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Opinião

Quem são os palestinos?

Os novos filisteus em Israel

Alexandre Dutra

em

Jovem segura bandeira da Palestina. (Photo by Ahmed Abu Hameeda on Unsplash)

A identidade dos atuais palestinos tem ligação, tendo em vista o nome usado e a localização geográfica, com os povos da época bíblica chamados de filisteus, da região reconhecida biblicamente como Filístia.

O nome

Filisteus significa errantes, e ou forasteiros. O nome “filisteu” aparece na Bíblia em Gênesis 10:14 com a seguinte escrita: “pelishti”, ou com a forma plural “pelishtim”, sendo o território ocupado pelos filisteus chamado de Filístia (heb. Peleshet – שתפל), do qual deriva o nome Palestina (do latim: Palæstina), que na época romana envolvia toda a costa do Mediterrâneo, os territórios de Israel e da atual Jordânia.

Portanto, o termo Palestina se tornou a denominação histórica dada pelo Império Romano à região, a partir do nome hebraico bíblico Filístia.

A origem dos filisteus/palestinos

A origem da Filístia até hoje é incerta e se constitui em um mistério para a arqueologia.

Contudo os filisteus são mencionados: na Bíblia; nos registros ugaríticos de Ras Shamra; nas inscrições egípcias em baixo relevos em Medinet Hubu (Tebas), que relatam a vitória de Ramsés III, por ocasião da tentativa da invasão da coligação dos “Povos do Mar” sobre o Egito; nas inscrições de Merneptá, Ramsés II; nas cartas de Tel-el-Amarna (séc. XIV a.C.); em documentos assírios, de Tiglatpileser III; e nos documentos de Babilônia, que registram o recebimento de rações do governo (TOGNINI, 1978, p.24-25).

Aspecto geográfico

A região foi chamada de Filístia desde a conquista dos chamados “povos do mar”, provenientes de Creta, Chipre e de algumas ilhas do mar Egeu, que chegaram à planície da costa do mar Mediterrâneo em Canaã, conquistaram desde Jope até o Sul de Gaza e estabeleceram as seguintes cidades-estados com templo e rei: Gaza, Asquelom, Asdode, Gate e Ecrom (Josué 13:3).

Eram idólatras, tendo como divindade principal Dagom (Jz.16:23; 1Sm.5:5; 31:10; 1Cr.10:10), e eram temidos como guerreiros valentes e perigosos.

Na história

A presença dos povos do mar na costa mediterrânea de Canaã é antiga e permanente. Para Liverani: “esse movimento de, conotação marítima, passa pelo Mediterrâneo oriental, que tinha se tornado, há muito, parte das relações políticas e comerciais com as regiões do Oriente Próximo e do Egito” (LIVERANI, 2009, p.519-520), confirmando assim a antiguidade da presença dos povos do mar em Canaã e Egito.

Com a queda do império egípcio, que havia dominado a Palestina de meados do século XVI ao início do XII, as populações locais passaram por um período sem domínio estrangeiro e sem drenagem dos recursos para destinações externas.

Os filisteus ocuparam parte do vazio deixado pelos egípcios e procuraram estabelecer sua hegemonia sobre as demais cidades cananeias, conseguindo seu intento ao longo da costa e nos vales Yezre’el e médio Jordão (idem, p.542).

Na Bíblia

A primeira referência aos filisteus está em Gênesis 10:14: “A Patrusim e a Casluim (donde saíram os filisteus) e a Caftorim”, antes do estabelecimento por uma grande invasão de Canaã por volta do século XII a.C. Isto demonstra a presença dos filisteus na terra de Canaã, como aliados dos egípcios, que na época dominavam a região e tinha suas bases de avanço militar. O que possibilitou manter relação com os patriarcas desde então, como encontramos registrado no livro do Gênesis.

Na entrada da terra prometida, e do início de sua conquista, Deus proibiu os israelitas de irem pelo caminho da terra dos filisteus, que, por sinal, era mais curto, para não iniciarem um confronto militar com os temíveis guerreiros filisteus e, se arrependendo, tornarem ao Egito (Êx.13:17). Embora os limites da terra prometida inclui-se a terra dos filisteus, como encontramos em Josué 13:2-3: “A terra que ainda fica é esta: Todos os termos dos filisteus (…) cinco príncipes dos filisteus; o gazeu, e o asdodeu, o asqueloneu, o giteu, e o ecroneu, e os aveus”, não temos no período da conquista de Josué um embate direto com os filisteus.

No livro dos juízes somos informados que nações, entre elas os filisteus, foram deixadas em Canaã para treinar os israelitas na guerra, bem como prová-los na obediência aos mandamentos do Senhor (Jz.3:1-4).

