estudos bíblicos

A salvação e o advento do Salvador

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 3 do trimestre sobre “A obra da salvação”

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“Em 20 de julho de 1969 aconteceu um feito extraordinário para a humanidade: o primeiro astronauta, enviado pelos Estados Unidos da América, pisa em solo lunar. Ao fazê-lo, proferiu uma frase que até hoje ecoa para muitos como símbolo da mais triunfal conquista humana de todos os tempos: ‘É um pequeno passo para o homem, mas um gigantesco salto para a Humanidade’. Orgulhoso pelo grande feito, o então presidente norte-americano Richard Nixon fez o seguinte discurso entusiasmado: ‘Esse é o dia mais importante para a Humanidade – o dia em que o homem pôs os seus pés na lua’.

Mas dentro da Casa Branca, acompanhando aquele feito tremendo e o discurso presidencial, estava o famoso evangelista Billy Graham, que atuou significativamente entre os grandes políticos do mundo, inclusive como conselheiro de muitos presidentes estadunidenses. O evangelista Graham pediu a palavra ao presidente e o corrigiu: ‘Presidente Nixon, o dia mais importante para a Humanidade não foi o dia em que o homem pôs os seus pés na lua, e sim, o dia em que Deus pôs os seus pés na Terra’. Certamente a Casa Branca tremeu com estas contundentes palavras do servo do Senhor!

A fé cristã está respaldada neste tripé histórico: nascimento (encarnação), morte e ressurreição de Jesus Cristo. Na verdade, não só a fé cristã, mas o mundo só está de pé dado esses grandiosos feitos, doutro modo há muito já teríamos perecido. A concepção milagrosa de Cristo no ventre da pobre jovem Maria, a morte expiatória de Cristo sob o clamor dos judeus e a injustiça do governo romano, e a sua ressurreição triunfal de entre os mortos, testemunhada pela guarda romana montada à entrada do túmulo, são indubitavelmente os fatos mais importantes que alteraram o curso da Humanidade e que até hoje repercutem como boas novas de Deus para todos os homens em todo mundo. A ida do homem à Lua não alterou muita coisa por aqui; mas a vinda de Jesus Cristo à terra foi a nossa salvação!”(1).

O trecho que você acabou de ler, o qual uso modestamente para a introdução do presente estudo, foi extraído do livro de minha autoria A mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira (Leve, 2016), onde discorro sobre o maravilhoso plano de salvação para toda a humanidade e as sublimes mensagens que Deus está proclamando ao mundo através da cruz de Cristo Jesus.

Encarnação de Cristo: uma verdade inegociável

A Lição da EBD (A obra da salvação) desta semana é sobre um importante tema da fé cristã: a encarnação do Filho de Deus, nosso Salvador. Este tema tem tudo a ver com a proposta geral do trimestre que é um estudo da obra da salvação, e, sem dúvida, o esvaziamento temporário da majestade divina do Filho, a concepção virginal de Cristo no ventre da jovem virgem Maria, sua humilhação e identidade humana, são assuntos cruciais à nossa compreensão geral da maravilhosa obra de salvação.

Desde os tempos apostólicos, a crença na encarnação do Filho de Deus era vital à fé cristã, de tal modo que os que negassem esta convicção, a exemplo dos gnósticos emergentes ainda no primeiro século, eram contados entre os hereges e deveriam sofrer a ruptura de quaisquer relações com a igreja cristã: “…Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo…” (1Jo 4.2,3). Você pode achar que crer na encarnação do Filho de Deus seja algo muito elementar, o bê-a-bá da nossa fé. Está certo.

Mas existiam muitos doutores e sábios nos primeiros séculos, bem como em nossos dias, dispostos a “provar” o contrário (veja, por exemplo, o Docetismo, no segundo século); além do mais, debruçar-nos sobre este assunto produzirá em nós um profundo sentimento de gratidão ao nosso Salvador, que “sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2.6,7). O Filho encarnado é a maior dádiva que Deus poderia dar a humanidade!

