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Opinião

Vidas negras importam. Algumas importam mais que outras?

Os atos de violência pela morte de alguns e o desprezo pela morte de outros revelam a hipocrisia dos movimentos negros.

Amanda Rocha

em

Dorn, Floyd, Miguel, Fabiana e Marielle (Reprodução)

Desde que o marxismo moldou-se às questões culturais e buscou repartir a sociedade nas mais antagônicas divisões, necessita de conflitos para subsistir. Em todo o mundo, grupos de esquerda usurparam as mais variadas reivindicações, muitas delas válidas, como é o caso do combate ao racismo.

A pauta da vez, em diversas mídias sociais e de toda a imprensa é o racismo, um mal que assola a humanidade há muitos anos. Embora antigo, as leis que punem os praticantes e buscam defender as vítimas desse crime horrendo são recentes. A discussão é importante, todavia, o grande impacto negativo dela é sua utilização política.

Sem fim em si mesmo, sem o interesse de fato no crime abjeto que provoca perplexidade, mas unicamente para promoção de ideologias coletivistas que tentam construir de forma ofusca o imaginário social. E nesse ínterim acabam por assegurar a manutenção das práticas de discriminação e segregação a tolhê-las, visto que, esse não é seu objetivo.

A retomada do racismo como pauta enfática é resultado do assassinato cruel de George Floyd, aos vinte e cinco de maio, em Mineápolis, Minnesota, nos Estados Unidos da América, pelo policial Derek Chauvin. O policial produziu uma cena de terror que replicou protestos em diversas partes do mundo ao exibir desprezo e tranquilidade. Certo da impunidade, descansava suas mãos nos bolsos enquanto seus joelhos cravavam o pescoço do ex-segurança.

“Eu não consigo respirar”, as últimas palavras que continuam a ecoar. Não é possível digerir essa cena; de igual modo, as promovidas pelos grupos que dizem reivindicar o fim do racismo. Essas não se mostram menos cruéis.

A onda de protesto inundou diversas partes dos EUA. O contraditório é que o mesmo grupo que diz estar nas ruas para clamar pelo fim das desigualdades raciais, promove atos de vandalismo e violência contra patrimônios públicos e privados, além de agredir e assassinar outros negros. David Dorn, 77 anos, capitão aposentado, casado com Ann Marie, foi brutalmente assassinado por “protestantes” que tentavam invadir uma casa de penhores que pertence a um amigo de Dorn, na cidade de Saint Louis, Missouri.

O que estarrece brutalmente é que a morte de Dorn não provocou a mesma indignação que a de Floyd. O questionamento fica a cargo do slogan: “Vidas negras importam?”. Todas as vidas negras importam para o movimento negro, ou apenas aquelas que servem bem aos seus intentos ideológicos?

Frise-se que o policial assassino de Floyd é qualificado em todas, ou ao menos na maioria das reportagens da grande mídia, como branco. Esse qualificador enfatiza a necessidade desses grupos de repartir a sociedade entre brancos e negros, como se o fato de alguém ser branco já carregasse em si a perversidade e compulsão por agredir e matar outro ser humano por questões raciais.

Será que todos os brancos devem sentir-se mal por assim ser, sua cor já constitui uma agressão em si? E quanto aos assassinos de Dorn, os antirracistas negros, nesse caso, não há problema? Tudo não passa de um imenso contrassenso. São os interesses puros e simplesmente de perpetuar antagonismos sociais e gerar o caos.

Não querendo quedar-se distante do debate da moda, o movimento negro no Brasil (entenda-se que esse não é homogêneo e tão pouco linear, refiro-me aos grupos de esquerda que se autoproclamam combatentes do racismo, mas, na prática vê-se a imposição de uma segregação às avessas e a reivindicação de privilégios) tratou de encontrar novos casos pelas terras do canarinho para logo impor o indicador de um país racista.

O caso do garoto Miguel Otávio, no Recife – filho de Mirtes de Souza, empregada doméstica que trabalhava na casa do prefeito da cidade de Tamandaré, Sérgio Hacker, e da primeira-dama, Sari Corte Real – é trágico, de causar mal-estar. Não há um pai, mãe, irmão, tio, enfim, alguém que não tenha relacionado a si algo similar ao ler ou ouvir a notícia da morte do garoto. Causa náusea e arrepios, é apavorante.

A narrativa dessa história enfatizou, no mínimo, dois pontos: que o isolamento social é uma farsa e que o judiciário brasileiro nem sempre é capaz de promover justiça.

A vida do garoto não vale os R$20.000 (vinte mil reais) da fiança da patroa para manter-se em liberdade. Dinheiro pago, por certo, sem nenhuma dificuldade pelos patrões da mãe que agora chora a dor incomensurável provocada pela morte de um filho, cuja vida não pode jamais estabelecer cifras. O que todos aguardam é uma devida punição pela negligência dessa mulher.

Inconvenientemente, o caso tem sido deturpado para fins de lutas raciais. Buscam imputar a Sari o crime de racismo. Será que por julgá-lo superior ao de assumir o risco pela morte de alguém? Ficam nítidos os intentos sem escrúpulos dos “defensores raciais” que deturparão toda e qualquer realidade para embasar as insanidades que acastelam.

