wiki/Calvinismo> Acesso em 02/03/2014.

[3] Doutrina que deve seu nome ao teólogo holandês Jacobs Arminius (1559-1609). Arminius e seus seguidores questionaram a soteriologia calvinista. Sua teologia ficou conhecida como arminianismo e pode ser resumida da seguinte maneira: (1) Depravação total: devido ao pecado de Adão, a raça humana é completamente incapaz de fazer qualquer coisa que possa produzir salvação; o homem está morto em pecados e, a menos que Deus aja primeiramente no homem, ele não poderá ser salvo. (2) Eleição condicional: Deus, na eternidade, elegeu para salvação todos aqueles que creriam em Cristo e perseverariam na fé. (3) Expiação ilimitada: Deus enviou seu Filho, Jesus Cristo, para morrer por todos os homens. (4) Graça resistível: Deus chama os homens e os capacita através de sua graça; todavia, os homens podem resisti-la. (5) Perseverança em Cristo: Deus dá graça suficiente para que todos os crentes perseverem na fé, entretanto, há possibilidade de apostasia final. (COUTINHO, Samuel Paulo, Sínodo de Dort. Disponível em http://deusamouomundo.com/remonstrantes/432/. Acesso em 04/10/2013.) Vide ainda < http://pt.wikipedia.org/wiki/Arminianismo> Acesso em 02/03/2014.

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[4] TITILLO, Thiago Velozo. A Gênese da Predestinação na História da Teologia Cristã. Uma análise do pensamento agostiniano sobre o pecado e a graça.São Paulo: Fonte Editorial. 2014. pp. 183-191.

[5] GEISLER, Norman L. Teologia Sistemática, volume 2. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD. 2010. p. 466.

[6] Veja ainda A Igreja Primitiva e o Livre-Arbítrio, < http://estudos.gospelprime.com.br/a-igreja-primitiva-e-o-livre-arbitrio/ > Acesso em 05/03/2014.

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Pastor, especialista em Ciências da Religião, Teólogo, MBA em Gestão Pública e Gerência de cidades, graduado em Gestão Pública, instrutor, Analista Administrativo e Escritor.

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