A presente Lição terá três objetivos: I. Apresentar como se deu o anúncio do nascimento do Salvador; II. Explicar a respeito da concepção do Salvador; III. Mostrar que o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Capítulos bíblicos que considero muito importantes ao estudo desta semana são: Gênesis 3; Isaías 7 e 9; Miquéias 5; Mateus 1 e 2; Lucas 1 e 2; João 1; Filipenses 2 e 1João 4. Lê-los, acompanhado de bons comentários bíblicos será ainda mais enriquecedor para sua compreensão e aprendizado!

Um novo tabernáculo para Deus

Ainda mesmo no Éden, o próprio Deus fizera o primeiro prenúncio da encarnação do Salvador, quando, dirigindo-se à astuta serpente, disse: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). A semente da serpente apontava para todo império do mal, incluindo demônios e homens ímpios; ao passo que a semente da mulher apontava, a princípio, para Cristo, e consequentemente, para os salvos nele. Mas veja o que Deus está dizendo: aquele que feriria (esmagaria ou destruiria – que são traduções mais adequadas ao hebraico(2)) a cabeça da serpente viria da semente de Eva, numa referência ao mesmo tempo da humanidade de Jesus, como também uma possível referência a concepção milagrosa, sem semente ou gameta masculino, já que foi por obra miraculosa do Espírito Santo que a virgem engravidou (Lc 1.35). Ainda é importante notar: Jesus não “apareceu” em carne, ele não surgiu de repente em Jerusalém já uma criança ou homem adulto, como Adão, sem genealogia. Ele é homem perfeito e tem ascendência que remete ao primeiro casal. Jesus é perfeitamente nosso irmão, e disto não se envergonha (Hb 2.11).

Pode ser que nossos teólogos estejam certos ao dizer que o Filho de Deus já tinha aparecido aos homens antes, no Antigo Testamento, em manifestações teofânicas (ou cristofânicas), como a Abraão, a Josué, a Gideão, dentre outros. Entretanto, estas manifestações são aparecimentos repentinos e de curta duração numa aparência física que pudesse ser percebida por aqueles a quem Deus queria se revelar e numa medida que eles pudessem suportar, já que “homem nenhum verá a minha face, e viverá” (Ex 33.20). Todavia, o corpo humano propriamente Cristo só o obteve na concepção em Maria. Na encarnação, Cristo não “aparece” e depois desaparece; não se “manifesta” e depois se oculta. Na encarnação, segundo nos diz o apóstolo João, o Filho “habitou entre nós” (Jo 1.14), ou como diz o texto grego traduzido ao pé da letra: tabernaculou entre nós (3). Ou seja, Cristo encarnado faz entre nós sua morada, por mais de trinta anos, já não manifestando-se mais no Santíssimo Lugar do Templo judeu, mas manifestando-se cotidianamente no pátio do Templo, nas ruas de Jerusalém, nas regiões pobres da Galiléia, às margens das praias, nos montes, nas sinagogas, nas casas, em volta de mesas, em festas de casamento, e mesmo em meio a cortejos fúnebres! Na encarnação, o Filho não tabernacula apenas no Templo, mas “entre nós” e “em nós” (Jo 14.23). Ele é verdadeiramente “Deus conosco” (Mt 1.23). Que bendito consolo temos daí para as labutas da vida!

Profecia sobre concepção virginal e nascimento de Cristo

1. Concepção virginal

O profeta Isaías, inspirado pelo Espírito de Deus, prenuncia a dádiva do Filho encarnado, concebido por uma virgem: “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel” (Is 7.14). Há questões contextuais neste versículo que não vem ao caso abordar, basta saber que Mateus situa essa promessa na concepção de Jesus, quando cita o sonho em que José, noivo de Maria, foi avisado pelo anjo do Senhor: “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, E chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, Que traduzido é: Deus conosco” (Mt 1.23). O teólogo Derek Kidner, comenta: “O termo virgem é apoiado pela LXX [Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento] como citado em Mateus 1.23. O equivalente mais próximo em português seria ‘moça’. O termo hebraico descreve uma noiva em potencial, em Gênesis 24.43, e a jovem Miriam, em Êxodo 2.8; pressupõe a virgindade, mas não a afirma, e é um termo que não é usado para se referir a ela depois do casamento” (4).

