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Estudos Bíblicos

Yom Kipur – O dia do perdão

Uma das mais importantes datas do judaísmo, o dia do perdão começa no crepúsculo que inicia o décimo dia do mês hebreu de Tishrei até o seguinte pôr do sol.

Alexandre Dutra

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Judeu em seu momento devocional no pátio do Muro das Lamentações (Foto: Matthew Angus / Unsplash)

O Dia do PerdãoYom Kipur – é o dia em que o homem deve comparecer diante do Eterno para fazer expiação pelos pecados. Expiar = Remir (pagar) os seus pecados, por meio de arrependimento e fé no sangue dos animais sacrificados no lugar dos pecadores (Lv.16:16,21).

Tal expiação é feita a fim de receber o perdão divino: “Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto” (Sl.32:1).

Temos como objetivo mostrar através da revelação das Escrituras, como era realizada, biblicamente, essa festa solene, como é comemorada hoje pelos judeus e a sua relação com a obra redentora na pessoa do Messias – Jesus.

Também veremos quais as implicações para a vida do crente em Jesus.

A ordem bíblica da celebração

O texto bíblico determina que há um dia certo para entrar no Santo dos Santos, isto é, no Yom Kipur, e apenas nesta ocasião: “Disse, pois, o SENHOR a Moisés: Dize a Arão, teu irmão, que não entre no santuário em todo o tempo, para dentro do véu, diante do propiciatório que está sobre a arca, para que não morra; porque eu aparecerei na nuvem sobre o propiciatório” (Lv.16:2). Além disso, determina que somente o Sumo-Sacerdote pode entrar no lugar santíssimo (Lv.16:17).

A data da observação desta festa é 10 de Tishrei (sétimo mês do calendário judaico – Lv.16:29) e sua celebração começa no pôr do sol do dia anterior e segue até o anoitecer do dia posterior. No nosso calendário será entre os dias 18 e 19 de Setembro de 2018.

O dia do Perdão – Yom Kipur – tem um caráter especial dentre todas as outras festividades. O Yom Kipur é a mais importante das festas dadas por Deus a Israel, pois naquele dia era feita a expiação pelos pecados de toda a congregação de Israel (Lv.16:30,33).

O povo devia afligir a alma através do jejum absoluto durante vinte e cinco horas (Lv.16:29): “Sábado de descanso vos será; então afligireis as vossas almas; aos nove do mês à tarde, de uma tarde a outra tarde, celebrareis o vosso sábado” (Lv.23:32). O afligir a alma está ligado com a observação do Jejum: “Quando chorei, e castiguei com jejum a minha alma, isto se me tornou em afrontas” (Sl.69:10).

Um dia solene de descanso

Muro das Lamentações. (Foto: Sander Crombach / Unsplash)

O dia do Yom Kipur se torna um Shabat – dia solene de descanso, como estatuto perpétuo uma vez no ano (Lv.16:31,34).

Figura a condenação do trabalho nos Shabatot (sábados), com promessa de eliminação da alma que trabalhar no Yom Kipur: “Também toda a alma, que naquele mesmo dia fizer algum trabalho, eu a destruirei do meio do seu povo” (Lv.23:30).

Expiação pelo Sumo-Sacerdote

Como o Sumo-Sacerdote deveria entrar no Santo dos Santos do Tabernáculo/Templo? Com as roupas especiais, com um novilho para expiação do pecado e um carneiro para o holocausto (Lv.16:3-6).

Com o novilho fará expiação por si e sua casa (família – Lv.16:11), e com os dedos espargirá sete vezes o sangue no novilho sobre o propiciatório (a tampa da arca da aliança com os dois Querubins – Lv.16:14).

Juntamente com o sangue do novilho ele tomará o incensário com as brasas do altar de sacrifício e o incenso encherá de fumaça o lugar santíssimo para que não morra (Lv.16:12-13).

Já o holocausto é uma oferta voluntária, que deveria ser dedicada inteiramente ao Senhor, como oferta de aroma agradável ao Eterno: “Porém a sua fressura e as suas pernas lavar-se-ão com água; e o sacerdote tudo isso queimará sobre o altar; holocausto é, oferta queimada, de cheiro suave ao SENHOR” (Lv.1:9).

Expiação pelo povo: Dois bodes

Pelo povo, o Sumo-Sacerdote tomará dois bodes e um carneiro pelos pecados de Israel (Lv.16:5-10).

O bode, sobre o qual caiu a sorte pelo Senhor, se oferecerá para expiação pelo pecado: “Então Arão fará chegar o bode, sobre o qual cair a sorte pelo SENHOR, e o oferecerá para expiação do pecado” (Lv.16:9); por meio da Semichá (pôr as mãos sobre a cabeça do animal).

Enquanto que o outro será o bode emissário, mesmo vivo, esse bode também fará expiação pelo pecado do povo, sendo enviado para o deserto (Lv.16:10).

O Sumo-Sacerdote também colocará sobre o bode emissário suas mãos, transferindo para ele todos os pecados da congregação através da confissão, assim o bode levará sobre si todas as iniquidades do povo de Israel (Lv.16:21-21).

Cabe destacar que o deserto, segundo a Bíblia, é um lugar de morte, solidão e esquecimento (Êx.14:11-12; Lv.16:22; Jó 38:26; Sl.55:7; Is.27:10).

Yom Kipur hoje

Como o judeu observa o dia mais temível na atualidade? Este acontecimento é de tal importância na comunidade judaica que denomina-se os dez dias entre Rosh HaShaná e o Yom Kipur como Yamim Noraim: “dias temíveis”.

Para o judeu piedoso, o Yom Kipur é um dia temível, pois representa a decisão entre a morte e a vida eterna.

