Siga-nos!

estudos bíblicos

Resgate da alma pastoral

Uma homenagem ao Dia do Pastor.

Alexandre Dutra

em

Pastor sentado no púlpito da igreja. (Ben White / Unsplash)

Existem basicamente duas demandas no ministério pastoral: a congregação e a vocação. Elas são fontes de alegria e realização ou dor e frustração, e, às vezes, as duas ao mesmo tempo. É o que eu chamaria de paradoxo eclesiástico.

Por uma questão de tempo e foco deixaremos de fora a família, sem, contudo, ignorar sua grande e essencial importância na vida do pastor.

A congregação diz respeito às pessoas que devemos pastorear; enquanto a vocação fala do pastor, seu chamado, vida espiritual e cuidado pessoal.

A congregação – o mito da igreja perfeita

“Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós” (1 Pedro 5.2a)

Para Eugene Peterson “qualquer pessoa que idealize a congregação presta um desserviço aos pastores. Ouvimos história de igrejas entusiásticas e cheias de charme e nos perguntamos o que estamos fazendo de errado, pois nossa congregação não tem nada a ver com isso como resultado de nossa pregação. Contudo, se examinarmos de perto, não existe uma congregação perfeita. Permaneça em um templo por algum tempo e você descobrirá fofocas intermináveis, equipamentos que não funcionam, discípulos que desistiram, corais que desafinam – e coisas piores. Toda congregação é uma congregação de pecadores. Se isso não fosse ruim o bastante, todas elas têm pecadores como pastores”.[1]

Não existe igreja perfeita, pelo simples fato de que não somos perfeitos.

Nossos ouvintes

Há, nos bancos de nossas igrejas, ouvintes de vários tipos: os distraídos; os que esperam novidades mirabolantes; os que buscam alívio mágico para suas dores; os que querem sentir; os que precisam saber e aqueles que têm fome e sede de Deus.

Por isso, o desafio do apóstolo Paulo ao jovem pastor Timóteo continua o mesmo “Que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2 Timóteo 4.2-4).

Em nossas igrejas também encontramos muitos que no fundo, bem lá no fundo, estão atrás de ídolos, não de ouro ou prata e sim ídolos do coração. Que substituam o Deus vivo pelo deus do consumo, da realização, da satisfação.

Para o pastor Peterson elas:

“Entram em nossas igrejas com a mesma mentalidade que vão ao shopping, para comprar algo que satisfaça um apetite ou desejo (…) e veem o pastor como o responsável pelo controle de qualidade da fábrica”.

Eugene continua dizendo:

“As pessoas que se reúnem em nossas congregações querem ajuda numa hora de dificuldade; querem um sentido e significado para as empreitadas da vida. Elas querem Deus, de certa forma, mas não certamente um ‘Deus zeloso’ (…). Em geral, querem ser seus próprios deuses e ter o controle, mas precisam de ídolos assistentes para as horas difíceis, e é o pastor que lhes mostra como fazer isso”.[2]

Toda essa rotina, dinâmica e exigências da igreja provocam gemido de dor em nossa alma pastoral.

Nosso trabalho como pastor é tirar os ídolos dos corações e não arrancar as pessoas da congregação como ervas daninhas. Pois a congregação não é nossa inimiga, e sim a fonte e meio pelo qual Cristo nos faz crescer.

Nosso trabalho é tirar os falsos deuses e colocar no lugar o único e verdadeiro Deus, o Senhor e Salvador Jesus Cristo. Esse é o grandioso trabalho do pastor.

“Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória” (1 Pedro 5.2-4).

A vocação

A vocação está revelada na pergunta do Senhor Jesus a Pedro: “amas-me mais do que estes?”. E a congregação está revelada na ordem do Senhor Jesus a Pedro: “apascenta as minhas ovelhas”.

A congregação diz respeito às pessoas que devemos cuidar, ensinar, discipular, pastorear; enquanto a vocação fala do obreiro, pastor, envolvendo seu chamado e sua vida espiritual.

O grande perigo no exercício do pastorado é confundirmos a nossa vontade com a vontade de Deus.  Em seu livro: A vocação espiritual do pastor, Eugene Peterson diz que

“É nesse contexto de sermos responsáveis, obedientes, que substituímos a vontade de Deus pela nossa vontade, porque é muito fácil achar que elas são idênticas. É quando tentamos ser pastores bons que temos a maior chance de desenvolver o húbris pastoral – orgulho, arrogância e insensibilidade”. [3] 

O orgulho também conhecido como síndrome de Lúcifer, pode vir enrustido em nossa dedicação ao trabalho de Deus, mas não com Deus. O que nos tornará em profissionais da religião e não mais pastores que velam pelas almas.