Os cristãos de modo geral, católicos e evangélicos, defendem a virgindade de Maria por ocasião da concepção e nascimento de Jesus; mas estão divididos quanto à continuação da virgindade de Maria após o nascimento de Jesus. Católicos de modo geral defendem como sendo parte essencial da fé a doutrina da virgindade perpétua de Maria, mas os protestantes desde a Reforma, tem se dividido na interpretação dos “irmãos de Jesus” (Mt 12.47; 13.55). Pode causar espanto ao leitor, mas o reformador alemão Martinho Lutero também defendia a virgindade perpétua de Maria; bem como Ulrico Zuinglio, reformador suíço também a defendia. A Confissão de Fé Helvética, adotada pelas Igrejas Reformadas da Suíça, França, Escócia, Hungria, Polônia e outras, também defendia a “sempre virgem Maria” (5). Até mesmo o grande avivalista inglês do século 18, John Wesley, não se desprendeu totalmente desta herança católica, conforme sua própria declaração:

“Creio que Ele se fez homem ligando a natureza humana com a divina numa pessoa; que foi concebido pela operação singular do Espírito Santo e que nasceu da bendita virgem Maria que, tanto antes como depois de o dar à luz, continuou virgem pura e imaculada” (Cartas a um católico romano, 18 de julho de 1749).

Apesar da visão quase romântica que temos dos reformadores e pós-reformadores, precisamos reconhecer seus erros e corrigi-los quando necessário. De maneira geral, as igrejas protestantes atualmente recusam, acertadamente, esta crença na virgindade perpétua de Maria, por três razões muito simples: Deus não exigiu a sua perpetuidade e nenhuma profecia tornava necessária a virgindade perpétua da esposa de José (sem falar que este teria sido um encargo muito pesado para aquele homem, em não poder relacionar-se com sua esposa, quando o sexo é uma benção legítima para ser desfrutada no matrimônio); Maria não se tornaria impura, nem menos santa, por relacionar-se legitimamente com seu marido – Mt 1.20, pois como diz Hebreus: “venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula” (13.4); por último, o fato de a Bíblia citar irmãos e irmãs de Jesus, como nos textos de Mateus 12.47 e 13.55. Claro, os que defendem a virgindade perpétua de Maria, precisaram defender que o termo grego aqui (adelphos) não deve significar “irmão nascido dos mesmos pais”, mas “irmão nascido do mesmo pai” apenas (para dizer que José era viúvo e pai de outros filhos antes de casar com Maria) ou que significa apenas “parente próximo”, para dizer que estes “irmãos” eram, na verdade, primos de Jesus.

2. Nascimento e humanidade

Sobre o nascimento de Cristo, Isaías profetiza: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6). Agora preste atenção nalguns detalhes deste versículo:

2.1. um menino nos nasceu – prenuncia que o Salvador virá em carne, nascerá, e será um menino. Ele experimentará a ingenuidade da infância e a submissão aos homens, neste caso, seus pais (isso é parte do esvaziamento voluntário de Cristo, a kenosis(6)). Lucas nos informa: “…e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito. E sua mãe guardava no seu coração todas estas coisas. E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens” (Lc 2.51,52).