Quando os israelitas se afastavam do Senhor em suas práticas morais e devoção religiosa, as nações que foram propositalmente deixadas na terra da promessa se insurgiam contra os filhos de Israel através da guerra, trazendo-os de volta ao Deus de seus pais com arrependimento e súplicas, o que levava o Senhor a levantar juízes guerreiros para libertarem o povo da opressão militar dos seus vizinhos, como um ciclo: afastamento – juízo – arrependimento – livramento. Temos como exemplo disso o caso de Sangar, que libertou Israel ferindo seiscentos filisteus com uma aguilhada de bois (Jz.3:31).

Contudo, o embate mais famoso, no período dos juízes, entre israelitas e filisteus envolveu Sansão, um dos juízes mais controvertidos de Israel. O texto em Juízes 13:1 diz: “E OS filhos de Israel tornaram a fazer o que era mau aos olhos do Senhor, e o Senhor os entregou na mão dos filisteus por quarenta anos”, e, logo em seguida, fala do nascimento miraculoso de Sansão, de sua condição de nazireu e de libertador de Israel do jugo dos filisteus (Jz.13:3,5). E, por fim, é registrado que no último ato heroico de Sansão, a destruição do templo de Dagom em Gaza, ele matou mais filisteus na sua morte do que os que matara em sua vida (Jz.16:30).

Porém, o grande golpe sobre os filisteus em Canaã foi dado durante o período da monarquia, pelo segundo rei de Israel, Davi. Na épica batalha de Socó, no vale do Carvalho, onde os exércitos estavam preparados para a guerra, na qual o gigante Golias afrontou os guerreiros de Israel e na qual surgiu a figura de Davi, o filho de Jessé. Por um destino divino, Davi enfrentou e venceu o gigante filisteu, e assim entrou para a família real de Saul (1Sm.17).

Depois da coroação de Davi, o seu maior teste como guerreiro de Deus foi deferir um golpe fatal contra os filisteus, reduzindo assim o país dos filisteus a uma pequena faixa de território na costa do mediterrâneo (2Sm.5:17-25). Depois de consecutivas vitórias, Davi finalmente subjugou os filisteus (2Sm.8:1).

A última referência bíblica aos filisteus foi pronunciada pelo profeta Zacarias, após o retorno de Judá do cativeiro babilônico. E depois disso, desapareceram para sempre, de modo tão misterioso quanto o seu aparecimento (idem, p.25), ou, por estarem tão reduzidos numericamente, se assimilaram as parcas tribos cananéias, conforme a profecia de Zacarias: “(…) rei de Gaza perecerá, e Ascalom não será habitada. E um bastardo habitará em Asdode, e exterminarei a soberba dos filisteus. (…) e ele também ficará como um remanescente para o nosso Deus; e será como governador em Judá, e Ecrom como um jebuseu” (Zacarias 9:5-7).

Todavia, a fama e o nome dos filisteus se mantiveram por séculos.

A entrada dos edomitas na equação

Outro povo que entra na equação, a fim de esclarecer a origem do atual povo palestino, é chamado biblicamente de edomita. Os edomitas são os descendentes de Edom, chamado de Esaú, o irmão gêmeo de Jacó, filho de Rebeca e Isaque.

O nome Edom (literalmente, “vermelho”), foi-lhe dado não por causa de sua tez e seus cabelos, mas por causa do cozinhado vermelho que Jacó preparava, pois, por um prato deste, Esaú vendeu o seu direito de primogenitura (Gn.25:30).

Passou a morar a sul de onde morava e foi chegando até o Monte Seir, onde permaneceu (Gn.32:3; 33:14 e 36:8). Seir era um alto e grande monte, inserido em uma pequena serra. Além de Seir, Edom, contava com vasto território que se limitava a oriente com o grande deserto da Arábia; ao norte com Moabe e Mar Morto; ao sul com o Golfo de Ácaba, pertencendo-lhe Eziom-Geber; e ao ocidente com o deserto de Sin, em cujas cercanias ficava Cades Barnéia, o grande oásis.

As cidades principais de Edom foram: Elate, Bozra, Eziom-Geber, Sela e Petra (1Rs.9:26; Gn.36:33; Dt.2:9 e 2Rs.14:17). Petra, cidade cavada na rocha, ainda hoje demonstra o seu esplendor e sua grandeza. Toda essa terra fora dada a Edom por Deus: “Não vos envolvais com eles, porque não vos darei da sua terra nem ainda a pisada da planta de um pé; porquanto a Esaú tenho dado o monte Seir por herança” (Dt.2:5).

Os edomitas foram hostis com os israelitas quando estes saíram da terra do Egito, não os permitindo passar por suas terras em direção a terra prometida – deixando-os passar somente mediante a paga de grande quantia de dinheiro (Nn. 20:14-21; Dt.2:28-29; Am.1:11). Também se aliaram com as nações cananeias para guerrear contra seus irmãos os israelitas, sendo que Saul combateu os edomitas (1Sm.14:47) e Davi os venceu no Vale de Sal (2Sm.8:13-14).

