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estudos bíblicos

Simão, o Zelote, um “ex-terrorista” discípulo de Jesus

Terrorista bom, não é terrorista morto, mas convertido.

Armando Taranto Neto

em

Simão, o Zelote (Reprodução)

Simão era simpatizante atuante à causa dos Zelotes, uma seita judaica com viés libertário e nacionalista que trouxe muitas dificuldades e ódio aos romanos. Muitos dos partidários faziam uso da força e violência, incluindo crimes de homicídio, pois entendiam que os fins justificavam os meios.

Alguns deles andavam armados com uma faca pontiaguda, a “Siica”, e usavam-na em assassinatos pontuais. Os Zelotes Sicários eram a personificação do terror e medo para os romanos.

Todo Zelote era um terrorista na perspectiva de um soldado romano.

Segundo a Infopédia, terrorista significa:

“1. relativo à prática do terrorismo; 2. que recorre à violência como meio de coação para fazer impor determinados objetivos, geralmente políticos; 3. figurado que espalha boatos alarmantes; 4. pessoa que é adepta do terrorismo; 5. membro de uma organização que recorre à violência para fazer impor determinados objetivos, geralmente políticos; 6. Figurado: pessoa que espalha boatos alarmantes.” (Grifo meu)

É desconhecida a origem de Simão Zelote.

Dentre as muitas lendas cristãs dos primeiros séculos existe uma que narra que Simão, em sua infância, acompanhava os pastores que receberam a anunciação do nascimento de Cristo pelo anjo, nas proximidades da cidade de Belém (Lc 2.8-20). As únicas passagens que relatam o personagem são (Mt 10.2-4, Mc 3-16-19, Lc 6.13-16 e At 1.13) sendo tudo o que biblicamente se sabe de Simão.

No Evangelho apócrifo dos Ebionitas, que também é chamado de o “O Evangelho dos Doze Apóstolos (séc. II)”, insinua que Simão Zelote fora arregimentado para ser discípulo junto com Pedro, Tiago, João e André (Mt 4.18-22), nas proximidades do Mar da Galiléia.

Simão é chamado de cananita, (do grego Kanaios)  em algumas traduções, tais como a King James Version em Mt 10.4 e Mc 3.18. O kanaios, não significa que ele era oriundo de Canaã, como possa se presumir à primeira vista, mas o termo provém do aramaico Qannâ, que significa : aquele que tem ciúmes, zelo em excesso. Lucas, por outro lado, optou em chamá-lo de Zelote (Lc 6.15), designativo que com frequência o apóstolo passa a ser identificado.

O uso do termo Zelote (zeloso, ardoroso, fervoroso), ou seu correspondente kanaios, uma vez aplicado a Simão, pode ter três significados:

  1. Seu ardoroso zelo e devoção pelas tradições judaicas;
  2. Seu grande empenho como um aprendiz de Jesus;
  3. Sua militância ativa e radical de resistência no partido dos Zelotes.

Fiquemos com a primeira e a terceira hipóteses.

Mas quem eram os Zelotes?

Talvez o partido dos Zelotes tenha se originado nas ideias revolucionárias do Galileu Judas. Este foi o líder de uma revolta no ano 6 d.C. quando Roma quis anexar e subjugar Judá diretamente ao império. Os partidários não aceitavam de forma alguma  o pagamento de impostos às nações estrangeiras, muito menos a imposição de um governante pagão sobre eles.

Acreditavam e defendiam que o governo de Israel era uma Teocracia (sistema de governo em que o poder político se encontra fundamentado no poder religioso, pela encarnação da divindade no governante, como no Egito dos faraós, ou por sua escolha direta, como nas monarquias absolutas) e, assim, Israel deveria ser dedicada a Jeová. Uma submissão aos romanos significaria trair ao Senhor.

Eles faziam parte de uma seita judaica muito radical com viés político. Defendiam a luta armada contra os romanos e aguardavam um messias guerreiro. Eram devotos ao extremo com relação à Palavra de Deus, crendo que, para defendê-la, deveriam chegar até mesmo a matar.

Para este grupo ver os Judeus sob dominação dos romanos era uma situação que não poderia ser aceita e muito menos tolerada. E mais, Israel era a nação escolhida de Jeová e os romanos não criam nEle, sendo assim estes gentios abomináveis deveriam ser expulsos da Terra Santa, a ferro, por violência e força.

Os zelotes foram responsáveis por inúmeras rebeliões violentas contra o estabelecido Império Romano por aproximadamente cem anos. Todas foram frustradas. A maior delas, sem sombra de dúvidas (está registrado no livro de Flavio Josefo “Guerras Judaicas”), foi aquela que resultou na tomada e destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C., tal qual profetizado por Jesus em Marcos 13.1-2:

“E, saindo ele do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Mestre, olha que pedras, e que edifícios! E, respondendo Jesus, disse-lhe: Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada.”