2.2. um filho se nos deu – declara a pré-existência do Filho, que foi dado e não criado. Em seguida, dois dos títulos que lhe são atribuídos reforçam essa ideia: Deus forte e Pai da eternidade. O Filho que nos foi dado, não criado, já era Deus forte e já era Pai da eternidade. Ou seja, ele não teve começo, mas o começo começou nele! “No princípio era o Verbo…”, é a primeira declaração joanina (Jo 1.1). O herege Ario de Alexandria, no Egito (séc. III e IV), apregoava que Cristo foi a primeira criação do Pai, foi adotado como filho (ou seja, ele não é Deus em si mesmo, nem é filho eternamente gerado, mas filho criado e adotado), e em seguida o universo foi criado pelo Filho, e que Cristo deveria ser adorado apenas devido sua proeminência na criação. O Credo de Niceia (séc. IV) refuta e condena esta heresia ariana (7). O famoso, embora leigo, “apóstolo” brasileiro Valdemiro Santiago, já chegou a afirmar no ano de 2012 que Jesus fora “a primeira obra” criada pelo Pai, e que somente o Pai é sempiterno, mas não o filho. O arianismo parece não ter morrido totalmente!

Ainda encontramos profecias no Antigo Testamento, como a de Miquéias que falava da cidade de nascimento do Salvador: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2); e a profecia de Oséias (de dupla aplicação) que falava da estadia do menino Jesus com sua família nas terras do Egito: “Do Egito chamei o meu filho” (Os 11.1; Mt 2.15). Mateus ainda conecta a declaração do profeta Jeremias (31.15) ao infanticídio praticado por Herodes, que buscava matar o menino Jesus (Mt 2.16-18). Não é maravilhoso saber que o Filho de Deus foi criança um dia? Que bendita mensagem para nossas crianças nesta semana tão especial de outubro, em que felicitamos nossos pequeninos pelo Dia das Crianças. Crianças tão assediadas pela perversa cultura de adultização precoce, erotização infantil e ideologia de gênero; crianças que Jesus ama (Lc 18.16,17) e às quais devemos ensinar a cultura do céu e os valores do Reino de Deus, para mantê-las a salvo desta cultura ímpia e imoral!

O primeiro Adão, que é da terra, já entra em cena homem adulto; o segundo Adão, que é do céu, entra em cena um embrião no ventre de Maria, uma criança no colo de sua mãe, um garotinho peregrinando até Jerusalém para aprender no meio dos doutores até alcançar a idade adulta com que cumpriu cabalmente sua missão. Será que Maria nalgum momento teve plena consciência de quem era aquela criança em seus braços? O Grande Eu Sou…

Por que Jesus precisou encarnar?

Primeiro, para criar uma identificação com aqueles sobre quem ele é constituído mediador: nós os homens pecadores. Paulo diz que “há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1Tm 2.5). Assim, homem, ele vive os sentimentos e as experiências humanas mais comuns e mais profundas: fome, sede, sono, tristeza, dor e, a mais temível de todas: a morte. Somente no pecado ele não se faz nosso semelhante, pois ele era o Cordeiro de Deus imaculável! O autor da carta aos Hebreus destaca o propósito de Cristo em vencer a morte na sua carne: “E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hb 2.14,15). Porque Cristo encarnou e venceu definitivamente a morte, ela já não deve nos causar medo!

Segundo, não se deve descartar o caráter exemplar da humilhação de Jesus por ocasião de sua encarnação. Há muito que aprender com aquele que “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo… humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte…” (Fp 2.7,8). O próprio Jesus nos deu grandiosas lições de vida, de temor a Deus e amor ao próximo, mansidão, humildade e paciência. Na noite da Ceia, ele dobra-se diante de seus discípulos, com uma bacia de água e uma toalhinha branca, para lavar-lhes os pés. E assim exorta: “se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.14,15). No texto de Filipenses, Paulo busca impedir que qualquer raiz de orgulho e divisão nasça e cresça entre aqueles irmãos, quando apela: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5).

Até o batismo nas águas era necessário a Jesus, embora ele não tivesse pecados que confessar ou vida errada de que se arrepender. Nem João Batista, seu primo, entendeu de imediato o porquê de Jesus cumprir aquele rito, mas Jesus lhe fez entender: “Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.15). Não se batiza espíritos, nem anjos! Se o batismo era necessário como parte indissociável da justiça de Deus, então Cristo também para isso precisaria encarnar.