Contudo, sua maior atuação contra Judá foi ter se aliado a Nabucodonosor na destruição de Jerusalém, como relatam os profetas Isaías e Obadias.

A Babilônia, Israel e os edomitas

Nabucodonosor conquistou Jerusalém, levou os tesouros do templo salomônico, o incendiou e deportou a elite de Jerusalém para a Babilônia. Gaza, Amon e Moabe tiveram o mesmo destino.

Mas, ao contrário dos assírios, os babilônios não repovoaram a zona rural devastada com deportados provindos de outras regiões, e concentraram todos os deportados na região babilônica (idem, p.555).

O cativeiro babilônico e a questão da desertificação dos lugares conquistados se tornou um fator determinante para a vinda dos edomitas para a região arrasada de Israel.

Historicamente, depois que a Babilônia conquistou o reino de Judá, ela se voltou contra o Monte Seir e Petra, a capital do reino de Edom (cf. Obadias). E os desalojou de sua região, empurrando-os para a região da Judéia e da Filístia.

Os idumeus em Israel

No vazio político e demográfico criado, aconteceram deslocamentos de populações. Os edomitas mudaram de sua antiga sede (no leste da Arabah) para a região meridional do antigo reino de Judá (região de Hebron e Beersheva), que se transformou, em face disto, na clássica Idumeia.

Em toda a faixa situada ao leste do Jordão há uma penetração de populações de língua árabe, originadas de tribos de cameleiros, mas depois envolvidas em processos de sedentarização e de ocupação dos centros urbanos e caravaneiros, à medida que estes foram abandonados pelas populações anteriores (idem, p.556). Não só encontramos os edomitas em Israel, mas também na reconstrução dos muros de Jerusalém por Neemias encontramos amonitas e árabes habitando na Judéia (Ne.4:3; 6:1).

Avançando para o período dos macabeus (judeus). Os macabeus obtiveram vitória sobre os idumeus, em 164 a.C. (1 Macabeus 4:1-5; Josefo, Anti. 12:8,1). João Hircano (macabeu) ocupou o território inteiro em 120 a.C.. Nessa época, os macabeus impuseram o judaísmo como religião obrigatória aos idumeus (Josefo Anti. 13:9,1; 15:7,9).

Ainda, um pouco antes do fim do governo macabeu (em 37 a.C.), Herodes, o grande, proveniente da Idumeia, filho de Antipater (idumeu) e de mãe judia, torna-se o governante de todo o território de Israel com apoio de Roma. Após a destruição de Jerusalém, em 70 d.C., os povos que habitavam a Judéia (judeus, arameus, idumeus, árabes, etc.) ficam sem uma liderança local e passam a responder diretamente a Roma.

Renascimento do termo Palestina

Israel ficou sob dominação estrangeira até 1948: domínio romano (63 a.C.–313 d.C.), domínio bizantino (313–636 d.C.), domínio árabe (636–1099 d.C.), domínio dos cruzados (1099–1291 d.C.), domínio mameluco (1291–1516 d.C.), domínio otomano (1517–1917 d.C.), domínio britânico (1917–1948 d.C.). Isto levou a terra de Israel a ter uma mistura de povos, além dos judeus é claro.

O termo “Palestina” foi simplesmente uma designação genérica para a terra de Israel, criada pelo imperador romano Adriano (76-138 d.C.), que era um inimigo ferrenho do Deus de Abraão, Isaque e Jacó e dos judeus. No ano de 135 d.C. ele sufocou a revolta dos judeus sob a liderança de Bar-Kochba. Seu alvo era acabar definitivamente com a memória de Israel e de Jerusalém. Com essa intenção, ele mudou o nome de Jerusalém para “Aelia Capitolina”. À terra de Israel ele deu o nome de seus inimigos mais ferrenhos, os filisteus e passou a se chamar Síria Palestina.

Palestinos, os novos filisteus em Israel

O nome “palestinos” surgiu a partir de 1964, quando o Alto Comissariado da Palestina solicitou à Liga Árabe a fundação de uma Organização Para a Libertação da Palestina (OLP). O semanário egípcio El Mussawar escreveu a respeito: “A criação de uma nação palestina é o resultado de um planejamento progressivo, pois o mundo não admitiria uma guerra de cem milhões de árabes contra uma pequena nação israelense” (Israel oder Palästina?, Rudolf Pfisterer, Brockhaus, p.140).