Se deixarmos o veneno da arrogância circular em nossas veias ministeriais, nos tornaremos manipuladores de pessoas e gerentes de uma empresa religiosa. Seremos qualquer coisa menos pastores a serem imitados e seguidos como encontramos em

“Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver” (Hebreus 13.17).                                                                                                    

A nossa luta contra a profissionalização da fé é vivermos nossa vocação:

  • através da graça de Deus, “E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza; de boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo” (2 Coríntios 12.9);
  • através do amor, beleza e santidade do ministério pastoral (Hebreus 13.20-21);
  • através da pregação da salvação, para o pastor Eugene, salvação é: “o desejo de Deus que toda criatura experimente o amor libertador, não é uma abstração casual e fria; é uma energia selvagem e extravagante, incapaz de ser reduzida ao controle humano, e atrelada a um emprego religioso.”[4];
  • através das práticas espirituais – oração e estudo da Palavra, tendo como modelo o mestre e sumo pastor Jesus Cristo, Senhor da Igreja.

Me permita ilustrar essa questão da vocação com a história de Chaim Potok, escritor judeu, descrita no livro do pastor Peterson: “ele queria ser escritor desde pequeno, mas, quando foi para a faculdade, sua mãe se aproximou dele e disse: “Chaim, eu sei que você quer ser escritor, mas eu tenho uma ideia melhor. Por que não ser um neurocirurgião? Você impedirá a morte de muitas pessoas; ganhará muito dinheiro”.

Chaim respondeu: “Não, mãe. Eu quero ser escritor”. Ele voltou para casa nas férias, e sua mãe falou-lhe novamente.

“Chaim, eu sei que você quer ser escritor, mas ouça sua mãe. Seja um neurocirurgião. Você impedirá a morte de muitas pessoas; ganhará muito dinheiro.” Chaim respondeu: “Não, mãe. Eu quero ser escritor.”

O diálogo foi repetido em todas as férias, todos os feriados, todos os reencontros: “Chaim, eu sei que você quer ser escritor, mas ouça sua mãe. Seja um neurocirurgião. Você impedirá a morte de muitas pessoas; ganhará muito dinheiro”.

Todas as vezes, Chaim respondia: “Não, mãe. Eu quero ser escritor”.

Com o tempo, o clima ficou tenso, a pressão se acumulou. Finalmente aconteceu a explosão.

“Chaim, você está perdendo seu tempo. Seja neurocirurgião. Você impedirá a morte de muitas pessoas; ganhará muito dinheiro.”

Esta explosão levou a outra explosão: “Mãe, eu não quero impedir que as pessoas morram; quero mostrar-lhes como viver!””[5]

O cuidado pastoral

O que nos faz gemer muitas vezes, como pastores, são os nossos pecados. “Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir.  Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça (Isaías 59.1-2).

Essa é a dura realidade, pecamos porque somos pecadores. Não se esqueça, não somos super heróis, somos pó. No máximo, vasos de barro nas mãos do oleiro. O profeta ainda clama: “Ai de mim! …sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios…” (Isaías 6.5).

O cuidado pessoal do pastor está revelado nas palavras de Paulo à Timóteo “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1 Timóteo 4.16). Ainda acrescentaria a sábia recomendação de Charles H. Spurgeon: “Tenha mais cuidado com você mesmo do que com os outros”.

Não podemos nos enganar, “carregamos nossos maiores inimigos dentro de nós mesmos” (Bruce Wilkinson). A Bíblia diz em 2 Coríntios 7.11 “Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus”. Como ministros de Cristo, não devemos esquecer o peso da responsabilidade e da glória que está sobre os nossos ombros.

[1] PETERSON, Eugene. A Vocação Espiritual do Pastor. Editora Mundo Cristão, 4ª impressão, São Paulo, 2009. p.27.
[2] Idem. p.81.
[3] Idem. p.38.
[4] Idem. p.69.
[5] Idem. p.51-52.

Pastor Batista, Diretor dos Amigos de Sião, Mestre em Letras - Estudos Judaicos (USP).

Trending