Todavia, a sublime missão de Cristo, em sua encarnação, não era nos dá exemplo, não era apenas nos ensinar valores morais ou espirituais. A encarnação de Cristo é parte do programa salvífico de Deus para a humanidade, de tal modo que sem ela seria impossível a justiça de Deus ser satisfeita para salvação dos pecadores. A Declaração de Fé das Assembleias de Deus (2017) resume muito bem os propósitos salvíficos da encarnação do Verbo:

“A encarnação do Senhor Jesus fez-se necessária para satisfazer a justiça de Deus: o pecado entrou no mundo por um homem, Adão; assim, tinha de ser vencido por um homem, Jesus. Em sua natureza humana, Jesus participou de nossa fraqueza física e emocional, mas não de nossa fraqueza moral e espiritual” (8)

O apóstolo Paulo diz que “No corpo da sua carne [Jesus], pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” (Cl 1.22). Sem a encarnação genuína, não haveria morte genuína, nem redenção genuína, nem santificação genuína ou glorificação genuína! Sem o corpo de Cristo, todos gritaríamos para a eternidade: “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24).

Há ainda uma razão escatológica para a encarnação do Filho: o cumprimento final e pleno do reinado do “filho de Davi”. Deus prometeu dar à descendência de Davi um reino eterno (2Sm 7.16), mas como os descendentes de Davi falharam, e todos pecaram, Deus fez seu Filho encarnar, e não em qualquer família, mas na família de Davi, da tribo de Judá, para dar a ele “o nome que está acima de todo nome” (Fp 2.9). O Messias tinha que ser filho de Davi, por isso Mateus, que escreve para os judeus, inicia seu livro informando-nos: “Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi…” (Mt 1.1); Jesus é o Rei que haveria de vir, que veio e que breve voltará para reinar finalmente! Por isso o cego e mendigo Bartimeu gritava: “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim”. William McDonald comenta um detalhe deste texto: “Foi irônico que, enquanto a nação de Israel estava cega à presença do Messias, um judeu cego teve uma verdadeira visão espiritual!” (9). Assim também declarou a mulher cananéia, uma estrangeira: “Senhor, filho de Davi, tem misericórdia de mim” (Mt 15.22). Os filhos Israel não reconheceram Jesus como o Messias prometido, mas os “filhos de Abraão” (que são pela fé – Rm 4.16; Gl 3.7), estes sim reconheceram!

Alguns erros a se evitar no trato desta lição:

* Jesus não deixou de ser Deus ao se fazer homem. Ele não trocou a divindade pela humanidade. Ele era plenamente homem, mas plenamente Deus! “O Verbo era Deus” (Jo 1.1), e “nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). Todos os atributos divinos são perfeitos e plenos no Filho de Deus!

* Jesus não deixou de ser homem ao retornar para o Pai. Ele assumiu a forma humana para nunca mais deixa-la! Neste sentido, Jesus será uma verdadeira celebridade no céu para toda eternidade, sendo para sempre diferente de tudo e de todos, devido essas duas naturezas perfeitas. (1Tm 2.5; Conf. Zc 13.6: “Que feridas são estas nas tuas mãos? Dirá ele: São feridas com que fui ferido em casa dos meus amigos”)

* As tribulações humanas e os horrores do Calvário que Jesus sofreu, foram suportados “na carne” (física; não no sentido moral, pecaminoso). Isso não significa que ele não desfrutou de poder divino para vencer, pois, como nós, ele também foi cheio do Espírito Santo, que o capacitara a vencer. Significa que sua própria força onipotente não foi usada para livrá-lo das aflições, mas em oração ao Pai, ele buscou o fortalecimento para triunfar (Lc 23.37; Mt 4.1,2). Como bem diz o poeta Emílio Conde, “Jesus teve completa vitória, porque sempre viveu em oração” (10).