E em 73 d.C na fortaleza de Massada:

“(…) sob comando do Zelote Bem Yair, decidiram, em abril de 73 A.D., pelo suicídio coletivo, ante a possibilidade de cair em mãos inimigas. Conta Josefo que, lançando sorte entre si, os zelotes escolheram dez varões cuja incumbência era a difícil tarefa de traspassar os outros quase novecentos compatriotas. Duas mulheres e cinco crianças, escondidas nos armazéns, foram os únicos sobreviventes desse episódio que, por sua magnitude, despertou, mesmo nos romanos, um sentimento de admiração pela bravura com que seus protagonistas encararam a luta pela liberdade. (…)”

Agora que já temos uma noção do “Modus Vivendi” e do “Modus Operandi” (Maneira de viver e de agir) de um Zelote podemos fazer a pergunta:

  • Como Jesus resolve escolher para ser um discípulo alguém no perfil de Simão, o Zelote? (Não confunda com Simão Pedro, o pescador)
  • Como pode Jesus arregimentar para ser um daqueles que levariam a Palavra de amor e perdão ao mundo uma pessoa que não conhecia outra coisa senão o ódio e a vingança?

Quanto mais tempo passamos na escola do Senhor mais vamos compreender que não foi por nossos méritos que fomos salvos, muito menos por obras de justiça que alcançamos o amor do Pai, mas por Sua bendita misericórdia e Seu Favor Imerecido, a Graça.

Outro detalhe interessante é que os Zelotes eram inimigos mortais dos Publicanos Cobradores de impostos (Os Publicanos eram judeus que se aliavam aos romanos para extorquir de seus conterrâneos. Além de cobrarem os impostos aviltantes aproveitavam para roubar dos seus compatriotas, por este motivo eram detestáveis pela nação, principalmente pelos Zelotes) e à partir do momento que Simão aceita andar com Jesus teria que conviver com Mateus, um ex Publicano. O Evangelho tem este poder de pacificar e perdoar.

O pastor Inglês John D. Jones faz uma interessante aplicação, com alguns acréscimos imaginários (op. cit, p.l 14-115):

“A presença de Simão Zelote, o feroz e indomável patriota, na lista dos apóstolos é uma bela ilustração do poder reconciliador de Jesus Cristo. Uma das marcas do reino de Cristo é exatamente a reconciliação. Isaías, antevendo este reino, revelou a solução de velhos antagonismos e a abolição das mais inveteradas inimizades. ‘Morará o lobo com o cordeiro’ – escreveu ele em sua belíssima e poética linguagem -‘ e o leopardo com o cordeiro se deitará; o bezerro, o filho do leão e o animal cevado viverão juntos e um pequeno menino os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, seus filhos lado a lado se deitarão e o leão comerá palha com o boi. Brincará a criança de peito sobre a toca da áspide e o desmamado meterá a mão na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o monte da minha santidade…'(Is 11.6-9a). O vaticínio do profeta não constitui uma falsa visão. No reino de Cristo todas as porfias hão de ser abolidas.

Na primeira companhia de discípulos reunidos ao redor do Mestre, no próprio círculo de seus apóstolos, pode-se perceber o cumprimento desta profecia. Ali, vê-se o lobo habitando junto ao cordeiro, assim como o leopardo repousando junto à criança. Na lista dos doze, encontram-se os nomes de dois discípulos que outrora, sempre prontos para a luta, odiavam-se mutuamente com ódio feroz e amargo, até que Jesus, atraindo-os para Si, atraiu-os um ao outro. Estes dois homens eram Mateus, o publicano, e Simão, o zelote. O primeiro, agente pago pelo poder romano e o segundo, seu devoto adversário.

Mateus, o covarde judeu, instrumento do opressor, e Simão, o turbulento e selvagem patriota. Simão e Mateus cresceram juntos e foram amigos nos dias de sua juventude. É possível que fossem aparentados. Entretanto, quando Mateus se veste com o uniforme romano, interrompe-se aquela amizade. A união transforma-se num ódio amargo. Simão considera Mateus um traidor e (…) vê-se pronto a afundar sua adaga no coração falso e traiçoeiro de Mateus. Se algum dia houve uma inimizade incorrigível e irreconciliável, esta foi a de Simão Zelote e do publicano Mateus. Mas, aqui estão ambos, lado a lado, não mais estrangeiros, muito menos estranhos um ao outro, antes amigos e irmãos. Eis que Mateus e Simão foram reconciliados em Jesus Cristo.”

O Evangelho de Jesus Cristo é acolhedor, tem lugar para todos.

Na visão de Jesus: “Terrorista bom, não é terrorista morto”, mas convertido, com uma nova vida, lavado e remido em Seu Santo Sangue que foi vertido no Calvário.

Que o Senhor nos abençoe.

Graduado em Teologia. Pós-graduado em Teologia Bíblica. Mestre em Sociologia da Religião. Doutorando em Teologia.

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