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opinião

A morte de George Floyd, políticas de identidade e indignação seletiva

O valor de uma pessoa não está na cor da sua pele, na sua preferência sexual, expressão religiosa, muito menos na sua condição econômica.

Jocinei Godoy

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Mural em homenagem a George Floyd (munshots / Unsplash)

Em meio ao turbilhão de ideias e narrativas oriundas das mais variadas ideologias, dificilmente alguém encontra-se alheio a emissão de opiniões sobre os acontecimentos políticos do país.

Aqui e ali, sempre há alguém com um palpite sobre a atuação do governo, da gestão da atual crise e dos recentes ataques violentos promovidos por grupos baderneiros disfarçados de defensores da democracia.

Neste caso, os cristãos, são chamados a fornecerem respostas coerentes acerca destes problemas que se referem à esfera pública, isto é, responder as questões suscitadas no debate sociopolítico, tendo o evangelho como ponto de partida e de chegada.

Não obstante, o que tem ocorrido é a confusão na cabeça de muitos cristãos que se deixaram levar por um pathos [1] que se assenta nos compromissos firmados, não com o evangelho, mas com as ideologias políticas vigentes.

Em outras palavras, muitos cristãos estão interpretando o evangelho à luz da ideologia política que lhe agrada, ao invés de, com e a partir do evangelho, pôr a prova às ideologias, retendo delas o que é bom e lançando fora o que não presta.

Um exemplo disso reside no triste e abjeto caso do policial americano que sufocou George Floyd, ajoelhando-se sobre o seu pescoço culminando em sua morte. Pelo fato de o policial ser branco e Floyd ser negro, várias manifestações tem acontecido nos EUA e em outras partes do mundo. Tais manifestações tem por objeto a defesa contra a discriminação racial, a partir da compreensão de que há um racismo estrutural que ainda insiste em dar as caras em pleno século XXI.

Obviamente, qualquer tipo de violência, discriminação e opressão a quaisquer grupos ou indivíduos devem ser alvo da imediata reprovação por qualquer individuo, cristão ou não.

Outrossim, se de fato há um racismo estrutural na forma como alguns movimentos acreditam, deixo isso para outro artigo em tempo oportuno. Conquanto, o ponto que merece especial atenção e a pergunta que deve ser respondida pelos cristãos à luz do evangelho seria: como lidar com esta e outras situações de violência contra grupos ou indivíduos, sejam eles quais forem?

Para responder adequadamente a esta questão faz-se necessário recorrer ao conceito de pessoa, decorrente da doutrina da Trindade, muito caro a tradição cristã.

De forma simples pode-se compreender, a partir deste conceito, que todos os seres humanos constituem-se como imagem e semelhança de Deus. A expressão: “façamos o homem (humanidade) à nossa imagem e semelhança […]; homem e mulher os criou” (Gênesis 1:26, 27), remete a ideia de igualdade perante Deus como fundamento desta igualdade.

É preciso um parâmetro de fundamento e comparação para que a humanidade se entenda como igual no que diz respeito à sua dignidade. Este parâmetro não pode ser encontrado no plano da imanência (nossa mundanidade), haja vista que o mesmo pode ser distorcido ao bel-prazer de déspotas esclarecidos, resultando em genocídios ao longo da história.

As pessoas são diferentes em muitas coisas, porém, iguais no que tange à sua dignidade. Contudo, uma malfadada tentativa de adaptação desta compreensão cristã à confusão pós-moderna, ao personalizar e restringir direitos e deveres a determinados grupos, ocasionando sectarismos, resultou no que hoje conhecemos por políticas de identidade.

Dentre outros fatores, as políticas de identidade firmaram a sua existência, a partir do fracasso da ideia de luta de classes – que não deu certo no plano econômico e migrou para o plano étnico, racial e sexual. Tais políticas desprezam o conceito cristão de pessoa, ao determinar que “pessoa ou semelhante” é somente aquele que pertence a determinado grupo étnico, racial, religioso ou sexual.

Isso tem feito com que muitos cristãos sinceros, porém, ideologicamente envenenados, sejam extremamente seletivos na escolha de quem deve ou não, por um lado, ser objeto de escárnio e sofrimento, e por outro, ser objeto de defesa e justiça.

A morte de George Floyd foi uma barbaridade que aponta para o quanto a humanidade necessita de algo muito maior e para além dela mesma. Dito isso, ao ver o noticiário nesta semana, me deparei com a notícia de um policial aposentado negro de 77 anos que foi assassinado violentamente nos EUA por manifestantes vândalos que saquearam uma loja de penhores.

O curioso, neste caso, é que não houve comoção ou indignação por parte da mídia ou dos cristãos que se manifestaram a favor de Floyd. Se ambos são negros por que a diferença de tratamento? O fato de o policial negro exercer um papel de autoridade ligada ao Estado diminui a sua dignidade enquanto pessoa? Eis a incoerência até mesmo dentro do próprio grupo identitário.

O valor e a dignidade de uma pessoa não estão na cor da sua pele, na sua preferência sexual, expressão religiosa, muito menos na sua condição econômica. Ao partir do pressuposto cristão de pessoa, todos merecem o mesmo grau de respeito, de amor e de compaixão.

Não é porque sou negro que o meu semelhante é somente o negro. Tampouco porque sou cristão que o meu semelhante é somente o cristão. Mais do que isso, segundo o evangelho e diante de Deus, todos somos iguais.

É por esta e outras razões que o cristão deve firmar seu compromisso apenas com o evangelho, a fim de que possa ter autonomia e legitimidade para se utilizar de elementos de verdade presentes nas ideologias, contudo, sem ser contaminado por elas ou ser obrigado a pensar apenas dentro dos seus frágeis limites.

“Mas agora, despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca. Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos, E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; porém Cristo é tudo, e em todos” (Colossenses 3:8-11)

[1] Neste caso, o termo pathos pode ser traduzido como paixão, cujo significado remonta a ideia kantiana de domínio total e profundo que um estado afetivo exerce sobre toda a personalidade (ou “subjetividade”) do indivíduo (ABBAGNANO, 2007, p. 740).

Apologista cristão por vocação. Mestrando em Ciências da Religião pela PUC-Campinas-SP. Formado em Filosofia também pela PUC-Campinas-SP e em Teologia pelo Seminário Teológico Batista Independente de Campinas-SP.

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