Em face disso os judeus afligem sua alma com jejum total: “Sábado de descanso vos será; então afligireis as vossas almas; aos nove do mês à tarde, de uma tarde a outra tarde, celebrareis o vosso sábado” (Lv.23:32).

Os meninos jejuam a partir dos treze anos e as meninas dos doze, já as crianças menores ficam sem guloseimas (sobremesa).

Judeu lendo a Torá. (Foto: Eran Menashri / Unsplash)

O que é proibido?

Segundo o Talmud, há cinco proibições no Yom Kipur:

  1. comer e beber;
  2. lavar-se de forma que gere deleite, portanto, é preciso cuidar bastante de não lavar além do necessário;
  3. passar óleo, creme, perfume ou maquiagem;
  4. calçar sapatos de couro (embora seja permitido calçar calçado de borracha, de palha ou de pano);
  5. ter relações sexuais.

Além, é claro, de tudo que já é proibido no Shabat.

A roupa

Os homens devem vestir o Kitel (robe branco); e o Talit (manto de oração – Nm.15:22-31). As mulheres vestem roupas brancas.

Ofício religioso

A celebração de Yom Kipur na sinagoga envolve uma série de ritos como o Kól Nidrê, que é uma linda prece cantada, pela qual se declara a nulidade de todas as promessas ou votos pessoais que foram feitos durante o ano e não foram cumpridos.

Profere-se também as bênçãos sobre os filhos: Deus te faça como a Efraim e como a Manassés (Gn.48:20). E, posteriormente, a benção dos sacerdotes (Nm.6:24-26).

Realiza-se o Al-Chêt (uma confissão dos pecados que possamos ter cometido, consciente ou inconscientemente, no decorrer do ano), onde toda a comunidade de Israel, juntamente, implora o perdão a Deus.

A última parte do cerimonial de Yom Kipur chama-se Neilá, que consiste na oração de encerramento. Nesta parte final intercala-se o toque do Shofar, soado em lembrança do que ocorreu na outorga da Torá (Êx.19:13), com o Shemá Israel, que é recitado em meio à oração: “Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR” (Dt.6:4).

Sendo, como é, “O Sábado dos Sábados”, Yom Kipur se despede também com uma Havdalá, cerimônia com que se finaliza a celebração do sábado [Yom Kipur] em louvor a Deus por ter diferenciado entre a santidade do dia do sábado e os dias da semana. Com o encerramento do Yom kipur devemos comer, beber e nos alegrar, pois está mencionado: “Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe com coração contente o teu vinho, pois já Deus se agrada das tuas obras” (Ec.9:7).

Mas, sem o Templo, como fica a expiação?

Desde o ano 70 D.C., os judeus estão sem o templo de Jerusalém e, portanto, impossibilitados de realizar os sacrifícios.

Os rabinos ensinam que: o arrependimento e restituição; a orações de confissão e pedido de perdão, Slichoth (perdões), feitas à noite; ofertas de caridade; jejuns; o sofrimento da própria pessoa ou a própria morte; o estudo da Torá ou Talmud; e a Kaparot (expiações) poderiam levar ao perdão divino.

Contudo, sabemos que todas essas coisas não podem substituir a falta do sangue expiatório, em face do que está escrito em Hebreus 9:22: “E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão” (conf. Lv.4:20).

Jesus e o Yom Kipur

Identificando o Messias na Festa do Yom Kipur: “Porque tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam” (Hb.10:1).

No Yom Kipur tudo é executado pelo sumo-sacerdote. Jesus é o Sumo-Sacerdote, que realizou o Kipur Eterno, não segundo a ordem de Arão, mas sob uma ordem superior, a de Melquisedeque: “Jurou o SENHOR, e não se arrependerá: tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque” (Salmo 110:4 comparar com Hebreus 7:13-17).

O bode sacrificado representa aquele aspecto da morte do Messias que vindica a santidade e a justiça de Deus: “Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” (Hb.10:10).

O bode emissário aponta para o Cristo de Deus que recebe os pecados sobre si: “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” (1Pe.2:24 cf. Is.53:6). E que levou os pecados para o abismo do esquecimento: “Tornará a apiedar-se de nós; sujeitará as nossas iniquidades, e tu lançarás todos os seus pecados nas profundezas do mar” (Mq.7:19; cf. Is.43:25).

O sumo-sacerdote entrando no Santo dos Santos é um tipo de Cristo entrando no santuário celestial: “Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção” (Hb.9:11-12; cf. v.24).

Jesus Cristo como sumo-sacerdote também é a oferta para a expiação do pecado, o qual triunfou sobre a morte para nos dar a vida eterna: “Assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação” (Hb.9:28).

O Yom Kipur e o cristão

O Yom Kipur realizado pelo Messias – Jesus – abriu o caminho do trono de Deus para o fiel: “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne,” (Hb.10:19-20).

Assim como fomo perdoados por Deus em Cristo, devemos perdoar: “Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Ef.4:32).

Perdão é uma demonstração de amor: “Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama” (Lc.7:47).

Após a “angústia de Jacó” (Jr.30:7) haverá redenção, perdão para Israel: “E farei passar esta terceira parte pelo fogo, e a purificarei, como se purifica a prata, e a provarei, como se prova o ouro. Ela invocará o meu nome, e eu a ouvirei; direi: É meu povo; e ela dirá: O SENHOR é o meu Deus” (Zc.13:9).

O dia do Yom Kipur foi realizado na cruz do Calvário, através do sacrifício vicário do Senhor Jesus, o Filho de Deus, e em virtudo disso todos os judeus e gentios podem ter o Perdão Eterno.

Pastor Batista, Diretor dos Amigos de Sião, Mestre em Letras - Estudos Judaicos (USP).

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