Com toda a franqueza, Zuheir Mohsen, um dos mais importantes representantes da OLP, admitiu em 1977 o abuso praticado com o nome dos árabes que vivem na “Palestina”: “Não existe um povo palestino. A criação de um Estado palestino é um meio para a continuação de nossa luta contra Israel e em prol da unidade árabe… Mas na realidade não existe diferença entre jordanianos e palestinos, sírios e libaneses. Todos nós fazemos parte do povo árabe. Falamos da existência de uma identidade palestina unicamente por razões políticas e estratégicas, pois é do interesse nacional dos árabes contrapor a existência dos palestinos ao sionismo. Por razões táticas a Jordânia, que é um país com território definido, não pode reivindicar Haifa ou Yaffa. Mas, como palestino, eu posso exigir Haifa, Yaffa, Beersheva e Jerusalém. Entretanto, no momento em que nossa soberania sobre toda a Palestina estiver consolidada, não devemos retardar por nenhum momento a unificação dela com a Jordânia” (idem, p. 141).

A Margem Ocidental do Jordão e Gaza estavam sob domínio árabe de 1948 a 1967, ou seja, nas mãos de jordanianos e egípcios. Se naquela época houvesse uma “questão palestina”, como a conhecemos hoje, por que não lhes foi concedido um Estado quando essa região estava sob domínio árabe? Simplesmente porque os “palestinos” nunca foram reconhecidos como um povo autônomo, mas sempre foram considerados árabes jordanianos, sírios ou de outras nacionalidades!

Profecia de Isaías sobre Edom/Palestina

Quando olhamos para a atual situação da Palestina, percebemos que está envolvido muito mais que o território que no passado remoto fora habitado pelos filisteus, pois, hoje em dia, os atuais palestinos, além de habitarem a antiga Filístia (atual Faixa de Gaza), também habitam a região conhecida modernamente como Cisjordânia, havendo também árabes israelenses que vivem dentro do território de Israel.

A pergunta que surge é: haveria algum propósito na presença de povos antigos, que foram inimigos de Israel no passado, na terra de Israel, em oposição aos israelenses? Será que temos aqui uma repetição da presença dos cananeus e filisteus durante a conquista da terra, como um propósito divino – a fim de, como foi dito, treinar os israelitas na guerra, bem como prová-los na obediência aos mandamentos do Senhor (Jz.3:1-4)? E o que falar dos obstinados edomitas que sempre se opuseram contra Israel?

Vejamos o que a intrigante profecia de Isaías tem a nos dizer sobre estes questionamentos. Em Isaías 63:1-2 temos a profecia sobre Edom. Aqui lemos um poema em forma de diálogo. Se pergunta: “quem é este que vem de Edom, de Bozra?”, de quem se diz: “é glorioso em sua vestidura (…) marcha com grande força (…) que fala em justiça e é poderoso para salvar”. Com estas palavras, podemos entender que não se trata de outro se não o Senhor, o Deus de Israel. Edom diz respeito ao reino vizinho de Israel e Bozra era a capital do reino, situada a 30 km a sudeste do Mar Morto (Is.34:6). No segundo versículo temos a seguinte pergunta: “Por que está vermelha a tua vestidura?”

Nos versículos 3-6 temos a resposta à pergunta do profeta nos dois primeiros versículos. Edom tipifica o mundo rebelde, implacavelmente hostil para com o povo de Deus (Amós 1:11), bem como o último inimigo a ser vencido pelo Messias.

O juízo sobre Edom faz parte da vingança divina sobre as nações que ao longo dos séculos se levantaram injustamente contra Israel. A resposta: “Eu sozinho pisei no lagar (…) e os pisei na minha ira e os esmaguei no meu furor” (v.3) (aqui a cena é a mesma de Apocalipse 14:18,19 onde os inimigos do Deus de Israel são lançados no “lagar da ira de Deus”); “e o seu sangue salpicou as minhas vestes” (provável referência ao sangue daqueles que foram mortos na batalha do Armagedom, vencidos pelo Messias guerreiro (Ap.19:13)); “Porque o dia da vingança estava no meu coração (…) E pisei os povos na minha ira” (v.3) (continuação da descrição do texto de Ap.19:14-15).

Já no versículo 4, temos que  “o dia da vingança” contra os inimigos de Deus será, ao mesmo tempo, “o ano” da redenção de Israel. A expressão “o meu braço” (v.5), como em Isaías 59:16, indica a interferência pessoal de Deus na arena da história.

A expressão “e os embriaguei no meu furor”, remete à ideia de que o vinho muitas vezes aparece, no Apocalipse, associado à ira de Deus (Ap. 14:10,19; 16:19; 19:15). E, por fim, a derrubada dos povos por terra (v.6), aponta para o triunfo final como encontramos em Apocalipse 19:15a: “e da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com vara de ferro”.

Pastor Batista, Diretor dos Amigos de Sião, Mestre em Letras - Estudos Judaicos (USP).

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