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Opinião

Serviço social: breve reflexão sobre a atuação do Estado e da Igreja

O serviço social realizado pela Igreja, além da satisfação imediata da necessidade, sugere ao necessitado a possibilidade de mudança de vida.

Jocinei Godoy

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Menino. (Photo by Ben White on Unsplash)

O serviço social possui desdobramentos diferentes a depender da instituição que o pratica. Em geral a ajuda que o Estado proporciona, sobretudo, na contemporaneidade, aos que estão em situações e condições miseráveis está mais voltada para a perpetuação da miséria tendo como moeda de troca o voto do miserável. Não que toda a ajuda estatal seja desta forma, mas, infelizmente, a realidade tem demonstrado que o modus operandi do Estado, principalmente, em nações emergentes ou subdesenvolvidas não foge disso.

Não me refiro apenas a miséria do ponto de vista econômico, mas de ordem existencial, ou seja, pessoas que encontram-se em condições deploráveis, em muitos casos, escravizadas por vícios de diversas naturezas. O que tem-se criado é uma relação de interdependência entre o Estado e o necessitado. O necessitado expressa sua “gratidão amarrada” ao votar no político que representa esta ajuda e, do outro lado, o Estado mantém a máquina assistencialista rodando, a fim de que este círculo vicioso se mantenha funcionando a todo vapor.

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Este é, de fato, o objetivo do assistencialismo: manter o status quo do necessitado, mas com uma aparência de que algo efetivo está sendo feito. É a velha história de apenas dar o peixe ao invés de, também, dar a vara e ensinar o necessitado a pegar o próprio peixe. É claro que para o necessitado pegar o próprio peixe, antes de tudo, ele precisa ter uma disposição interior orientada a este objetivo. Em outras palavras, ele precisa querer sair da situação de miséria. Esse querer geralmente é acompanhado de um esforço para que o atual estado de coisas comece a mudar. Ao lançar mão de oportunidades dadas, quem quer mudar de vida deve estar disposto a pagar o preço do esforço próprio.

Em relação ao serviço que a Igreja tem prestado à sociedade, a experiência que tenho tido e visto acerca disso, remete a compreensão de que o serviço praticado pela Igreja não se assenta em qualquer tipo de troca de ordem material. É claro que às vezes acontecem alguns equívocos por parte de pessoas no que concerne ao modo como este serviço é praticado. Nestes casos, a compreensão equivocada do Evangelho leva estes desavisados a querer enfiar goela abaixo a aceitação da sua religião por aqueles que recebem a ajuda.

Dito isso, quando a Igreja se propõe a ajudar alguém em situação de miséria, há algo mais do que uma simples satisfação imediata da necessidade em questão.  Ocorre não apenas a ajuda do ponto de vista material, mas, de ordem existencial que toca o cerne do problema encontrado.

A raiz do problema da miséria que acomete milhões de pessoas no mundo encontra-se na figura do pecado. Não digo aqui que o problema da miséria seja de total responsabilidade do miserável pecador, mas que o pecado tem sido, desde a queda adâmica, o principal elemento gerador de misérias e desgraças cujos efeitos estendem-se por toda a raça humana.

O serviço social realizado pela Igreja, além da satisfação imediata da necessidade, sugere ao necessitado a possibilidade de mudança de vida. Não uma mudança qualquer, mas uma transformação que é interior, operada pelo próprio Deus e assentida por aquele que se lança a tal mudança.

O miserável em todas as facetas de sua existência, a partir de um novo rumo e sentido conferido pela fé cristã, é incentivado por uma força interior proveniente do Espírito Santo a mudar de vida. O “imprestável” torna-se prestativo ao conseguir um emprego e contribuir com a sociedade da qual faz parte. O viciado abandona o vício que o aprisiona e passa a viver de modo a ser senhor de si. O assassino e o ladrão deixam a vida indigna para viver de cabeça erguida mesmo que, para isso, tenham que cumprir a pena imposta pelos homens em função de seus delitos cometidos. Por mais que sua “liberdade exterior” esteja, temporariamente, comprometida, sua alma encontra-se livre das amarras e do poder maligno do pecado.

É por isso que boa parte das pessoas que se encontram marginalizadas ou sob condições miseráveis, ao serem assistidas pela igreja, mudam de vida a partir deste novo e verdadeiro sentido conferido pela fé cristã. Sentido este que nenhuma filosofia materialista poderá conferir ao homem. A necessidade essencial do homem não é de ordem material, mas, espiritual. Isso não anula a ideia de que o pão que alimenta o espírito deva ser acompanhado do pão que enche o estômago.

Sendo assim, partindo do pressuposto de que o Estado se assenta em filosofias de ordem materialista para realizar suas ações, ele não pode resolver cabalmente o problema humano da miséria cuja raiz, como dita acima, reside na própria noção do pecado. Se por um lado a base do Estado para a realização de serviços sociais é imanente e materialista, por outro, a base da Igreja reside no ideal cristão de amor ao próximo, cujo exemplo e expressão máximos são encontrados na cruz de Cristo.

O Estado continua tendo um papel importante de assistir o necessitado, porém, tal assistência sempre será parcial, além de jamais poder satisfazer a principal necessidade humana que somente Deus em Cristo poderá fazê-lo.

PS.: O termo “serviço social” é aqui tomado enquanto ação ligada à ideia do serviço cristão. Entretanto, sabe-se que “Serviço Social” é o título do curso de nível superior para formação do Assistente Social, cuja profissão é regulamentada pela Lei 8.662/1993.

Apologista cristão por vocação, seminarista no Seminário Teológico Batista Independente - Campinas-SP. Formado em Gestão Ambiental e Sócio da Evolução Consultoria. Casado e pai de dois filhos.

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