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opinião

Confinamento e a hipocrisia das feministas

O feminismo finge defender o engajamento da mulher quando apenas promove o seu aviltamento.

Filipe Samuel Nunes

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Janelas de um apartamento (Inja Pavlić / Unsplash)

Durante toda a pandemia de Covid-19, os progressistas de esquerda têm exigido consistentemente medidas severas de bloqueio e têm-se mostrado relutantes em qualquer afrouxamento dessas restrições.

Os adultos têm sido “expulsos” do local de trabalho e da vida pública, para dentro de casa. As crianças estão definhando em casa ao invés de aprenderem em sala de aula. Na verdade, são os sindicatos que têm sido os defensores mais ruidosos de que as escolas primárias e secundárias permaneçam fechadas.

As exigências pró-bloqueio, que governos pelo mundo afora prontamente atenderam, receberam um dever extra de não “sobrecarregar os serviços de saúde pública”. Os hospitais tornaram-se “vacas sagradas”.

De tal forma que me parece que iremos todos, num futuro próximo, ajoelhar diante dos “santuários da saúde” desfiando uma máscara, em vez dum rosário! Já faltou mais para isso acontecer! Tudo foi relegado para segundo plano durante esta pandemia  – incluindo a posição das mulheres no lar e na sociedade.

A situação da mulher no presente

Para as feministas e progressistas radicais, libertar as mulheres da escravidão do trabalho doméstico foi uma vez uma exigência fundamental para promover a igualdade das mulheres.

Foi argumentado que, enquanto o papel principal da mulher fosse como mãe, cuidadora ou dona de casa, as mulheres seriam impedidas de desempenhar um papel pleno e igualitário na sociedade.

É claro que, nos últimos 30 anos, houve enormes avanços nas atitudes da sociedade em relação às mulheres e ao cuidado das crianças. Hoje, espera-se (no geral) que as mulheres sejam financeiramente independentes e tenham perspectivas de carreira.

Embora, a realidade do apoio ao cuidado das crianças ainda seja precária e as mulheres ainda possam ser tratadas injustamente no trabalho após a gravidez, a posição da mulher na sociedade melhorou visivelmente. O confinamento, no entanto, fez com que muitas mulheres caíssem de novo na armadilha da escravidão doméstica.

Entretanto, os números não mentem. Descobriu-se que durante o confinamento as mães estavam mais uma vez fazendo mais tarefas domésticas e passando mais tempo com as crianças.

As mulheres, em geral estão fazendo trabalho remunerado durante o dia, além do trabalho doméstico, não remunerado, no final do dia. As professoras com filhos, por exemplo, fazem malabarismos com o ensino online enquanto cuidam das crianças. Consequentemente, dar tarefas escolares em vez de ensinar on-line tem sido uma solução pragmática para muitas professoras com crianças.

Infelizmente, logo surgem, as reclamações de pais que as comparam desfavoravelmente com professores que não têm essas responsabilidades. Esta situação é particularmente aguda para as mulheres da classe trabalhadora com empregos mal remunerados e pouco qualificados. Isto restringe a capacidade das mulheres de adquirir qualificações e experiência para obter um trabalho mais seguro, promoção e maior remuneração. À medida que a recessão do confinamento se aprofundar, as mulheres da classe trabalhadora irão pagar a factura.

A situação da mulher no confinamento

E aqui entra uma questão essencial: o abuso doméstico. Os números, mais uma vez, não enganam. As organizações que lidam com o abuso e a violência doméstica dão conta de um aumento generalizado, de abusos, na ordem dos 50%. 25% de aumento nas ligações para linhas de ajuda e 150% no aumento de visitas a sites de registro de ocorrências de violência doméstica.

O fenómeno estranho é que as pessoas que exigiam que se implementassem restrições mais rígidas são as mesmas que agora se preocupam com os “muitos jovens LGBTQ , e mulheres que estão agora presos com pais homofóbicos e transfóbicos, e homens abusadores, por semanas ou mesmo meses”. Ou seja, as vozes que defendiam o confinamento obrigatório agora só falam em pessoas confinadas a lares com pais ou parceiros abusivos. A feminista radical, Sian Norris afirmou que, “para as pessoas com um parceiro abusivo, o encarceramento significa cativeiro”.

Ora bem! Se o coronavírus nos ensinou alguma coisa até agora, é que o pânico nunca é um bom ponto de partida para um debate racional. Reagir ao pânico resulta na elaboração de políticas desastrosas. Em vez de mergulharmos de cabeça na histeria sobre o abuso doméstico, precisamos olhar com cuidado para o que está realmente acontecendo.

No centro de toda esta contenção está o medo de que o confinamento possa “aumentar as tensões domésticas”. Mas, é incrível que os progressistas e os ativistas dos direitos das mulheres precisem de estatísticas para dizer-lhes isto. Manter as pessoas confinadas em suas casas, talvez com preocupações de dinheiro, ou fazendo malabarismos e trabalhando a partir de casa para cuidar de crianças pequenas num apartamento apertado, tudo isso isolados da família e amigo, coloca as pessoas sob enorme “stress”. Obviamente! Não é preciso um grande salto de imaginação para reconhecer que isto pode levar a tensões crescentes e a uma escalada de tensões domésticas. É por isso que levantar questões sobre a resposta política global à pandemia, é uma atitude legítima.

A situação da mulher diante da hipocrisia progressista

Mas, o feminismo há muito se tornou uma forma de agenda política que apenas articula preocupações da classe média ou preocupações académicas. O feminismo progressista de hoje nada tem a dizer sobre as restrições reais que afetam as mulheres da classe trabalhadora.

Na verdade, é um feminismo hipócrita. Promove práticas que colocam ativamente restrições à autonomia da mulher. E defende políticas que forçam as mulheres a priorizar as suas vidas domésticas sobre as suas vidas profissionais. Em última análise não é feminismo. É ferridismo. Só ferra as mulheres. Havia um tempo em que as feministas desejavam que as mulheres tivessem as mesmas liberdades e acesso à vida pública que os homens têm. Agora, só desejam promover a sua agenda social. Mesmo sacrificando os direitos e a integridade da mulher. É isso mesmo que acontece!

“No sequitur” é uma expressão latina que traduzida significa “não se segue”. A ideia é descrever uma falácia lógica em que a conclusão não decorre das premissas apresentadas. O feminismo actual finge defender o engajamento da mulher quando apenas promove o seu aviltamento.

Formou-se em Teologia na Inglaterra, exerceu trabalho pastoral durante 25 anos em Portugal e vive há 12 anos no Brasil onde ensina Inglês como segunda língua.

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