* Não cometer o erro de exagerar a humilhação de Cristo em sua encarnação. É comum ouvir pessoas dizerem que, como homem, Jesus teve medo da morte, e que por isso no Getsêmani orou “Pai, se possível passa de mim este cálice”. Todavia, é estranho aceitar que Jesus tenha temido a morte, visto que ele já sabia que ressuscitaria (Mt 17.22,23; Jo 10.18; 14.1-3) e que ele mesmo havia advertido aos discípulos para não temerem a morte (Mt 10.28). Rejeito a tese de que Jesus teve medo de alguma coisa. A aflição de Jesus no Getsêmani se deu em razão dos nossos pecados que pesavam sobre ele (Is 53.6; 2Co 5.21) e do abandono temporário que o Filho amargaria na cruz, quando ele exclamaria: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15.34). Se há alguma coisa que Jesus temia, era apenas o ficar separado do Pai naquelas horas cruentas do Calvário! Mas definitivamente, aquele que disse: “Eu sou a vida” (Jo 14.6) não teria nada que temer a experiência da morte.

* Um teólogo calvinista, Heber Campos, afirmou que mesmo após ascender ao céu, em corpo glorificado, Jesus permanece, visto que é homem, passível as mesmas experiências humanas que ele padeceu aqui: fome, sede, cansaço e sono. Isso, além de revelar distorção do entendimento da glorificação (que remove essas corrupções e debilidades físicas), sugere que, se assim fosse, não teríamos total segurança em Cristo, já que em momentos de cansaço e sono do Filho de Deus no céu, ficaríamos sem os cuidados de um Salvador e Intercessor junto ao Pai! “Clamai em altas vozes, porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma viagem; talvez esteja dormindo, e despertará” – esta zombaria de Elias contra o deus Baal jamais poderia ser dirigida ao nosso Senhor e Deus Jesus Cristo! Nosso Cristo, uma vez tendo recebido a mesma glória que tinha junto ao Pai antes da encarnação (Jo 17.5), “nem se cansa nem se fatiga” (Is 40.8). Seus olhos não se enfadam, nem se fecham com sono, pois são “os seus olhos como chama de fogo” (Ap 1.14). Recuso peremptoriamente qualquer teoria que sugira limitações, fraquezas e debilidades ao corpo glorificado de nosso Senhor, a quem nos assemelharemos por ocasião de sua vinda (1Co 15.49,50; 1Jo 3.2).

Que neste domingo, todos tenhamos uma aula prazerosa e enriquecedora, com a presença bendita do Emanuel – Deus conosco!

REFERÊNCIAS:

  • A Mensagem da Cruz, Leve, pp. 11,12
  • Comentário Bíblico Beacon, Vol. 1, CPAD, p. 14
  • Bíblia de Estudo Plenitude, SBB. João 1.14, nota de rodapé
  • Comentário Bíblico Vida Nova, Vida Nova, p. 965
  • Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Virgindade_perp%C3%A9tua_de_Maria. Acessado em 11/10/2017
  • Kenosis é um termo de origem grega (kenoo, kenos), e que, segundo James Strong, tem um sentido forte: “esvaziar-se, despir-se de uma dignidade justa, descendo a uma condição inferior, humilhar-se”. Fala do ato voluntário de Cristo em se despir de sua glória junto ao Pai, antes da encarnação, para vestir a limitada e fraca natureza humana. Isso não significa, como já dito, que Jesus abriu mão de sua divindade, mas apenas glória refulgente que ele tinha em seu estado pré-encarnado. Na oração sacerdotal, Jesus pede ao Pai que “agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo 17.5)
  • N. Champlin. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, 11° ed., vol. 1, Hagnos, p. 271. O Credo Niceno (séc. IV) declarada: “Cremos (…) em um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, o Unigênito do Pai, que é da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, de uma só substância com o Pai (…)”
  • Declaração de Fé das Assembleias de Deus, CPAD, p. 51.
  • Comentário Bíblico Popular – Novo Testamento, Mundo Cristão, p. 135
  • Hino 127 da Harpa Cristã, CPAD.

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