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Estudos Bíblicos

Todos os enfermos devem ser ungidos com óleo?

O azeite ou unguento não vai “reforçar” a Obra que Cristo já cumpriu na cruz do Calvário, seu sacrifício foi completo

Armando Taranto Neto

em

Poussin's Seven Sacraments - Extrema unção (Reprodução)

“Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor” (Tiago 5.14 ACF)

ἀσθενεῖ τις ἐν ὑμῖν; προσκαλεσάσθω τοὺς πρεσβυτέρους τῆς ἐκκλησίας, καὶ προσευξάσθωσαν ἐπ’ αὐτὸν ἀλείψαντες ἐλαίῳ ἐν τῷ ὀνόματι τοῦ Κυρίου.” (NT Grego Nestle) (Grifo meu)

A palavra grega que foi usada por Tiago para definir “unção” é ἀλείψαντες” (Aleipsantes).

       “ἀλείψαντες” é o verbo “ἀλείφω” (Aleifo = Massagear, esfregar, esfregar-se com óleo, unguento ou outra substância gordurosa, untar ou friccionar com perfumes ou substâncias aromáticas) no tempo aoristo, particípio, ativo, nominativo, masculino e plural.

Concordância de Strong

  • Aleifo: Eu unjo
  • Palavra original: ἀλείφω
  • Definição: Unção: festiva, em homenagem, medicinal ou na unção dos mortos.

Aleíphō – corretamente, para esfregar ou manchar o azeite no corpo. 218 (aleíphō) é o termo comum usado para ungir fisicamente o corpo com óleo (de oliva). A unção trouxe cura e alívio e, portanto, tornou-se sinônimo de alegria (festividade).

“Unção” (218 / aleíphō) geralmente aplicava azeite no rosto, para refrescar um hóspede. O óleo também foi aplicado nos pés para acalmar e mostrar honra (cortesia, respeito). A unção compartilha um “conforto penetrante” para transmitir força e cura (alegria).

Existe uma outra palavra grega que sempre é utilizada em um sentido espiritual da unção, como no caso de Jesus que é o “Ungido” de Deus. É o termo Χριω”  (Chrio) de onde se deriva a palavra “Χριστός” (Cristos = Cristo = Ungido) Jesus Cristo o Ungido de Deus.

Sendo assim, o primeiro vernáculo ἀλείφω” (Aleifo) significa uma ação rotineira e, assim, completamente esvaziada de qualquer conotação espiritual ou religiosa. Já a segunda, “Χριω” (Chrio), se traduz como uma consagração, uma ação espiritual da parte de Deus.

Tiago 5.14 se trata de “ἀλείφω” (Aleifo) e não “Χριω” (Chrio).

Fazendo uma análise mais ampla do contexto de Tiago 5.14 veremos:

“Está alguém dentre vós aflito? Ore, está alguém contente? Cante louvores. Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor; (15) E a oração da fé salvará o doente (Veja que é a oração de fé que salva o doente e não o óleo) e o Senhor o levantará (É o Senhor quem levanta o doente e não o óleo); e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. (Não é o óleo que perdoa os pecados, mas a oração de fé) (16) Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis. A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos.”

Perceba que a tônica do texto faz ênfase à oração. E este é a temática levantada por Tiago em toda a sua epístola. Não há margem para se criar, à partir desta perícope, um herético ritual místico ou mágico, pois isto colocaria toda a carta sob suspeita.

Foi a interpretação equivocada deste mesmo texto que deu origem à “Extrema Unção” aplicada nos moribundos que estavam em seus últimos suspiros de vida, como nos informa o Centro Apologético Cristão de Pesquisa (CACP):

“A partir da reforma carolíngia, a administração do óleo consagrado, ou bento, ficou reservada exclusivamente aos sacerdotes (bispos e presbíteros). Segundo os Statuta Bonifacii, do começo do século IX, os sacerdotes devem, em suas viagens, levar sempre consigo a eucaristia e o “santo óleo”; e lhes é proibido sob pena de deposição confiar aos leigos o “santo óleo”.

Neste ponto a igreja de Roma muda sua concepção do sacramento:

  1. De unção de enfermos passou a ser unção de moribundos (extrema-unção);
  2. Da consagração do óleo passou a ser a administração da unção;
  3. De sacramento com efeitos corporais passou a ser sacramento com efeitos espirituais;
  4. De sacramento autônomo passou a estar unido à penitência;
  5. A teologia escolástica do século XIII já herdara uma situação de fato: o ministro da unção é o sacerdote, o mesmo da penitência.

Deste panorama, tem-se o que hoje é entendido por unção dos enfermos. Uma ação de transferência de poder do sacerdote para o óleo e deste para o enfermo, “trazendo a cura”.

Nada mais que uma ação de misticismo e feitiçaria, completamente destacada do contexto e do entendimento bíblicos, ação está criada por séries de heresias e deturpações históricas, tanto no que se refere ao papel da igreja, quando no que se refere ao papel do ministro da igreja, o seu pastor.

Chegamos, então, às seguintes conclusões:

  • A unção de enfermos não é um sacramento;
  • O azeite ou unguento não vai “reforçar” a Obra que Cristo já cumpriu na cruz do Calvário, seu sacrifício foi completo. Qualquer objeto, líquido, etc, que se insira como aditivo diminui o valor da redenção eterna do Cordeiro;
  • Se o doente solicitar que se ore por uma enfermidade de inchaço, torção de membros ou outra qualquer que, o mesmo se sinta bem, sendo cuidadosamente massageado o local (“ἀλείφω” Aleifo) que se faça, desde que observadas todas as conveniências e a não exposição ao escândalo.
  • O óleo, como já citado acima, não possui nenhum poder sobrenatural, além de seu poder medicamentoso, como no caso de um unguento para massagem. O poder está na oração de fé feita ao Senhor e a respectiva Graça do Pai ao atender as súplicas;
  • O óleo, no texto de Tiago, não representa o Espírito Santo, nem Sua ação, pois esta interpretação se chocaria com todas as instruções apostólicas. A unção que está intimamente ligada ao Espírito Santo é recebida no momento de nossa conversão, quando cremos em Cristo, somos batizados e estamos, assim, selados para o dia da nossa Redenção;
  • Jesus, ao citar o poder que a Igreja receberia depois de Sua ascensão, não faz menção a unção com óleo para curar enfermos:

“E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão“. (Marcos 16:17,18 – grifo meu)

Como se vê, muito mais importante do que uma substância, seja azeite ou unguento no processo, é a presença do Espirito Santo e da fé, tanto na vida daquele que ora como naquele que está enfermo.

“E vós tendes a unção do Santo, e sabeis tudo” (1 Jo 2.20)

Todos aqueles que já foram ungidos com o Espírito Santo não tem necessidade de qualquer outra unção em nenhum momento mais de suas vidas.

O Senhor nos dê saúde em nome de Jesus.

Graduado em Teologia. Pós-graduado em Teologia Bíblica. Mestre em Sociologia da Religião. Doutorando em Teologia.

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