Recentemente, a morte da cantora Fabiana Anastácia decorrente da covid-19 resultou em ataques nas redes sociais; debocharam de sua fé e de sua morte trágica. Embora ela fosse negra, nenhum repúdio foi proclamado pelo movimento que se diz defensor dos negros. Atitudes ou negligências dessa estirpe não são incomuns, sobretudo, quando os negros vitimados são policiais ou declaradamente adeptos de filosofias contrárias à esquerda. O que se percebe é a seletividade da indignação.

Diferentemente de Marielle Franco, que se tornou nome de Rua em Caruaru, Pernambuco e de jardim em Paris, França, e ícone no combate a violência contra os negros, Juliane dos Santos Duarte, apesar de ser negra, lésbica e periférica, era policial, logo, seu rosto e nome não estão estampados nas bandeiras dos movimentos negros.

Apesar de ter sido raptada e brutalmente assassinada por criminosos na comunidade de Paraisópolis. Não houve protestos contra os criminosos; gritos de Juliane, presente; assassinos na cadeia; pneus queimados; nem palavras de ordem.

Há uma horrenda escolha. Alguns negros parecem valer mais que outros para os antirracistas que imputam aos Brasil o rótulo de país racista. Entenda-se que existe sim, o racismo no Brasil, mas isso não significa que ele seja um país racista. Não há um pensamento predominantemente racista, grupos, leis ou atividades ideológicas que executem sistematicamente essa prática. Tanto não há, que precisaram criar as teses do racismo psicológico, para alegar que ele ocorre no inconsciente; é uma ideia, uma mentalidade.

Um dos primeiros mitos que criaram foi a irrefutabilidade dos dados e opiniões do movimento negro no Brasil. Não se pode dizer ou questionar algo que induza a uma opinião divergente ao movimento. Quem ousa fazê-lo deve estar pronto para receber o rótulo de racista, ainda que jamais tenha praticado algum ato assombroso como esse. A livre manifestação do pensamento é um direito apenas quando em conformidade com os movimentos raciais (ou de esquerda, em geral). A discordância, pensam eles, deve constituir-se em um crime.

Ainda nesta semana estive em um supermercado de atacado de minha cidade e presenciei uma cena estúpida, estapafúrdia: um senhor negro (importante, neste caso, citar a raça, para que se compreenda o contexto) que estava no mercado decidiu passar com um produto antes de pagá-lo e se dirigir até o caixa eletrônico que fica após os caixas do mercado. Obviamente, a atendente acionou o segurança que pediu para o senhor e a senhora (parda), que o acompanhava, irem até o gerente a fim de sanar o infortúnio.

A senhora, em total descontrole, gritava dizendo que só fizeram aquilo pelo fato de o senhor ser negro. O discurso vitimista enraizou-se como uma epidemia e reproduz cenas esdrúxulas como essa. Não importa a cor, não se poder sair com a mercadoria antes de pagá-la. Seria a cor preta um novo excludente de ilicitude, uma moeda ou cartão de crédito? Esses movimentos distorceram a realidade a tal ponto que se chega a banalizar os atos reais de discriminação ou racismo.

É triste verificar como esses grupos corroem as verdades; tomam por heróis indivíduos que jamais pelearam pela igualdade racial e ignoram nomes marcantes que destemidamente primaram pela liberdade e igualdade. Exemplificando: puseram ao ostracismo Luiz Gama e acataram Zumbi dos Palmares como ícone.

O primeiro, advogado, descendente de escravos, abolicionista que conquistou a liberdade de ao menos 500 negros durante a vigência do trabalho escravo no Brasil; o segundo, conforme o escritor Leandro Narloch, “mandava capturar escravos de fazendas vizinhas para que eles trabalhassem forçados no Quilombo dos Palmares. Também sequestrava mulheres […] e executava aqueles que quisessem fugir do quilombo”. Esses mitos lendários e fantasiosos são mais um ponto destoante desse movimento tão enigmático e confuso.

Não bastassem essas discussões, seus líderes associam a luta racial ao “direito” de assassinarem bebês (abortar) e a legalização do uso recreativo de drogas, hoje ilícitas.

Representantes na Câmara dos Deputados, figuras como a Marielle Franco, e tantos documentos e discursos deixam evidente esse fim. Como costuma afirmar o professor Paulo Cruz, o movimento espreme os números até que demonstrem o que eles querem.

Assim, como muitas mulheres negras morrem ao praticarem o crime de aborto, esse deve ser descriminalizado, ou o fato de muitos negros estarem envolvidos com o uso de drogas, elas devem ser legalizadas para que a população negra não sofra. Como percebem, não tratam do problema de fato, mas ampliam-no.

Martin Luther King Jr. foi um nome relevante para a luta pelo fim da segregação racial, não apenas nos EUA, mas para todo o mundo. Certa vez ele afirmou: “Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio”, infelizmente, se vivo, o pastor atestaria que foi justamente nessa taça da amargura e do ódio que seus sucessores se embriagaram.

Vidas negras, brancas, amarelas, indígenas, enfim, vidas importam. Assim como Martin Luther King, também tenhamos todos a “audácia de acreditar que os povos em todos os lugares podem fazer três refeições por dia para seus corpos, ter educação e cultura para suas mentes e dignidade, igualdade e liberdade para seus espíritos”.

Serva do Cristo Vivo, é casada com Diógenes Rocha e mãe de Adonai e Maria Júlia. Amante da literatura, é escritora. Formada em Letras, pós-graduada em Linguística. Servidora pública como professora do Estado de Pernambuco.

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